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quinta-feira, 19 de março de 2026

Poder, mitologias, conhecimento e sabedoria


As minhas excursões mais marcantes e que contribuíram para reforçar as minhas (des)crenças de origem judaico-cristã, foram incursões pela antiguidade egípcia e grega, cujo contacto direto com a arqueologia avivou os meus sentidos e o meu sentido acerca das mitologias fundadoras das culturas e, especialmente, das línguas.
Desenvolvi a percepção de que as crenças religiosas, desde as mais pagãs às mais monoteístas, só ganham verdadeira dimensão simbólica e significativa a partir do momento em que passamos a vê-las e a entendê-las como aquilo que elas realmente são, sistemas simbólicos mitológicos, por vezes metáforas poderosas ou alegorias de forças e de valores e de representações mentais de natureza abstrata ou imaterial.
É quando pensamos nas divindades do Olimpo e nas figuras mitológicas em geral, egípcias e gregas, Apolo, Dioniso, nas Musas, Héracles, Sísifo, como mitos simbólicos e não como crentes, que elas adquirem verdadeiro e poderoso significado. E isto aplica-se também às mitologias e sistemas simbólicos das religiões judaico-cristãs.
Digamos que um crente que toma essas mitologias à letra, ou à letra da fé, toma a letra por aquilo que não é e fica impedido de ver aquilo que a letra significa.
É certo que a fé tem as suas mais valias, as suas vantagens, que não são despiciendas, relativamente às abordagens realistas não religiosas. Nada substitui os efeitos de uma fé que apenas ao crente podem aproveitar. E não há como ficcionar um deus e uma eternidade e um paraíso que fazem falta.
Mas, até nesses domínios, o modo de proceder humano é invariável na busca de deuses mais fortes, de mitologias mais fortes, de metáforas mais poderosas, de alegorias mais convincentes. Tudo se decide pela força, mesmo que esta envergue vestes celestiais. E não estou a referir-me à força dos argumentos.
Ainda assim, foi quando a abordagem das mitologias se fez a partir, não da crença nessas mitologias e da respetiva religião, mas a partir da simbologia e do significado, nomeadamente metafórico, que a filosofia surgiu, com Sócrates em alto relevo, e as primícias do conhecimento como metacognição em pano de fundo.
Enquanto não formos capazes de substituir o imenso “capital” de fé, perdida, por outro “capital” de conhecimento que nos salve, vamos andar a perpetuar religiões, com e sem deuses, que nos mobilizarão contra os deuses dos outros, sempre que isso seja necessário, porque não há sabedoria que nos confira resiliência e insensibilidade quanto baste.

           Carlos Ricardo Soares