Ai de nós se a intensidade com que pensamos fosse proporcional à intensidade com que sentimos e vice-versa!
A nossa dor ou alegria dura algum tempo, às vezes menos do que desejaríamos, e depois funciona como memória ou lembrança em que pensamos.
Se assim não fosse, éramos capazes de festejar um golo da nossa equipa no início do jogo e, sem parar de festejar, ainda o estarmos a fazer quando o jogo terminasse com a nossa equipa a perder.
Ou, constantemente, chorarmos porque a todo o momento alguém sofre injustamente.
sexta-feira, 27 de julho de 2018
sexta-feira, 8 de junho de 2018
Como esta chuva que cai
E nesse tempo distante
A que houvesse de voltar
Ninguém me peça que cante
Nem me lembre de cantar
Não me peçam que não chore
Só me apetece chorar
Nem esperem que tudo ignore
Porque me quero lembrar
Passei metade da vida
A fugir da confusão
Mas não encontro saída
Da solidão
Eu não confio em deuses
Quem confia no diabo?
Sigo só como os ateus
Mas não sei como é que acabo
Olho para os meus desertos
Como um lagarto olha o mundo
Estar com os olhos abertos
É o que há de mais profundo
Como esta chuva que cai
Como este corvo crocita
Como esta gente que trai
Princípios em que acredita.
A que houvesse de voltar
Ninguém me peça que cante
Nem me lembre de cantar
Não me peçam que não chore
Só me apetece chorar
Nem esperem que tudo ignore
Porque me quero lembrar
Passei metade da vida
A fugir da confusão
Mas não encontro saída
Da solidão
Eu não confio em deuses
Quem confia no diabo?
Sigo só como os ateus
Mas não sei como é que acabo
Olho para os meus desertos
Como um lagarto olha o mundo
Estar com os olhos abertos
É o que há de mais profundo
Como esta chuva que cai
Como este corvo crocita
Como esta gente que trai
Princípios em que acredita.
Tutela perniciosa
Das inúmeras variáveis que é necessário sopesar e
ponderar para um conhecimento do sistema de ensino/educação, que existe,
mormente com alunos e professores no centro das pressões, a aguentar forças
centrípetas e centrífugas, assim muito esquematicamente, refiro os decisores
políticos, que se assumem, inquestionavelmente, como os senhores (donos) disto tudo.
E nada há de mais errado no sistema de ensino/educação.
E nada há de mais errado no sistema de ensino/educação.
Este tem condições para estar, e deveria estar,
emancipado, há muito, dessa tutela tão perniciosa quão perversa.
Carlos Ricardo Soares
domingo, 27 de maio de 2018
Brilhantina
Um dos pedintes mais bem sucedidos do burgo
costumava vestir-se como um valete, de que se arrogava o título. Abrilhantinava
a cabeleira e, com pose de alteza, porém lamuriando-se da sorte, pedia na rua, não
como um pobre, que não assumia ser, mas como um rico, que detestava de tal modo
o dinheiro gastando-o a rodos, que acabou por cair em desgraça. Nas lojas, onde
era acolhido, até com honras e mesuras, ouviam a sua triste história, quando o
trato que davam aos maltrapilhos era corrê-los porta fora. E todos, até os
pobres, se condoíam desse personagem, até saberem que era, simplesmente, um
pobre mas hábil ator, e logo se arrependiam de ter ajudado um farsante.
quinta-feira, 24 de maio de 2018
Presunções
A presunção de inocência ou a presunção de culpa, juridicamente e, na prática, serão irrelevantes, porque não alteram o estatuto do arguido, nem alteram a realidade dos factos, nem interferem no julgamento. Aliás, como é sabido, "presunção e água benta, cada um toma a que quer". O que justificaria, talvez, não estar a ocupar espaço na letra da lei, que já é tão extensa.
O problema com interesse, com grande afinidade deste, é o do ónus da prova. Neste ponto, em vez de presumir inocência ou culpa, importa provar. Aliás, uma condenação judicial é uma presunção de culpa ou de imputabilidade, etc.. e uma absolvição nem sequer é uma presunção de inocência, e não é um juízo de inocência.
Com o tempo, perante novos elementos de prova, essas presunções podem ser revertidas. Ainda assim, relativamente ao ónus de prova, na minha opinião, no caso de certas entidades políticas e financeiras, pelos cargos que ocupam, pelo que representam, pela posição privilegiada em que sempre estão para apresentarem e fazerem prova, haveria toda a vantagem para a justiça que o ónus da prova recaísse sobre eles e não ao contrário, como sucede.
Indiciados que fossem da prática de certo tipo de crimes, caber-lhes-ia o ónus de provar o contrário. Atualmente, não têm qualquer ónus. Não precisam de provar nada para serem absolvidos, basta que se frustrem as acusações.
O problema com interesse, com grande afinidade deste, é o do ónus da prova. Neste ponto, em vez de presumir inocência ou culpa, importa provar. Aliás, uma condenação judicial é uma presunção de culpa ou de imputabilidade, etc.. e uma absolvição nem sequer é uma presunção de inocência, e não é um juízo de inocência.
Com o tempo, perante novos elementos de prova, essas presunções podem ser revertidas. Ainda assim, relativamente ao ónus de prova, na minha opinião, no caso de certas entidades políticas e financeiras, pelos cargos que ocupam, pelo que representam, pela posição privilegiada em que sempre estão para apresentarem e fazerem prova, haveria toda a vantagem para a justiça que o ónus da prova recaísse sobre eles e não ao contrário, como sucede.
Indiciados que fossem da prática de certo tipo de crimes, caber-lhes-ia o ónus de provar o contrário. Atualmente, não têm qualquer ónus. Não precisam de provar nada para serem absolvidos, basta que se frustrem as acusações.
quarta-feira, 23 de maio de 2018
A privacidade
Há que teimar em trazer à liça um problema de
suma importância para cada um de nós, tanto mais importante quanto mais inócuo
se faz sentir, a violação da privacidade.
Não é por acaso que a privacidade é tão mal entendida e tão
mal tratada.
Estou a pensar na segurança e nos interesses policiais.
Limitar-me-ei a considerar que a minha privacidade é um reduto interdito,
sobretudo, às polícias. Diria até que é o oposto de policiamento, sabendo nós que as
"polícias" não são apenas os agentes de segurança e da ordem pública
investidos da autoridade do Estado.
A privacidade é incompatível com os "guardiões", legisladores do medo, corruptos que o são porque podem, sem medo e sem vergonha, guardiões dos privilégios.
E não estou a pensar na criminalidade, que deve ser prevenida e combatida, sobretudo a alta criminalidade do venal.
Estou a pensar na saúde mental, na liberdade de pensamento, de criatividade e de significado, do significado atingido livremente, não do significado infiltrado, hospedado à força no cardápio das nossas alternativas avassaladas.
Esta sensação de falta de mundo e de espaço para respirar outro ar que não seja o da vigilância, sobretudo quando perpetrada pelos alvos inelutáveis do nosso ódio, acaba por viciar também os comportamentos, sobretudo os de maior visibilidade, que se tornam à medida, ou seja, o próprio processo de invasão e controlo da privacidade subverte-se ao ponto de o privado ser também uma máscara. E cada vez se torna mais pública e convencional a ideia de que o que é visível pode ser a melhor forma de invisibilidade.
A privacidade é incompatível com os "guardiões", legisladores do medo, corruptos que o são porque podem, sem medo e sem vergonha, guardiões dos privilégios.
E não estou a pensar na criminalidade, que deve ser prevenida e combatida, sobretudo a alta criminalidade do venal.
Estou a pensar na saúde mental, na liberdade de pensamento, de criatividade e de significado, do significado atingido livremente, não do significado infiltrado, hospedado à força no cardápio das nossas alternativas avassaladas.
Esta sensação de falta de mundo e de espaço para respirar outro ar que não seja o da vigilância, sobretudo quando perpetrada pelos alvos inelutáveis do nosso ódio, acaba por viciar também os comportamentos, sobretudo os de maior visibilidade, que se tornam à medida, ou seja, o próprio processo de invasão e controlo da privacidade subverte-se ao ponto de o privado ser também uma máscara. E cada vez se torna mais pública e convencional a ideia de que o que é visível pode ser a melhor forma de invisibilidade.
Cada vez mais, as iludências aparudem!!!
Até porque quem quer ser olhado do modo que os outros escolhem? Ou gosta do modo como é olhado, ou de quem olha/observa, independentemente da finalidade?
Até porque quem quer ser olhado do modo que os outros escolhem? Ou gosta do modo como é olhado, ou de quem olha/observa, independentemente da finalidade?
Temos o direito de odiar, recusar e rejeitar o
"mau olhado".
De resto, no inferno da privacidade só entram almas danadas e não se constroem paraísos onde possa entrar quem não se quer.
sexta-feira, 18 de maio de 2018
A humildade
A humildade, a verdadeira humildade e não a estratégica, manhosa e venenosa, com que alguns hipócritas, retorcidas víboras, ostentam aclamadas virtudes para disso tirarem proveito à custa de lorpas=humildes=estúpidos=submissos, é um capital de que se faz uso apenas quando se quer e com quem nos aprouver, ou, por engano, para proveito dos tais répteis.
A humildade não é uma virtude e não pode ser uma virtude porque a chamada humildade do arrogante ou do prepotente, é uma estratégia de domínio e a chamada humildade do humilde ou do dominado, é uma condição.
Discutir qualquer assunto na base da humildade ou da arrogância, não me parece que faça sentido.
A humildade e a arrogância não fazem parte das equações. Assim como o tom de voz.
Mas se chamam arrogante a quem não ouve nem quer ouvir e humilde a quem ouve e quer ouvir, o caso muda de figura.
É diferente falar para um arrogante ou para um humilde.
A humildade não é uma virtude e não pode ser uma virtude porque a chamada humildade do arrogante ou do prepotente, é uma estratégia de domínio e a chamada humildade do humilde ou do dominado, é uma condição.
Discutir qualquer assunto na base da humildade ou da arrogância, não me parece que faça sentido.
A humildade e a arrogância não fazem parte das equações. Assim como o tom de voz.
Mas se chamam arrogante a quem não ouve nem quer ouvir e humilde a quem ouve e quer ouvir, o caso muda de figura.
É diferente falar para um arrogante ou para um humilde.
segunda-feira, 23 de abril de 2018
Robots humanos robots
Embora o assunto seja muito técnico, a avaliar pelo que sabemos do poder e eficiência das calculadoras, dos sistemas informáticos de localização e de identificação de sinais e dos computadores que jogam melhor do que os humanos, para já não falar nos aviões que voam mais e melhor do que os pássaros, etc., é mais provável que os humanos se transformem em robots do que os robots em humanos.
sábado, 14 de abril de 2018
Já não sinto, nem penso, só sofro, mas resisto?
Se eu pudesse escolher sentir tudo o que pensasse seria enlevante como as arquiteturas mais ousadas que nos aquietam os ânimos numa interpretação do mundo que acreditamos já ter sonhado e temos diante de nós ainda melhor realizada.
Mas todo o sentimento profundamente nosso parece suscitar imensa cobiça ou perturbação em redor, porque nos deixa exacerbadamente sensíveis a perturbações, tornando tudo mais insuportável.
Se eu pudesse escolher sentir, amava, amava tanto mais umas coisas quanto mais odiava outras…
Se eu pudesse escolher pensar não sei o que pensava, talvez pensasse em tanta coisa que não me interessava, mas como não posso escolher, penso que me interessa…
Se eu pudesse escolher fazer sei o que queria, mas não saberia fazer…
Se eu pudesse escolher dizer o que diria?
O mundo torna-se muito pequeno quando cais dentro de um buraco
e só te resta esperar que alguém por acaso caia nesse buraco sem querer e te encontre.
A tua sorte é a fonte das maiores alegrias,
mas saber lidar com isso pode ser um problema.
Não foi o mar que fez os barcos nem os barcos que fizeram o mar
e os barcos engolem o mar de um modo muito mais interessante do que o mar engole os barcos.
As palavras não são o que nos faz falar,
as palavras são o que nos prende
àquilo de que gostaríamos de dispor livremente.
Mas todo o sentimento profundamente nosso parece suscitar imensa cobiça ou perturbação em redor, porque nos deixa exacerbadamente sensíveis a perturbações, tornando tudo mais insuportável.
Se eu pudesse escolher sentir, amava, amava tanto mais umas coisas quanto mais odiava outras…
Se eu pudesse escolher pensar não sei o que pensava, talvez pensasse em tanta coisa que não me interessava, mas como não posso escolher, penso que me interessa…
Se eu pudesse escolher fazer sei o que queria, mas não saberia fazer…
Se eu pudesse escolher dizer o que diria?
O mundo torna-se muito pequeno quando cais dentro de um buraco
e só te resta esperar que alguém por acaso caia nesse buraco sem querer e te encontre.
A tua sorte é a fonte das maiores alegrias,
mas saber lidar com isso pode ser um problema.
Não foi o mar que fez os barcos nem os barcos que fizeram o mar
e os barcos engolem o mar de um modo muito mais interessante do que o mar engole os barcos.
As palavras não são o que nos faz falar,
as palavras são o que nos prende
àquilo de que gostaríamos de dispor livremente.
Poeta
É assim que o poeta é
a motivação do poeta é
do mais sagrado
há
quem o tome por louco
que diz coisas estranhas
quem o não entenda
quem se ria
quem desdenhe
quem tolere
o poeta "trabalha pro bono"
por vezes com sacrifício da própria vida
a sua motivação não o implica com a desumanidade
nem com os ataques mortíferos e destruidores à natureza
nem com a ignorância e o amorfismo
o poeta não pretende roubar nada
nem tirar nada a ninguém
nem pretende ficar calado e quieto
quando é preciso ser alguém.
a motivação do poeta é
do mais sagrado
há
quem o tome por louco
que diz coisas estranhas
quem o não entenda
quem se ria
quem desdenhe
quem tolere
o poeta "trabalha pro bono"
por vezes com sacrifício da própria vida
a sua motivação não o implica com a desumanidade
nem com os ataques mortíferos e destruidores à natureza
nem com a ignorância e o amorfismo
o poeta não pretende roubar nada
nem tirar nada a ninguém
nem pretende ficar calado e quieto
quando é preciso ser alguém.
sábado, 31 de março de 2018
Como se nada fosse
Há-de haver sempre uma atriz
ou um ator
no lugar onde o teu pensamento
é a forma de alguma dor
que atua
que é tua
que é a tua
de alguém ou de ninguém
à deriva no sem fim
em que tudo se dilui
tão abruptamente quanto a solidão
do silêncio e do frio
da ignorância
dos séculos erodidos
expõe
seus ossos tristes
esbugados
rochedos carcomidos
que o sol devora calmamente
como se nada fosse
como sempre.
sábado, 3 de março de 2018
O poder da literatura
A literatura (da poesia ao ensaio,
passando pelo romance e pela profecia, adivinhação, ladainha, canção, fado,
escárnio, maldizer, drama de faca e alguidar, relatos, de viagens, de todo o
tipo de crónicas e de policiais, até às orações e sermões e elogios...) permite
uma expressão verbal, praticamente sem limites, de todo o tipo de representação
ou signo, sem condicionamentos de lógica, sentido, significado, noção,
conceito, moral, licitude, virtude, respeito, dever, etc.
À literatura nada é vedado, nem a
invenção, nem a mentira, nem a verdade, sobretudo aquela verdade em que tanto
se vive, que é uma verdade feita de falsidades, hipocrisias e mentiras. Na
minha biblioteca de filosofia e de ciência e mesmo de uma grande parte da
literatura (bem comportada) é tudo tão convencional, tão conceitual, tão
voltado para o objeto que pouca diferença faz ler um livro escrito há mil anos
ou um acabado de sair. Dá a impressão de que a vida e a história, as traições,
as trapaças, o assédio, o incesto, as vigarices, os roubos, as violações, as
escravaturas, as guerras ocultas, os ódios inconfessáveis, os fantasmas
invencíveis que atormentam até os mais esclarecidos filósofos e cientistas, as
verdadeiras dores e misérias humanas, da guerra e da discriminação que tantas
pessoas sofrem...dá a impressão de que nada disso acontece. Tudo é transformado
em conceito abstrato, ou seja, em nada mais do que ideia.
A literatura pode, e muitas vezes tem-no
conseguido, "falar" da vida como ela é, sem estar subjugada sequer a
qualquer dever de "falar" e, menos ainda, de "falar" como
deve ser.
Tudo é susceptível de ser utilizado,
tocado, tratado ou maltratado, incorporado, atacado, "destruído",
pela literatura, que pode ser usada como arma impiedosamente letal de religiões
e de costumes e, quantas vezes, de pessoas já mortas, ressuscitando-as em
memórias para as poder matar as vezes que for preciso... ou amar sem limites.
Na minha biblioteca de filosofia e de
ciências e de literatura, só alguns livros de literatura me falam da verdadeira
vida e do pensamento e das ideias e dos fantasmas, dos medos e das tormentas e
das injustiças irremediáveis, da dor que impede os humanos de serem felizes e
da grandeza, da magnanimidade daqueles que, apesar de tudo, garantem, com o seu
trabalho e a sua virtude e o seu talento, a vitória da vida sobre a morte e do
bem sobre o mal.
Ela denuncia as podridões dos malditos e os heroísmos dos justos, ela nos mostra o verdadeiro rosto por trás das máscaras, despertando-nos de ingenuidades perigosas e inocências fatais, chamando as coisas pelos nomes...porque as palavras são, quase sempre, a única arma de que dispomos no conflito interminável com os demónios e os deuses e também é com palavras que podemos construir as nossas asas e as nossas praças fortes, os nossos tribunais e os nossos paraísos de procura e encontro de sentido para os problemas...
Ela denuncia as podridões dos malditos e os heroísmos dos justos, ela nos mostra o verdadeiro rosto por trás das máscaras, despertando-nos de ingenuidades perigosas e inocências fatais, chamando as coisas pelos nomes...porque as palavras são, quase sempre, a única arma de que dispomos no conflito interminável com os demónios e os deuses e também é com palavras que podemos construir as nossas asas e as nossas praças fortes, os nossos tribunais e os nossos paraísos de procura e encontro de sentido para os problemas...
A literatura mostra, patenteia, ostenta,
incorpora pelas palavras tudo o que quiser e puder a imaginação do escritor.
Muitas vezes até faz um aproveitamento desmesurado da importância de certos
assuntos, acontecimentos, realizações, artes, monumentalidades, indo buscar
brilho ao próprio objeto.
Muitos livros de notáveis escritores são constituídos em 90% de "materiais" artísticos, ou potencialmente estéticos, alheios, seja o convento de Mafra, sejam as personagens bíblicas...
Muitos livros de notáveis escritores são constituídos em 90% de "materiais" artísticos, ou potencialmente estéticos, alheios, seja o convento de Mafra, sejam as personagens bíblicas...
Um homem com a sua ciência e a sua
filosofia pode não precisar de uma religião, mas precisa de literatura para
sair do deserto.
Carlos Ricardo Soares
sábado, 27 de janeiro de 2018
Solo
Sento-me na superfície do planeta
na capa externa
das rochas
das rochas
a contemplar
o nascimento do solo
complexo e dinâmico
mineral e orgânico
vegetal e animal
orgástico
por onde o ar e a água circulam
recebendo e redistribuindo
a energia solar
que arde na lenhite
na hulha e na antracite.
quinta-feira, 21 de dezembro de 2017
É preciso entoar
Preciso escrever que
Nem era preciso escrever
Porque nada existe
Que não tenha voz
Pelo menos
Que não diz
Que não seja gesto
Pelo menos
Que não seja nariz
Pelo menos
Que não seja sombra
Pelo menos
Que não seja raiz que
Dizemos
Ou simplesmente
Sabemos que
Não sabemos
Ou apenas ignoramos
A origem
Que não seja força
Pelo menos
Que não seja morte
Entoação
Nem que seja
Ao vento
Caravela de letras
Entoada
Ao mar da sorte
Uma canção
Ao destino
Pode ser
Um cântico
Pode erguer
O peso de partir
À leveza de chegar.
Nem era preciso escrever
Porque nada existe
Que não tenha voz
Pelo menos
Que não diz
Que não seja gesto
Pelo menos
Que não seja nariz
Pelo menos
Que não seja sombra
Pelo menos
Que não seja raiz que
Dizemos
Ou simplesmente
Sabemos que
Não sabemos
Ou apenas ignoramos
A origem
Que não seja força
Pelo menos
Que não seja morte
Entoação
Nem que seja
Ao vento
Caravela de letras
Entoada
Ao mar da sorte
Uma canção
Ao destino
Pode ser
Um cântico
Pode erguer
O peso de partir
À leveza de chegar.
sábado, 9 de dezembro de 2017
Alma de sem abrigo
Este silêncio
se ouve
na asa partida
do vento
a arrancar penas
à vida
pelas ruas da amargura
alma sem guarida
nem pelos sagrados sinais
o eterno
sela as portas do inferno
e abre as celestiais.
segunda-feira, 13 de novembro de 2017
Templo de sombras
Busco as sombras porque a luz fere
para ver mas nem tanto
e para não morrer
por enquanto
descubro com prazer
alguns horizontes de toupeira
nesta galeria labiríntica
da maçã.
quarta-feira, 13 de setembro de 2017
Assim fala o vulcão
No
dia em que as moscas e as ervas
e
os grãos de pó
bailavam
ao sol da tarde
opinando
e dando ordens entre si
como
grandes senhores de tempos remotos
que
sem esforço nem talento
gerem
a seu bel prazer
o
que julgam ser
mas
não é
sentiu-se
um abalo
quando
o vulcão se queixou
tenho
de me sacrificar
porque
já não aguento mais
para
vós é fácil
flores
passarinhos gasosas améns
mas
eu não vou em procissões
para
chegar onde está o verme
não
sabem nem imaginam
a
força e o esforço
que
tenho de fazer
a
rosa e o jasmim tão delicados
quase
nem acordam
e
ao vento dizem sempre sim
mas
eu não tenho aliados
estão
todos aliados
contra
mim
mas
agora que pus a cabeça de fora
vão
ter de me ouvir
até
ao fim
desprezo-vos
e
ao
deus que explorais
vis
animais.
domingo, 20 de agosto de 2017
O Poeta e a Pena
O poeta não se
acobarda
por mais que lhe arda
hoje
diante dos incendiários
não foge
nem esconde
da guerra
da verdade
o amor à terra
o poeta tem numa mão
a espada
com que responde
e na outra a pena.
sexta-feira, 14 de julho de 2017
As verdades e a verdade
Sabemos quais são as
verdades que contam
as dores e as
alegrias de que é feita a vida
e é por elas que nos
sujeitamos na esperança
sempre traída
de nos deixarem viver
de verdade
de não precisarem de
nós
para levarem de
vencida
a maldade
sabemos que não nos
deixam em liberdade
nem depois de
aprendermos a obedecer
convenientemente
porque há um preço
para a vida
e para as verdades da
vida que contam
as dores e as alegrias
de que é feita a vida
e é por elas que nos
sujeitamos na esperança
sempre traída
que nos desvanece o
sonho
as verdades não
chegam para viver de verdade
não nos roubem a
verdade
enquanto nos iludem
com verdades.
domingo, 11 de junho de 2017
Grandiosas falácias
Arrebatado por uma mística de
sábios e artistas
cansei dos prosaísmos
da ordem unida
até as coisas chãs
me pareciam interessantes
ao partir
de improviso
para a cidade dos estudantes
acreditando habitá-la
como um refúgio
do meu aborrecimento
foi breve
o tempo
de viver um sonho
que era interminável
e deparei com monumentalidades
e sistemas sacerdotais
de corifeus paternalistas
de braços abertos a seguidistas
canonistas catequistas
oportunistas
oportunistas
e outros que tais
porém apreciei mais
do imaginário enredo
o cavaleiro que eu era
sem cavalo e sem medo
nem credenciais
convivendo com a fera
dos sagrados sinais
e andava eu nem sei
como não esmagado
pela brutal teia de problemas
e batalhas
que invoquei D. Quixote
e logo vi em debandada
nuvens e nuvens de ameaças
tornando-se claro o céu
melhor se vê que a terra
é um perigo para quem vive
de grandiosas falácias.sábado, 1 de abril de 2017
Nada mais que o mundo
É pouco nada mais que o mundo
é pouco um pouco mais que o mundo não chega para quem quer mais
o mundo é pouco
o mundo é louco de mais é pouco preciso mais. |
sexta-feira, 17 de março de 2017
Dei-me ao cuidado
Toda a vida em redor me inspira
cuidados
cuidados
nenhum de nós tem a cabeça
completamente fora
(ainda que ignore
da própria larva
a lavra
e a dor)
da água que nos afoga
do lugar
no sono
a tormenta de muitos
parece inextrincável
a salvação
o que vive
com ou sem memória
do que fica
depositado no campo
dei-me ao cuidado
expressão triste
mas verdadeira
a vida existe
não tem outra maneira.
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017
Uma desgraça com seu encanto
Não há poema
que te mereça
nem a luz que fica
depois
as palavras
são tudo o que resta
uma desgraça
com seu encanto.
sábado, 11 de fevereiro de 2017
A poesia do vento
O mar ergue-se
sobre o horizonte abandonado
na escuridão
pela memória da luz
à porta do castelo de vento
as sombras perguntam
numa língua inconcebível
de que serve escrever
nas velas.
sobre o horizonte abandonado
na escuridão
pela memória da luz
à porta do castelo de vento
as sombras perguntam
numa língua inconcebível
de que serve escrever
nas velas.
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017
Rios tortos
Todas as árvores fixaram o
meu olhar
e fizeram-me sentir
deixaram-me a chorar
O brilho do estio
naufraga a ave
de pio fatigado
descarnado
de um cadáver adiado
em pedaços
em pedaços
os meus pensamentos
sem leveza
para chegar ao céu
para chegar ao céu
acercam-se da terra
que os alimenta
de rios mortos.
Carlos Ricardo Soares 08.02.2017
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017
Saudade
Minha tristeza
ter vivido
como sonharia
sem poder
vencer
o futuro
desconhecido
do que havia
nunca o imaginado
tempo
parasse
a recuperar o perdido.
ter vivido
como sonharia
sem poder
vencer
o futuro
desconhecido
do que havia
nunca o imaginado
tempo
parasse
a recuperar o perdido.
domingo, 15 de janeiro de 2017
Algum modo ou forma de verdade
Se eu fosse demolidor diria
felizes os que têm prazer de ler o que escrevo
porque são justos e belos
e sãos e santos
e inteligentes e sensatos
e quase perfeitos
mais do que eu
mas escrevo sem recriminações
não como um juiz
nem como um réu
escrevo como um ignorante
que aspira à sabedoria
como um cego
que aspira à visão
como um forte
que não tolera a força
mais do que um fraco
que não se resigna a qualquer sujeição
escrevo como um crente
a esperança e o amor
a racionalidade e a poesia
a expressão de algum modo ou forma
de verdade.
sábado, 7 de janeiro de 2017
O que nasce sem ser semeado
Para haverdes sonhado
o que esperais
sem ser semeado
o dia
dessanguentado
pelas mãos
da noite deâmbula
vos será dado
bálsamo
da melhor oração
quando houverdes o alecrim
dourado
não será pelo vento
mutilado.
o que esperais
sem ser semeado
o dia
dessanguentado
pelas mãos
da noite deâmbula
vos será dado
bálsamo
da melhor oração
quando houverdes o alecrim
dourado
não será pelo vento
mutilado.
quarta-feira, 21 de dezembro de 2016
Palavras que ofereço
O
torturador de palavras
O
seguidor de palavras
O
escravo das palavras
O
senhor das palavras
O
amante das palavras
O
inimigo das palavras
O
sem palavras...
quinta-feira, 17 de novembro de 2016
Para ser científico
Sou contra todas as tentativas de "imposição" de crenças, religiosas, científicas, filosóficas, ideológicas... Mas o que é mais corrente é isso: todos, desde os ateus aos cépticos, não param de tentar "expandir" a sua fé.
Na ciência é a mesma diligência. E por aí fora.
Mas eu sou contra isso, porque sou preguiçoso e não me preocupo com a sorte das pessoas após a vida.
A brincar que o diga, preocupo-me com a sorte dos vivos, tanto daqueles que são vivos de mais como daqueles que são vivos o suficiente para viverem à custa dos menos vivos, ou dos mortos.
A minha preguiça tem a ver com isso, com a preocupação que tanta gente que me não conhece tem por mim. Eles são escritores, poetas, cientistas, papas, políticos, militares, médicos, professores, juízes, polícias, cantores, construtores de automóveis e de aviões, farmacológicas, etc., etc..
Habituado, como estou, desde que nasci, a ver tanta gente envolvida em "guerras" e em "pazes" por minha causa, deixei de me preocupar. Afinal, não preciso de me preocupar.
Mas preocupo-me porque quero paz e liberdade, não quero que me forcem a ser feliz, não quero que sejam infelizes só porque eu não me vou salvar.
Enfim, a minha preguiça não vai tão longe que eu não queira dialogar.
Então, sempre que me aparece um artista, um cientista, um "iluminado", um político...que me quer salvar, eu agradeço e peço apenas uma coisa em troca de ouvir: que me deixem falar tanto quanto os ouça.
E marco no relógio. Para ser científico.
Assim, eu tenho alguma certeza de estar de igual para igual.
quarta-feira, 12 de outubro de 2016
Entre nós
Não há nada
para decifrar
pergunta nenhuma
para responder
se a felicidade é
um não problema
se a competência
para escolher
o melhor
é uma forma desajeitada
de pensar
para além de nós.
para decifrar
pergunta nenhuma
para responder
se a felicidade é
um não problema
se a competência
para escolher
o melhor
é uma forma desajeitada
de pensar
para além de nós.
domingo, 14 de agosto de 2016
Vem
Vem pernoitar no escuro
até onde só eu
te encontre
no silêncio
até onde só tu
me ouças
na doçura
até onde só nós
estejamos
na música
até onde
só nada ouçamos
só nada ouçamos
na loucura
até onde só nós
chegamos.
chegamos.
sábado, 9 de julho de 2016
Todos nos lembramos e não sabemos
Todos nos lembramos
de algum dia salvo
de não ser verdade
que continua a matar-nos
de saudade
na eternidade da espera.
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