quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

É preciso entoar


Preciso escrever que
Nem era preciso escrever
Porque nada existe
Que não tenha voz 
Pelo menos
Que não diz
Que não seja gesto
Pelo menos
Que não seja nariz
Pelo menos
Que não seja sombra 
Pelo menos
Que não seja raiz que
Dizemos
Ou simplesmente
Sabemos que 
Não sabemos
Ou apenas ignoramos
A origem
Que não seja força
Pelo menos
Que não seja morte
Entoação
Nem que seja 
Ao vento
Caravela de letras
Entoada
Ao mar da sorte
Uma canção
Ao destino
Pode ser
Um cântico
Pode erguer 
O peso de partir
À leveza de chegar.

sábado, 9 de dezembro de 2017

Alma de sem abrigo


Este silêncio
se ouve
na asa partida
do vento
a arrancar penas
à vida
pelas ruas da amargura
alma sem guarida
nem pelos sagrados sinais
o eterno
sela as portas do inferno
e abre as celestiais.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Templo de sombras


Busco as sombras porque a luz fere
para ver mas nem tanto
e para não morrer
por enquanto
descubro com prazer
alguns horizontes de toupeira
nesta galeria labiríntica
da maçã.


quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Assim fala o vulcão


No dia em que as moscas e as ervas
e os grãos de pó
bailavam ao sol da tarde
opinando e dando ordens entre si
como grandes senhores de tempos remotos
que sem esforço nem talento
gerem a seu bel prazer
o que julgam ser
mas não é
sentiu-se um abalo
quando o vulcão se queixou
tenho de me sacrificar
porque já não aguento mais
para vós é fácil
flores passarinhos gasosas améns
mas eu não vou em procissões
para chegar onde está o verme
não sabem nem imaginam
a força e o esforço
que tenho de fazer
a rosa e o jasmim tão delicados
quase nem acordam
e ao vento dizem sempre sim
mas eu não tenho aliados
estão todos aliados
contra mim
mas agora que pus a cabeça de fora
vão ter de me ouvir
até ao fim
desprezo-vos
e
ao deus que explorais
vis animais.

domingo, 20 de agosto de 2017

O Poeta e a Pena


O poeta não se acobarda
por mais que lhe arda
hoje
diante dos incendiários
não foge
nem esconde
da guerra
da verdade
o amor à terra
o poeta tem numa mão
a espada
com que responde
e na outra a pena.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

As verdades e a verdade


Sabemos quais são as verdades que contam
as dores e as alegrias de que é feita a vida
e é por elas que nos sujeitamos na esperança
sempre traída
de nos deixarem viver de verdade
de não precisarem de nós
para levarem de vencida
a maldade
sabemos que não nos deixam em liberdade
nem depois de aprendermos a obedecer
convenientemente
porque há um preço para a vida
e para as verdades da vida que contam
as dores e as alegrias de que é feita a vida
e é por elas que nos sujeitamos na esperança
sempre traída
que nos desvanece o sonho
as verdades não chegam para viver de verdade
não nos roubem a verdade
enquanto nos iludem com verdades.

domingo, 11 de junho de 2017

Grandiosas falácias

Arrebatado por uma mística de
sábios e artistas
cansei dos prosaísmos
da ordem unida

até as coisas chãs
me pareciam interessantes
ao partir
de improviso
para a cidade dos estudantes
acreditando habitá-la
como um refúgio
do meu aborrecimento
foi breve
o tempo
de viver um sonho
que era interminável

e deparei com monumentalidades
e sistemas sacerdotais
de corifeus paternalistas
de braços abertos a seguidistas
canonistas catequistas
oportunistas
e outros que tais

porém apreciei mais
do imaginário enredo
o cavaleiro que eu era
sem cavalo e sem medo
nem credenciais
convivendo com a fera
dos sagrados sinais

e andava eu nem sei
como não esmagado
pela brutal teia de problemas
e batalhas
que invoquei D. Quixote
e logo vi em debandada
nuvens e nuvens de ameaças

tornando-se claro o céu
melhor se vê que a terra
é um perigo para quem vive
de grandiosas falácias.


sábado, 1 de abril de 2017

Nada mais que o mundo

É pouco nada mais que o mundo
é pouco
um pouco mais que o mundo não chega
para quem quer mais
o mundo é pouco
o mundo é louco
de mais


é pouco
preciso mais.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Dei-me ao cuidado



Toda a vida em redor me inspira
cuidados
nenhum de nós tem a cabeça
completamente fora

(ainda que ignore
da própria larva
a lavra
e a dor)

da água que nos afoga
do lugar

no sono
a tormenta de muitos
parece inextrincável
a salvação
o que vive
com ou sem memória
do que fica
depositado no campo

dei-me ao cuidado

expressão triste
mas verdadeira
a vida existe

não tem outra maneira.


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Uma desgraça com seu encanto


Não há poema
que te mereça
nem a luz que fica
depois
as palavras
são tudo o que resta
uma desgraça
com seu encanto.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

A poesia do vento

O mar ergue-se
sobre o horizonte abandonado
na escuridão
pela memória da luz
à porta do castelo de vento
as sombras perguntam
numa língua inconcebível
de que serve escrever
nas velas.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Rios tortos


Todas as árvores fixaram o meu olhar
e fizeram-me sentir
deixaram-me a chorar

O brilho do estio
naufraga a ave
de pio fatigado
descarnado
de um cadáver adiado
em pedaços
os meus pensamentos
sem leveza 
para chegar ao céu
acercam-se da terra
que os alimenta
de rios mortos.


Carlos Ricardo Soares 08.02.2017

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Saudade

Minha tristeza
ter vivido
como sonharia
sem poder
vencer
o futuro
desconhecido
do que 
havia
nunca o imaginado 
tempo 
parasse
a recuperar o perdido.

domingo, 15 de janeiro de 2017

Algum modo ou forma de verdade


Se eu fosse demolidor diria
felizes os que têm prazer de ler o que escrevo
porque são justos e belos
e sãos e santos
e inteligentes e sensatos
e quase perfeitos
mais do que eu
mas escrevo sem recriminações
não como um juiz
nem como um réu
escrevo como um ignorante
que aspira à sabedoria
como um cego
que aspira à visão
como um forte
que não tolera a força
mais do que um fraco
que não se resigna a qualquer sujeição
escrevo como um crente
a esperança e o amor
a racionalidade e a poesia
a expressão de algum modo ou forma
de verdade.

sábado, 7 de janeiro de 2017

O que nasce sem ser semeado

                      
Para haverdes sonhado
o que esperais
sem ser semeado
o dia 
dessanguentado
pelas mãos 
da noite deâmbula
vos será dado
bálsamo
da melhor oração 
quando houverdes o alecrim
dourado
não será pelo vento 
mutilado.