sexta-feira, 14 de julho de 2017

As verdades e a verdade


Sabemos quais são as verdades que contam
as dores e as alegrias de que é feita a vida
e é por elas que nos sujeitamos na esperança
sempre traída
de nos deixarem viver de verdade
de não precisarem de nós
para levarem de vencida
a maldade
sabemos que não nos deixam em liberdade
nem depois de aprendermos a obedecer
convenientemente
porque há um preço para a vida
e para as verdades da vida que contam
as dores e as alegrias de que é feita a vida
e é por elas que nos sujeitamos na esperança
sempre traída
que nos desvanece o sonho
as verdades não chegam para viver de verdade
não nos roubem a verdade
enquanto nos iludem com verdades.

1 comentário:

Carlos Soares disse...


No poema não estou a pensar em Cristo, nem em religiões, nem em filosofias, nem em ideologias, nem em virtudes ou defeitos morais.
Não vou complicar as coisas, porque isso não ajuda. No poema as verdades são as dores e as alegrias, é o bater com a cabeça, receber um abraço, ser assassinado, lançar uma bomba, destruir países...
A verdade do poema é a outra, que nos é roubada. A natureza (não incluindo aqui o homem) não rouba nada. Se estabelecesse um paralelismo com o Direito e a Justiça, diria que há o direito e a justiça que se fazem e o Direito e a Justiça que não deixam fazer...
Há quem ache que esta é a nossa fatalidade animal, cultural, social, histórica e que, como Édipo, quanto mais lutarmos contra o destino, mais estamos a cumpri-lo.
Eu não me resigno a isso.
Para mim, o destino é aquilo que não está, nem esteve, nas nossas mãos.
Mas há imensas coisas que estão nas nossas mãos.
Talvez esta seja a Verdade (do poema).