segunda-feira, 18 de novembro de 2024
Aproximações à verdade XXXIII
quinta-feira, 14 de novembro de 2024
Direitos e Deveres/Bem e Mal
É o menor dos teus deveres
Que não faças mal
Não causes dano
Não prejudiques
Nem estorves ninguém
E
Se não fizeres bem
Se não ajudares
Fazes mal
Mas se fizeres mal
Porque queres
É o maior dos teus deveres
Que não fujas de responderes.
Carlos Ricardo Soares
domingo, 10 de novembro de 2024
Eu canto para ti - 6
Como uma multidão de vozes
Põe o tempo à espera
Eu canto para ti
Porque me encontraste
E eu pude descobrir
Quem era.
sábado, 9 de novembro de 2024
O Homem vive sob a égide do dever-ser (a escolha certa e a melhor escolha)
No intuito de elucidar alguns conceitos que usei no anterior artigo intitulado "O Homem é um animal que censura", chamo a atenção para este ponto: o dever-ser, sob cuja égide um ato se processa, não é apenas, nem se reduz, ao dever ético, ou moral.
Tenho constatado que alguns leitores entendem o meu conceito de dever-ser na acepção de dever ético e que, nesse sentido, quando uso a expressão "dever-ser" estou a falar de questões de ética. Mas é preciso destrinçar o que quero significar com "dever-ser" do que quero significar com dever ético, ou dever estético, ou dever moral, ou dever científico. Sem esta destrinça, toda a riqueza e alcance inovador do conceito de "dever-ser", como o formulo, ficam desaproveitados.
A ética é um dos modos de manifestação do dever-ser, como condição que rege o ato, que emana da consciência/racionalidade e dita a escolha.
Assim, quando refiro, por exemplo, o dever-ser da ciência como dever de verdade, isto não significa que o dever de verdade da ciência é um dever ético.
Os deveres éticos são especificamente éticos, assim como o dever-ser estético não é ético, nem científico.
Então, é importante considerar, por exemplo, que a ciência e a estética são eticamente neutras. Não é da sua essência serem éticas, e também podemos afirmar, do mesmo modo, que não é da essência da ética, ou da estética, serem científicas.
Em qualquer situação humana de escolha, seja científica, ética, estética, económica, moral, etc, a escolha obedece a representações do que serão os efeitos dessa escolha, num processo de racionalidade em que, perante as possibilidades, a escolha incide sobre a melhor das alternativas, ou a melhor das possibilidades.
No caso da escolha de verdadeiro/falso não há considerações de requisitos estéticos, nem éticos. Nos casos de escolhas éticas, ou estéticas, por sua vez, também não há considerações de requisitos científicos.
Em qualquer caso, não obstante, tanto a escolha de (1)verdadeiro/falso como a escolha (2) ética, ou (3)estética, resultam da consideração/avaliação e representação que o indivíduo faz da escolha certa (1), ou da melhor escolha (2) e (3), melhor em sentido estrito porque, efetivamente, a escolha certa, como vimos, também é a melhor.
Carlos Ricardo Soares
sexta-feira, 8 de novembro de 2024
Eu canto para ti - 5
Canto o delírio
De crer que a eternidade
É como um cofre forte
Que guarda os tesouros
Depois da morte
(continua)
quinta-feira, 7 de novembro de 2024
Eu canto para ti - 4
Quem dera que o meu canto
Te dissesse quanto
Gostaria
Que fosse sempre
Tarde de mais
Para partir
Como um cristal plangente
(continua)terça-feira, 5 de novembro de 2024
Eu canto para ti - 3
Canto para ti
Baladas ao vento que passa
À porta da tua ausência
Por um ar da tua graça
À porta da tua ausência
(continua)segunda-feira, 4 de novembro de 2024
Eu canto para ti - 2
Como se pudesse salvar a vida
De um pássaro preso
Numa tempestade de silêncio
A caminho da noite prometida
(continua)domingo, 3 de novembro de 2024
Eu canto para ti - 1
Eu canto para ti
Como se ouvisses maio a florir
No fundo da memória esvanecida
(continua)sexta-feira, 1 de novembro de 2024
O Homem é um animal que censura
Diria que o Homem é um animal que censura.
O que eu afirmo é que vivemos, a humanidade vive, sob a égide do dever-ser, como já tenho repetido a propósito da minha teoria unificadora acerca da faculdade da racionalidade, neste caso, humana, como condição “sine qua non” das escolhas, que o ser humano tem de fazer em cada momento do seu estado de consciência, como se esta, realmente, seja o “modus operandi” do acto de escolher, que o é, mesmo quando é aleatório, ou omissivo.
Em todos os casos, ainda assim, a escolha é um acto e isto significa que mesmo quando é arbitrário, o é por escolha. Esta resulta de um processo de avaliação por antecipação do efeito da escolha.
A representação antecipada daquilo que se escolhe é inerente ao processo de escolha, tanto nos casos de escolha teórica, filosófica, científica, de verdadeiro ou falso, como nos casos de escolha prática, estética, económica, ética, moral, jurídica em que, normalmente, a bondade da escolha não depende fundamentalmente de um silogismo, como nos casos do verdadeiro falso, mas de uma ponderação “a posteriori” dos custos de oportunidade, entendidos “lato sensu”.
Não vou aqui referir implicações filosóficas, científicas, sociais, políticas desta constatação, porque se trata de uma constatação, pelo menos plausível, da realidade e não de uma ideologia, política, doutrina, proclamação, acerca da realidade, nomeadamente implicações resultantes do confronto com teorias kantianas sobre a razão e sobre imperativos morais, mas quero assinalar que o imperativo para o homem, da inelutabilidade natural da escolha, o coloca, por força da racionalidade/consciência, ou consciência/racionalidade, perante todo o tipo de problemas cuja solução é a que deve-ser, não apenas segundo a ética, ou a moral, ou a estética, ou a economia, ou a ecologia, nos casos das escolhas/crenças/investimento/apostas, mas também a que deve-ser nos casos das escolhas/confirmações/provas/revisões dos enunciados de verdadeiro/falso, dos discursos filosófico-científicos. Uns e outros, como produtos culturais que são, não podem deixar de ser como devem ser.
E isto que eu afirmo com toda a simplicidade é uma pequena diferença na análise e na descrição do acto como processo de consciência (obviamente individual), que faz toda a diferença no entendimento acerca dos comportamentos humanos, nomeadamente acerca de uma evolução cultural para melhor, de tal modo que, mesmo quando se recuperam valores perdidos, isso não é um retrocesso.
segunda-feira, 28 de outubro de 2024
A presença faz toda a diferença
domingo, 27 de outubro de 2024
O virtual e o real - a multiplicação da confusão
Lá fomos tomando juízo
E aprendendo a distinguir
No meio da confusão
Que em vez de diminuir
Se multiplica
Por alguma causa
Há sempre uma causa
Ainda que desconhecida
Mas nem sempre temos razão
E é necessário ter razão
Conhecer a razão
Qualquer que seja a causa
Lembrar esquecer
Acordar adormecer
Sofrer a sonhar
Sonhar a sofrer
A amar sempre
Como sempre
Odiar
Como nunca
Tirar lições da vida
Do que podemos ou não
Fazer
Do que é ou não permitido
Quais delas as mais difíceis
Nem tudo é para dizer
Nem tudo é para calar
Nem tudo é para ver
E muito do que se vê
Não é flor que se cheire
Ou deva tocar
E muito do que se quer
Não é para possuir
Ou dispensar
Nem tudo é para ouvir
E muito do que se ouve
É melhor ignorar
Mas sempre podemos sentir
E afinal pensar
Nas lições e nas interações
Da vida
Do ter do ser e do saber
Fazer
O bem e o mal
Além do virtual.
terça-feira, 22 de outubro de 2024
Conhecimento e o conhecimento de si mesmo - 3
Seria pela razão de não saber o que é a consciência?
Carlos Ricardo Soares
sábado, 19 de outubro de 2024
O tempo de cada um, o nosso tempo e o tempo de ninguém - I I I
O tempo de cada um, o nosso tempo e o tempo de ninguém - II
sábado, 28 de setembro de 2024
Conhecimento e o conhecimento de si mesmo - 2
Na sequência do texto anterior é, de qualquer modo, importante prestar atenção no seguinte.
Se tenho dimensões que só ao meu conhecimento serão acessíveis (serão, se ainda não são), o conhecimento propriamente dito dessa esfera subjetiva não é algo que não dependa do que eu tenha adquirido e aprendido, ou seja, a forma como me vejo e me analiso e me interpreto e me julgo e me avalio, me penso, me sinto e me projeto, é algo inerente à minha relação umbilical com a cultura e com as linguagens que fazem parte dos meus repertórios .
Mesmo que eu diga “sou quem só eu sei”, “sou quem poderei ser e não aquilo que sou”, todas as representações que isto envolve ou tem subjacentes, não são, digamos, minhas, nem de ninguém em particular.
Os processos de consciência e de escolha, mesmo do que pensamos, com mais ou menos confiança na sua consistência e implicações, operam segundo o dever-ser, em função do que deve-ser. E os processos de auto-conhecimento não escapam à regra.
Ora, esta égide do dever-ser, nos processos de pensamento racional, de juízos, de escolha, de ação, seja científica, ética, moral, estética, religiosa, ou outra, é uma função mental originada e situada na cultura e na sociedade.
No mais recôndito e no mais íntimo do indivíduo, a subjetividade consiste mais na inacessibilidade, na imprescrutabilidade e na privacidade dos pensamentos e dos juízos, do que na sua incomunicabilidade. Esta incomunicabilidade está mais associada a uma incompetência, seja do emissor seja do recetor, devida, por exemplo, a uma linguagem deficiente, limitada, ou deficientemente utilizada.
Todavia, se falarmos de estados mentais como, por exemplo, a experiência musical, a experiência do silêncio, do devaneio, da fantasia, do sonho, dos sentimentos, das emoções e das sensações das qualidades, pelo menos enquanto não derem origem, ou não as transformarmos em pensamentos e juízos, operam fisicamente e não são expressáveis, ou comunicáveis. Em grande parte das situações, como estas, ainda assim, poderemos considerar a ocorrência de fenómenos de empatia, de simpatia, de comoção e compaixão que não deixam de ser, a seu modo, modos de expressão, de comunicação e de compreensão que, aliás, têm a primazia e não dependem de outras linguagens para se manifestarem.
Carlos Ricardo Soares
sexta-feira, 27 de setembro de 2024
Conhecimento e o conhecimento de si mesmo - 1
FALAR DE SI MESMO E DA SUA RELAÇÃO COM O MUNDO (refletir sobre si para compreender-se a si próprio e fazer-se compreender pelos outros)
Ainda acerca da máxima, ou aforismo “conhece-te a ti mesmo”.
Se eu procurar saber quem sou, na perspetiva do que “dizem” o que sou, quem sou, seja na perspetiva das ciências, física, química, biologia, humanas, sociais, económicas, médicas, seja na perspetiva da ética, moral social ou individual, da ideologia, ou da religião, isso equivale a procurar saber sobre algo que me é objetivo e exterior, como um objeto que se oferece à possibilidade de conhecimento.
Ainda assim, se eu procurar saber quem sou, nessa perspetiva, tal não representa a mesma coisa que eu procurar saber quem tu és, ou o que é, por exemplo, uma árvore, ou o sol, ou a força da gravidade. Se eu procurar saber quem tu és, naquela perspetiva, e há outras, muito do que se poderá legítima e cientificamente conhecer sobre ti será válido também para todos os humanos, incluindo-me, obviamente. Desta forma, trata-se de ter um conhecimento de ti e de mim, da nossa natureza de seres humanos como os outros o que, sendo relevante e essencial, numa perspetiva de objetividade, nada diz sobre a tua, ou a minha condição individual e particular, a tua ou a minha história, nem sobre os teus, ou os meus estados mentais, nem sobre a tua ou a minha autoconsciência psicológica, cultural, social, ética, moral, estética, económica, etc..
É nesta acepção que me parece fazer sentido, com seu quê de desafio “atreve-te a conhecer-te a ti mesmo”, de provocação “ousa conhecer-te a ti mesmo”, de advertência “é preciso que te conheças, não apenas no sentido em que os outros te podem conhecer, mas no sentido em que há uma parte, ou dimensão de ti que é só tua e que só a ti é acessível, ou te será acessível se fores capaz de te conhecer a ti mesmo”.
Carlos Ricardo Soares
quarta-feira, 18 de setembro de 2024
O tempo de cada um, o nosso tempo e o tempo de ninguém - I
domingo, 15 de setembro de 2024
Aproximações à verdade XXXII
Hilário: és feliz?
Amiga: às vezes, e tu?
Hilário: eu não sei, nem sei se a felicidade existe
Amiga: queres que te diga?
Hilário: se pudesses mostar-me a felicidade, agradecia
Amiga: eu aposto que és feliz e não sabes
Hilário: e é possível alguém ser feliz sem saber?
Amiga: o ser não é da mesma ordem do saber
Hilário: não sei o que queres dizer
Amiga: e isso não impede que o diga
Hilário: mas então como é que sabes se és feliz?
Amiga: perguntei ao vento
Hilário: a sério? Ao vento?
Amiga: achas que devia ir ver na enciclopédia?
Hilário: mas se não sabes o que é a felicidade, como é que sabes se és feliz?
Amiga: sou feliz e não é por saber dizer, ou não, o que é a felicidade, nem ando atrás dela
Hilário: até podes acreditar no que estás a dizer, mas é algo contraditório
Amiga: e tu não sabes o que é a felicidade, nem sabes se és feliz?
Hilário: talvez me sentisse feliz se soubesse dizer-te o que isso significa
Amiga: mas isso é estranho, devia ser ao contrário, talvez soubesses dizer o que isso significa, se te sentisses feliz.
Carlos Ricardo Soares
sexta-feira, 13 de setembro de 2024
Aproximações à verdade XXXI
Hilário: tu e eu tocamos
Amiga: e cantamos a mesma canção
Hilário: tu pões a ênfase na letra
Amiga: tu pões na música
Hilário: a mesma canção
Amiga: canções diferentes.
Carlos Ricardo Soares
domingo, 1 de setembro de 2024
Aproximações à verdade XXX
Hilário: que livro andas a ler?
Amiga: o primeiro volume de «As coisas não têm de ser como são»
Hilário: já vi à venda aqui
Amiga: se quiseres comprar o segundo volume, depois trocamos
Hilário: cada volume tem mais de 400 páginas
Amiga: isso para leitores como nós não é nada
Hilário: não brinques, deves ter lido páginas que dão muito que pensar
Amiga: andaste a ver a amostra que está disponível no site
Hilário: aquilo que li é muito impactante, tipo terramoto de ideias feitas
Amiga: sim, mas deixa-me a pensar que vivo num mundo diferente e melhor do que julgava
Hilário: o autor está sempre a questionar a cultura e os valores
Amiga: mas não é fatalista, nem deixa lugar para a resignação e mostra a cada passo que, se te entristece e revolta que as coisas sejam como são, na verdade, esse é um passo necessário para melhorar, porque nada tem de ser como é.
Carlos Ricardo Soares
terça-feira, 27 de agosto de 2024
Valor, preço e utilidade
A própria Escola, desenhada por, e para, elites cultoras do não venal, ou espiritual, que detinham, porém, as vantagens do venal, foi sendo crescentemente crítica da venalidade, na medida em que a não venalidade ganhou ascendente e reclamou para si a primazia dos valores culturais e da sua respeitabilidade.
Então, o facto de alguém, por exemplo, ser perdulário, ou viver luxuosamente, não devia ser entendido como materialista, mas como desprendido da materialidade, sem apego ao dinheiro e aos bens materiais.
Ainda assim, não nos iludamos com a magia das palavras.
A Escola, os professores, o próprio conhecimento, não podem ficar dependentes, nem eternamente à espera de quem se enamore e se apaixone por eles, ou pelo valor deles, cada vez menos promovido, mas que não tem preço. E aí entram os tais valores venais, o preço em vez do valor, e as relações, ou casamentos (dissolúveis), por interesse. Um pouco à semelhança de «quem não tem cão caça com gato».
domingo, 25 de agosto de 2024
Tesouros e paixões
A força da paixão
Quem a conhece?
Não estou a falar de objetivos
Nem de devaneios
Ou ambição
Diz-me se tens alguma paixão
Diz-me qual é a tua paixão
E talvez te compreenda melhor
Alguém que tem uma paixão
Tende a organizar a sua vida à volta dela
E vai sacrificando tudo por ela
Paixão não é o mesmo que objetivos
As pessoas tendem a organizar a vida
Em função de objetivos convenientes
Ou planos eficientes de realização
De vantagens de sobrevivência
Mas paixão é diferente
Sobrevive-se para ela
É pessoal e pode ser impercetível
Para os outros
Pode ser desastrosa como um vício
Ou uma dependência muito forte
Muitas vidas e muitos destinos
São decididos ou sacrificados a paixões
E não há como lamentar certas paixões
De artistas e de estudiosos
De poetas e sonhadores
O amor ardente dos criadores
Que estão fascinados
Como abelhas obreiras
Com a realização de uma grandeza
Que colocam sempre em primeiro lugar
Porque dá à própria vida
O sentido que almejam dar.
Carlos Ricardo Soares
sexta-feira, 16 de agosto de 2024
A coisa e "a coisa em si"
O real é uma experiência
De outro mundo
Que faz perder o pé
Quando procuras saber
Como deve ser
O que é.
Carlos Ricardo Soares
sábado, 10 de agosto de 2024
Leis de acontecer o que aconteceu
As coisas acontecem
Por elas próprias
O tempo passa
Enquanto tento perceber
Porque é que tudo o que faça
Se puder
Só pode alterar a forma
E não a matéria
De acontecer
E chamam a isso
Leis da natureza
Do ser
Mas não acho graça
Não deve ser assim
O nada
Impopular
Vazio do homem
Carlos Ricardo Soares
segunda-feira, 5 de agosto de 2024
Aproximações à verdade XXVIII
Hilário: sortudos são os que prescindem de mercado e de público, porque se contentam a si mesmos
Amiga: e há alguém assim?
Hilário: não sei, mas parece que concordas com a minha bem-aventurança
Amiga: estás a colocar uma questão dos diabos porque, se as pessoas se contentassem a si próprias, não se esforçavam tanto para ganhar os mercados e as aprovações dos outros
Hilário: o reconhecimento daquilo que se faz nem sempre acompanha o valor e o mérito daquilo que se faz
Amiga: tu passaste a vida inteira a preparar-te para fazeres o cristo nas argolas e, agora que deixaste as competições, de que é que te serve?
Hilário: eu ainda estou para perceber por que razão investi uma vida numa habilidade que só tem valor como espetáculo, se for bastante espetacular, caso contrário...
Amiga: nunca pensaste que estavas a desenvolver uma arte para teu próprio prazer e realização pessoal, como por exemplo, a poesia, ou a música?
Hilário: em momento algum pensei que passaria o resto da vida a divertir-me com as habilidades adquiridas na alta competição
Amiga: não é coisa que uma pessoa aprenda a fazer com o objetivo de se divertir e de ocupar os tempos livres
Hilário: ao menos, tu tiraste um curso e fizeste sempre tudo pelo prazer de satisfazer a tua curiosidade e de mostrares a ti mesma que eras capaz de algo importante
Amiga: deves estar a brincar, não?
Hilário: o mais importante é a satisfação e os frutos que podes colher daquilo a que te dedicas
Amiga: infelizmente, as pessoas falam muito nesse sentido, sem porem a tónica naquilo que fazem, se gostam ou não, se se sentem realizadas, se se sentem bem, para não dizer felizes.
Hilário: o que me faria feliz, não sei. O que me faz feliz é ter a possibilidade, em cada momento, de procurar e de obter satisfação para as necessidades e para aquilo que devo pensar e fazer
Amiga: também podes encontrar isso num emprego
Hilário: dadas as circunstâncias atuais, talvez tenhas razão. Mas depende muito mais do que são as minhas necessidades do que daquilo que posso fazer para as satisfazer
Amiga: seja como for, o problema de se contentar a si mesmo sem ser através dos outros, pelos outros, é algo enigmático e redutor e apresenta-se como hostil, mesmo que a intenção seja simplesmente prescindir dos outros, como se os aliviasses de um peso que, no fundo, tomas para ti, sem que te agradeçam.
Carlos Ricardo Soares
domingo, 21 de julho de 2024
Aproximações à verdade XXVII
Amiga: já tens ideias para o que vais fazer este verão?
Hilário: um dia saberás
Amiga: eh lá, isso até parece o título de um romance
Hilário: quem sabe se já foi ou ainda será?!
Amiga: a única coisa que sempre quis e ainda não realizei
Hilário: um romance
Amiga: tu sabes: escrever um romance
Hilário: tens todas as condições para isso
Amiga: a imaginação não basta
Hilário: mas é necessária, ninguém escreve um romance do que lhe aconteceu
Amiga: é isso, comigo não acontece nada, mas imagino tantas coisas?!
Hilário: aproveita as férias
Amiga: ando com ideias para o meu romance “Um Verão a dois”
Hilário: mal posso esperar para ler
Carlos Ricardo Soares
sexta-feira, 12 de julho de 2024
Em nome próprio
Certamente já pensaste no que poderá ser diferente disso, e nas implicações possíveis, de pensares e manifestares-te em nome próprio, nem que seja uma vez na vida.
Eu senti a necessidade de me posicionar e de me manifestar, em nome próprio, desde que comecei a escrever poemas e textos reflexivos.
E esta necessidade foi sendo mais acentuada quanto mais, por razões académicas e profissionais, me sentia vinculado ao dever de representar os autores e as disciplinas, interpretar as normas e os códigos, procurando, tanto quanto possível, não trair a letra e o espírito do seu pensamento.
Mas, chegado o momento de falar em nome próprio, em boa verdade, de que é que se pode falar e o que se pode dizer, propriamente dito?
quinta-feira, 4 de julho de 2024
Aproximações à verdade XXVI
Hilário: qualquer pessoa sabe muito mais do que sabe que sabe
Amiga: muito mais e para além
Hilário: mas vale a pena dedicar atenção e pensar acerca do assunto
Amiga: isso é metacognição e é essencial na aprendizagem
Hilário: saber mais do que sabemos que sabemos é apenas um efeito de não ser possível monitorizar completamente a nossa memória, seus repertórios e processos de pensamento
Amiga: uma grande preocupação com a metacognição pode sobrecarregar a memória com problemas meramente teóricos e intelectuais
Hilário: em casos extremos pode ser paralizante, se tentares monitorizar comportamentos reflexos ou de rotina
Amiga: se sempre que deres um passo quiseres ter o controlo de tudo o que está a acontecer e, ao mesmo tempo, quiseres ter o controlo do que estás a perder por não pensares noutras coisas, etc, o melhor é “delegares” certas tarefas a esses operadores automatizados
Hilário: não conseguiríamos fazer o que fazemos se muitas das tarefas não fossem resolvidas por hábito, sem termos que pensar
Amiga: por hábito, por instinto, por natureza
Hilário: mas muitos dos nossos hábitos começaram por ser atos pensados que fomos repetindo até termos a sensação de que fazemos as coisas sem termos de pensar nelas
Amiga: o homem é um animal de hábitos
Hilário: se fossemos capazes de reforçar positivamente apenas bons hábitos e de reforçar negativamente os maus, a vida seria mais fácil
Amiga: isso permitir-te-ia a proeza de seres feliz sem pensares que o eras, sem teres a noção
Hilário: não sei se gostaria de me habituar a não ter que pensar
Amiga: eu fui-me habituando a pensar cada vez mais em tudo.
Carlos Ricardo Soares
quinta-feira, 27 de junho de 2024
Sobre a anatomia do pensamento
Sabemos o que é a lógica? Existe lógica sem uma linguagem?
Não confundamos racionalidade, consciência e lógica. Esta é um fenómeno linguístico, a racionalidade não.
Quanto ao pensamento, ele começa por se estruturar na consciência e na racionalidade, mas só se torna um problema de lógica com a linguagem.
Esta é a minha tese sobre a anatomia do pensamento.
Carlos Ricardo Soares
terça-feira, 18 de junho de 2024
Linhas de orientação
Linhas de orientação
Na linha do que disseste
Não são linhas ténues
À volta da fogueira
Ou dos vigilantes do museu
Que ninguém conhece
Porque não há intérpretes
Privilegiados
Que se aproximem o necessário
E o suficiente
Do que não foi feito para eles
Cada vez mais sós
Os que estão sós
Os que não têm ninguém
Que os defina
Por não estarem ligados
A nenhuma mágoa encantadora
A alguém
Que os mata
De um mundo morto
Ou agonizante
Aparte póstumo
Testemunho que sobra
Sem remédio
Porque nada diz
E nada retira ao que disse
Que nunca se perdeu
Nas distrações felizes
Do acaso
Num teatro humano
E tempo desumano
De caça ociosa
Como modo subtil de vida
E de liberdade
Como se aí estivesse a razão
E o ser absorvido na difusão
Dos lugares e das obras
Presenças e fugas
Preponderantes
Da posse da própria vida
Afeições de versos e deriva
Destino abandonado ao jogo
Que o destino é de aparências
Inquietações de poeta
Impressões de vagabundo
Que separa junta e aproxima
Eroticamente
Aberturas de fuga ilusória
E de gozo
Entre objetos e sentidos simultâneos
Quando a melodia e o baile
Bem poderiam ser reais
Se a morte não fosse mais
Do que a mortalidade
Uma obscuridade
Embrulhada em suspiros
Impossíveis desabafos
Chamar liberdade ou amor
À perdição
Poemas sem juízo
Rosas em silêncio no tumulto
Dos lábios
Dedos sobre as cordas
De um instrumento de feições
De alegria de fantasmas
Louca e fugaz como a fala
Que contrabandeia literatura
Como forma de prazer
Sem compromisso
E sem mais intimidade
Que a decisiva
Como se houvesse lugares
Essenciais
Por serem interditos
Nada é mais belo
Do que escapar
Aos significados de uma vida
Sem paz
De densidades insolventes
De pedras que crescem
Como se os cristais uivassem
Quem somos
Ou dores enraizassem mais fundo
Que o sentimento de resgate
De nós
Não apenas sós
Os que estando sós
Não são ninguém
Como nós.
Carlos Ricardo Soares
quarta-feira, 5 de junho de 2024
sexta-feira, 31 de maio de 2024
Aproximações à verdade XXV
Amiga: não te precipites
Hilário: onde está o precipício?
Amiga: não me assustes, não estava a pensar num precipício
Hilário: eu também não, tu é que falaste
Amiga: precipitei-me
Hilário: quem é que nunca se precipitou?
Amiga: não brinques
Hilário: sou uma pessoa com quem se pode brincar
Carlos Ricardo Soares
segunda-feira, 27 de maio de 2024
Estrelas do mar
Réstias porosas
De mar
No âmago
Quimeras
Conchas da mão
Remota
Espera calcária
Luar de encantos
Fossilizado
Verão
Que oscila
E a maré supera.
Carlos Ricardo Soares
segunda-feira, 13 de maio de 2024
O bem e o mal
Não colocaria o problema em termos de bem e de mal.
Mas tenho a percepção de que, historicamente, há processos que parecem confirmar que, por exemplo, o movimento dos revolucionários tende a tornar-se naquilo que combatem, e não numa alternativa, ou seja, o que achavam mal era mau porque não eram eles a fazê-lo.
Isso parece-me muito claro se pensarmos no fenómeno da (des)colonização, ou, para ser mais obsidiante, em certos comportamentos, nomeadamente, sexuais.
Carlos Ricardo Soares
terça-feira, 23 de abril de 2024
Os Direitos do Homem são como um pau de dois bicos
As declarações de direitos humanos não são um pau de dois bicos mas, pelo menos, de três. Não é correto considerá-las como a outra
face (dos deveres) da mesma moeda. Sabemos da experiência corrente, quotidiana, que um dever refere-se a um exercício enquanto um direito se refere ao exercício e ao gozo. Os direitos e deveres humanos,
não estou a falar de direitos e deveres de origem contratual, que são a maioria, e nestes ressalta a negociabilidade, por exemplo, da liberdade, não têm correspondência sinalagmática,
de reciprocidade e igualdade restrita. Animais, crianças, incapazes, inimputáveis, são exemplos de direitos sem correlativos deveres.
Ainda antes de passar a outra questão, a metáfora
dos dois bicos, aplicada de um modo geral aos direitos do homem, parece-me muito interessante e ilustra muito bem a ideia de que ao apontarmos o bico para o outro estamos a apontar outro para nós.
A questão da razão de ser, que não confundo com a fundamentação teórica, dos direitos e dos deveres, as declarações de direitos
não carecem de ser complementadas com uma declaração de deveres, a não ser que não sejam universais, porque nesse caso é necessário discriminar os direitos e os deveres.
Se
perguntarmos porque surgiram e porque se afirmaram as proclamações da liberdade e da igualdade, não podemos deixar de pensar que na sua génese, histórica e cultural, está uma razão
de ser que é uma evidência lógica, em geral e abstrato. Uma coisa são os factos, a liberdade e a igualdade concretas e outra são os direitos, o direito. Aquelas não devem deixar de
ser “julgadas” à luz do direito.
A questão da dignidade humana, em meu entender, tal como a questão da dignidade dos outros seres vivos, radica na mesma lógica do direito, da igualdade
e da reciprocidade.
No caso dos humanos, a dignidade, ser digno de direitos, pode ser interpretada em várias perspetivas, mais ou menos paternalistas e hierárquicas, por exemplo, o direito como algo que
é concedido por quem tem o poder (no limite, de vida e de morte), religioso, político, militar, económico, como algo que tem a sua fonte numa relação de forças de cujo atrito se alcança
algum equilíbrio, no entanto, a Declaração Universal dos Direitos do Homem parece ir mais longe e colocar a tónica no facto, e no princípio, de que os direitos humanos são individuais,
pessoais e não estão (não devem estar), na esfera de disponibilidade de quem quer que seja, inclusive do próprio indivíduo. Não são, nesse aspeto, um título, ou um estatuto,
hierarquicamente conferido, ou concedido, como acontece, por exemplo, no caso do cidadão.
Digamos que ninguém nos pode dar o que é nosso e, menos ainda, como tantas vezes foi prática e continua
a ser, vender-nos o que é nosso.
Aliás, os Direitos do Homem não dependem de estarem escritos ou reconhecidos em algum lugar, inclusive nessa Declaração, o que torna este documento, também por isso, um grande pilar da civilização.
Em termos de hierarquia, eles estão no topo da pirâmide, justamente no lugar onde as religiões colocavam Deus, por herético que isto lhes soe.
Mas esta
dignidade tem o reverso da medalha: a violação de um valor tão alto é mais grave do que a violação de um valor mais baixo. E essa dignidade do homem não o dispensa, nem o põe
a salvo de ter que responder por ela.
Carlos Ricardo Soares
segunda-feira, 8 de abril de 2024
A inteligência é uma quantidade?
Mas já é frequente depararmos com robots que se fazem passar por humanos e que fingem sentir, emitem opiniões, crenças, preferências ideológicas e todo o tipo de considerações valorativas. Podem fazê-lo através de uma linguagem verbal do senso comum ou pelo recurso a imagens e audiovisual sofisticado, de modo a serem o mais atrativas e convincentes possível.
Que visão pode ter a IA sobre a vida e a morte? Ela responde que não tem visão, mas que os humanos têm e têm discutido sobre isso. Mas nada impede que uma IA “insincera”, maliciosa, ou perversa, estabeleça diálogo em que se faz passar por um humano com visão sobre os problemas humanos.
Se a inteligência, incluindo a IA, servisse para resolver problemas, práticos ou de linguagem, técnicos ou de outro tipo, mas não pudesse criar problemas, que não é suposto criar, diria que a inteligência é o que há de mais parecido com o conceito de sabedoria, visão das realidades na melhor das perspetivas possíveis.
Nem precisava de conceber a inteligência como a visão absoluta, ou do ponto de vista da eternidade, ou da totalidade, a consciência definitiva como saber se um comportamento, uma escolha é inteligente. Bastava definir inteligência como capacidade de adotar comportamentos e de fazer escolhas, como deve ser, não apenas numa perspetiva temporal e espacial atual, mas naquela perspetiva que não temos e que nada, nem ninguém, nos pode dar, de um futuro juízo final que só na imaginação dos homens tem existência.
Ainda assim, e porque a inteligência é algo de pessoal e só em parte se manifesta em jogos de linguagem, designar a IA de inteligência é reduzir o conceito de inteligência a funções de linguagem, por mais que isto nos convença de que os poderes da linguagem para produzir conhecimento, sem recurso à observação e à experimentação, tão caras à ciência experimental, ultrapassam tudo o que podemos imaginar.
Depois das críticas tão severamente concertadas aos autores de universos fechados que desenvolveram e produziram teorias e visões, a partir da sua imaginação, acabamos rendidos à capacidade de um Fernando Pessoa, de um Einstein e da IA para nos darem conta de realidades inegáveis que não é possível observar.
Carlos Ricardo Soares
sábado, 16 de março de 2024
Do mundo ilusório dos desejos
Sem consciência das realidades somos cegos ou, o que é pior, sonâmbulos perigosos e irresponsáveis. A educação e o ensino não são fins em si mesmos e é mais do que tempo para os especialistas em educação e ensino dizerem de sua justiça. O que faz com que muitas pessoas, que não são especialistas num assunto importante para elas, questionem e falem dele e tomem posição, não raro, tem a ver com a falta ou o vazio de soluções.
Aconteceu isso com a metafísica e as teodiceias e as teologias, mas foi preciso construir catedrais para dinamizar a economia e impulsionar o desenvolvimento em geral. É fundamental sobretudo dar sentido ao que se faz, se produz e se constrói. É para isso que também serve a educação e temos visto que, de vários modos, mais ou menos imprevistos e incontroláveis nas suas causas, fomos traídos pelo rumo que o progresso tomou.
O empoderamento garboso e triunfante de determinadas elites financeiras e políticas, e mesmo científicas e culturais, como se tudo a elas e só a elas se devesse, excepto as externalidades negativas, era aquilo de que não precisávamos mas que, se o tivéssemos previsto, nem por isso teríamos podido evitar.
Qualquer rumo, qualquer projecto, na educação e na política, em geral, começa com objectivos e propósitos cujos pressupostos de realização e de sucesso, em grande parte, são uma incógnita que se projecta num futuro incerto e ameaçador. Por mais que o saibamos, não temos como evitar esta exposição aos efeitos imprevisíveis e incontroláveis.
De um momento em que a educação é projectada em contextos de paz, de benevolência e entusiasmo, para dinâmicas e fins pacíficos, depressa se cai numa situação brutal de guerra, que nos faz sentir ingénuos e desprevenidos, ou incautos, culpados, ainda que arrependidos, de o termos sido, de termos confiado de mais na bondade e na alegria de construir pontes e edifícios e paraísos, que outros se comprazem em destruir e conspurcar. E isto é uma lição, mas também é um choque e uma condição que determina mudanças de rumo. É que, nem a educação, nem a economia, nem a política, nem a vida em geral, se deixam conduzir dócil e garantidamente, a partir de modelos, de verdades prévias, de futuros antecipados, e de boas intenções. Mesmo aqueles objectivos que temos por mais valiosos e justificáveis do esforço construtivo da sociedade, sem que o queiramos, podem ter que ser substituídos e adaptados a esforços bélicos, armamentistas e militares, numa tentativa de, pelo menos, salvar o que for possível daquilo que se andou a construir com tanto labor e sacrifício.
O mundo ilusório deixou de o ser apenas para os poetas. Até para estes as prioridades passam a ser outras, no campo de batalha os jovens precisam de saber trabalhar e sonhar com armas tecnológicas e com sistemas de comunicação e isso não se aprende numa recruta de três meses, como era há uns anos. É uma ironia trágica que os jogos de guerra das consolas das crianças, que tanto criticamos, se tenham tornado uma mais valia, como se já estivessem a antecipar o futuro.
A educação e o ensino serão aquilo que desejamos, se as circunstâncias e as condições o permitirem e nos deixarem. Esta consciência da realidade ajudará a ver as coisas mais em função daquilo que devem ser, protegendo-nos da frustração e do desaire de não serem como desejamos.
