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quinta-feira, 14 de outubro de 2021

O colapso


Se estamos

À beira do colapso

Não o vemos

É como deus

Ninguém pode ver o colapso

Se alguém o visse morreria primeiro.


terça-feira, 5 de outubro de 2021

Linguagens e música


As linguagens são uma maquinaria prodigiosa            

com milhões de anos

que esventra moléculas com a mesma apetência

com que chega às estrelas na ponta de um tubo

e saem de realejos avariados                                                                                               

em músicas que ninguém aprende a tocar

senão mais tarde

quando alguém reparar                                                                     

que nada tem conserto

e der um concerto

que nós ouvimos de modo incipiente

sonâmbulos delas

nas mãos delas

possuídos por elas

ébrios delas

loucos que pensam que as têm na mão

e que as fazem aliadas

mas não.


sábado, 25 de setembro de 2021

Eu e Euclides


Eu e Euclides não vivemos no mesmo mundo

Podemos estar no mesmo planeta

Na mesma sala

À mesma mesa

Euclides vive num mundo

Que foi criado com subtileza

E livro de instruções

E acha que o único trabalho digno

É aprender a seguir as instruções

Por isso quando morrer vai para o céu

Ou para o inferno ou para o purgatório

E diz que eu não tenho escolha

Por ter nascido no mundo impossível

Que não foi criado

E quando se nasce num mundo impossível

Não se vive nem se morre

Eu

já lhe disse que não sei nada do mundo dele

E fico espantado como ele sabe tanto do meu

Apesar de ser um mundo impossível

Euclides diz que vive no melhor dos mundos

Eu

Compreendo melhor o problema

De vivermos em mundos diferentes

Eu

Crio espaço

Euclides cria o número

Eu

Crio ambiente

Euclides não quer saber

Fala convictamente

E chega a embaraçar

Ostentando a chave

De porta inexistente

O meu mundo é construir liberdade

O dele estala agoiro

A partir de linhas imaginárias

Sobe aos pináculos

Da comoção

Mas onde estou

Só alcanço saber quem ousou

Ser mais do que devia ser

E o pôde fazer

Euclides cedo aprendeu a fazer

O que quer

Mas ninguém ainda lhe ensinou

A cumprir o seu dever

E se me olha para dizer que

Eu

Faça o que fizer

Não faz sentido

Euclides não é amigo.


sexta-feira, 17 de setembro de 2021

Liberdade de expressão - Igualdade - Liberdade

O facebook pode ser um instrumento de influência e de condicionamento de opinião e, só por isso, já requer vigilância por parte de todos nós.

A liberdade de expressão é da máxima importância e poucos se dispõem a bater-se por ela, como se ela fosse negligenciável, em troca de um sorriso, de uma palmadinha nas costas ou de uma esferográfica com o logótipo do chefe.

Quando se negligencia a liberdade de expressão, ou melhor, quando um de nós, seja em que situação for, perante o papa ou o rei, se sente impedido, constrangido, abafado, com receio de ser banido do círculo e lançado às feras, está na hora de pensar que a liberdade de expressão é só para alguns.

Mas o verdadeiro problema da falta de liberdade de expressão, que é uma dura realidade, mesmo nas democracias mais evoluídas, é que ela é o sintoma mais chocante da falta de liberdade e da negação da igualdade.

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Ainda não chegamos


Naquela manhã o nosso objectivo era simples

montar nos cavalos

e numa hora

chegar ao ponto donde se avistava o castelo

depois cada um procuraria o melhor caminho

mas nunca atravessando o rio

Estávamos habituados a cavalgar a planície

e pernoitamos sob a via láctea

hipnotizados pelo concerto arrebatador

da fauna noctívaga

e pelo aroma inesquecível da pradaria

até os cavalos sonharam

que tinham asas

Para evitar o sol escaldante

ainda as estrelas brilhavam

arreamos as dóceis montadas

e sonolentos partimos

mas ainda não chegamos.


quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Perder de vista


Ao perderes de vista
O rio
Não inventes destinos
Nem sonhes origens
Que todos desconhecem
E não te apoquente a certeza
Mais do que a incerteza
Que te entristece
Existe o mar
E o socorro a náufragos
E sempre hás-de estar
Aonde chegarem as esperanças
Que a vida nunca é menos do que isso
Nunca é menos do que tudo
O que vem nos livros
Até a leitura de um poema que seja
Ultrapassa os limites da poesia
Que cai da borda da água
Porque o oceano não tem grades
E um barco não sobe escadas
Para o infinito
Não inventes o que não presta
Nem sonhes que perdeste
O que nunca tiveste
Ao perderes de vista
O rio.

sábado, 4 de setembro de 2021

Deambulação


Deambulas

De suave fragor

De vagas

De mar

De verão

De olhos

De peixes fora de água

De aves agora famintas

De teu pão.


quinta-feira, 26 de agosto de 2021

O MAIOR INIMIGO


Quando o velho bebeu o último copo
E foi embora
Fecharam o bar
Lá fora no escuro da noite
Ele sabia que os lobos só o espiavam
Por curiosidade
Para lhe farejarem a alma
E não lhe quisessem o coração
Mas por precaução
Levava consigo duas cabeças de carneiro
Para lhes arremessar
Quando se aproximassem
Não era a primeira vez
Que tinha de percorrer um caminho
Emboscado
Até chegar a casa onde vivia sozinho
E desencantado
Era como se os lobos em troca
O escoltassem
Porque matariam qualquer ladrão
Que arriscasse ser farejado
Nos seus intentos
Toda a vida preferiu percursos perigosos
E essa é a explicação que dá a si mesmo
Para a solidão em que sempre viveu
Em troca de não ser forçado a nenhuma alienação
Que não fosse o normal esquecimento
Faltava-lhe instinto de fuga
Vivia como se não passasse pelas coisas
Como se permanecesse num tempo de burro
A olhar para a experiência
Sem descartar nada
Nem o perigo
Até que já não podia mais
Enfrentar o maior inimigo
A tristeza
Das suas memórias.