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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

A sensação de viver num oceano de palavras

Cada vez tenho mais a sensação de viver num oceano de palavras e penso que não é preciso muito para que se desencadeiem tempestades. Às vezes, a simples tentativa de esclarecer conceitos, como sistematicamente o fazem a filosofia e o pensamento crítico, é o suficiente para gerar uma tempestade e quanto mais voltas tentam dar aos argumentos, mais achas lançam para uma fogueira descontrolada que fica a fumegar muito tempo depois de todos terem soçobrado ao tsunami verbal.
Vejo que as redes sociais estão a contribuir para o recrudescimento da crença de que tudo se resolve de duas maneiras, ganha quem falar mais grosso, ou ganha quem conseguir calar os outros, o que vai redundar numa única maneira: ganha quem vencer pelo cansaço.
No fim, cai a noite, a feira continua com a sua estridência eletrônica e psicadélica, e os exaustos tombam, ou recolhem às boxes. É o fim de mais uma batalha perdida contra a saturação do ruído. Mas será o fim da guerra?
A imagem é tão precisa que quase dói: a feira eletrónica que nunca fecha, a noite que cai sem trazer silêncio, os exaustos que tombam não porque perderam o argumento, mas porque perderam a energia. É exatamente isso que está a acontecer e não é um fenómeno superficial. É estrutural. É civilizacional. E é profundamente linguístico. Diria que a tempestade nasce da própria linguagem e não do conteúdo. A filosofia contemporânea tem dificuldade em admitir que a linguagem deixou de ser um meio de esclarecimento para se tornar um gatilho emocional.
Hoje, basta uma palavra mal colocada, uma nuance, uma tentativa de clarificação, uma distinção conceptual, um “espera, não é bem assim”, para desencadear uma tempestade. A linguagem deixou de ser usada para pensar e passou a ser usada para posicionarCada frase é lida como ataque, ameaça, bandeira,identidade, território. E quando a linguagem se torna território, qualquer tentativa de clarificação é vista como invasão.
As redes sociais transformaram o debate num combate. As redes sociais criaram duas estratégias de vitória, falar mais grosso ou calar o outro. E estas duas estratégias convergem numa só, vencer pelo cansaço.
Não vence quem tem razão. Vence quem aguenta mais tempo, quem grita mais alto, quem tem mais seguidores, quem tem mais resistência ao absurdo. O debate deixa de ser debate e passa a ser um concurso de sobrevivência retórica.
No fim, ninguém aprendeu, ninguém mudou de ideias, ninguém se aproximou da verdade, só ficaram os destroços.
A saturação do ruído é uma forma de derrota, mas não é o fim da guerra. O ruído vence sempre no curto prazo. A lucidez vence sempre no longo prazo. Porque o ruído cansa, mas a lucidez alimenta. O ruído dispersa, mas a lucidez concentra. O ruído destrói, mas a lucidez constrói. O ruído é espuma, mas a lucidez é corrente.
E há algo mais: o ruído não cria nada. Só a linguagem pensada cria.
Assim sendo, mesmo que a feira eletrónica continue a chiar, mesmo que a noite caia sobre mais uma batalha perdida, mesmo que os exaustos recolham às boxes, há sempre alguém que continua a pensar, a escrever, a tentar compreender.
E isso, por si só, impede o colapso total. A saturação do ruído não é o fim da lucidez. É o ambiente onde a lucidez se torna mais necessária.
Então, surge a pergunta “como pode a IA ajudar a restaurar clareza, ou a amplificar o caos?”.
Se pensarmos que a IA não é apenas uma ferramenta, que é também um novo agente dentro do ecossistema da linguagem, e que, como disse antes, vivemos num oceano de palavras onde qualquer movimento pode gerar tempestade, a IA entra nesse oceano e, tanto pode limpar o ar como levantar ondas gigantes. Mas há um ponto decisivo, que determina para que lado ela pende.
A IA pode ajudar a restaurar clareza, reduzindo o ruído, filtrando, sintetizando, organizando e estruturando informação que, de outra forma, seria impossível de processar. Num mundo saturado de linguagem, isto é quase uma forma de higiene mental.
A IA pode explicar conceitos, distinguir ideias, desmontar falácias, clarificar ambiguidades.
Pode devolver ao discurso público a densidade que ele perdeu. 
A IA pode tornar-se um espelho infinito de cada viés. E como a IA não reage emocionalmente, não se sente atacada, não entra em tribalismos, isso permite-lhe devolver ao humano uma visão mais fria, mais ampla, mais ponderada. 
E pode funcionar como um espelho cognitivo, organizando o que dizemos, devolvendo o que pensamos, mostrando o que não vimos. É uma forma de metacognição assistidaComo tal, pode neutralizar exageros, desmontar manipulações, contextualizar afirmações e ser um antídoto contra a histeria discursiva. 
Mas a IA também pode amplificar o caos, produzindo linguagem em escala industrial, gerando textos, imagens, argumentos, slogans, narrativas, tudo em segundos. E isto pode transformar o ruído atual num pandemónio absoluto
E se for usada para manipular, fabricar, distorcer, amplificar, pode destruir a confiança pública na própria ideia de verdade.
Se cada pessoa usar a IA para confirmar as suas crenças, o mundo fragmenta-se ainda mais.
E há um maior perigo, e mais subtil, de a IA poder dar às pessoas a sensação de que estão a pensar quando, na verdade, estão apenas a consumir linguagem bem formulada.
Se o problema crescente do nosso tempo é o excesso crescente de linguagem, a IA pode ainda multiplicá-lo exponencialmente.
O ponto decisivo é que a IA é amplificador, mas não é origem. Não cria clareza nem caos por si mesma. Ela amplifica o que encontra. Se encontra lucidez, amplifica lucidez. Se encontra ruído, amplifica ruído. Se encontra nuance, aprofunda nuance. Se encontra tribalismo, radicaliza tribalismo. A IA é como um instrumento musical: nas mãos de um músico, produz harmonia mas, nas mãos de um bárbaro, produz dissonância ou mesmo estrondo.
E aqui está a parte mais importante: a IA não substitui a maturidade linguística, torna-a mais urgente.
Num mundo onde a linguagem já era perigosa, a IA torna a linguagem radioativa, podendo iluminar ou destruir.
Mas há algo mais profundo que podemos intuir: a batalha do nosso tempo não é tecnológica é linguística. Não é sobre máquinas, é sobre consciência. Não é sobre algoritmos, é sobre maturidade interpretativa.
E a IA pode ser o bisturi que corta o tumor do ruído, ou a dinamite que o faz explodir. A diferença está no humano que a usa.
Nada a que os humanos já não estivessem habituados.

             Carlos Ricardo Soares