sexta-feira, 18 de julho de 2014

Ninguém sabe morrer


Os velhos e velhinhas
a gente sem abrigo
que pede
pelas alminhas
vive
como castigo 
e

dos colos carregados
das lantejoulas
dos cenhos carregados
das angústias
dos peões
da soberba pachorra
de esperar
remédio
da virtude paciência
e

há sempre
muito ruído
muito brilho
muita cor
ladrões
à paisana
e polícias
nas esquinas
prostituição
a disputar a sensualidade
que há em tudo
e

a despesa de viver
o pecado
fechar os olhos
para ignorar
a bomba
que vai explodir
e

tanto filho da mãe
que anda a fugir
sem descanso
que não suporta a luz
nem a própria sombra
tanta faca
escondida
 e

deve haver
além de mulheres algures
ilícitas de tão carnais
amores imperfeitos
de tão legais
e

o livro da história
que não cessa
nem há tempo para ler
até numa biblioteca 
ninguém sabe morrer.