terça-feira, 12 de agosto de 2014
É por seres como és
É por seres como és
que te sinto
a imensidão
do deserto
e o instinto
nunca estive tão perto
de um labirinto
aberto
tão certo
que acredito
nos teus olhos
de um escuro infinito.
quinta-feira, 7 de agosto de 2014
Debruçada sobre o muro
Debruçada sobre o muro
Como uma multidão sobre a ponte
Mas sem ninguém ao pé
Com as ervas ouvindo
A tua respiração
Como se fosse um vento
Soprado da tua tempestade interior
Quarenta anos se debruçam
A chorar
Enquanto o sol canta nas asas
Da primavera à tua volta
Porque tu não queres ter a força
De enfrentar a lágrima
Com medo de que a tua vitória
Seja sobre ti mesma
O que de certo modo já acontece
Quando choras
Só para ti
Debruçada sobre a construção
Que te ampara
Entre dois lados
De um único mundo
Que o sol não conhece outro.
sexta-feira, 18 de julho de 2014
Ninguém sabe morrer
Os velhos e
velhinhas
a gente sem abrigo
que pede
pelas alminhas
vive
como castigo
e
dos colos carregados
das lantejoulas
dos cenhos carregados
das angústias
dos peões
da soberba pachorra
de esperar
remédio
da virtude paciência
e
há sempre
muito ruído
muito brilho
muita cor
ladrões
à paisana
e polícias
nas esquinas
prostituição
a disputar a
sensualidade
que há em tudo
e
a despesa de viver
o pecado
fechar os olhos
para ignorar
a bomba
que vai explodir
e
tanto filho da mãe
que anda a fugir
sem descanso
que não suporta a luz
nem a própria sombra
tanta faca
escondida
deve haver
além de mulheres
algures
ilícitas de tão
carnais
amores imperfeitos
de tão legais
e
o livro da história
que não cessa
nem há tempo para ler
até numa
biblioteca
ninguém sabe morrer.
ninguém sabe morrer.
segunda-feira, 7 de julho de 2014
Há coisas que queremos dizer
Há coisas que tu
queres dizer
E não sabes como
Que eu quero
Mas não sou capaz
Que não dizemos
E tanto dói calar
Quanto o desejo
De falar.
quinta-feira, 3 de julho de 2014
Frustrações de um sonhador
Com sol na vidraça
Da aurora baça
A horas tardias da tarde
E da noite
Escrevo palavras e frases
Que aspiram a ser
Textos
Por mais que os torça
De pequeninos
Como os pepinos
Não passam disso
Frustrações de um sonhador
Que envelhece
A ver
O que acontece.
terça-feira, 1 de julho de 2014
Uma voz que se ergue
Uma voz que se ergue
Na noite cerrada
Mais doce e mais leve
Que um grama de nada
E tão bem a ouço
À voz amada
Tão bem encanta
A madrugada
Tão bem se estende
Para o dia
Mais sede e mais fome
Que a alegria
Chama
Sabe o meu nome
Arde
E não está queimada
Mais cedo e mais tarde
Que o tempo
Cresce
E não foi plantada.
sexta-feira, 27 de junho de 2014
Venenasas
Esta certeza é efémera como todos os brilhos
Como as chamas arrefecem nas órbitas
De monstros venenasas
Ruínas de castelos que já foram no ar
Sobranceiros a campos
Onde são matagais
Cemitérios onde adros já foram festivos
Esta tristeza desmemoriada do que foi alegria
Ao compasso de todas as músicas
De todas as marchas não reeditadas
E dos silêncios sobrevindos
De todos os sinos
De todos os tempos
Tratados de filosofia
À espera
De um cérebro que os pense
Até à próxima explosão do Universo
Que não precisa da ciência
Nem de contexto histórico
Como a minha morte
Para acontecer
Sou fútil e distraído
Como as estrelas brilham
Como um ébrio enquanto não adormece
Trato de banalidades
Porque já é aquilo que há-de vir a ser
Eu já nasci morto.
domingo, 15 de junho de 2014
Mas o tempo passou
Desta vez lembrei-me do cavalo
De um tempo que não passava
Isso sim era tempo
Eu não temia
Aventurava
E cada noite
E cada dia
Mais gostava
Do meu cavalo
Que pedi aos saltimbancos
E mo deram
Ou sem que eu saiba
Mo compraram
Na feira mais bonita
E mais saudosa
Em que estiveram
As pessoas menos sorumbáticas
Da história
Mas o tempo passou
E o meu cavalo
Não gostou
E morreu.
sexta-feira, 13 de junho de 2014
Vida
O esquecimento foi-se apoderando
Da vida como um rosto bom
Que a tornava mais leve
E mais tranquila
Como uma água que lava as mãos
Ou uma nuvem que protege do sol
Dia após dia ano após ano
Desligou-me de muitas coisas
Enquanto me ligava a outras
Foi-me tornando diferente
Em parte com o meu consentimento
Foi-me despojando de uma narrativa
Que era uma sucessão de partidas
Com abandonos e despedidas
Algumas por minha vontade
Outras sem nada poder fazer
Sempre preso por algum dever
E muito por necessidade
Andei de terra em terra
A esquecer
E a matar saudades
De outro tanto
Que o esquecimento não varreu
E que o passar dos anos avivou
Dando à minha vida
Algum encanto
Até aos momentos mais caóticos
Algum sentido
Que parecia não ter
Esqueci e fui esquecido
Num percurso em que
Muitas vezes não estive acompanhado
Imaginei o bom que é amar
E ser amado
Desejei imensas coisas
Que não tive
E temi muitas outras
Que não aconteceram
Amei com ímpetos de mar
Rompendo diques
Movendo montanhas
Com fervor
Esqueci os ódios
Mas não esqueci o amor.
domingo, 8 de junho de 2014
Arcaz do adro
Se deparares com o arcaz granítico do adro
Sem decoração nos laterais mas com epígrafe
Numa das quatro águas da tampa lisa hexagonal
E abrires as gavetas pesadas do pensamento
Ao espaço profundamente sombrio
De quinhentos ou mais invernos de vazio
E aí encontrares sentimentais estranhezas
Resguardadas de olhares superficiais
Pedras manuscritas por pedreiros profetas
Com delicadezas de cartas de amor
A tantas Ineses como a do Pedro Justiceiro
Rainhas do amor
Mortas primeiro...
Isso é um sarcófago.
sexta-feira, 6 de junho de 2014
A ampulheta e o burro
Asinino tem coisas mirabolantes
De deixar o diabo sem esperança
De o fazer chegar aonde ele quer
Asinino não se faz desentendido
Ele não entende porque não quer
Mas deixa-se fascinar
Da forma mais imprevisível
E sem perceber
Anula todos os efeitos
Do que observa
Deixando o diabo a pensar
«Que é que o faz então observar?»
O diabo não tira o olho da ampulheta
E espera que a areia acabe numa âmbula
Para a virar ao contrário
E assim continuar a confirmar
A sua crença na medição do tempo
Asinino vê a areia a passar
E não espera nada
Fica a olhar
Quando a areia acaba
É ele que se vira ao contrário
E como a areia continua parada
Pára o calendário.
segunda-feira, 2 de junho de 2014
Dá-se o caso
Pequeno almoço com janelas
Para um quadro
Com milhares de anos
É assim que pensas
É assim que dizes
O momento
A mulher ao lado
Está doente
E o homem ao fundo
Está a escrever no guardanapo
Para o outro mundo
Já se faz tarde
E temos pela frente
Um dia para visitar museus
Dormimos pouco
Mas estou contente
Tu fazes-me sentir vivo
Num mundo de memórias
De imensas coisas mortas
Fazes-me sonhar
E não devia ficar triste…
Carlos Ricardo Soares
domingo, 1 de junho de 2014
Como é belo o teu dizer
Como é belo saber ver
Do lugar onde cheguei
Do luar que acreditei
Do deitar tudo a perder
Do não sei pra onde vou
Como é belo compreender
Que o tempo nunca parou
Nas rosas que vi nascer
No vaso do nosso amor
Como é belo saber ver
Que a vida lança raízes
No solo estéril da dor
Como é belo ouvir dizer
As palavras que me dizes.
sábado, 24 de maio de 2014
Escrever poemas
Escrever poemas
enquanto
morres
é um acto triste
sobre o que será
a minha vida
escrever poemas
enquanto
vives
é um acto de libertinagem
despedida
enfim
escrever poemas
não tem saída.
quinta-feira, 22 de maio de 2014
Colocar o tempo numa moldura
Deixo passar o tempo e digo-o
Como se tivesse o poder
De o deixar em herança
De o fazer parar numa moldura
Como foto de dança
De vénus infame
Nos meus desertos
Em tons de ferrugem
De vitral de uma ala
Dos arquivos de uma catedral
No fundo do mar
Na paz pesada
Que ensurdece
Após S.O.S.
sexta-feira, 16 de maio de 2014
Não há tempo a perder
Nem tudo o que dissemos
Se desvaneceu
Memórias de nós
Que ninguém escreveu
Encantam a noite
Da flor que te ofereço
Quando ainda há tudo
Para dizer
Não há tempo
A perder.
terça-feira, 13 de maio de 2014
Achar-te bonita
Achar-te bonita é tudo o que importa
Mesmo que ache feio
Tudo à volta
Mais do que receio
Nada tem de louco
Mas enlouqueço
Por achar tanto
E tudo ser tão pouco
A poesia
A vida
A pena do que perdi
E este desejo de ti.
quinta-feira, 8 de maio de 2014
Sinto-me feliz
Sinto-me feliz
Por não encontrar
Palavras
Desnecessárias
Socorro
Para as vulgares certezas
Por acreditar
Que é belo o dia
Que como fruto imperecível
Colho
De tempos que excedem
Todas as fronteiras
De que há
Memória
Feliz
Porque
Tenho ódios e amores
Abomino
Piratas
E todos os terroristas
No auge da batalha sinto-me
Feliz
Mesmo temendo perder
A vida
Admiro os magnânimos.
terça-feira, 6 de maio de 2014
Canção do acaso
Depois de partir
Por que é que fiquei
Por acaso não sei (bis)
Depois de falar
Por que é que calei
Por acaso não sei (bis)
Depois de sorrir
Por que é que chorei
Por acaso não sei (bis)
Depois de te amar
Por que é que odiei
Por acaso não sei (bis)
Depois de esquecer
Por que é que lembrei
Por acaso não sei (bis)
Depois de morrer
Por que ressuscitei
Por acaso não sei (bis)
Depois de sonhar
Por que é que acordei
Por acaso não sei (bis)
Depois de vencer
Por que é que falhei
Por acaso não sei (bis)
Depois de estar
Por que me ausentei
Por acaso não sei (bis)
Depois de escrever
Por que é que rasguei
Por acaso não sei (bis)
Depois de me abrir
Por que me fechei
Por acaso não sei (bis)
Depois de receber
Por que é que não dei
Por acaso não sei (bis)
Depois de saber
Por que é que errei
Por acaso não sei (bis)
Depois de lembrar
Por que é que ignorei
Por acaso não sei (bis)
Depois de cantar
Por que desanimei
Por acaso não sei (bis)
Depois de pensar
Por que é que cansei
Por acaso não sei (bis)
Depois de correr
Por que é que parei
Por acaso não sei (bis)
Depois de esperar
Não foi por acaso
Que te encontrei.
domingo, 4 de maio de 2014
O livro de todo o conhecimento I
O dia de hoje foi normal até há pouco, quando decidi sentar-me para escrever sobre o dia de hoje. Ainda sem saber porquê, comecei logo a ter a percepção de que o dia de hoje foi, afinal, um dia extraordinário. Levantei-me de madrugada com a história do livro de todo o conhecimento na cabeça mas só escrevi o título porque as ideias não desenvolviam. Voltei para a cama e não dormi a pensar que tinha de levantar-me antes das oito, para a abertura da bolsa. Às oito já estava em frente do computador, como venho fazendo há anos. Nesta altura, a história do livro de todo o conhecimento parecia-me ainda mais difícil de escrever, como se tivesse sido um sonho. Sabem como é difícil, para não dizer impossível, passar os sonhos para o papel?! Quanto à bolsa, mais um dia à espera da abertura de Wall Street! Adiante. Banho. Aula de Economia sobre sociedade de consumo, laxismo, hedonismo e os males que podem advir para o mundo. “Quando as batalhas terminam aparecem os valentes”…
Apetecia-me tanto comer tripas à moda do Porto regadas com uma garrafa de tinto de 37,5cl…
Mas estava à minha espera o rei, desculpem, não era o rei, era a princesa, bem, vocês não conhecem, linda de entontecer, envergando diáfanos atributos, que me concederia o privilégio de a fazer feliz entre o período do almoço e o do lanche.
Cheguei atrasado. Não previra que uma fila de carros embandeirados retardasse o trânsito com euforias altifalantes porque é tempo de campanha eleitoral e “Viva a República”.
Logo constatei que um indivíduo, vestido de branco, de pé, num estrado colocado na rotunda, de megafone numa mão e uma bandeira branca na outra, tinha feito parar duas caravanas de manifestantes, uma do PS, que seguia em direcção indefinida e, outra do PSD, que andava às voltas. O indivíduo do megafone e da bandeira branca clamava distintamente, ora para a caravana dos do PS ora para a caravana dos do PSD, num tom messiânico:
«Eu não podia sentir-me mais à margem deste espectáculo. Será por isso que o considero triste? Eu não faço parte desta sociedade? Não me identifico com ela? Não me comprometo com ela? Não gosto dela? Se pudesse estava noutro sítio, com outras pessoas? Por favor, responda quem souber. Não pensem que não sou político dos sete costados ou que não tenho partido. O meu partido é não ter nenhum dos partidos existentes. Passividade não é comigo. E, quanto a ir votar, preciso de mais alternativas para me sentir livre. Ouviram? Livre. De Liberdade. O voto em branco é pouco. A abstenção, os mentores do sistema político converteram-na em nada, assim como os votos nulos.
Sou político, tenho política e a minha política é esta: deixem de manipular as pessoas pelos medos, tentem manipulá-las pelas genuínas alegrias e direitos. Não lhes acenem com direitos com o objectivo, dissimulado, de lhes cobrar obrigações e deveres. A democracia só não perdeu completamente o significado de poder exercido pelo povo, não porque os políticos, a classe política, o represente legitimamente, mas porque, apesar desta incongruência grave, o povo vai exercendo o seu poder por outras formas, pagando os custos elevados de todas, porque, na realidade o dito povo paga aos políticos para exercer o poder que não exerce e paga o contra poder para fazer face aos mesmos políticos que contra si o exercem.»
Julgo ter percebido bem estas últimas palavras, mas não garanto, porque as caravanas dos manifestantes faziam cada vez mais barulho, com claxons, apitos e altifalantes, com o objectivo aparente de abafarem o som do megafone.
sexta-feira, 2 de maio de 2014
Calhamaços da cachaporra
Desceu a rua dos caçadores de mejengras
Virou pela travessa dos lumbricimorfos
Da choldraboldra chegou à trapizonda
Da mixórdia
Viu demónios farmacopoleando
O fogo fátuo
Ventríloquos do trovão
Alquimistas dos espíritos da centopeia
De cobra em campo
De campainha em cabra
De cadela em cão
Seguiu pela avenida dos trambalazanas
Da balbúrdia
Por todo o lado pufismos mirabolantes
Levou com estilhaços da histeria
Foi atacado por fanfarras
Cabotinos em estertores de delírio
Atrelou-se a uma cega que
Indiferente tacteava
Deixou-se guiar por quem
Ele guiava
E quando chegaram ao outro lado
Ele não sabia onde estava
Não trocaram palavra
Ela seguiu pelo beco da atoarda
Ele ficou ali
Numa encruzilhada
Em calhamaços da cachaporra
Triturantes do lírio
A ouvir os guinchos das charruas
Danadas
Esventrando almas penadas
E não podia pousar a cabeça
Em nenhuma almofada
A cambalear peão a fugir
Da girândola trampolineira
Dos masturbadores da exaustão
Quem lhe dera descansar
Alfim acrato no puído chão.
Virou pela travessa dos lumbricimorfos
Da choldraboldra chegou à trapizonda
Da mixórdia
Viu demónios farmacopoleando
O fogo fátuo
Ventríloquos do trovão
Alquimistas dos espíritos da centopeia
De cobra em campo
De campainha em cabra
De cadela em cão
Seguiu pela avenida dos trambalazanas
Da balbúrdia
Por todo o lado pufismos mirabolantes
Levou com estilhaços da histeria
Foi atacado por fanfarras
Cabotinos em estertores de delírio
Atrelou-se a uma cega que
Indiferente tacteava
Deixou-se guiar por quem
Ele guiava
E quando chegaram ao outro lado
Ele não sabia onde estava
Não trocaram palavra
Ela seguiu pelo beco da atoarda
Ele ficou ali
Numa encruzilhada
Em calhamaços da cachaporra
Triturantes do lírio
A ouvir os guinchos das charruas
Danadas
Esventrando almas penadas
E não podia pousar a cabeça
Em nenhuma almofada
A cambalear peão a fugir
Da girândola trampolineira
Dos masturbadores da exaustão
Quem lhe dera descansar
Alfim acrato no puído chão.
quinta-feira, 1 de maio de 2014
A verdade
A verdade que podemos encontrar numa enciclopédia sobre a Verdade não está na enciclopédia,
nem nas bibliotecas e
não é a Verdade. Esta é a verdade.
É? E depois?
Continuamos a procurar a verdade,
mesmo falando verdade
e não a encontramos?
E se a verdade for desagradável? Dolorosa? Insuportável?
Queremos sempre a verdade?
E se a verdade é contra nós?
Que verdade, ou verdades, nos interessam?
Detestamos a mentira, mas há as meias verdades
e a verdade das partes
e a verdade do todo,
mas a verdade não está nas partes
e não está no todo.
A verdade, em última análise, é absoluta: ou é ou não é;
se é, é para todos e para todas as inteligências.
É ou devia ser?
Devia?
Porquê?
Um juiz disse-me que só o que está no processo é que está no mundo,
a verdade dele é aquela.
Um tipo que eu tenho por cientista diz-me que só o que é
verificável, mensurável, empiricamente, merece crédito.
Esta é a sua verdade.
Um poeta proclamou que «quanto mais poético mais verdadeiro».
A verdade do filósofo
com quem falei
é um veredicto,
são juízos sobre os próprios juízos,
sobre a contenda entre falso e verdadeiro
entre a ideia e a coisa,
embora saliente que ao filósofo interessa uma interpretação cósmica da sua experiência interior e
que essa interpretação, qualquer que ela seja, não é a verdade.
O meu pároco diz que Deus é a Verdade,
que as verdades do cientista e do juiz e do filósofo são juízos sobre coisas, factos, acontecimentos, acções e ideias.
A verdade não é conhecimento nem doutrinas teóricas que, como tais, se possam comunicar.
A alma tende para a contemplação da verdade,
para a pura contemplação,
sem pensar anotar o que contempla para disso se separar e representar isso sob uma forma «válida em geral» com a qual todos pudessem enriquecer o seu saber.
Cada pessoa permanece “fora” de interpretações e esquemas analíticos e nunca lhes está submetido; quando quer conhecer-se a si próprio, não é no homem em si, numa teoria da sua vida que se revê e o que lhe vem do íntimo não carece de explicação alguma.
terça-feira, 29 de abril de 2014
Escuto as dores do mar
É nessas dores que se banha a lua
Nem todas as janelas já estão fechadas
As dores do mar
O balançar das árvores ao alto
É nessas cores que a torda da alegria
Perde peso
E a alma de magreza voa
Do mar
A olímpica fantasia
Que atordoa
Quem poderá domar?
Nem todas as janelas já estão fechadas
As dores do mar
O balançar das árvores ao alto
É nessas cores que a torda da alegria
Perde peso
E a alma de magreza voa
Do mar
A olímpica fantasia
Que atordoa
Quem poderá domar?
sexta-feira, 25 de abril de 2014
Quando se está debaixo
Quando se está
debaixo
das botifarras do bicho de sete cabeças
não há nenhuma porca de sete
mamas
que valha ao espezinhado
gente que está
por todo o lado
e luta até à morte
todos os dias
num confronto
forte
entre David e
Golias.
domingo, 20 de abril de 2014
O homem não sabe o que quer
Eis o problema:
o homem não sabe o que quer, nem para si próprio, quanto mais para os outros...
E, supondo que as pessoas têm uma vontade e objectivos para os outros, para a história, para o mundo, para a Humanidade, um desejo, sonho (projecto é diferente e, certamente, não existe um projecto com essas características, individual ou colectivo) que as transcende, então aí o que sabemos é pouco e o que não sabemos é incomensurável (e que certeza temos disto?).
sábado, 19 de abril de 2014
Começar e acabar
Começas de uma forma
E acabas da forma como começaste
Tu não envelheces nunca
Por isso é que não envelheceste
Olhas de um modo fixo
Não como se tivesses morrido
Mas como se morresses eternamente
Se dessem a uma mãe um bebé assim
Ela enlouquecia
Tu só não rejuvenesces
Porque foste sempre o começo da idade
Em ti nada acontece
O tempo não é
Se não
Tenho a certeza
De que rejuvenescerias ao máximo
Ao ponto em que estás
Que é aquele em que todos e tudo
Depositaram a espera
Em que tudo e todos ainda
Não começaram.
terça-feira, 15 de abril de 2014
Livro-me de ser julgado
A minha ideia avança
Meu medo
Não é nenhum
A minha praia
Sou uma criança
Um por todos
E todos por um
Palavras
Faço com elas
O que me aprouver
Mas livro-me
De ser julgado
Pelo que disser.
segunda-feira, 14 de abril de 2014
Povoado de sombras
Está sol
E
Num grande largo povoado
De sombras
Um pregador sob uma árvore
Adverte em nome do bem
Como um sol que faz
Desaparecer sombras
No canto de lá
Um propagandista reclama
Liberdade
Como um sol que faz
Sombras.
E
Num grande largo povoado
De sombras
Um pregador sob uma árvore
Adverte em nome do bem
Como um sol que faz
Desaparecer sombras
No canto de lá
Um propagandista reclama
Liberdade
Como um sol que faz
Sombras.
quarta-feira, 9 de abril de 2014
Adega TóNel
No ponto mais setentrional das névoas perpétuas
No informe aglomerado de construções à chuva
Uma placa diz cidade e começam as galerias
De uma tarde na adega tonel
Que vai desembocar nesta folha de papel
E deparar sem saída com a porca
Das sete mamas de um cardápio virtual
Suspenso dos chifres de um bicho
De sete cabeças em espiral
Drapejando ruidosamente.
sábado, 5 de abril de 2014
E-lá-se-foi
Um pássaro lindo
Voou ao contrário
Sugado por uma lembrança
De caminho andado
Mão dada
Numa eterna dança
Entre invernos sem ilusões
Um gato à chuva
Lá se foi
Platão
Eva
E Adão
Num jardim
Que não conheceis
De rosas em vasos imaginados
Mas que estão mortas
Há muito
No chão
Para onde cospe
O vilão
E dejecta
O fanfarrão.
Voou ao contrário
Sugado por uma lembrança
De caminho andado
Mão dada
Numa eterna dança
Entre invernos sem ilusões
Um gato à chuva
Lá se foi
Platão
Eva
E Adão
Num jardim
Que não conheceis
De rosas em vasos imaginados
Mas que estão mortas
Há muito
No chão
Para onde cospe
O vilão
E dejecta
O fanfarrão.
terça-feira, 1 de abril de 2014
Não vá a cerveja acabar
Se não precisas do sentido das proporções
Para fruir
Para fazer arte precisas de algo mais
Do que cuspir
Cores e pensamentos
Ou notas musicais
Música pintura ideias e poemas
São algo mais
Que uma desordem
Ou uma ordem que te é imposta
Mesmo se forem o caos
Que não te obedece
Amálgamas são atrocidades
Cometidas contra a fragilidade
Do que arrebita
Sobre a estrumeira informe
Anunciando ao optimismo
A esperança
Enquanto o pessimismo
Dorme
Se souberes cantar
Canta
Não vá o mundo acabar.
domingo, 30 de março de 2014
Encontrei-te
Encontrei-te na multidão de mulheres que se despiam
Onde respirar a atmosfera dos seus seios
Vozes que lembrei mais tarde
Te pertenciam
Rostos que te dei
Desencantei-os
Partidas que nos deixam
Sem rodeios
A meio da discussão
Com o vento.
quarta-feira, 26 de março de 2014
Lema
Todo o poema
Não devia ser escrito de outra forma
Nenhum poema devia ser escrito
De forma diferente
E quem diz poema
Diz tudo o que é literatura
Nenhum poema está errado
Nenhum poema está certo
Certo ou errado
Não é coisa de poema
Nem de literatura
Nenhum poema está bem
Ou mal escrito
O poema é o que é
E não o que não é
Se alguém quiser escrever diferente
Pode
Mas isso é outra coisa
Se alguém comparar poemas
Pode
Mas para que serve comparar
Coisas diferentes
O valor de um texto literário
Não é tudo
Uma vez li um poema criativo
Mas não tinha mais nada
Outra vez
Li uma história originalíssima
Mas não tinha mais nada
Muitas vezes
Li textos cheios de erudição
E nenhuma literatura
Poemas com as filosofias
Todas excepto a minha
Mas não eram poesia…
sexta-feira, 21 de março de 2014
Nós hoje
Órfãos de alguma espécie de apostolado
Estamos cercados
De falas
Como é difícil ao espectro
ficar calado!
Como é difícil ao espectro
Dizeres que o calas!
Como é difícil ao dinheiro
Não o gastar
A um poluente
Não o usar
Não ter uma sombra
E monologar
A campo aberto
Merdar!
Como é difícil estar certo
Não querer
Moeda falsa
Para poder
Ofertar!
Trabalhar cansa
E não acaba
Se a vida não se vence
Para quê lutar?
Dai-me a luxúria
Sem corpo
Da ideia
Vazia
Ou o eco
Dos limites.
Estamos cercados
De falas
Como é difícil ao espectro
ficar calado!
Como é difícil ao espectro
Dizeres que o calas!
Como é difícil ao dinheiro
Não o gastar
A um poluente
Não o usar
Não ter uma sombra
E monologar
A campo aberto
Merdar!
Como é difícil estar certo
Não querer
Moeda falsa
Para poder
Ofertar!
Trabalhar cansa
E não acaba
Se a vida não se vence
Para quê lutar?
Dai-me a luxúria
Sem corpo
Da ideia
Vazia
Ou o eco
Dos limites.
Carlos Ricardo Soares
quinta-feira, 20 de março de 2014
Tentações
Antes de escurecer
Desceste
Do trono
Para ver-te solta
E sentires-te confiada
Aos meus olhos
Ébrios da tua graça
Dos goles
Da tua taça
Enquanto davas
Passos desnorteantes
Para seres entronizada
Num reinado
De tentações.
quarta-feira, 19 de março de 2014
Todos os sinais
O silêncio não tem hora
Mas tem becos
Onde mora
Ninguém
Casas com tectos
Sem portas
A horas mortas
Nem tectos tem.
domingo, 16 de março de 2014
Implicações
Não te sintas à beira do abismo
Se te oferecer dinheiro
Como
Se te oferecesse beijos
Não te zangues
Se te convidar
Na paisagem esquecida e bravia
Da tua alma
A tornares-te desesperadamente
Consciente
Da tua nudez
Dando-me beijos
Como
Se me oferecesses dinheiro.
sábado, 15 de março de 2014
Pódio
Sobe ao pódio dos teus pés
Que o prémio te sinta
Mesmo que não sejas vencedor
Te diga que o és
Canta o hino
Que aprenderes
A olhar para longe
Do que fores
Capaz
Que o silêncio
No fim
Seja murmúrio
De paz.
quinta-feira, 13 de março de 2014
Ao amor desconhecido
Se tivesses uma morada ou telefone
Que eu soubesse
Um telemóvel ou e-mail que
Provavelmente tens
É improvável que escrevesse esta carta sem endereço
Nem sequer a escreveria
Faço-o porque não te conheço
E sou fiel
Ao sonho e mais profundo desejo
Sem trair o anjo do meu cortejo
E sem temer
Vir-me a arrepender
Pelo menos enquanto não te encontrar
Se tivesse dúvidas sobre o ridículo das cartas de amor
Elas cessariam com esta
Não por ser simples carta de amor
Mas por ser ao amor desconhecido
Que confiança pode merecer-te alguém que viveu
Oitenta anos sem te ter tido
Ou que o afirma
Mais indigno de ti
Quem diz que amou sem te conhecer
Ou quem não amou à espera que isso acontecesse
Mas tu não vieste?
quarta-feira, 12 de março de 2014
É de mim
Falo daquelas ruínas
e é de mim
do que os nossos olhos não viram
daquelas matérias-primas
a propósito da construção
do mundo
do que restou
dos perigos
que é muito
que é imenso
mas não basta
quando falo dessas coisas
de factos e mais
de ausências cruciais
inexistências
como se falasse de aparências
sem alegria
como se a poesia fosse o que falta
à fantasia
como se a fantasia fosse um estaleiro
de sucata
que avistamos da janela
da prisão perpétua.
sábado, 8 de março de 2014
O sonho é vago mas a luz é forte
O sonho é vago
Mas a luz é forte
No mar de faúlhas
Lágrimas de sol poente
A vida passa
No horizonte de asas
Efémeras e tranquilas
De uma gaivota branca
Respira coração respira
Como se existisses desde sempre
Na alma do mundo
E nunca te esquecesses
E avista para lá das nuvens
O azul do céu mais matinal
Porque eu sei que um sonho
É feito de muita ternura natural
É quando te digo meu amor
E me enriqueço tanto por te ter
É quando desejo que o fragor das ondas
Seja um hino todo nosso até morrer.
quarta-feira, 5 de março de 2014
Horizontes
A noite tem horizontes
De olhos doces
Como o vapor da sopa
No inverno
Luzes astrais
No tecto falso
Alcance ultramoderno
Dentro de muros
Medievais
Quem mandou construir o castelo
Não chegou a vê-lo
Dentro da noite
A escadaria
Termina
Num oratório
As sombras indecisas
Sem interior
Como azulejos
Ao gosto
Da época
Revestem
As paredes
Que restam.
Carlos Ricardo Soares
domingo, 2 de março de 2014
As línguas do amor
Por favor
Fala-me todas as línguas
Do amor
Que há-de haver alguma
Que eu compreenda
Se me falares só uma
Talvez a não entenda
Se houver uma escola
De línguas do amor
Ou de amor
Ou ao menos de uma das línguas
Do amor
Eu quero aprender
O amor fala todas as línguas
Que nós desconhecemos.
Carlos Ricardo Soares
sábado, 1 de março de 2014
Não deixes
Não deixes que a palavra te corrompa
Como uma moeda falsa que depões
Na mão do diabo disfarçado de mendigo
Não deixes que a palavra se alimente da tua alma
Como um salmo se hospeda num sepulcro
E te enlouqueça e te leve o corpo
Não deixes que te o tire te o esqueça
E te converta em espectro caiado
Sem sede nem fome
Sem nascente nem ocaso
Sem nome.
Carlos Ricardo Soares
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014
Sinto-me triste
Estou triste
Sinto-me triste
Nas conclusões que tiro
Até das coisas mais lindas
Que tem a vida
Sinto-me triste
Por não sentir alegria
Só de pensar
Que as histórias
Não têm final feliz.
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