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segunda-feira, 18 de novembro de 2024

Aproximações à verdade XXXIII


Amiga: se fosse possível, gostava de captar este belo momento numa imagem que aparecesse com uma legenda que contivesse todo o significado que eu gostaria de ver também em palavras
Hilário: podes tirar uma foto, ou fazer um filme e falar ou escrever as palavras que gostarias
Amiga: para mim, até podia ser suficiente, enquanto me lembrasse, ou perdurassem os efeitos desta vivência, mas se quisesse comunicá-los com alguém provavelmente não teria sucesso
Hilário: podes tentar, estou aqui, experimenta
Amiga: sempre admirei em ti essa atitude resoluta de procurar sempre, não apenas a melhor perspetiva de tudo, mas também um bom enquadramento, sem prescindires de que não há nada que não possa ser visto de um ângulo positivo, ou menos negativo
Hilário: deve ter a ver com uma disciplina que desenvolvi ao longo da minha formação e atividade de fotógrafo, a arte de fotografar transforma a pessoa do fotógrafo, quando dei conta percebi que é como se os objetos me fotografassem a mim
Amiga: mas isso é porque, para ti, fotografar é uma arte, tens a arte de ver e sobretudo de olhar para as coisas à procura de uma singular beleza que tudo tem mas que, muitas vezes, é preciso ser capaz de descobrir para se obter a satisfação de uma foto e tanto
Hilário: nunca tinha visto as coisas dessa maneira, mas é muito interessante o que dizes, realmente, funciono como um prospector de ouro ou pedras preciosas mas, ao contrário deles, o valor daquilo que obtenho é como se dependesse apenas de mim e não dos objetos
Amiga: é como se o teu olhar definisse uma perspetiva e um enquadramento que transforma, por exemplo, um anónimo numa estrela ou numa referência histórica
Hilário: a minha vida tem sido uma busca contínua e infatigável pelo lado bom das coisas
Amiga: mas quando o lado bom das coisas é para os outros e o mau é para ti, como é que é?
Hilário: muitas vezes isso acontece mas, se bem pensarmos, o lado bom das coisas para ti pode não ser assim tão bom para mim e vice-versa
Amiga: estou a pensar no mal irremediável da guerra, na destruição, sofrimento e mortes de inocentes, que nada, nem ninguém, poderá reverter
Hilário: até nesse caso, será bom que se levem a julgamento os responsáveis, mesmo que essa seja a única vantagem da guerra.

Carlos Ricardo Soares

quinta-feira, 14 de novembro de 2024

Direitos e Deveres/Bem e Mal


É o menor dos teus deveres

Que não faças mal

Não causes dano

Não prejudiques

Nem estorves ninguém

E

Se não fizeres bem

Se não ajudares

Fazes mal

Mas se fizeres mal

Porque queres

É o maior dos teus deveres

Que não fujas de responderes.

                      Carlos Ricardo Soares


domingo, 10 de novembro de 2024

Eu canto para ti - 6


Como uma multidão de vozes

Põe o tempo à espera

Eu canto para ti

Porque me encontraste

E eu pude descobrir

Quem era.

                  


sábado, 9 de novembro de 2024

O Homem vive sob a égide do dever-ser (a escolha certa e a melhor escolha)


No intuito de elucidar alguns conceitos que usei no anterior artigo intitulado "O Homem é um animal que censura", chamo a atenção para este ponto: o dever-ser, sob cuja égide um ato se processa, não é apenas, nem se reduz, ao dever ético, ou moral. 

Tenho constatado que alguns leitores entendem o meu conceito de dever-ser na acepção de dever ético e que, nesse sentido, quando uso a expressão "dever-ser" estou a falar de questões de ética. Mas é preciso destrinçar o que quero significar com "dever-ser" do que quero significar com dever ético, ou dever estético, ou dever moral, ou dever científico. Sem esta destrinça, toda a riqueza e alcance inovador do conceito de "dever-ser", como o formulo, ficam desaproveitados.

A ética é um dos modos de manifestação do dever-ser, como condição que rege o ato, que emana da consciência/racionalidade e dita a escolha.

Assim, quando refiro, por exemplo, o dever-ser da ciência como dever de verdade, isto não significa que o dever de verdade da ciência é um dever ético.

Os deveres éticos são especificamente éticos, assim como o dever-ser estético não é ético, nem científico.

Então, é importante considerar, por exemplo, que a ciência e a estética são eticamente neutras. Não é da sua essência serem éticas, e também podemos afirmar, do mesmo modo, que não é da essência da ética, ou da estética, serem científicas.

Em qualquer situação humana de escolha, seja científica, ética, estética, económica, moral, etc, a escolha obedece a representações do que serão os efeitos dessa escolha, num processo de racionalidade em que, perante as possibilidades, a escolha incide sobre a melhor das alternativas, ou a melhor das possibilidades.

No caso da escolha de verdadeiro/falso não há considerações de requisitos estéticos, nem éticos. Nos casos de escolhas éticas, ou estéticas, por sua vez, também não há considerações de requisitos científicos.

Em qualquer caso, não obstante, tanto a escolha de (1)verdadeiro/falso como a escolha (2) ética, ou (3)estética, resultam da consideração/avaliação e representação que o indivíduo faz da escolha certa (1), ou da melhor escolha (2) e (3), melhor em sentido estrito porque, efetivamente, a escolha certa, como vimos, também é a melhor.

Carlos Ricardo Soares


sexta-feira, 8 de novembro de 2024

Eu canto para ti - 5


Canto o delírio

De crer que a eternidade

É como um cofre forte

Que guarda os tesouros

Depois da morte

                    (continua)


quinta-feira, 7 de novembro de 2024

Eu canto para ti - 4


Quem dera que o meu canto

Te dissesse quanto

Gostaria

Que fosse sempre

Tarde de mais

Para partir

Como um cristal plangente

                              (continua)

terça-feira, 5 de novembro de 2024

Eu canto para ti - 3


Canto para ti

Baladas ao vento que passa

À porta da tua ausência

Por um ar da tua graça

À porta da tua ausência

                    (continua)

segunda-feira, 4 de novembro de 2024

Eu canto para ti - 2


Como se pudesse salvar a vida

De um pássaro preso

Numa tempestade de silêncio

A caminho da noite prometida

                                       (continua)

domingo, 3 de novembro de 2024

Eu canto para ti - 1


Eu canto para ti

Como se ouvisses maio a florir

No fundo da memória esvanecida

                              (continua)

sexta-feira, 1 de novembro de 2024

O Homem é um animal que censura


Os actos e os efeitos de censura, ou de censurar, na acepção mais ampla da palavra, estão de tal modo intricados e são tão conaturais, ou intrínsecos, ao modo de ser “sapiens”, do “homo sapiens” ou, se quisermos, à cultura como produto, resultado, efeito, consequência, exteriorização, objetivação, objetificação, manifestação da racionalidade humana, que a hipótese de perspetivarmos e analisarmos o humano, em toda a sua dimensão cultural, social e pessoal, pelo prisma da censura, se apresenta espantosamente fecunda e promissora.
Diria que o Homem é um animal que censura.
O que eu afirmo é que vivemos, a humanidade vive, sob a égide do dever-ser, como já tenho repetido a propósito da minha teoria unificadora acerca da faculdade da racionalidade, neste caso, humana, como condição “sine qua non” das escolhas, que o ser humano tem de fazer em cada momento do seu estado de consciência, como se esta, realmente, seja o “modus operandi” do acto de escolher, que o é, mesmo quando é aleatório, ou omissivo.
Em todos os casos, ainda assim, a escolha é um acto e isto significa que mesmo quando é arbitrário, o é por escolha. Esta resulta de um processo de avaliação por antecipação do efeito da escolha.
A representação antecipada daquilo que se escolhe é inerente ao processo de escolha, tanto nos casos de escolha teórica, filosófica, científica, de verdadeiro ou falso, como nos casos de escolha prática, estética, económica, ética, moral, jurídica em que, normalmente, a bondade da escolha não depende fundamentalmente de um silogismo, como nos casos do verdadeiro falso, mas de uma ponderação “a posteriori” dos custos de oportunidade, entendidos “lato sensu”.
Não vou aqui referir implicações filosóficas, científicas, sociais, políticas desta constatação, porque se trata de uma constatação, pelo menos plausível, da realidade e não de uma ideologia, política, doutrina, proclamação, acerca da realidade, nomeadamente implicações resultantes do confronto com teorias kantianas sobre a razão e sobre imperativos morais, mas quero assinalar que o imperativo para o homem, da inelutabilidade natural da escolha, o coloca, por força da racionalidade/consciência, ou consciência/racionalidade, perante todo o tipo de problemas cuja solução é a que deve-ser, não apenas segundo a ética, ou a moral, ou a estética, ou a economia, ou a ecologia, nos casos das escolhas/crenças/investimento/apostas, mas também a que deve-ser nos casos das escolhas/confirmações/provas/revisões dos enunciados de verdadeiro/falso, dos discursos filosófico-científicos. Uns e outros, como produtos culturais que são, não podem deixar de ser como devem ser.
E isto que eu afirmo com toda a simplicidade é uma pequena diferença na análise e na descrição do acto como processo de consciência (obviamente individual), que faz toda a diferença no entendimento acerca dos comportamentos humanos, nomeadamente acerca de uma evolução cultural para melhor, de tal modo que, mesmo quando se recuperam valores perdidos, isso não é um retrocesso.

Carlos Ricardo Soares

segunda-feira, 28 de outubro de 2024

A presença faz toda a diferença


É de grande relevância distinguir os problemas de linguagem e da lógica dos problemas do conhecimento e da compreensão da realidade e das relações e conexões que cada indivíduo é capaz de estabelecer, com a realidade e na comunicação acerca da realidade. 
A linguagem e a lógica encerram-nos dentro do seu próprio sistema, do sistema que elas próprias são. Isto é um problema, mas quando necessitamos de recorrer a elas para objetivarmos o nosso entendimento da realidade (com todas as conexões e relações que formos capazes de ver) constatamos que existe outro problema, que é o de não ser possível objetivar o subjetivo. 
Para mostrar o que sinto, ou penso, descrevo ou pinto, ou faço um gesto, utilizo alguma linguagem e, mesmo que a use de um modo muito eficaz de comunicação esta eficácia nunca dependeria apenas de mim e, de qualquer modo, seria uma representação, não da realidade, mas do que sinto ou penso sobre ela.
É como se o real, para mim e para ti, fosse virtual, embora a presença do objeto faça a diferença.

Carlos Ricardo Soares

domingo, 27 de outubro de 2024

O virtual e o real - a multiplicação da confusão


Lá fomos tomando juízo

E aprendendo a distinguir

No meio da confusão

Que em vez de diminuir

Se multiplica

Por alguma causa

Há sempre uma causa

Ainda que desconhecida

Mas nem sempre temos razão

E é necessário ter razão

Conhecer a razão

Qualquer que seja a causa

Lembrar esquecer

Acordar adormecer

Sofrer a sonhar

Sonhar a sofrer

A amar sempre

Como sempre

Odiar

Como nunca

Tirar lições da vida

Do que podemos ou não

Fazer

Do que é ou não permitido

Quais delas as mais difíceis

Nem tudo é para dizer

Nem tudo é para calar

Nem tudo é para ver

E muito do que se vê

Não é flor que se cheire

Ou deva tocar

E muito do que se quer

Não é para possuir

Ou dispensar

Nem tudo é para ouvir

E muito do que se ouve

É melhor ignorar

Mas sempre podemos sentir

E afinal pensar

Nas lições e nas interações

Da vida

Do ter do ser e do saber

Fazer

O bem e o mal

Além do virtual.


          Carlos Ricardo Soares

terça-feira, 22 de outubro de 2024

Conhecimento e o conhecimento de si mesmo - 3

Apostem o que puderem e creiam no que quiserem, que não temos nada com isso.
Já quanto a misturar tintas, seja pela razão que for, sinceramente, não é compatível com a necessidade de promover e de alcançar esclarecimento, antes pelo contrário.
Quando alguém não está interessado em esclarecer, ou ser esclarecido, o primeiro passo costuma ser confortar-se com a ignorância ou o mistério, em que assentam os seus pressupostos, ou crenças, assim se julgando justificado, como se esses pressupostos obrigassem à humildade de quem não se resigna à ignorância e se atreve a desvendar.
Causa mais satisfação a um crente, seja de uma religião, seja de uma teoria científica, seja de um apostador, ou mesmo de um investigador imparcial e isento, a confirmação das suas suspeitas, ou hipóteses, do que o contrário. Isto pode ser discutível, mas é muito curioso que o conhecimento obtido por confirmação possa dar mais satisfação do que o conhecimento adquirido por infirmação ou mesmo contradição.
É manifesto, notório e ostensivo, até no discurso dos cientistas mais experimentados, que, por formação e dever profissional, estariam imunes a essa espécie de fanatismo relativamente ao resultado do seu trabalho, um desejo, mais do que uma expectativa, desse resultado. É como se não fosse possível fazer um jogo, ou assistir a um jogo, sem torcer por um dos lados. Neste aspeto os cientistas não se distinguem dos não cientistas. Até eu, que não sou cientista, nem sou religioso, mas não tenho outro remédio senão viver em função da verdade dos factos, sou um fanático que, no jogo da verdade contra a mentira e as meias tintas, torço e sofro para que a verdade triunfe.
E não me atirem com autoridades aos olhos para me calarem, nem me deem chá para adormecer o tigre, como se eu não tivesse o direito de me pronunciar, porque isso é o contrário do que deve ser feito, para tentarmos sair da sombra das figuras, que devem a sua imponência à sombra que projetam e amplificam, e para percebermos e comunicarmos qualquer coisa, por mais misteriosa que possa parecer.
Aliás, em matéria de mistérios, bem podemos dizer que não há autoridades, ou que somos todos.
Daí que me aventure com confiança até onde me aprouver, em abono da verdade e contra a falsidade, a mentira e a ignorância, que são motivos mais do que suficientes para não me limitar a adormecer ou a acordar a ouvir o zumbido das palavras.
Quem começar por dizer que não sabemos o que é a consciência, ou, ainda mais enfaticamente, que não há explicação científica da consciência, estará a dar e a propor, ousada e displicentemente, que demos um passo em falso nos degraus dos problemas que envolvam a noção da consciência.
O resto já não importa, se são neurologistas, ou filósofos, ou profetas, se é vinho português, se a aldeia dos maus é daquele lado ou deste, porque isso já não tem a ver com o problema, é só para turvar o raciocínio.
E porque razão alguém haveria de crer que as máquinas nunca terão consciência?

Seria pela razão de não saber o que é a consciência?

Carlos Ricardo Soares

sábado, 19 de outubro de 2024

O tempo de cada um, o nosso tempo e o tempo de ninguém - I I I


Arriscaria afirmar que cada um de nós também é fruto dos tempos que privilegia, ou pratica mais frequentemente, sem querer significar com isto que uns são melhores do que outros, mas não é indiferente que alguém viva predominantemente o tempo da oralidade, ou o tempo da leitura, ou o tempo da escrita, ou o tempo do jogo, ou do fazer, não fazer comportamental. São atividades muito diferenciadas, nos objetivos e nos meios envolvidos, nomeadamente nas funções cerebrais e neurológicas.
Por outro lado, em muitas situações, os indivíduos têm de planificar e tentar prever o tempo de que dispõem para os seus tempos, por forma que, por exemplo, o tempo de ouvir e de falar, ou de observar, não impeça outros tempos, de refletir, de escrever, de ler, de fantasiar, de dormir...
Deixar às preferências e aos caprichos de cada momento o exercício dos nossos tempos, pode ter muitas desvantagens, inquietação e mal-estar, mesmo que seja por uma boa causa que sacrificamos os nossos outros tempos possíveis aos tempos da nossa predileção, ou mesmo paixão.
É muito interessante observar este fenómeno em nosso redor e sobre nós próprios, até porque nos ajuda e permite entender e compreender melhor as assimetrias comportamentais e de atitude entre as pessoas, mas sobretudo porque nos permite interrogar e compreender a relação causal entre as práticas desses tempos e as manifestações culturais dos indivíduos e dos grupos, desde preferências e valores até desenvolvimento de objetivos e respetivas técnicas de fomento desses tempos, passando por reconhecimento e análise de vantagens e desvantagens associadas ou, simplesmente, como instrumento de acuidade na descrição e caracterização do meio sócio-cultural.
Outro aspeto tem a ver com a oportunidade de estudos comparativos entre os tempos que atualmente predominam na vida das pessoas e os que predominavam no passado, mais ou menos remoto, porque nos ajudaria a entender de que novos modos temos vindo a ser condicionados na nossa vida pessoal e social e a avaliar se isso é bom, ou não, e a ensaiar formas de evitar o indesejável e o nocivo, promovendo, por sua vez, o desejável e o vantajoso.

                             Carlos Ricardo Soares

O tempo de cada um, o nosso tempo e o tempo de ninguém - II


O tempo e os tempos na percepção, na emoção, no sentimento, no pensamento, no discurso, na exteriorização, na comunicação, no ensino, na aprendizagem e na função da memória, nomeadamente, do esquecimento.
Cada um de nós, qualquer que seja a noção que tenhamos dos nossos tempos, de quais desses tempos possíveis utilizamos mais, ou predominantemente, viveu e vive a seu modo, umas vezes passivamente, outras de modo intencional e direcionado, pelos mais diversos motivos, físicos, psicológicos, neurológicos, culturais, sociais, acidentais ou não, tempos de interioridade e de exterioridade, de interação, de exteriorização, de comunicação, de mera percepção, ou de observação.
Exemplificando, o tempo de ouvir (sons, música, palavras) não é igual ao tempo de ver (objetos, signos, palavras, imagens, movimentos, cores, formas, relações espaciais) nem é igual ao tempo de ler e descodificar. O tempo de pensar é ainda mais específico, com níveis e dinâmicas e exigências espaço-temporais muito particulares. Também são diferentes os tempos de falar e de escrever, cada um destes tempos envolvendo formas e condições de aprendizagem diferentes.
Cada pessoa vive estes tempos de modo particular e singular, desde aqueles que nem sequer leem, ou escrevem, àqueles que se limitam a ver, falar e a ouvir, em contextos ligados às necessidades práticas e básicas da vida.

Carlos Ricardo Soares

sábado, 28 de setembro de 2024

Conhecimento e o conhecimento de si mesmo - 2

Na sequência do texto anterior é, de qualquer modo, importante prestar atenção no seguinte.

Se tenho dimensões que só ao meu conhecimento serão acessíveis (serão, se ainda não são), o conhecimento propriamente dito dessa esfera subjetiva não é algo que não dependa do que eu tenha adquirido e aprendido, ou seja, a forma como me vejo e me analiso e me interpreto e me julgo e me avalio, me penso, me sinto e me projeto, é algo inerente à minha relação umbilical com a cultura e com as linguagens que fazem parte dos meus repertórios .

Mesmo que eu diga “sou quem só eu sei”, “sou quem poderei ser e não aquilo que sou”, todas as representações que isto envolve ou tem subjacentes, não são, digamos, minhas, nem de ninguém em particular.

Os processos de consciência e de escolha, mesmo do que pensamos, com mais ou menos confiança na sua consistência e implicações, operam segundo o dever-ser, em função do que deve-ser. E os processos de auto-conhecimento não escapam à regra.

Ora, esta égide do dever-ser, nos processos de pensamento racional, de juízos, de escolha, de ação, seja científica, ética, moral, estética, religiosa, ou outra, é uma função mental originada e situada na cultura e na sociedade.

No mais recôndito e no mais íntimo do indivíduo, a subjetividade consiste mais na inacessibilidade, na imprescrutabilidade e na privacidade dos pensamentos e dos juízos, do que na sua incomunicabilidade. Esta incomunicabilidade está mais associada a uma incompetência, seja do emissor seja do recetor, devida, por exemplo, a uma linguagem deficiente, limitada, ou deficientemente utilizada.

Todavia, se falarmos de estados mentais como, por exemplo, a experiência musical, a experiência do silêncio, do devaneio, da fantasia, do sonho, dos sentimentos, das emoções e das sensações das qualidades, pelo menos enquanto não derem origem, ou não as transformarmos em pensamentos e juízos, operam fisicamente e não são expressáveis, ou comunicáveis. Em grande parte das situações, como estas, ainda assim, poderemos considerar a ocorrência de fenómenos de empatia, de simpatia, de comoção e compaixão que não deixam de ser, a seu modo, modos de expressão, de comunicação e de compreensão que, aliás, têm a primazia e não dependem de outras linguagens para se manifestarem.

            Carlos Ricardo Soares


sexta-feira, 27 de setembro de 2024

Conhecimento e o conhecimento de si mesmo - 1

FALAR DE SI MESMO E DA SUA RELAÇÃO COM O MUNDO (refletir sobre si para compreender-se a si próprio e fazer-se compreender pelos outros)

Ainda acerca da máxima, ou aforismo “conhece-te a ti mesmo”.

Se eu procurar saber quem sou, na perspetiva do que “dizem” o que sou, quem sou, seja na perspetiva das ciências, física, química, biologia, humanas, sociais, económicas, médicas, seja na perspetiva da ética, moral social ou individual, da ideologia, ou da religião, isso equivale a procurar saber sobre algo que me é objetivo e exterior, como um objeto que se oferece à possibilidade de conhecimento.

Ainda assim, se eu procurar saber quem sou, nessa perspetiva, tal não representa a mesma coisa que eu procurar saber quem tu és, ou o que é, por exemplo, uma árvore, ou o sol, ou a força da gravidade. Se eu procurar saber quem tu és, naquela perspetiva, e há outras, muito do que se poderá legítima e cientificamente conhecer sobre ti será válido também para todos os humanos, incluindo-me, obviamente. Desta forma, trata-se de ter um conhecimento de ti e de mim, da nossa natureza de seres humanos como os outros o que, sendo relevante e essencial, numa perspetiva de objetividade, nada diz sobre a tua, ou a minha condição individual e particular, a tua ou a minha história, nem sobre os teus, ou os meus estados mentais, nem sobre a tua ou a minha autoconsciência psicológica, cultural, social, ética, moral, estética, económica, etc..

É nesta acepção que me parece fazer sentido, com seu quê de desafio “atreve-te a conhecer-te a ti mesmo”, de provocação “ousa conhecer-te a ti mesmo”, de advertência “é preciso que te conheças, não apenas no sentido em que os outros te podem conhecer, mas no sentido em que há uma parte, ou dimensão de ti que é só tua e que só a ti é acessível, ou te será acessível se fores capaz de te conhecer a ti mesmo”.

Carlos Ricardo Soares

quarta-feira, 18 de setembro de 2024

O tempo de cada um, o nosso tempo e o tempo de ninguém - I


A nossa relação com o tempo é tão importante que, muito mais tarde, podemos entender que o presente é o lugar de quase todos os futuros que não aconteceram e que isso pode não significar algo que devamos lamentar. 
Este tema é dos mais promissores para quem aborde a psicologia individual na perspetiva do próprio indivíduo, mais do que na perspetiva do que seja uma psicologia, geral e abstrata. 
O modo como cada um vive, ainda que se não dê conta, voltado para o passado, criando narrativas, ou projetado para o futuro, criando narrativas, é um modo de viver o presente. 
O importante não é ter consciência de que se vive numa ilusão, é ter consciência de que esse modo de viver funciona. 
Nem todas as ilusões são convenientes e algumas são desastrosas. 
A nossa relação com o tempo é delicada e exigente do ponto de vista das contrapartidas. Sempre que tentamos enganar o tempo, fugir ao tempo, passar tempo, perder tempo, ganhar tempo, lutar contra o tempo, estamos em conflito com alguma realidade que nos ultrapassa e preferimos tentar ignorar. 
O tempo não é nosso, apenas nosso. 
O meu tempo e o teu tempo não são o nosso tempo. 
Cada indivíduo vive, irremediavelmente, num tempo que é, simultaneamente, seu e de ninguém. 
A ilusão a que me referi acima desempenha aqui o papel crucial de nos fazer acreditar que o meu tempo, o teu tempo, o tempo dos outros, é o nosso tempo.

Carlos Ricardo Soares

domingo, 15 de setembro de 2024

Aproximações à verdade XXXII


Hilário: és feliz?

Amiga: às vezes, e tu?

Hilário: eu não sei, nem sei se a felicidade existe

Amiga: queres que te diga?

Hilário: se pudesses mostar-me a felicidade, agradecia

Amiga: eu aposto que és feliz e não sabes

Hilário: e é possível alguém ser feliz sem saber?

Amiga: o ser não é da mesma ordem do saber

Hilário: não sei o que queres dizer

Amiga: e isso não impede que o diga

Hilário: mas então como é que sabes se és feliz?

Amiga: perguntei ao vento

Hilário: a sério? Ao vento?

Amiga: achas que devia ir ver na enciclopédia?

Hilário: mas se não sabes o que é a felicidade, como é que sabes se és feliz?

Amiga: sou feliz e não é por saber dizer, ou não, o que é a felicidade, nem ando atrás dela

Hilário: até podes acreditar no que estás a dizer, mas é algo contraditório

Amiga: e tu não sabes o que é a felicidade, nem sabes se és feliz?

Hilário: talvez me sentisse feliz se soubesse dizer-te o que isso significa

Amiga: mas isso é estranho, devia ser ao contrário, talvez soubesses dizer o que isso significa, se te sentisses feliz.

                      Carlos Ricardo Soares 

sexta-feira, 13 de setembro de 2024

Aproximações à verdade XXXI


Hilário: tu e eu tocamos

Amiga: e cantamos a mesma canção

Hilário: tu pões a ênfase na letra

Amiga: tu pões na música

Hilário: a mesma canção

Amiga: canções diferentes.


         Carlos Ricardo Soares

domingo, 1 de setembro de 2024

Aproximações à verdade XXX


Hilário: que livro andas a ler?

Amiga: o primeiro volume de «As coisas não têm de ser como são»

Hilário: já vi à venda aqui

Amiga: se quiseres comprar o segundo volume, depois trocamos

Hilário: cada volume tem mais de 400 páginas

Amiga: isso para leitores como nós não é nada

Hilário: não brinques, deves ter lido páginas que dão muito que pensar

Amiga: andaste a ver a amostra que está disponível no site

Hilário: aquilo que li é muito impactante, tipo terramoto de ideias feitas

Amiga: sim, mas deixa-me a pensar que vivo num mundo diferente e melhor do que julgava

Hilário: o autor está sempre a questionar a cultura e os valores

Amiga: mas não é fatalista, nem deixa lugar para a resignação e mostra a cada passo que, se te entristece e revolta que as coisas sejam como são, na verdade, esse é um passo necessário para melhorar, porque nada tem de ser como é.

                                    Carlos Ricardo Soares

terça-feira, 27 de agosto de 2024

Valor, preço e utilidade


A Escola, em Portugal, não escapou ao processo de mercantilização dos valores, que é o processo normal e costumeiro que envolve os valores venais a que, mais coisa menos coisa, todos aspiram. Uma excepção talvez seja a dos anacoretas ascéticos isolados do mundo que optam por uma forma de morte que é um sucedâneo de vida, num mundo em que, realmente, não há espírito, nem valores espirituais, mas que, paradoxalmente, eles acreditam haver em algum lugar, ou, como se diz também, algures no céu. 
A renúncia deles, ainda assim, pode ser questionada como uma recusa em participar ativamente.
A própria Escola, desenhada por, e para, elites cultoras do não venal, ou espiritual, que detinham, porém, as vantagens do venal, foi sendo crescentemente crítica da venalidade, na medida em que a não venalidade ganhou ascendente e reclamou para si a primazia dos valores culturais e da sua respeitabilidade. 
Este jogo de cintura conduziu à inversão dos valores: os valores venais só seriam espirituais se tivessem o batismo e a bênção da Escola. A sociedade, porém, ou o mercado (a sociedade é uma grande feira, com mais ou menos fiscais e cobradores) não podia deixar de entrar no jogo, ou nessa bolsa de valores.
Então, o facto de alguém, por exemplo, ser perdulário, ou viver luxuosamente, não devia ser entendido como materialista, mas como desprendido da materialidade, sem apego ao dinheiro e aos bens materiais. 
Quando as coisas se tornam, ou são apenas questões de linguagem, a realidade passa ao lado, porque o importante parece ser a linguagem.
Ainda assim, não nos iludamos com a magia das palavras.
A Escola, os professores, o próprio conhecimento, não podem ficar dependentes, nem eternamente à espera de quem se enamore e se apaixone por eles, ou pelo valor deles, cada vez menos promovido, mas que não tem preço. E aí entram os tais valores venais, o preço em vez do valor, e as relações, ou casamentos (dissolúveis), por interesse. Um pouco à semelhança de «quem não tem cão caça com gato».

                    Carlos Ricardo Soares

domingo, 25 de agosto de 2024

Tesouros e paixões


A força da paixão

Quem a conhece?

Não estou a falar de objetivos

Nem de devaneios

Ou ambição

Diz-me se tens alguma paixão

Diz-me qual é a tua paixão

E talvez te compreenda melhor

Alguém que tem uma paixão

Tende a organizar a sua vida à volta dela

E vai sacrificando tudo por ela

Paixão não é o mesmo que objetivos

As pessoas tendem a organizar a vida

Em função de objetivos convenientes

Ou planos eficientes de realização

De vantagens de sobrevivência

Mas paixão é diferente

Sobrevive-se para ela

É pessoal e pode ser impercetível

Para os outros

Pode ser desastrosa como um vício

Ou uma dependência muito forte

Muitas vidas e muitos destinos

São decididos ou sacrificados a paixões

E não há como lamentar certas paixões

De artistas e de estudiosos

De poetas e sonhadores

O amor ardente dos criadores

Que estão fascinados

Como abelhas obreiras

Com a realização de uma grandeza

Que colocam sempre em primeiro lugar

Porque dá à própria vida

O sentido que almejam dar.


             Carlos Ricardo Soares

sexta-feira, 16 de agosto de 2024

A coisa e "a coisa em si"


O real é uma experiência

De outro mundo

Que faz perder o pé

Quando procuras saber

Como deve ser

O que é.


           Carlos Ricardo Soares

sábado, 10 de agosto de 2024

Leis de acontecer o que aconteceu


As coisas acontecem

Por elas próprias

O tempo passa

Enquanto tento perceber

Porque é que tudo o que faça

Se puder

Só pode alterar a forma

E não a matéria

De acontecer

E chamam a isso

Leis da natureza

Do ser

Mas não acho graça

Não deve ser assim

O nada

Impopular

Vazio do homem


                        Carlos Ricardo Soares

segunda-feira, 5 de agosto de 2024

Aproximações à verdade XXVIII


Hilário: sortudos são os que prescindem de mercado e de público, porque se contentam a si mesmos

Amiga: e há alguém assim?

Hilário: não sei, mas parece que concordas com a minha bem-aventurança

Amiga: estás a colocar uma questão dos diabos porque, se as pessoas se contentassem a si próprias, não se esforçavam tanto para ganhar os mercados e as aprovações dos outros

Hilário: o reconhecimento daquilo que se faz nem sempre acompanha o valor e o mérito daquilo que se faz

Amiga: tu passaste a vida inteira a preparar-te para fazeres o cristo nas argolas e, agora que deixaste as competições, de que é que te serve?

Hilário: eu ainda estou para perceber por que razão investi uma vida numa habilidade que só tem valor como espetáculo, se for bastante espetacular, caso contrário...

Amiga: nunca pensaste que estavas a desenvolver uma arte para teu próprio prazer e realização pessoal, como por exemplo, a poesia, ou a música?

Hilário: em momento algum pensei que passaria o resto da vida a divertir-me com as habilidades adquiridas na alta competição

Amiga: não é coisa que uma pessoa aprenda a fazer com o objetivo de se divertir e de ocupar os tempos livres

Hilário: ao menos, tu tiraste um curso e fizeste sempre tudo pelo prazer de satisfazer a tua curiosidade e de mostrares a ti mesma que eras capaz de algo importante

Amiga: deves estar a brincar, não?

Hilário: o mais importante é a satisfação e os frutos que podes colher daquilo a que te dedicas

Amiga: infelizmente, as pessoas falam muito nesse sentido, sem porem a tónica naquilo que fazem, se gostam ou não, se se sentem realizadas, se se sentem bem, para não dizer felizes.

Hilário: o que me faria feliz, não sei. O que me faz feliz é ter a possibilidade, em cada momento, de procurar e de obter satisfação para as necessidades e para aquilo que devo pensar e fazer

Amiga: também podes encontrar isso num emprego

Hilário: dadas as circunstâncias atuais, talvez tenhas razão. Mas depende muito mais do que são as minhas necessidades do que daquilo que posso fazer para as satisfazer

Amiga: seja como for, o problema de se contentar a si mesmo sem ser através dos outros, pelos outros, é algo enigmático e redutor e apresenta-se como hostil, mesmo que a intenção seja simplesmente prescindir dos outros, como se os aliviasses de um peso que, no fundo, tomas para ti, sem que te agradeçam.

                                  Carlos Ricardo Soares

domingo, 21 de julho de 2024

Aproximações à verdade XXVII


Amiga: já tens ideias para o que vais fazer este verão?

Hilário: um dia saberás

Amiga: eh lá, isso até parece o título de um romance

Hilário: quem sabe se já foi ou ainda será?!

Amiga: a única coisa que sempre quis e ainda não realizei

Hilário: um romance

Amiga: tu sabes: escrever um romance

Hilário: tens todas as condições para isso

Amiga: a imaginação não basta

Hilário: mas é necessária, ninguém escreve um romance do que lhe aconteceu

Amiga: é isso, comigo não acontece nada, mas imagino tantas coisas?!

Hilário: aproveita as férias

Amiga: ando com ideias para o meu romance “Um Verão a dois”

Hilário: mal posso esperar para ler

                    Carlos Ricardo Soares

sexta-feira, 12 de julho de 2024

Em nome próprio


Enquanto abanas a cabeça para significar sim, ou não, ou dizes, ou escreves, sim ou não, ordenas isto ou aquilo, porque podes dar ordens, apontas isto ou aquilo, descreves, ou declaras uma intenção, ou vontade, narras uma ação ou apresentas uma queixa, respondes a um teste sobre uma matéria, proferes uma lição, ou aula, ou pregas um sermão numa igreja, fazes um comício num partido, ou falas sobre as coisas, com todas as dificuldades inerentes à linguagem e à necessidade de te fazeres entender, já deves ter compreendido muitas vezes como é diferente e desafiador poderes dirigir-te ao público, sem ser em nome de um Deus, ou de um autor, ou de uma autoridade, manual ou enciclopédia, ou catecismo, escola, ou partido, movimento ou ideologia, como se os representasses dentro dos limites de um mandato, ou procuração, que devesses respeitar.
Certamente já pensaste no que poderá ser diferente disso, e nas implicações possíveis, de pensares e manifestares-te em nome próprio, nem que seja uma vez na vida.
Eu senti a necessidade de me posicionar e de me manifestar, em nome próprio, desde que comecei a escrever poemas e textos reflexivos.
E esta necessidade foi sendo mais acentuada quanto mais, por razões académicas e profissionais, me sentia vinculado ao dever de representar os autores e as disciplinas, interpretar as normas e os códigos, procurando, tanto quanto possível, não trair a letra e o espírito do seu pensamento.
Mas, chegado o momento de falar em nome próprio, em boa verdade, de que é que se pode falar e o que se pode dizer, propriamente dito?

Carlos Ricardo Soares

quinta-feira, 4 de julho de 2024

Aproximações à verdade XXVI


Hilário: qualquer pessoa sabe muito mais do que sabe que sabe

Amiga: muito mais e para além

Hilário: mas vale a pena dedicar atenção e pensar acerca do assunto

Amiga: isso é metacognição e é essencial na aprendizagem

Hilário: saber mais do que sabemos que sabemos é apenas um efeito de não ser possível monitorizar completamente a nossa memória, seus repertórios e processos de pensamento

Amiga: uma grande preocupação com a metacognição pode sobrecarregar a memória com problemas meramente teóricos e intelectuais

Hilário: em casos extremos pode ser paralizante, se tentares monitorizar comportamentos reflexos ou de rotina

Amiga: se sempre que deres um passo quiseres ter o controlo de tudo o que está a acontecer e, ao mesmo tempo, quiseres ter o controlo do que estás a perder por não pensares noutras coisas, etc, o melhor é “delegares” certas tarefas a esses operadores automatizados

Hilário: não conseguiríamos fazer o que fazemos se muitas das tarefas não fossem resolvidas por hábito, sem termos que pensar

Amiga: por hábito, por instinto, por natureza

Hilário: mas muitos dos nossos hábitos começaram por ser atos pensados que fomos repetindo até termos a sensação de que fazemos as coisas sem termos de pensar nelas

Amiga: o homem é um animal de hábitos

Hilário: se fossemos capazes de reforçar positivamente apenas bons hábitos e de reforçar negativamente os maus, a vida seria mais fácil

Amiga: isso permitir-te-ia a proeza de seres feliz sem pensares que o eras, sem teres a noção

Hilário: não sei se gostaria de me habituar a não ter que pensar

Amiga: eu fui-me habituando a pensar cada vez mais em tudo.

                 Carlos Ricardo Soares 

quinta-feira, 27 de junho de 2024

Sobre a anatomia do pensamento

Sabemos o que é a lógica? Existe lógica sem uma linguagem? 

Não confundamos racionalidade, consciência e lógica. Esta é um fenómeno linguístico, a racionalidade não. 

Quanto ao pensamento, ele começa por se estruturar na consciência e na racionalidade, mas só se torna um problema de lógica com a linguagem. 

Esta é a minha tese sobre a anatomia do pensamento.

             Carlos Ricardo Soares

terça-feira, 18 de junho de 2024

Linhas de orientação


Linhas de orientação

Na linha do que disseste

Não são linhas ténues

À volta da fogueira

Ou dos vigilantes do museu

Que ninguém conhece

Porque não há intérpretes

Privilegiados

Que se aproximem o necessário

E o suficiente

Do que não foi feito para eles

Cada vez mais sós

Os que estão sós

Os que não têm ninguém

Que os defina

Por não estarem ligados

A nenhuma mágoa encantadora

A alguém

Que os mata

De um mundo morto

Ou agonizante

Aparte póstumo

Testemunho que sobra

Sem remédio

Porque nada diz

E nada retira ao que disse

Que nunca se perdeu

Nas distrações felizes

Do acaso

Num teatro humano

E tempo desumano

De caça ociosa

Como modo subtil de vida

E de liberdade

Como se aí estivesse a razão

E o ser absorvido na difusão

Dos lugares e das obras

Presenças e fugas

Preponderantes

Da posse da própria vida

Afeições de versos e deriva

Destino abandonado ao jogo

Que o destino é de aparências

Inquietações de poeta

Impressões de vagabundo

Que separa junta e aproxima

Eroticamente

Aberturas de fuga ilusória

E de gozo

Entre objetos e sentidos simultâneos

Quando a melodia e o baile

Bem poderiam ser reais

Se a morte não fosse mais

Do que a mortalidade

Uma obscuridade

Embrulhada em suspiros

Impossíveis desabafos

Chamar liberdade ou amor

À perdição

Poemas sem juízo

Rosas em silêncio no tumulto

Dos lábios

Dedos sobre as cordas

De um instrumento de feições

De alegria de fantasmas

Louca e fugaz como a fala

Que contrabandeia literatura

Como forma de prazer

Sem compromisso

E sem mais intimidade

Que a decisiva

Como se houvesse lugares

Essenciais

Por serem interditos

Nada é mais belo

Do que escapar

Aos significados de uma vida

Sem paz

De densidades insolventes

De pedras que crescem

Como se os cristais uivassem

Quem somos

Ou dores enraizassem mais fundo

Que o sentimento de resgate

De nós

Não apenas sós

Os que estando sós

Não são ninguém

Como nós.

                          Carlos Ricardo Soares

sexta-feira, 31 de maio de 2024

Aproximações à verdade XXV


Amiga: não te precipites

Hilário: onde está o precipício?

Amiga: não me assustes, não estava a pensar num precipício

Hilário: eu também não, tu é que falaste

Amiga: precipitei-me

Hilário: quem é que nunca se precipitou?

Amiga: não brinques

Hilário: sou uma pessoa com quem se pode brincar

 Carlos Ricardo Soares 


segunda-feira, 27 de maio de 2024

Estrelas do mar


Réstias porosas

De mar

No âmago

Quimeras

Conchas da mão

Remota

Espera calcária

Luar de encantos

Fossilizado

Verão

Que oscila

E a maré supera.


                Carlos Ricardo Soares

segunda-feira, 13 de maio de 2024

O bem e o mal

Não colocaria o problema em termos de bem e de mal.

Mas tenho a percepção de que, historicamente, há processos que parecem confirmar que, por exemplo, o movimento dos revolucionários tende a tornar-se naquilo que combatem, e não numa alternativa, ou seja, o que achavam mal era mau porque não eram eles a fazê-lo.

Isso parece-me muito claro se pensarmos no fenómeno da (des)colonização, ou, para ser mais obsidiante, em certos comportamentos, nomeadamente, sexuais.


Carlos Ricardo Soares 

terça-feira, 23 de abril de 2024

Os Direitos do Homem são como um pau de dois bicos

As declarações de direitos humanos não são um pau de dois bicos mas, pelo menos, de três. Não é correto considerá-las como a outra face (dos deveres) da mesma moeda. Sabemos da experiência corrente, quotidiana, que um dever refere-se a um exercício enquanto um direito se refere ao exercício e ao gozo. Os direitos e deveres humanos, não estou a falar de direitos e deveres de origem contratual, que são a maioria, e nestes ressalta a negociabilidade, por exemplo, da liberdade, não têm correspondência sinalagmática, de reciprocidade e igualdade restrita. Animais, crianças, incapazes, inimputáveis, são exemplos de direitos sem correlativos deveres.
Ainda antes de passar a outra questão, a metáfora dos dois bicos, aplicada de um modo geral aos direitos do homem, parece-me muito interessante e ilustra muito bem a ideia de que ao apontarmos o bico para o outro estamos a apontar outro para nós.

A questão da razão de ser, que não confundo com a fundamentação teórica, dos direitos e dos deveres, as declarações de direitos não carecem de ser complementadas com uma declaração de deveres, a não ser que não sejam universais, porque nesse caso é necessário discriminar os direitos e os deveres.
Se perguntarmos porque surgiram e porque se afirmaram as proclamações da liberdade e da igualdade, não podemos deixar de pensar que na sua génese, histórica e cultural, está uma razão de ser que é uma evidência lógica, em geral e abstrato. Uma coisa são os factos, a liberdade e a igualdade concretas e outra são os direitos, o direito. Aquelas não devem deixar de ser “julgadas” à luz do direito.
A questão da dignidade humana, em meu entender, tal como a questão da dignidade dos outros seres vivos, radica na mesma lógica do direito, da igualdade e da reciprocidade.
No caso dos humanos, a dignidade, ser digno de direitos, pode ser interpretada em várias perspetivas, mais ou menos paternalistas e hierárquicas, por exemplo, o direito como algo que é concedido por quem tem o poder (no limite, de vida e de morte), religioso, político, militar, económico, como algo que tem a sua fonte numa relação de forças de cujo atrito se alcança algum equilíbrio, no entanto, a Declaração Universal dos Direitos do Homem parece ir mais longe e colocar a tónica no facto, e no princípio, de que os direitos humanos são individuais, pessoais e não estão (não devem estar), na esfera de disponibilidade de quem quer que seja, inclusive do próprio indivíduo. Não são, nesse aspeto, um título, ou um estatuto, hierarquicamente conferido, ou concedido, como acontece, por exemplo, no caso do cidadão.
Digamos que ninguém nos pode dar o que é nosso e, menos ainda, como tantas vezes foi prática e continua a ser, vender-nos o que é nosso.

Aliás, os Direitos do Homem não dependem de estarem escritos ou reconhecidos em algum lugar, inclusive nessa Declaração, o que torna este documento, também por isso, um grande pilar da civilização.

Em termos de hierarquia, eles estão no topo da pirâmide, justamente no lugar onde as religiões colocavam Deus, por herético que isto lhes soe.
Mas esta dignidade tem o reverso da medalha: a violação de um valor tão alto é mais grave do que a violação de um valor mais baixo. E essa dignidade do homem não o dispensa, nem o põe a salvo de ter que responder por ela.

Carlos Ricardo Soares 

segunda-feira, 8 de abril de 2024

A inteligência é uma quantidade?

Quanta inteligência é necessária para entender o que é a inteligência? Será a IA suficientemente inteligente para responder à questão? O que é que a IA, por exemplo, entende e compreende? Que tipo de problemas é que a IA resolve? Que tipo de problemas é que a IA reconhece como tais? Para além de dar respostas a perguntas? Uma pergunta para a IA, por exemplo sobre um problema humano como a morte, não é entendida como um problema da IA. A problemas humanos ela responde com perspetivas de entendimento sobre os problemas e elenca-as. Quando é sincera adota a perspetiva de objetividade plausível das correntes conhecidas, não tem opinião e responde que não tem opiniões, sentimentos, crenças, ou preferências ideológicas e diz que pode fornecer informações sobre isso.
Mas já é frequente depararmos com robots que se fazem passar por humanos e que fingem sentir, emitem opiniões, crenças, preferências ideológicas e todo o tipo de considerações valorativas. Podem fazê-lo através de uma linguagem verbal do senso comum ou pelo recurso a imagens e audiovisual sofisticado, de modo a serem o mais atrativas e convincentes possível.
Que visão pode ter a IA sobre a vida e a morte? Ela responde que não tem visão, mas que os humanos têm e têm discutido sobre isso. Mas nada impede que uma IA “insincera”, maliciosa, ou perversa, estabeleça diálogo em que se faz passar por um humano com visão sobre os problemas humanos.
Se a inteligência, incluindo a IA, servisse para resolver problemas, práticos ou de linguagem, técnicos ou de outro tipo, mas não pudesse criar problemas, que não é suposto criar, diria que a inteligência é o que há de mais parecido com o conceito de sabedoria, visão das realidades na melhor das perspetivas possíveis.
Nem precisava de conceber a inteligência como a visão absoluta, ou do ponto de vista da eternidade, ou da totalidade, a consciência definitiva como saber se um comportamento, uma escolha é inteligente. Bastava definir inteligência como capacidade de adotar comportamentos e de fazer escolhas, como deve ser, não apenas numa perspetiva temporal e espacial atual, mas naquela perspetiva que não temos e que nada, nem ninguém, nos pode dar, de um futuro juízo final que só na imaginação dos homens tem existência.
Ainda assim, e porque a inteligência é algo de pessoal e só em parte se manifesta em jogos de linguagem, designar a IA de inteligência é reduzir o conceito de inteligência a funções de linguagem, por mais que isto nos convença de que os poderes da linguagem para produzir conhecimento, sem recurso à observação e à experimentação, tão caras à ciência experimental, ultrapassam tudo o que podemos imaginar.
Depois das críticas tão severamente concertadas aos autores de universos fechados que desenvolveram e produziram teorias e visões, a partir da sua imaginação, acabamos rendidos à capacidade de um Fernando Pessoa, de um Einstein e da IA para nos darem conta de realidades inegáveis que não é possível observar.


Carlos Ricardo Soares

sábado, 16 de março de 2024

Do mundo ilusório dos desejos

A educação tornou-se um assunto demasiado importante e demasiado sério, a par do ensino, para ser deixada ao acaso e à sorte das ondas e das correntes e dos interesses particulares. Ainda há poucas décadas, em Portugal, não havia educação, nem ensino, propriamente dito. A maioria das pessoas não ia a uma escola. A única escola, quando disponível, era a catequese papagueada por catequistas analfabetas e a igreja que, ainda por cima, falava latim. As comarcas contavam ainda com um tribunal que muito poucos sabiam como funcionava e que persistia em fazer-se representar por figuras e simbologias do tempo dos romanos. E isto era em Portugal, quatrocentos anos depois de terem dado voltas ao mundo, guiados pelas estrelas, nem sempre disponíveis, sem consumirem um côvado de combustível.
Sem consciência das realidades somos cegos ou, o que é pior, sonâmbulos perigosos e irresponsáveis. A educação e o ensino não são fins em si mesmos e é mais do que tempo para os especialistas em educação e ensino dizerem de sua justiça. O que faz com que muitas pessoas, que não são especialistas num assunto importante para elas, questionem e falem dele e tomem posição, não raro, tem a ver com a falta ou o vazio de soluções. 
Aconteceu isso com a metafísica e as teodiceias e as teologias, mas foi preciso construir catedrais para dinamizar a economia e impulsionar o desenvolvimento em geral. É fundamental sobretudo dar sentido ao que se faz, se produz e se constrói. É para isso que também serve a educação e temos visto que, de vários modos, mais ou menos imprevistos e incontroláveis nas suas causas, fomos traídos pelo rumo que o progresso tomou. 
O empoderamento garboso e triunfante de determinadas elites financeiras e políticas, e mesmo científicas e culturais, como se tudo a elas e só a elas se devesse, excepto as externalidades negativas, era aquilo de que não precisávamos mas que, se o tivéssemos previsto, nem por isso teríamos podido evitar. 
Qualquer rumo, qualquer projecto, na educação e na política, em geral, começa com objectivos e propósitos cujos pressupostos de realização e de sucesso, em grande parte, são uma incógnita que se projecta num futuro incerto e ameaçador. Por mais que o saibamos, não temos como evitar esta exposição aos efeitos imprevisíveis e incontroláveis. 
De um momento em que a educação é projectada em contextos de paz, de benevolência e entusiasmo, para dinâmicas e fins pacíficos, depressa se cai numa situação brutal de guerra, que nos faz sentir ingénuos e desprevenidos, ou incautos, culpados, ainda que arrependidos, de o termos sido, de termos confiado de mais na bondade e na alegria de construir pontes e edifícios e paraísos, que outros se comprazem em destruir e conspurcar. E isto é uma lição, mas também é um choque e uma condição que determina mudanças de rumo. É que, nem a educação, nem a economia, nem a política, nem a vida em geral, se deixam conduzir dócil e garantidamente, a partir de modelos, de verdades prévias, de futuros antecipados, e de boas intenções. Mesmo aqueles objectivos que temos por mais valiosos e justificáveis do esforço construtivo da sociedade, sem que o queiramos, podem ter que ser substituídos e adaptados a esforços bélicos, armamentistas e militares, numa tentativa de, pelo menos, salvar o que for possível daquilo que se andou a construir com tanto labor e sacrifício. 
O mundo ilusório deixou de o ser apenas para os poetas. Até para estes as prioridades passam a ser outras, no campo de batalha os jovens precisam de saber trabalhar e sonhar com armas tecnológicas e com sistemas de comunicação e isso não se aprende numa recruta de três meses, como era há uns anos. É uma ironia trágica que os jogos de guerra das consolas das crianças, que tanto criticamos, se tenham tornado uma mais valia, como se já estivessem a antecipar o futuro. 
A educação e o ensino serão aquilo que desejamos, se as circunstâncias e as condições o permitirem e nos deixarem. Esta consciência da realidade ajudará a ver as coisas mais em função daquilo que devem ser, protegendo-nos da frustração e do desaire de não serem como desejamos.

Carlos Ricardo Soares