domingo, 22 de agosto de 2021
Promessas
sábado, 14 de agosto de 2021
História por contar
Há uma história recente para contar, desde o 25 de abril, que é a resposta à pergunta: "como a direita e os fascistas se têm vingado levando, pelas mãos da esquerda, um país livre à ruína, sabotando toda a economia e todos os apoios e toda a redistribuição de riqueza?".
O panorama empresarial português, sobretudo algumas empresas que passaram ou ainda estão na bolsa de valores de Lisboa, e não apenas no PSI20, ou 18, ou 15, podem ser boas pistas de investigação e de reflexão. Mas trabalham numa amplitude temporal que lhes permite passarem despercebidos aos radares "fotovoltaicos" da atenção conjuntural.
A direita percebeu muito bem que quem domina em ditadura domina em
democracia, a questão do domínio não é meramente política. Basta afivelar a
máscara no palco da tragédia.
domingo, 1 de agosto de 2021
Ser Poeta
Num mundo em que a indústria do som, das arengas, das propagandas e dos engodos é capaz de manter perpetuamente infatigável a máquina, a troco da nossa fadiga e alheamento, ser poeta é ser um pobre diabo sem procuração para representar nada nem ninguém.
Neste mundo estranho, fascinante para quem consegue, num concurso para escolher o seu sósia, o poeta não seria classificado nos três primeiros lugares.
De todos os que falam, ou lhe falam, em nome de qualquer coisa, ou entidade (é a mesma coisa), seja Deus (não há quem declaradamente se afirme mandatário do diabo), seja a Verdade, seja a Justiça, a Sabedoria, a Beleza, a Virtude, o poeta não se contenta com menos do que uma procuração conferindo-lhes esses poderes especiais, devidamente assinada por quem lhas, alegadamente, outorgou. E por não se contentar com menos do que isso, fica por contentar, porque ninguém tem esses poderes.
O poeta não fala por procuração. Não é advogado de causa nenhuma, nem professor de coisa nenhuma. Ao falar, em nome próprio, o poeta não está a falar acerca de nada, está a falar (a)penas.
Carlos Ricardo Soares
quarta-feira, 21 de julho de 2021
Alguém o fará por eles
Gostar de, ou não, ou desprezar, Shakespeare, Gil
Vicente, concordar ou discordar de Platão, Kant, contestar ou refutar Newton,
Einstein, ser apologista ou contra Karl Marx, venerar Beethoven ou Mozart,
adorar Deus ou renegar o diabo, não está ao alcance da veleidade e do capricho
de todos, como dizer sim ou dizer não, desta liberdade natural e essencial do
humano, e não está ao alcance de todos apresentar razões justificativas
consistentes e aceitáveis para o fazer.
O sim e o não, como nos referendos, são actos ao
alcance de uma cabeça que ouça e abane ou, para colocar uma cruz numa
quadrícula impressa num papel, de uma cabeça, mesmo que não saiba ler, com
olhos coordenados com uma mão, assinando de cruz o seu destino e o dos outros,
sem necessidade de fundamentar por que o faz.
Alguém o fará por eles.
O que ninguém fará por eles são as obras, que são de
quem as faz, apesar de sabermos que as obras, na realidade, pertencem a quem as
detém, ainda que não seja quem as tenha mandado fazer.
quinta-feira, 15 de julho de 2021
Quando o critério é o poder, o poder é o limite
O mecanismo de correcção dos erros que tem conduzido a humanidade, de superação em superação, numa clara melhoria das suas condições gerais de vida e de organização social, tem os seus limites.
À primeira vista, seríamos levados, numa escalada de correcção de erros e de aprimoramento das escolhas, individuais, colectivas, nacionais, estaduais, supraestaduais, globais, a uma situação cada vez melhor, ressalvado o facto irremediável dos males perpetrados e dos erros sofridos.
No entanto, esta lógica parece deparar com uma realidade, que nunca tinha sido considerada, até que se nos impôs da forma mais brutal: há erros, mentiras e fraudes, alienações, loucuras humanas, ganâncias, megalomanias, ignorâncias e estupidez, que são tão graves e foram tão longe, que não é possível remediar ou corrigir as suas consequências e efeitos.
A humanidade não tem sido capaz de se autorregular suficientemente.
Pelo contrário, tem sido empurrada para o abismo por aqueles que se arrogam e autodenominam governantes. Governantes segundo os interesses e as conveniências dos gananciosos e estúpidos que têm exercido todo o tipo de violência sobre o mundo.
É evidente que o homem, a pessoa humana, nunca foi respeitada, nem tida na consideração devida pela sua natureza, mas apenas em função do seu poder. Mas isto tem sido a chave para a maldição que recorrentemente nos atropela e desbarata a todos.
Talvez ainda não seja tarde de mais para limitar os poderes
daqueles que não respeitam nada nem ninguém que não tenha um poder igual ou
superior ao deles.
sábado, 10 de julho de 2021
O verso e o reverso da racionalidade
Se ter razão fosse uma coisa muito importante, os maiores torneios e competições não seriam de futebol. A razão, ou por outra, a racionalidade, é a marca de tudo o que fazemos, não por sermos de natureza física, material, corpórea, de partículas, ou outro plástico qualquer, mas por sermos biológicos.
A racionalidade que é a característica dominante do humano, não é exclusiva dele e isso é nítido se observarmos o comportamento dos seres vivos e tivermos em mente o que é a racionalidade. O que é fundamental para superarmos o mito, com uma história trágica, de que o que é racional é bom e apenas o que é racional é bom, é verificarmos que a racionalidade tem o verso da verdade e o reverso do erro, ou vice-versa.
Racional é tudo o que “fazemos”, entendido isto como “acto”, consciente, voluntário.
Racional é o trivial humano. Podemos ser responsabilizados pelo racional, mas
não pelo irracional.
Aliás, por ser o erro racional, pelas
mesmas razões que a verdade é racional, é que a mentira e a fraude campeiam e
fazem o maior sucesso, em todas as áreas de actividade (acto) humana.
Para não me alongar sobre este tema que
muitos acharão chato, mas que eu acho central para promover uma mudança de
visão e de análise crítica da nossa cultura hiperdiscursiva, que a filosofia, ao tentar derrotar-se a si
própria, levará de vencida, afirmarei apenas que a verdade depende menos da razão
do que da percepção da realidade e que, qualquer método, ou estratégia, ou
técnica, que nos ajude a refinar a percepção das coisas e dos fenómenos, será
para nós uma vantagem, uma mais-valia, porque nos permitirá exercer a razão no
sentido da verdade e não do erro, da falsidade, da fraude e da mentira.
Assim se compreende, se outras razões
não houvesse, a importância crescente (e transcendente) das ciências e das
matemáticas, nomeadamente, na função de desencantamento e fixação dos factos.
domingo, 27 de junho de 2021
A importância do PENSAR
É impossível exagerar a
importância do pensar, ou, como diz António Damásio, a importância da
consciência. Mas pensar e consciência só por si não são garantia de nada de
bom. Os estalinistas pensavam e eram conscientes, assim como os nazis e muitos
outros que perpetraram os maiores horrores, ao longo dos tempos. Ainda hoje, as
máquinas de guerra e de destruição massiva continuam a ser do mais
"pensado" e consciente que se pode imaginar e os indivíduos e grupos
que dominam e controlam os poderes e as riquezas são dos mais
"pensadores" e conscientes e inteligentes. Se quisermos encontrar
inteligência é nos núcleos de interesses que são mais disputados. O sector
financeiro é certamente um deles. Eles fazem a melhor escolha. A melhor
escolha, do ponto de vista evolutivo e da economia dos sistemas vivos, é aquela
que melhor serve os interesses do proprietário da racionalidade, que é um
indivíduo. Até que ele processe, por efeito da cultura, que a melhor escolha do
ponto de vista individual é a que recair sobre um interesse colectivo que não
seja conflituante com interesses de indivíduos ou grupos mais fortes, pode
decorrer uma eternidade, ou não, mas constatar que os problemas de composição
de conflitos (e as relações humanas assentam em interesses que, por definição,
são susceptíveis de gerar conflitos) são problemas de relação de forças e de
poder, que se sobrepõem à neutralidade da matemática e da ciência, que serve
todos igualmente, quer sejam estalinistas, nazis ou outros igualmente
autoritários.
O paradoxo, ou a ilusão da melhor
escolha é que ela é determinada em função de um indivíduo, do indivíduo que a
faz, mas relativamente a um interesse, ou seja, a algo que é disputado pelos
outros indivíduos e, se a solução procurada for mobilizar um grupo, a disputa
agrega-se e amplifica-se. Nesta fase, já o conflito está institucionalizado e o
pensamento e os valores mobilizados para "a melhor" escolha que é a
que se impõe, numa inevitável identificação do melhor com o menor dos males
possíveis.
Acredito na via institucional,
nomeadamente jurídica e política, com a Declaração Universal dos Direitos do
Homem à cabeça, em permanente actualização, de modo a abranger a defesa e
protecção da natureza e do ambiente saudável, iluminada pela ideia de Direito,
sem conceder nos direitos naturais do indivíduo humano, como único e
insubstituível dador, intérprete e destinatário de significado, de valor e de
sentido, que o coloca no topo da hierarquia do que deve ser respeitado e
defendido.
O reverso da medalha são as
implicações severas para o humano que ofender o humano e para as estruturas e
organizações estaduais, militares e policiais, ou económico-financeiras, que
subestimem ou violem os direitos, liberdades e garantias dos indivíduos, não
apenas enquanto cidadãos de um qualquer país, mas como titulares de direitos
humanos universais, de gozo e de exercício.
Desde a consagração
constitucional dos direitos fundamentais do indivíduo que a civilização deu
sinais de ter realizado um salto evolutivo. Mas os sistemas totalitários
reagiram de um modo brutal e desesperadamente demagógico e apocalíptico à
necessidade de empoderamento real e físico do indivíduo, dos indivíduos, face a
qualquer tipo de poder que não os respeite.
Lembremos que os Direitos Humanos
não são meras advertências, ou proclamações de princípios solenes, para
conforto psicológico ou ideológico dos indivíduos, uns perante os outros, mas
baluartes de defesa contra os poderes, mormente estaduais, militares e
policiais, de tal modo eles têm sido ameaça e ofensa efectiva desse valor
máximo que a nenhum outro deve ser sacrificado.
Actualmente, uma ameaça notória e
muito consentida pelos padrões de tolerância liberal do jogo capitalista ganha
terreno, à custa da valorização do indivíduo e da protecção que lhe é devida.
Os Direitos Humanos vão ter que se focar, não apenas na ameaça do Estado,
militar e policial, mas também na ameaça dos poderes económicos e financeiros,
nacionais e internacionais.
A liberdade individual, por um
lado, dá azo a que os poderosos abusem e as políticas sociais, justificadas pelo
dever de solidariedade e pelo sistema de mutualismo, bem como pelos direitos
dos mais carenciados, na prática funcionam como políticas de estímulo e de
investimento nas estruturas privadas de assistência médico-hospitalar e outras.
Aparentemente, a “guerra” é feita
pelos queixosos, pelos desagradáveis dos queixosos, que andam a importunar a
felicidade dos outros, pelos necessitados, pobres e doentes, que andam a
perturbar a paz dos ricos e bem sucedidos dissipadores de recursos. A vítima é
sempre mal vista.
Que a actual pandemia nos inspire
para concepções de prevenção e defesa do organismo humano, individual, que
sirvam de modelo para defesa e prevenção de outras pandemias não menos
perigosas e devastadoras.
terça-feira, 22 de junho de 2021
Não existem condições para o que não acontece
Dir-se-ia que nada está
pré-programado, mas que existem condições para as coisas serem. Não existem
condições para o que não acontece. E o que acontece, ainda que não saibamos as
causas, ou condições, é o que é susceptível de conhecermos, a partir da
memória. São factos. Memória. Passado.
A causalidade terá a ver com a
nossa relação consciente, em diferido, descontínua, irregular, episódica,
variável e nem sempre controlável, com tudo. A nossa consciência permite o
nosso conhecimento, que é sempre “reportagem”, memória, desactualizada, daquilo
que acontece. Digamos que o conhecimento está para a realidade assim como os
factos estão para o devir.
A consciência, ela própria, como
facto, parece não existir. Mais lembra o comboio da realidade, ou fluxo, que
não para em sítio nenhum e que estamos constantemente a perder.
O passado não é senão memória,
não tem lá nada que não seja registo de imagens, sons, etc.. Temos consciência
muito esquiva do presente que logo se faz consciência de memória. Até o futuro,
não existe senão na memória do que futuramos.
Se não tivéssemos memória,
teríamos alguma percepção do tempo? Ou, até, alguma representação da realidade?
A ciência inventou um teatro e
uma linguagem para representar a realidade, num tempo em que não havia
fotografia nem filmes e isso trouxe as vantagens que são conhecidas.
Assim como a literatura e o
teatro e as artes, em geral, fixavam ou congelavam a realidade no presente e a
filosofia procurava dar-se conta das realidades e suas razões, significando-as
e explicando-as, as ciências criaram um método “intemporal” de observação e de
consciência da realidade, enquanto fenómeno temporal.
No que respeita ao cérebro, os
incríveis avanços revelam-nos o que acontece, em termos de física de
partículas, por ex., quando percepcionamos um objecto, movemos os olhos,
voluntaria ou involuntariamente, reconhecemos esse objecto, pensamos sobre ele,
decidimos tocá-lo e fazemos o movimento e registamos a memória disso ou,
simplesmente, ignoramos, etc..
Os neurocientistas e os
cientistas da física de partículas, ou do que quer que constitua a vida, ao
serem capazes de explicar como é que a matéria, ou o “plástico” que existia no
momento do big-bang se foi reorganizando ao ponto de se tornar sensível
(homeostático?) e de ganhar um critério de reorganização que já parece uma
racionalidade diferenciadora entre dois ou mais termos, e como evoluiu, por
selecção natural, para formas de reorganização, nomeadamente nervosa, capazes
de memória e de sentimento e de consciência, etc., acabam por mostrar que a
ideia de programa é ela própria a ideia das condições que existem para as
coisas serem.
E, neste momento, creio estarem
criadas as condições para a filosofia ultrapassar algumas das discussões
clássicas e, partindo de novos pressupostos, se interrogar sobre a realidade
dos problemas e das soluções que eles devem ter.
quarta-feira, 16 de junho de 2021
A natureza não erra?
O maior erro humano, desde sempre, que sobreleva, hoje não menos do que antigamente, sobre todos os erros (não esqueçamos que errar é humano) é que não há erro humano, o que há é homens que erram. Quando alguém erra, não é a humanidade que erra.
A humanidade nunca erra. Porquê? O que é a humanidade?
Só os indivíduos é que erram.
Vai ser revolucionário admitir que, uma vez que as teorias da verdade, do conhecimento, doutrinas da salvação, da felicidade e do prazer, da sabedoria e do estoicismo, não foram capazes de resolver os problemas de sempre, nem, vistas bem as coisas, identificar esses problemas, vai ser revolucionário admitir que, dizia, a aposta deve ser na teoria do erro, em sentido amplo, de modo a incluir a mentira, a falsidade, enfim, todos os vícios humanos, e não apenas a condição de ignorância e a estupidez e, tentar substituir ou, talvez, converter as teorias do conhecimento em teorias da ignorância e do erro, ou do desconhecimento. Fará toda a diferença.
Talvez começássemos a compreender que as razões pelas quais se busca ou deixa de buscar o conhecimento e a formação e os saberes não são as melhores razões mas aquelas que, desde sempre, se apresentam como tais, ao colocarem o homem contra o homem e a humanidade contra a humanidade.
Actualmente, já há sinais, que muitos percebem como enigmáticos, de reconhecimento de que o homem, individualmente considerado, é o único e verdadeiro centro de conhecimento, de sentido, de dignidade e de valor.
Nada, nem ninguém, transcende este imperativo.
Aliás, é por ser transcendente que este imperativo demora tanto a
ser entendido e continua a ser confundido com o “inimigo”, na concepção do
homem lobo do homem. Qualquer indivíduo que se atribua uma dignidade e direitos
naturais que não esteja disposto a atribuir e não atribua de facto aos outros,
quaisquer que sejam as determinações sociais relativamente a isso, não poderá
deixar de admitir que os outros se atribuam a si mesmos nessa medida. Mas isto
é um erro. E é para nos defendermos dos indivíduos que erram que a civilização
faz sentido e o conhecimento é tão importante.
segunda-feira, 7 de junho de 2021
Não conhecemos nada que não tenha acontecido
A ciência não é apenas uma maquinaria de previsão do futuro a partir do
presente, mas também pode ser de adivinhação do passado, ou retrovisão. Ou
seja, não apenas permite antever os efeitos a partir das causas, como
determinar estas a partir dos efeitos.
Há, porém, um problema sério que não ganhamos nada em ignorar: tudo o que
aconteceu não podia ter acontecido de outro modo. Quando buscamos causas é
sempre do que acontece e nunca do que poderia, ou poderá, acontecer. Não há
causas do que não acontece.
O determinismo, neste aspecto da questão, é irrefutável, ainda que não sejamos
capazes de explicar todas as causas de um facto.
Aproveito para
introduzir aqui o problema do livre-arbítrio, que é fascinante.
Se tudo o que acontece é determinado por causas e se não conhecemos nada que
não tenha acontecido, onde é que vamos situar o livre-arbítrio?
Já li bastantes coisas à volta do assunto, umas mais confusas do que outras,
mas ainda não vi ninguém a colocar a questão desta forma.
quarta-feira, 2 de junho de 2021
Os professores
A propósito de um texto publicado no blogue, http://dererummundi.blogspot.com/2021/05/acordai-professores-que-dormis.html , comentei o seguinte.
Os professores não precisam de acordar, precisam de descansar e de dormir, mas não os deixam.
Não precisam de mais alertas, porque já estão em alerta permanente há demasiado tempo.
Os professores, mesmo quando não há guerras declaradas com espingardas e
granadas, ou incêndios e sirenes, assumem o papel de militares, num
enquadramento de combate e luta, sem quartel, em todas as torres de vigia e
guaritas, que se possam imaginar, com carregadores de balas de pólvora seca,
autênticos placebos, que escrupulosamente tomam como princípios activos contra
inimigos muito mais poderosos do que eles que, de dia e de noite, a todo o
momento, lhes infligem derrotas e que são os mesmos que lhes fornecem os
placebos e a pólvora seca e lhes dão instrução rigorosa de como a usarem, ao
toque do clarim, ou da caixa, e que aparecem, estrategicamente, nas horas
mortas, para os atormentarem com a prova de os apanharem a dormir.
Os que se fazem fortes, porque o são, ou acreditam nisso, e decidem ir à
luta, como os touros, ou os guerreiros, por valentia e grandeza de carácter,
como manda o hino, só acordam se tiverem a sorte de ir parar a algum hospital
que os reanime.
Ninguém aguenta muito tempo uma guerra interminável e sabotada.
O essencial não é lutar, é identificar os inimigos, ou os adversários, avaliar o seu poder de fogo e adoptar estratégias de ataque e de defesa.
Mas os
professores não recebem preparação para isso.
segunda-feira, 31 de maio de 2021
Livre-arbítrio
Hilário: responde-me sem evasivas
Amiga: não sou de evasivas
Hilário: perguntei-te alguma coisa?
Amiga: agora perguntaste se me tinhas perguntado
Hilário: o livre-arbítrio não existe?
Amiga: se as nossas acções e decisões são efeito de partículas que
atravessam o corpo e o cérebro de acordo com as leis da física, que achas?
Hilário: aparentemente são essas partículas que agem e decidem e não nós
Amiga: eu e tu e o universo somos partículas em movimento
Hilário: e as nossas palavras também
Amiga: e os pensamentos e a memória
Hilário: até a anti-matéria e o conhecimento da matéria
Amiga: se calhar o livre-arbítrio só existe para algumas coisas
Hilário: não somos livres de dar verdade a uma falsidade
Amiga: nem és livre de fazer com que esta conversa nunca tenha existido
Hilário: mas foste livre de dizer essas palavras em vez de outras
Amiga: como poderíamos prová-lo?
Hilário: em qualquer caso, lá estariam as partículas a reivindicar que
tinham sido elas
Amiga: ninguém nos pode culpar de nada
Hilário: ou seja, as partículas é que têm a culpa
Amiga: têm tudo, a culpa e a inocência
Hilário: só não têm livre-arbítrio
Amiga: e nós só temos partículas
quinta-feira, 27 de maio de 2021
O controlo das mentes é possível?
quarta-feira, 19 de maio de 2021
Cultura do amesquinhamento alheio
A minha percepção de português, nado e criado, e educado em Portugal, e exercendo nos tribunais e nas melhores escolas do país, é que a cultura portuguesa, seja o lado ou a perspectiva pela qual queiramos vê-la, é a cultura do amesquinhamento alheio. E quando assume tons de compadecimento e de solidariedade é porque já se foi vítima e se percebe o problema.
Mas tem sido prática assumida e aceite, desde que me lembro (hoje está muito melhor), e até valorizada, a cultura de chacota e atrofiamento, sempre para penalizar e desvalorizar, até nas agressões escolares institucionalizadas como castigos pelos erros, bem patente na literatura portuguesa, no linguajar português, nos apelidos e alcunhas dos portugueses, etc.. E, se formos aos conselhos de turma, embora nas actas se evite quase sempre cair nesse erro, a adjectivação usada para qualificar e classificar alunos não está isenta de críticas, para ser brando.
Um adjectivo, em determinados contextos, pode deixar de ser neutro e até passar a ser um problema de ética, quando não jurídico. Sinceramente, penso que só há um caminho a seguir para se sair desta choldraboldra: legislação e práticas educativas que eduquem para a não resignação a uma realidade "violenta" cujas raízes não é difícil de localizar na história.
Ainda há quem acredite e agite a bandeira da meritocracia, ou seja, da aristocracia.
Temos de ter em mente o iluminismo e o marxismo para percebermos
quanto ainda precisamos de reconhecer face humana e direitos do homem num mundo
que faz tudo, desde sempre, exceptuando os que têm lutado contra isso, para
triturar o homem, e desvalorizá-lo, para o mercadejar ao melhor preço.
quinta-feira, 13 de maio de 2021
Língua prodigiosa
De vez em quando, e ultimamente cada vez mais, entre afazeres e actividades, dou comigo a tomar sentido, pela primeira vez, em que a minha língua me fala mais a mim, desde criança, do que eu a ela, e só muito tarde comecei a reparar quão carregada de cultura, de significados e de sentidos, a minha fala e escrita e leitura andavam e como me sabe bem dizê-lo agora.
Passei a perceber que a língua, só por si, nos dá a filosofia e a ciência, até das perguntas e das respostas nunca antes feitas.
Comecei a ver, numa acepção muito especial de sentir, que, além dos sentidos do sistema sensorial, visão, audição, sensações corporais, paladar, olfacto, temos outros sentidos mais internos, que trabalham no silêncio e no escuro, com que sentimos dores, alegrias, entusiasmos e tristezas, paixão, saudade, amor e ódio, etc., e passamos a vida a dar sentido, aos sentimentos, ao que sentimos e ao que pensamos, porque pensamos o que sentimos, mas também sentimos, muitas vezes o que pensamos.
E quando me ponho a pensar e a falar das minhas descobertas, e sentir em todos os sentidos é uma delas, é com a sensação, senão com a certeza, de que quando se fala ou escreve sobre algo, já estava tudo na língua.
quarta-feira, 12 de maio de 2021
Aproximações à verdade
Hilário: talvez não haja muitas
coisas que eu e tu não compreendamos
Amiga: se for assim, poucas
coisas haverá que não tenham explicação
Hilário: tudo tem uma razão de
ser
Amiga: ou melhor, para tudo temos
uma razão de ser
Hilário: excepto o que falta
explicar
Amiga: os crimes, as guerras, o
holocausto, os deuses, as religiões, a corrupção, as desigualdades…
Hilário: têm uma explicação, são
racionais
Amiga: os actos humanos são
racionais
Hilário: o amor, a teoria da
relatividade, a música, a alegria, a crítica da razão…
Amiga: racional é tudo o que os
humanos fazem voluntariamente
Hilário: o nosso problema é que muito do que fazem é inaceitável e incorrecto
Amiga: concordo, olhando para a
história e para o que acontece à nossa volta.
segunda-feira, 10 de maio de 2021
De desilusão em desilusão
Hilário: sinto-me desiludido
Amiga: dizes isso como se tivesses ganho o euromilhões
Hilário: de cada vez que me desiludo, sinto alegria
Amiga: de cada vez que me desiludo, sinto que fui burra e fico triste
Hilário: quando descobres que estavas errada só tens motivos para ficar
contente
Amiga: deve ser por isso que estás sempre feliz
Hilário: e achas que estou errado?
Amiga: para te sentires feliz é porque descobriste que andavas iludido
Hilário: e já não ando?
Amiga: quando descobrires que a ilusão é como o trabalho, que não acaba,
ainda vais ficar mais desiludido e mais contente
Hilário: o meu objectivo é viver de desilusão em desilusão, até alcançar
a verdade
Amiga: mas acreditas que conseguirás atingir a desilusão total?
Hilário: aí sim, terei alcançado a verdade
Amiga: queres maior ilusão do que essa? Gostas mesmo de viver iludido
sábado, 1 de maio de 2021
Liberdade
Gosto de pensar que a liberdade não é constituída por átomos, que não a encontro em lado nenhum, não posso recolhê-la como uma lágrima num tubo de ensaio, nem olhá-la de lado nenhum, mas que é de tal modo uma realidade da experiência, que não se faz a frio, nem ao lume, ou uma experiência da realidade, que não precisa de demonstração e que não pode ser refutada por nenhuma experiência.
A felicidade, a ciência, a filosofia, a
verdade, a saudade e a alegria da dança e da música também não são constituídas
por átomos, são da experiência e não carecem de experimentação para serem
provadas. No entanto, e embora tenham no big-bang a sua origem, como os átomos
e as estrelas, e talvez por não as encontrarmos no espaço e no tempo, é mais
difícil defini-las do que falar delas.
Gosto de pensar que a minha natureza é ser
livre, mas como dizer natureza se a liberdade não se encontra no espaço, nem no
tempo?
Ser livre é a minha natureza, o resto são
obstáculos, constrangimentos e limitações. Ser livre coloca-me em guerra com
tudo o que é obstáculo e constrangimento e limitação, exógenos e endógenos.
O controlo, que não é apenas social, porque o
cérebro é uma máquina com um prodigioso sistema de controlo natural, que não
está sob o controlo do seu proprietário, mitiga o que seria uma guerra, em
guerra fria.
Então, ser livre é essa condição subjectiva
de poder aproveitar as condições objectivas para viver, não apenas de acordo
com os instintos, mas de acordo com a vontade.
Claro que a condição subjectiva do meu gato
que entra e sai de casa pela gateira e que trepa à árvore alta a grande
velocidade é bem diferente da minha. Como são bem diferentes das minhas as
condições, subjectivas e objectivas, do candidato a rei de Portugal, ou do Bill
Gates. Para já não falar nos toxicodependentes que travam uma luta interna
muito feroz entre duas forças ou duas vontades em que normalmente vence a que,
paradoxalmente, não é um acto de liberdade.
Por outro lado, que liberdade é a de alguém poder escrever tudo o que lhe aprouver no seu caderno secreto, mas não o poder escrever ou dizer publicamente, ainda que o faça em voz alta para as paredes do seu quarto, desde que ninguém mais ouça?
De resto, é fundamental que a
liberdade do indivíduo seja tutelada pelos meios institucionais de poder, uma
vez que é imperioso, do ponto de vista da razão e da justiça, que ela seja
garantida. Quer como um direito de exercício, quer como um direito de gozo.
Caso contrário, como tem acontecido ao longo da história, em que a liberdade
era poder de facto, mas não reconhecido e tutelado como direito, é grande o
risco de a “guerra fria” se transformar em guerra.
segunda-feira, 26 de abril de 2021
Conhecer a história para julgar
Parece-me que há duas questões a considerar: a história, do ponto de
vista científico do historiador, e a história enquanto objecto de julgamento,
por ser acção humana e toda a acção humana ser susceptível de submissão a algum
tipo de julgamento.
Quanto à averiguação e determinação dos factos, esta não deve, de modo
algum, ser contaminada por preconceitos, prejuízos ou subjectivismos, valorativos
ou outros, porque isso poria em causa a credibilidade e a validade dos mesmos,
pelo menos nos aspectos em que os factos tivessem carácter mais descritivo ou
narrativo.
Quanto a julgar a história, talvez mais importante do que conhecer a
história seja conhecer a história para podermos julgar a história e encontrar
responsáveis, os culpados e os bons, credores do nosso respeito e apreço.
Mas o julgamento da história não pode deixar de ser feito, quer à luz dos
valores e demais circunstâncias do tempo em que ocorreram os factos, quer à luz
dos valores actuais.
Não se trata de ignorar ou de apagar a história, bem pelo contrário, é
necessário conhecê-la para podermos julgá-la.
E, para podermos julgá-la, é necessário adoptar critérios e aplicá-los.
Não serve um qualquer julgamento. Só é admissível um julgamento justo. Que
possa contribuir para a visão verdadeira, como a única que nos poderá ajudar a
evitar e impedir más escolhas.
terça-feira, 20 de abril de 2021
Cultura/dever-ser/sabedoria
As preocupações e
as inquietações da nossa cultura, como processos humanos que, paradoxalmente,
tendem a tornar-nos tanto piores, quanto mais deliberadamente procuram tornar-nos
melhores, ou, pelo menos, num certo sentido de melhor, também são cultura.
A cultura, na minha perspectiva, é de matriz normativa. Embora a
normatividade ética, moral, religiosa, jurídica, estética, do conhecimento, da
política, etc., seja fundamentalmente o mesmo fenómeno de dever-ser, não deixam
de ter expressões, conteúdos, objectivos e sanções diferenciados. Importa
salientar que, se assim for, é uma realidade, como foi realidade toda a
sucessão de guerras e de monstruosidades perpetradas pelos "melhores"
que a cultura produziu.
A cultura continuará a fazer aquilo que sabemos e queremos, a todo o
custo, fazer, ou, por outra, o homem continuará a fazer o jogo que é suposto
dever saber jogar.
As vozes que se levantaram ao longo da história contra a cultura dos guerreiros,
de violência e de dominação, de subjugação e de superação dos adversários e dos
inimigos, além dos padecimentos, do choro e lamentos, dessa inenarrável e
insuportável realidade, pouco puderam mudar. Até o cristianismo, que ensaiou
inverter o conceito de homem melhor, acabou por se revelar o maior promotor
daquilo que criticava e censurava. Mas os outros, os que fizeram tudo o que
estava ao seu alcance para realizar e personificar os valores da civilização,
que enfrentaram e anularam o poder dos inimigos, mais não fizeram do que
reforçar e promover as razões da cultura de guerra. De tal modo que as
sociedades, ainda hoje, são guerreiras e implacáveis para com os fracos, os
inúteis, os fardos, os deficientes, os inábeis, os ignorantes, os inaptos para
o combate. Quando descansam, curam as
feridas, reorganizam as forças e os recursos, fomentam as suas economias e
divertem as populações, não se distraem nenhum momento da principal razão de
tudo isso: recuperar a força, o poder militar. Tudo está preordenado e
instrumentalizado para esse grande fim, a que chamam Paz.
E não é apenas porque se sentem ameaçadas no quadro do jogo político e
militar. Se não for para se defenderem de um ataque, é para impedirem que
desrespeitem as regras do jogo, chamemos-lhes assim. E se desrespeitam as
regras do jogo, há que obrigar a repor a situação e a respeitar. E se as regras
do jogo permitem certos avanços para uns, também permitem para os outros, mas
isto não é aceite pelos poderosos. Aliás, só há liberdade para os que podem.
Esta é a cultura dos melhores, dos heroísmos, dos invencíveis, dos
laureados, dos troféus, dos pódiuns, e dos que clamam por vingança, que nem
fingem acreditar na justiça.
E os melhores são aqueles que superam e vencem os desafios de salvaguarda
dos valores em que acreditam. São os que ganham os jogos e os campeonatos, em
todos os campos ou, pelo menos, mais do que os outros.
Os melhores no sentido de terem mais bondade, de se tornarem mais
solidários, pacíficos, tolerantes, empáticos, dotados de compaixão, de
paciência, de generosidade, companheirismo e de amor pelos outros, não deixam
de ser, como os outros, expressão e fruto da cultura, mas não há competição
nestes domínios.
É lancinante pensar que o dever-ser que a cultura é, seja expressão de
sabedoria. Principalmente, quando são os melhores, sempre em nome do que
“escolhem”, ou “elegem” como melhor, a perpetrar o pior.
domingo, 11 de abril de 2021
Arbitragens e batota
A cultura partidária, clubística, religiosa, comercial, mercantil, não
escapam de uma determinante, que a todos entristece, ou exalta de euforia,
consoante as coisas sejam desfavoráveis ou favoráveis.
Essa determinante, que em minha opinião, só por si, já justificaria que não
há justiça privada (justiça privada é um contrassenso), é a mesma que faz que
alguém acredite que o seu Deus é mais forte que o dos outros, que justo é o que
lhe é favorável (o que for desfavorável é sempre injusto), que nenhum partido
esteja na política para promover as melhores escolhas e soluções, em geral e
abstracto, mas para impor as suas escolhas e soluções como sendo as melhores,
do mesmo modo que jogar é para ganhar.
E, quando se trata de inimigos, já nem é um jogo, mas uma guerra. Os
inimigos nunca têm razão. Esta mentalidade arcaica, no fundo, embora saiba que a
batota não faz parte do jogo e não a aceite, também está construída sobre a
constatação, ou a convicção, da sua inevitabilidade.
Por mais que a odiemos e haja a preocupação educacional de a mascarar com a
eloquência de grandes e belos princípios e leis e símbolos e hinos, templos e
basílicas.
Nascemos e crescemos a ser educados nas virtudes como se elas fossem
universais, mas cedo aprendemos que o egoísmo e a disputa pelos interesses é
que são a regra, são promovidos como ideologia estrutural, e até como um valor.
Assim, todos os árbitros são maus quando arbitram contra nós. Mas isso
também é o que faz deles bons para os outros, quando beneficiam da arbitragem.
terça-feira, 6 de abril de 2021
Polícia do pensamento
A produção literária, mais do que a produção de livros, tende a ser
banalizada como um efeito da abundância, mas isto não significa que tenha
perdido a importância nem, muito menos, que nunca a tivesse tido.
Ficamos estupefactos quando lemos que alguns dos maiores mentores da
nossa civilização não deixaram obra escrita (Sócrates, Jesus Cristo). Eu
acredito que, se o tivessem feito, tinham assegurado menos o seu futuro, não
obstante, este dependeu da escrita e da sua divulgação.
Também sabemos de casos notáveis, de que Descartes é mero exemplo, que
não publicaram em vida, por medo da polícia do pensamento que, na época, metia
na ordem Galileu Galilei.
Nos tempos que correm tudo isso parece ficção e é difícil, para não dizer
impossível, ensinar às crianças que estamos a falar de absurdidades cometidas
por estúpidos, provavelmente assassinos, contra génios da humanidade a quem
devemos imenso.
Mas a questão nem é essa.
Génio ou louco, qualquer livro e qualquer objecto cultural deve estar a
salvo de qualquer juízo de qualquer humano.
Não é só pela falta de confiança nos humanos para julgar seja o que for,
mas mais pela necessidade de não nos submetermos uns aos outros. Isto é
verdadeiramente crucial.
Nenhum humano, seja em nome de quem for, tampouco em nome do humano,
deverá poder negar este.
Os livros podem conter aberrações, como sabemos que contêm os mais sagrados,
adorados, celebrados e respeitados. Mas não devem deixar de existir, não devem
ser proibidos, não devem ser destruídos, porque não fazem mal a ninguém. Menos
ainda a quem não os ler.
São objectos tão insignificantes, tão quietos, tão inofensivos, só papel
e tinta em caracteres, nem sequer têm ideias, não pensam, nem falam, nem
pisca-piscam, exigem tanta competência e tanto empenho para serem lidos…
É impossível não odiar quem se sente incomodado com a inocuidade de um
livro.
Como justificar guerras por causa de cem ou duzentas folhas de papel? A
culpa é de um livro? Dessem um tiro no livro. Enforcassem o livro. Limpassem o
cu ao livro. Mas não.
O problema dos livros é que eles, mesmo cobertos de teias de aranha, são
terríveis. Dentro deles está algo que, quando entra num cérebro, começa a
produzir efeitos. Quaisquer que sejam estes efeitos, provocar a polícia do
pensamento (coisa terrível de imaginar, mas que é a nossa realidade essencial,
o humano é essencialmente polícia do pensamento, definir o humano implica dizer
que é um EU, que é construído de base, de raiz, por censura, autoridade, dever,
polícia, castigo, violência, deus, pai, poder, dever-ser, punição) não é o
menor deles.
A liberdade ainda está a ser inventada pelos livros. Não propriamente
pelos livros, mas enquanto eles são o suporte dessa experiência que a memória,
só por si, deixa escapar.
E não adianta querer destruir os documentos para destruir a história.
Destruir a história dos outros é destruir a nossa.
No fim, fica uma história, a única que existe.