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sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Deus


Nenhum mar me pertence
Da água saciedades
Nada mais recolho
Do pavimento
Da rua
Às praias
Dos olhos
Nenhuma estrela
Circum-navega
A cidade
Flutuante memória
Tocada pelos ventos
Esta calma
Tem a largura da claridade
Que eu sequer soube
Pedir
A Deus
Verdade seja
A árvore
Não me pertence
O não pertencer também é
Verdade
Que cresce e o ar agita
Pelo menos um pouco
Do que parece
É
Um pouco do que desejamos
Que fosse
Acontece.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Amor todos os dias




Ao sopro do mar
Soltas os cabelos
Ao sol
O teu sorriso
Sem vergonha
O vento
(Ou os meus dedos)
Solta o laço
Das tuas qualidades
Mais não faço
Que procurar
Uma justificação
Para a vida.


segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Do céu à terra


Eu olho
Da terra para o céu
Não do céu para a terra
De mim para tudo
Nada me encerra
E não levo
O mundo
Ele é que me leva
E é
No mundo que escrevo
E me encontro contigo
Que faço o que devo
Que calo
Que digo
Não imaginas
Como te sinto
Ausente
A falta que fazes
De manhã à noite
Como se os versos
Não fossem remédio
E nesta cidade
Não houvesse gente.


sábado, 29 de janeiro de 2011

O meu amor por ti



O meu amor por ti
Não é de perguntas
E de respostas
Não é estado
Nem condição
Triunfo  
De coisa nenhuma
Canção
Por ti
Meu amor
Incrível flor
Sem terra
Que se abre
Débil
Esperança no deserto
Mais que o eco
Sobrevive  
A certezas
Costumadas
Às palavras
Ao vento
À canção
Que mais ninguém ouve.


terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Mas o tempo passou

Desta vez lembrei-me do cavalo
De um tempo que não passava
Isso sim era tempo
Eu não temia
Aventurava
E cada noite
E cada dia
Mais gostava
Do meu cavalo
Que pedi aos saltimbancos
E mo deram
Ou sem que eu saiba
Mo compraram
Na feira mais bonita
E mais saudosa
Em que estiveram
As pessoas menos sorumbáticas
Da história
O tempo passou
E o meu cavalo
Não gostou
E morreu.

.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Beijos que te quero dar


Os teus olhos são o riacho emboscado
Onde hortelãs selvagens proliferam
O Verão feliz que não voltei a ter
Os reflexos que me deram
A imagem do que quero ser

Esta cidade não é
O chão luxurioso
De açafrões e margaridas
À espera do vento
Para se polinizarem
Mas a noite é
Desse tempo
De luar e água
Se casarem

Sofri
Mas valeu a pena
Pelos desejos imensos
Que aprendi
A não saciar
Pelos beijos
Que te quero dar.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Enquanto namoras



Enquanto namoras
Eu vou a liderar uma prova de canoagem
Que ainda está no princípio
E ignoro os que aplaudem
Na marginal
Mais imponente
Vista de uma canoa
No meio de um rio
Largo
A cidade
Levada para longe
Pela corrente
Que agora me favorece
Só no fim
Se verá

Enquanto estavas em algum lado
Ou a pintar o cabelo
Ou a dançar
Eu ia com a minha tia doente
À urgência do hospital
Psiquiátrico

Liguei-te para dizer que a noite é longa
E tu acordaste de um sonho
Amanhã é que é o futuro
Mas o presente
Não é de toda a gente.


domingo, 16 de janeiro de 2011

Sentimentos


A velha catedral não tem culpa
De imponência calada
Padece tudo
Sem dor nem queixa
Nada
Lhe faz mossa
Nos degraus da entrada
Uma miúda triste
Descansa ou morta
Dorme ou morre
Tatuada
Sem que ninguém
Se interrogue
Sobre os segredos
Ou que sonhos
Guarda.

Bendigo-te

                                                                                                 
Em nossos cios
O abismo
Dos nossos rios
O sol
Dos dedos
O limiar
Perfeito
Um desejo
Sem leito.

                                                                                                                       

domingo, 9 de janeiro de 2011

Salvo erro

                                                                                                                                                                      Não
Não está tudo errado
Salvo erro
Só o homem erra
Não há erro no céu
Nem na terra
No mar
No cão que ferra
A dor
O princípio e o fim
A eternidade
Nenhum erro encerra
E o prazer
Também não
Nem a tristeza
Nem a alegria
Que erro pode haver na noite
E no dia
Na vida
E na morte?                                                                                                                                                                               

sábado, 1 de janeiro de 2011

Em chamas imensas



De um fundo nocturno
Mas iluminado
Flamejam pontos
De luz
Muito distante
É tudo tão suave
E encantado
E o fogo das estrelas
Tão calmante
Que
o mar 
 Nem por um instante
Parece que não é
Gigante
A minha rua estreita
Não termina
Aqui
Na praceta
Sobre duas palmeiras
Inclinadas
Em


Chamas imensas
Drapejam ao vento
Como pavilhões em tiras
De navio encalhado

Nas mentiras.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Mas do que gosto mais




Gosto de estar com a gente
De jogar e de viver
Simplesmente
Respirar
Andar pelo campo
E pela cidade
Gosto da alegria
E gosto de cantar
De recordar
Da volúpia de imaginar
E compreender
A tristeza
Do que já não existe
Da miragem
Do futuro
Mas não gosto de pensar
Que tudo
É triste
Até a liberdade
Em certos momentos
Não serve para nada
Talvez seja uma ilusão
A tristeza
Um erro
Mas do que gosto mais
É da ficção
Do meu desterro
O sofrimento de imaginar
Tantos sentidos agrilhoados
Por alguma razão
E ter como prémio
A solidão.



sábado, 18 de dezembro de 2010

Uma voz que me chama

Uma voz que se ergue
Na noite cerrada
Mais doce e mais leve
Que um grama de nada
E tão bem a ouço
À voz amada
Tão bem encanta
A madrugada
Tão bem se estende
Para o dia
Mais sede e mais fome
Que a alegria
Chama
Sabe o meu nome
Arde
E não está queimada
Mais cedo e mais tarde
Que o tempo
Cresce
E não foi plantada.
                                                                                                                                                                               

terça-feira, 30 de novembro de 2010

As coisas excedem a vida

 
As coisas excedem a vida
Por onde vou
Pela cidade desde sempre prometida
Eu passo
A vida excede as coisas
E o meu passo
Não basta à vida
Tudo o que faço
A vida excede largamente
O que não faço.



terça-feira, 23 de novembro de 2010

Os aniversários das estrelas


Quando pelas noites de verão
Sem iguais
Caminhava olhando para o firmamento
Ouvia no escuro dos matagais
Silêncios entrecortados
Pelo meu pensamento
Criança como era
Porém sem medo
Fantasiava o céu
Sentia já a aurora
Na aragem que agitava o arvoredo
Nenhum espectáculo a esse
Se compara
Digam o que disserem
Coisa rara
As estrelas sabiam
Que eu não tinha idade.

sábado, 20 de novembro de 2010

Herói de mim




Viagem de imaginar
A vida
Do estreito recomeço
Ao cabo esqueço
Em_____barco  
Nave despojada
Em qualquer sítio
O mar
Se for embora
Os piratas também
Espectro das descobertas
Descobrir o além
Do fim
E ser herói
De mim.



sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Lembrança de ti

Do meu coração
Palavras vivas

Canção às janelas
Flor dos olhos

Vi ruir
Sob o peso do último sonho
Ou da lembrança de ti

O entendimento perdido
Da nossa história feliz

Suaviza o fel
Do tempo a fluir.


sábado, 13 de novembro de 2010

Momento único



As aves chegaram
Em bandos
Ou é o mar
Alçando voo
Sobre as iras 
A eternidade
Não espera
Não sonha
Nem se vai embora
 Não esquece
Quem não tem memória
Esquecer é humano
É história
Um piano fechado
Pode ser
Um desejo atroz
De transformar
O silêncio
Num momento único. 



segunda-feira, 8 de novembro de 2010

De ancestral



Hoje as vinhas pareceram maiores
O sol mais lento
O céu mais azul e mais perto
E o vento
Para me entristecer
Cheirava a deserto

As folhas secas
Sem piedade
Voavam
Tordos escondidos
Detrás da cortina da tarde
Espiavam
E piavam
Pios de saudade

Hoje tudo era meu
Como era minha
A tristeza
De ir só
E o rio
Se mais não era
Parecia um lago
Lá ao fundo
 À minha espera
No outro mundo.


sábado, 6 de novembro de 2010

Idade média

A idade e o tempo deitam-se na mesma água
E acordam longe de tudo o que faz o encanto
De dois rios que se atravessam
Seguindo em direcções diferentes
A caminho do mesmo espanto
Cada vez mais distantes
As idades iniciais
Médias
Finais
São tão diferentes disso
Que as acho iguais.


segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Este morto



Os milénios os séculos as décadas
Os anos os meses os dias as horas
São tão dignos de atenção
Que não temos vida para compreender
O tempo que vivemos
Este morto
Já não vive
Já não lhe digo tu
Não deixes que te matem
O sol e o mar ao largo
Vemos
Deste cemitério
De uma das mais de cem
Cidades
Sempre nos perdemos
Como perde quem
É a ponte mas não sabe
Entre eras e idades
Este morto
Não fala
Fria fronte
Face desentendida
Já não lhe dizem tu
O destino
A nós se reserva.


sexta-feira, 29 de outubro de 2010

O silêncio debaixo da touca



À porta do palácio
Já todos foram
No amplo redor
Estremece
Não ter alma
Passado
O tumulto
A paz
Jorros de verão
De água
Eva e o paraíso.