A “loucura” elogiada pela literatura e pela filosofia não é doença, mas um lugar de exceção, um espaço onde a linguagem, a imaginação e a crítica se libertam das normas. E quando aproximamos essa ideia de
Foucault, Nietzsche, Camões, Pessoa, Shakespeare e Erasmo, percebemos que todos eles, cada um à sua maneira, transformaram a loucura numa forma superior de lucidez.
Para Foucault, a loucura não é apenas um fenómeno clínico. É um dispositivo cultural que revela os limites da razão. É onde a verdade aparece com o reconhecimento de que a razão se torna demasiado estreita. A loucura literária é, para Foucault, uma forma de resistência simbólica.
Nietzsche vai mais longe. Para ele, a loucura é a condição da transvaloração, da criação de novos valores. O pensamento verdadeiramente criador rompe com a moral dominante. A razão é apenas uma forma de domesticação. O génio é sempre
suspeito de loucura porque pensa para além do seu tempo.
Nietzsche diria que a “sanidade excepcional” é o que permite ao espírito livre destruir ídolos, romper com a moral do rebanho, criar novas possibilidades
de vida.
A loucura, em Nietzsche, é a coragem de pensar o que ainda não tem nome.
E Camões?
Camões não fala de loucura no sentido clínico, mas a sua obra está cheia de momentos em que a razão épica se desfaz e dá lugar a
uma lucidez amarga, quase delirante. O Velho do Restelo é o “louco” que diz a verdade que ninguém quer ouvir. A crítica à ambição imperial é uma forma de “desrazão”
num tempo que só aceitava glória. A visão trágica do mundo é uma lucidez que parece loucura aos olhos do império.
Camões antecipa a minha tese de que a verdadeira sanidade é a capacidade de ver a decadência no auge da glória.
O poeta é o “louco lúcido” que denuncia o que o império não quer admitir.
Fernando Pessoa é talvez o autor português que mais profundamente explora a loucura como forma de lucidez.
Os heterónimos são “loucuras organizadas”, identidades múltiplas que rompem com a unidade do eu. Álvaro de Campos vive a exaltação
e o desespero como formas de verdade. Bernardo Soares vive a “loucura mansa” da introspeção infinita. Alberto Caeiro é o “louco sábio” que vê o mundo sem metafísica.
Para Pessoa, a loucura é a libertação da identidade fixa, a possibilidade de ser muitos. A loucura é a sanidade que não cabe num só eu.
Shakespeare faz da loucura um dos seus instrumentos dramáticos mais poderosos.
Lear só compreende o mundo quando enlouquece. Hamlet finge loucura para dizer verdades que a corte não tolera. Ofélia enlouquece para revelar a violência
que a cerca. Macbeth enlouquece para ver o horror que criou.
Em Shakespeare, a loucura é a linguagem da verdade num mundo hipócrita.
A minha tese coincide com esta tradição: a loucura é o momento em que o véu cai.
No Elogio da loucura, de Erasmo de Roterdão, como crítica da razão dogmática, a Loucura fala
em primeira pessoa e revela a hipocrisia dos sábios, a vaidade dos poderosos, a rigidez dos teólogos, a estupidez dos dogmas.
A loucura é a única que pode dizer a verdade porque não está presa às convenções.
Erasmo antecipa a minha formulação de que a loucura é a razão que se libertou da sua própria arrogância.
Todos estes autores convergem na mesma ideia de que a loucura literária é a forma mais alta de lucidez moral. É a sanidade que
se recusa a ser normal. É a razão que ousa ultrapassar-se.
Foucault vê nela o limite da razão disciplinada. Nietzsche vê nela a força criadora. Camões vê nela a lucidez trágica. Pessoa vê
nela a multiplicação do eu. Shakespeare vê nela a revelação dramática. Erasmo vê nela a crítica da hipocrisia.
A loucura é, em todos eles, a coragem de pensar para além do permitido.
Não é por acaso que a literatura e a filosofia continuam a elogiá-la, é porque a loucura é o nome simbólico da liberdade intelectual.
Chamamos loucura ao amor porque o amor ultrapassa a razão. Não chamamos loucura ao ódio porque o ódio a empobrece.
Mas também temos a outra realidade da loucura, numa acepção clínica, de transtornos e patologias mentais muito diferentes, apesar de correntemente serem
referenciadas à incapacidade para pensar com nexo.
Quando falamos de loucura em Shakespeare, Nietzsche, Pessoa, Camões ou Erasmo, estamos a falar de uma metáfora cultural, não de um diagnóstico.
Essa “loucura” simbólica significa pensar fora das normas, romper com convenções, ver o que os outros não veem, dizer o que não pode
ser dito, libertar a imaginação, desafiar a razão dominante. É uma figura poética, filosófica, estética.
Já a loucura clínica, no sentido de perturbações mentais, é outra realidade que envolve sofrimento, pode afetar o pensamento, o humor ou o comportamento,
exige compreensão, apoio e, muitas vezes, acompanhamento especializado. Não é metáfora, é experiência vivida.
Mas a loucura clínica não é ausência de razão, é diversidade de experiências. A ideia comum de que a loucura clínica é
“incapacidade para pensar com nexo” é uma simplificação cultural que não corresponde à complexidade real. As perturbações mentais podem afetar a perceção,
a emoção, a energia, a motivação, a relação com o mundo, a forma de interpretar a realidade.
Mas isso não significa ausência de razão. Significa uma experiência diferente da realidade, muitas vezes marcada por sofrimento, mas também por formas
de sensibilidade e vulnerabilidade que não podem ser reduzidas a estereótipos.
A literatura, aliás, aprendeu muito com essa diversidade de experiências.
A metáfora literária da loucura nasce da sua força simbólica. A razão pela qual tantos autores usam a “loucura” como metáfora
é porque ela representa o limite da normalidade, o ponto onde a linguagem se rompe, o lugar onde a verdade aparece sem filtros, a fronteira entre o permitido e o proibido, a crítica da ordem estabelecida.
Mas essa metáfora só funciona porque a loucura clínica existe e tem um peso cultural profundo.
A literatura apropria-se desse peso simbólico, mas não está a falar de diagnósticos.
A loucura clínica exige cuidado. Quem se dá ao trabalho de romantizar a loucura clínica?
É importante reconhecer que a literatura pode elogiar a “loucura” como liberdade,
mas a vida real exige empatia, compreensão e apoio.
A experiência clínica da loucura não é um gesto estético. É uma condição humana que merece respeito e não deve ser confundida
com a figura romântica do “génio louco”.
A metáfora literária é útil para pensar a criatividade e a crítica cultural. Mas não deve ser usada para interpretar ou julgar pessoas reais.
Apesar de serem diferentes, há uma ponte simbólica entre elas, porque ambas revelam os limites da normalidade. A loucura literária mostra que a normalidade é estreita demais para a imaginação. A loucura clínica
mostra que a normalidade é estreita demais para a experiência humana. Mas a ponte é simbólica, não é literal.
A literatura usa a loucura como figura de liberdade. A clínica trata a loucura como sofrimento que merece cuidado.
Compreender esta distinção é, em si mesmo, um rasgo de lucidez, uma forma de “sanidade excecional”.
Carlos Ricardo Soares