A democracia, mais do que um regime político, é uma forma de pensar e de exercer o poder. Pensar democraticamente significa reconhecer que nenhum indivíduo, grupo
ou instituição tem o exclusivo da verdade, que ninguém deve governar sozinho e que o poder só é legítimo quando se limita a si próprio em representação da vontade
de maiorias. A democracia é, antes de tudo, uma ética dos limites. O poder de todos e o poder de cada um coexistem porque nenhum deles pode absorver o outro.
As culturas autoritárias partem da premissa contrária. Para elas, a realidade deve ajustar-se à vontade, e não a vontade à realidade. A verdade torna-se
maleável, a ordem é apresentada como produto da força, e a autoridade é tanto mais legítima quanto mais se impõe. A democracia, pelo contrário, parte da resistência do
real, factual, verificável, comum, e exige que o poder se submeta a essa resistência. A verdade não se vota, apenas se decide o que fazer com ela.
Uma das derivas mais inquietantes do nosso tempo é a tendência para confundir democracia com voluntarismo. A ideia de que, factos, ciência, história ou princípios,
são aquilo que a maioria quiser e podem ser moldados pela opinião ou pela maioria, é uma confusão que abre espaço a negacionismos, revisionismos e manipulações que transformam
a vontade em critério de verdade. Quando a verdade se torna uma escolha, a política transforma-se numa disputa de desejos, não numa deliberação sobre a realidade. E quando a realidade é
tratada como opinião, a democracia perde o seu fundamento.
A retórica da força agrava esta erosão. Em vários contextos, quem exerce poder fala como se estivesse na oposição, dramatizando a desordem,
descredibilizando instituições e apresentando a autoridade como única solução. Esta estratégia desloca a legitimidade do plano institucional para o plano da vontade. A política
fica, assim, reduzida a um antagonismo entre quem manda e quem é mandado.
Mas a democracia não é o regime onde uns mandam e outros obedecem, é o regime onde todos limitam todos. E nem todos aceitam que assim seja, por variadas razões,
desde logo, porque há quem não aceite limites à liberdade, mormente, se esses limites provierem de pessoas, ou entidades, que eles desvalorizam ou desprezam, por não lhes reconhecerem o direito
que lhes foi outorgado pelos sistema jurídico-político, de “mandar” neles.
O Estado, numa cultura democrática, não é propriedade de ninguém. Não pertence a um partido, a uma facção, a uma entidade ou a uma vontade.
É um espaço comum, composto por instituições que existem para impedir que qualquer poder se torne arbitrário e absoluto. Quando alguém afirma representar sozinho o povo, ter o exclusivo
da verdade, ou garantir sozinho a ordem, aproxima-se de uma lógica autocrática, mesmo que o faça por via de mecanismos democráticos. A captura simbólica do Estado começa sempre pela
exclusão dos outros da deliberação.
A forma como as pessoas imaginam o poder político não nasce apenas da teoria, nasce também da experiência quotidiana da autoridade. Os estilos de liderança,
democrática, liberal ou autoritária, moldam mentalidades que depois se projetam na esfera pública. A liderança democrática, que ausculta, integra e partilha responsabilidade, forma cidadãos
que valorizam a deliberação, a pluralidade e a corresponsabilidade. A liderança liberal, que delega autonomia e exige responsabilidade, forma cidadãos que desejam liberdade, mas não abandono,
e que valorizam competência e limites claros. A liderança autoritária, que centraliza decisões e reduz a participação, forma cidadãos habituados a obedecer, a evitar risco e
a preferir que outros decidam por eles. A cultura organizacional transforma-se, assim, em cultura política.
Responder à retórica da força não significa imitá-la. A democracia não se defende com mais gritos, mais dramatização ou mais antagonismo.
Defende-se restaurando o terreno da legitimidade institucional, exigindo transparência, responsabilidade, fundamentação e respeito pelos limites. As oposições não devem replicar a lógica
do “quero, posso e mando”; devem expor a impotência da arbitrariedade, quando confrontada com regras, escrutínio e realidade. A força simbólica da democracia está profundamente
ligada à recusa de transformar a política num duelo de vontades.
A democracia exige três responsabilidades fundamentais: a factual, a institucional e a moral. Responsabilidade factual é reconhecer a realidade como ela é, e não
como se deseja que seja. Responsabilidade institucional é aceitar que o poder só é legítimo quando se submete a limites. Responsabilidade moral é assumir as consequências das escolhas,
sem atirar automaticamente a culpa para a maioria, para o líder ou para o sistema.
Culturas autoritárias rejeitam estas três responsabilidades, mas as culturas democráticas vivem delas.
A liberdade conquistada pode ser celebrada, mas a liberdade por cumprir exige vigilância, crítica, coragem e pluralidade. A democracia não é um estado alcançado,
mas um trabalho permanente. Pensar o poder de todos e o poder de cada um é compreender que a autoridade democrática não nasce da força, mas da limitação da força; não
nasce da unanimidade, mas da pluralidade; não nasce da vontade, mas da responsabilidade. É este equilíbrio frágil, exigente, mas fecundo, que distingue uma cultura democrática de uma cultura
de “quero, posso e mando”.
Carlos Ricardo Soares