sexta-feira, 22 de março de 2019

Liberdade e conceito de liberdade

É praticamente inevitável cair em contradições, quando se intenta acoplar realidades e conceitos que se cruzam mas não se misturam. Com efeito, as ideologias e as crenças não podem ser culpadas de serem boas e más ao mesmo tempo.
Se, por um lado, o liberalismo económico e, por outro, o liberalismo político, funcionaram em determinadas condições históricas e deixaram de funcionar noutras, deve-se lamentar a imprevidência humana em não ter corrigido as agulhas, em não ter percebido que o esquema era o mesmo mas os problemas eram outros.
Os modelos político-económicos que levam à prosperidade, paradoxalmente, costumam ser os mesmos que precipitam nas crises, levando os mais ingénuos a perguntar por que razão se abandona um modelo que proporcionou tanto progresso.
As condições alteram-se e isso altera tudo.
Se o planeta Terra não sofresse as agressões e desequilíbrios que está a sofrer tão violentamente pela ação do homem focada numa exploração económica desenfreada e devastadora, o liberalismo continuaria a ser muito bom e todos poderíamos acalentar o sonho americano (em vez do pesadelo).
O pragmatismo de um analfabeto de há cem anos já lhe permitia vaticinar e até antever os limites das realidades e perceber as aberrações a que pode conduzir a liberdade, seja política, seja económica.
A liberdade enquanto condição não se reconhece muito no conceito de liberdade, nem este naquela, porque justamente, ela é algo físico, corpóreo, com consequências adjacentes, com externalidades negativas, é ativa, é um agente, é um sujeito que não quer ser objeto. Por exemplo: o que é a liberdade para uma pessoa destituída de poder? E o que é a liberdade para uma pessoa com poder? É igualmente liberdade?

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Crenças, narrativas, valores e poder

A militância dos ateus é tão ostensiva e hostil como anti pedagógica e tem pouco ou nada de científico.
De resto, enquanto os religiosos e os crentes têm narrativas e tábuas de valores, preceitos e doutrinas que enformam as sociedades e as instituições sociais, desde sempre, com um acervo de cultura reconhecidamente edificante da pessoa e do mundo, os ateus só têm para oferecer "a contestação", baseada na falta de fundamentos fácticos das crenças. 
Ora, é sabido que os crentes não têm nem defendem uma ciência de Deus. 
E se as religiões começaram por ser pseudociências de Deus, atualmente nem precisam de Deus para serem religiões, bastando-lhes serem ideologias cujo sistema de valores e doutrinas rivalizam diretamente com qualquer estrutura político-partidária. 
Hoje, as religiões já não são o que eram. A própria pressão científica obrigou à distinção entre crença em Deus e conhecimento de Deus. 
Crença todos podem ter, mas conhecimento nem por isso. 
O problema é quando o crente toma a sua crença como padrão de racionalidade para tudo o mais. Identicamente, o problema do ateu é adotar uma posição irredutível, sem saída para lado nenhum, puramente negacionista, quando a racionalidade aspira a muito mais e exige, largamente, muito mais.
Não me considero ateu nessa acepção. 
Acredito num Deus desconhecido, por mais contraditório e paradoxal que isto possa ser. 
Deus é um mistério paradoxal.
Os ateus não têm como evitá-lo e são eles próprios "um efeito, ou corolário" desse mistério.
Mas acreditam em coisas estranhas e inexplicáveis como o Big bang. Aquilo que explodiu. 
Que é que explodiu? Porquê? E os estados sucessivos da matéria? O que é a matéria?

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

O que é melhor para o planeta não é melhor para nós?


Continuamos a ouvir discursos numa "argumentação clássica" acerca das desigualdades e da concentração de riqueza, quiçá a favor de uma redistribuição como solução (curiosamente, como solução para manter em movimento acelerado a roda do capitalismo na mira do mítico e sacralizado crescimento económico) dos problemas que ameaçam os capitalistas (e o capitalismo), constatando que as revoluções só acontecem quando a crise chega aos ricos, que já deixaram de o ser ou estão em vias disso.
Mas este tipo de argumentação não traz nada de novo e segue a lógica imperiosa do modelo económico paradigmático.
A estranheza deste tipo de discurso, para não dizer originalidade, é a recorrência dos plutocratas à desculpabilização de si mesmos e à culpabilização do Estado e dos governantes.
É incrível que “tenham” de ser eles próprios a vir dizer, com ênfase, que querem pagar mais impostos, que ganham demasiado dinheiro, mas que o Estado e os governantes nada fazem quanto a isso, ou porque não querem, ou porque andam “distraídos”. 
Duvido que alguma vez na história tivesse ocorrido algo semelhante, que se vai repetindo um pouco por aqui e por ali.
O Estado, os partidos, os governos, parecem reféns da lógica da sua própria dogmática ideológica. 
No futebol também há situações em que o jogador diz que não tem culpa de ganhar tanto, que nem pediu dinheiro, este é que lhe é oferecido.
De qualquer modo, estamos a assistir a uma realidade que está a passar ao lado dos discursos e das reivindicações dos nossos tempos.
Talvez possa soar a heresia dentro do paradigma clássico, mas é um facto que, sem ninguém o ter pretendido, ou por ironia do destino, a concentração de riqueza, com as inerentes desigualdades, sendo um escândalo social e moral, um pouco à semelhança do que acontece com as medidas de austeridade, mas muito mais grave, não deixa de ser uma “bênção” para o planeta, para a necessidade de o salvar.
Vejamos. 
Se redistribuíssem amanhã a riqueza pelos que a não têm, o que é que aconteceria? 
Não digam que todos ficariam melhor e que haveria mais ricos, porque os efeitos seriam devastadores... para o planeta.
Os níveis de consumo, se não forem controlados, talvez sejam a maior ameaça para a humanidade.
Se ao menos fosse possível alcançar menos consumismo de bens materiais, desperdício, destruição, poluição, extinção de recursos, em troca de mais consumo de serviços... 
Mas este nó parece ser um nó górdio.

sábado, 26 de janeiro de 2019

Valores e escolhas


Haveria considerações e reparos a fazer, por exemplo, à redução dos valores a gostos, ou que os valores estão fora do domínio do conhecimento, mas o que mais me suscita interesse é que a questão dos valores é a questão do Direito, da justiça e da sabedoria, ou mais simplesmente, do critério, da escolha, da ciência das escolhas (como alguém define a economia), da responsabilidade, da liberdade... 
Na realidade, desde o átomo à galáxia, tudo, incluindo o conhecimento (e o conhecimento científico), vale ou não vale, de acordo com algum critério de valor. 
A questão do valor intrínseco é resolvida pelos crentes num Deus que ditou a tábua de valores absolutos. Os não crentes, ou, pelo menos, os que não têm outras referências religiosas, morais ou éticas, sendo eles próprios como que o centro de todas as referências valorativas, o Eu sem o qual nada vale, tenderão a gerir os valores como uma espécie de "mercado" mais ou menos perspetivado para o curto, médio ou longo prazo mas, indissociavelmente, de uma racionalidade utilitarista tendo o "big bang" como pano de fundo e a morte como fim. 
De qualquer modo, quando falamos em valores, quando consideramos, por exemplo, que a ciência é um valor, não estamos a falar de gostos ou preferências, ou vícios, mesmo que haja pessoas viciadas em ciência, como poderá haver pessoas viciadas em virtude. 
Do que estamos a falar é de algo que, no quadro das realidades que contam "propter nos homines et propter nostram salutem", todos têm facilidade em argumentar a favor e ninguém consegue (com sucesso) argumentar contra.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

A literatura é uma arte

A literatura é uma arte, cujo limite é a imaginação e a inteligência e o conhecimento, o engenho, a loucura, de expressar por palavras o humano, o científico e o aberrante, o natural, a natureza, não apenas segundo os cânones científicos da ordem, de que seria, aliás, uma cópia ou reprodução, mas no que essa natureza, supostamente ou apenas por hipótese, "representa" para o escritor, ou este quer representar, porque sim.
Aqui, no escritor, no indivíduo, reside o factor chave, o interesse, o valor, a originalidade, a instauração de uma realidade, não de uma realidade científica da natureza física, mas de uma realidade humanamente significativa, o estado crítico (mais avançado?) da matéria.
A ciência é tão afim da literatura como outra coisa qualquer, como uma pedra ou o sol, ou um rio. A literatura é tão afim da ciência como a vontade ou o desejo de dar expressão a problemas e significados e respostas, ainda que não sejam soluções de nada.
Muitas vezes as soluções vêm com a técnica.
A literatura, não obstante, é a única forma de conhecimento de realidades sociais e humanas que a ciência sabe ou presume existirem, mas que não tem outra forma de conhecer.
A literatura é e será um grande desafio à observação, compreensão e conhecimento das realidades sociais e humanas, tanto mais quanto mais sabemos que, enquanto o conhecimento da natureza é instrumental, o conhecimento das realidades sociais e humanas é incontornável e "existencial".
Se bem que ambas, ciência e literatura, tenham a aptidão para o conhecimento (e o conhecimento não é sempre conhecimento de realidades?) a literatura não se define nem tem como função ou objetivo ou estatuto conhecer seja o que for.
A literatura, enquanto “obra de” arte, não está sujeita a critérios de verdade, de racionalidade, de interesse, de correção, de certo ou errado. Um texto literário não tem de estar certo, nem errado. Nem é bem ou mal escrito, ainda que esteja cheio de erros ortográficos. 
A literatura tem como objetivo ser conhecida, como outra coisa qualquer.
A relação entre a literatura e a ciência parece, assim, fácil de estabelecer.
A ciência, para a literatura é como outra coisa qualquer e vice-versa, mas enquanto a ciência se pauta por critérios de cientificidade e é isso que a caracteriza, a literatura não se caracteriza por obedecer a coisa alguma.

sábado, 15 de dezembro de 2018

A religião é a grande esponja


É interessante a ideia de que a ciência, o método científico, são um sistema de prevenção e de correção de erros e, tanto ou mais do que isso, de exploração do mundo, a partir da imaginação e do conhecimento estabelecido. 
Fica-se com a ilusão de que a ciência é o próprio mundo e não apenas o conhecimento de uma faceta do mundo. E, no entanto, a ciência é apenas um ingrediente muito novo, recém-nascido, nesse mundo.
A ciência deslumbra por ser ela mesma expressão daquilo que, a todo o custo, quer expressar.
Já quanto a existirem “várias actividades humanas além da ciência, por exemplo, a arte, a religião ou a ética", diria que temos um problema clássico de ordenação e classificação inerentes à condição humana de analisar, dividir, separar e juntar de novo com fronteiras, para não esquecer diferenças... Em toda a feitura humana existe algum tipo de preocupação/razão/objetivo/preferência/capricho ...estético.  
Qualquer objeto, desde um sapato à roda de uma carroça de brincar, até os mamarrachos, parecem obedecer a um qualquer gosto ou pretensão estética. A produção de objetos, de obras, de artefactos, não é alheia a algum tipo de racionalidade. 
A valoração envolvida na arte, tantas vezes coincidente com a religião e o sentimento ético do artista, sofre, não raro, com a "desilusão" demolidora introduzida pela ciência. 
Quando as artes são uma forma de reforçar a "crença" ou o gosto que se tem, a ciência pode surgir como desmancha prazeres.
Estando a arte associada ao prazer, muitas vezes resta o prazer de apreciar somente a arte e não o "conteúdo".
Relativamente à religião, ela apresenta-se como algo totalitário, que não dá meças, nem à ciência, nem à arte, nem às outras religiões.
A religião é a grande esponja.
Não concordo que a ciência se deva submeter à ética.
À ética só devem submeter-se os comportamentos, as condutas humanas.
A ciência, como se verifica em manuais da especialidade, é eticamente neutra. Não se diz "deve ser" eticamente neutra. Ser ciência ou não nada tem de ético.

domingo, 9 de dezembro de 2018

Ainda Esparta e Atenas


Só podemos culpar a revolução técnica e industrial, porque, assim, ninguém é responsável. Mas os políticos são os grandes responsáveis por todo o mal, ou quase, que existe no planeta. E, mesmo assim, continuamos a "adorar" os políticos, por mais indecorosos e medíocres que sejam. Tal e qual como acontecia/acontece nas religiões. O indivíduo não é nada. Mesmo depois da dita afirmação do individualismo. As corjas sim. Se não pertenceres a uma corja, és uma vítima certa e irredimível. Junta-te a uma corja e serás salvo. Nem que seja a corja dos traficantes de chifres de rinocerontes.
Os indivíduos têm a sua responsabilidade comportamental, muito bem definida e sancionada. Mas as estruturas e as organizações e os poderes, que cilindram tudo e renascem sempre sobre as cinzas e o betão, encontrarão modos de serem inocentadas, exequíveis e felizes na lua ou em marte.
E, quando a terra "amada", "te arrenego", for inabitável, talvez venha a ser contemplada por uma estúpida "inteligência matemática" da esperança matemática. Não precisamos de pessoas, mas de matemática e de finanças. As pessoas são uma variável dependente. A montanha de ouro, sim, é, será o refúgio e a esperança. Trabalhem para o ouro. Que cada um de vós seja transformado em ouro, no ouro do outro. Eis o poder e a vanglória em todo o seu esplendor.
Se perderes, envergonha-te e não te queixes. Se venceres, aproveita enquanto dura, e vangloria-te, e humilha, porque esse é o teu prémio e o teu momento.
Quem estiver curioso, revisite Esparta e Atenas. Sem embargo de os nossos políticos ignorarem completamente tudo.

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

O mais revolucionário ateu



“Deus é o silêncio do universo, e o ser humano o grito que dá sentido a esse silêncio”. Ao ler esta frase, atribuída a José Saramago, diria que ele, a pensar assim, não era ateu. 
Ao criar Deus, o homem não pode crer que está a parir e não propriamente a criar, mas está a parir um "filho" do pensamento indomável, uma espécie de alma sem contornos, nem qualidades, que habita esse pensamento e que está tão presa a ele como ele está preso ao corpo.
E nesta génese de Deus o homem foi significando a religião, as religiões, com os mais variados objetivos, práticos e teóricos, tornando-as em caldos de superstições e de contradições e de sistemas políticos e normativos.
Jesus Cristo parece ter tido uma visão muito clara de que as religiões, incluindo a judaica, eram uma espécie de pseudociências de Deus. Quem soubesse a cassete do "jargão" religioso, sentia-se habilitado a falar disso como um sábio.
Infelizmente, Jesus Cristo não foi devidamente compreendido. Ele era o mais revolucionário ateu numa cultura de pseudociências de Deus. Ele foi o mais lúcido, contundente e demolidor adversário e inimigo dessa cultura.
Mas os próprios cristãos, o cristianismo, os poderes políticos, a igreja católica, trataram de o interpretar e de o integrar no velho sistema de pseudociências de Deus, como se ele fosse mais um, embora diferente e melhor.
E, mais grave do que isso, endeusaram Jesus Cristo. Ao endeusá-lo estavam a endeusar a própria Igreja, o que veio a revelar-se catastrófico, e a destruir, desvirtuando-a e deturpando-a, a grande mensagem de Jesus Cristo contra as religiões enquanto pseudociências de Deus.
O que poderia ter sido um imenso movimento de iluminismo antecipado e fulgurante, verdadeiramente libertador, acabou por ser absorvido em sistemas de mais pseudociências de Deus.

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Humanidades

As humanidades e a ciência não estão separadas. Falar em humanidades não pode fazer esquecer as ciências do homem e as ciências da vida, nem a riqueza das línguas e literaturas, das artes, da música à pintura, passando pelos desportos, das filosofias, da antropologia, da psicologia, da demografia, da sociologia, da ciência política, do direito, da justiça, da história, da gastronomia e, porque não?, das religiões...
Falar em humanidades, sem mais, normalmente corresponde a apagar a luz do quarto para dormir. Mas as humanidades, tal com a esperança, serão a última coisa a morrer e as ciências humanas ainda agora iniciaram o seu percurso, a sonhar, de mão dada, ora pelas ciências da vida e da Terra, ora pela estatística, ora pela genética, pela psicologia... 
As humanidades são a expressão da humanidade, ela própria, no seu espectáculo ímpar e pluridimensional, por causa e apesar da ciência, com mais ou menos ciência, sempre do lado da ciência, mas antes e depois da ciência, porque o homem é anterior à ciência, e não apenas à ciência "stricto sensu", com hipóteses de lhe sobreviver, mas não de esta a ele.
As humanidades e as ciências do homem não criaram o homem nem o substituem em circunstância alguma. 
Ao homem deve ser sempre reconhecido o direito de dispor das humanidades e das ciências, mas nunca da humanidade. 
As humanidades não se dedicam apenas às pessoas, e que assim fosse! Mas isso é parte de um lugar comum, que já é tempo de desmontar. 
Todas as ciências, toda a cultura, o próprio Deus, são humanos, fazem parte das humanidades.

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

A filosofia vai ter um sucesso do caraças.


Quando se trata de perceber, compreender, investigar, questionar, desconstruir, já não estamos a falar para pessoas que têm como grande preocupação, ou preocupação exclusiva, sobreviver às injustiças e às falsidades perpetradas e cultivadas intensivamente, como quem cultiva e consome cannabis...
Mas vale a pena, tem que ser e é esse o rumo.
Pode ser necessário velejar à bolina, mas o "capital" da ignorância é demasiado valioso e poderoso para ser deixado nas mãos dos ladrões que, sem escrúpulos, a colonizam como um fungo maldito, transformando em deserto tudo à sua volta.
Neste tempo de ópios, futebóis, seitas a imitar as "respeitáveis" igrejas, partidos enformados como seitas, Estados organizados por esses todos, num espetáculo de crime e corrupção, que é ofuscado pelas telenovelas e pelos "shows" de Gouxxass e Ferrreirass e outros entretenimentos de grande sucesso e maior proveito para uns quantos, de jogos de uma dimensão épica nunca vista, nos telemóveis e no momento de morrer, a filosofia vai ter um sucesso do caraças.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

O que importa é a Arte

Ao fim e ao cabo, ociosidade dos discursos à parte, o que importa é a arte. A arte está para a evidência como "o campo" está para a verdade desportiva. Não me refiro apenas às "leges artis", refiro-me sobretudo às habilidades. Nem todos temos habilidades, por ex., para endrominar um júri. Nem todos temos habilidades para fazer o mortal à retaguarda ou voar numa bicicleta, ou grafitar o último animal extinto...Como eu gostava que me ensinassem essas artes! Trocava grande parte dos meus saberes e conhecimentos pela arte de dar cambalhotas sem apoio e sem parar...

domingo, 4 de novembro de 2018

O direito é como o natal

Todos abanam com a cabeça e ninguém tem dúvidas, mas cada cabeça é um centro de vontades e de ignorâncias e de competências. Os políticos, como se tem vindo a confirmar, gerem esta realidade de um modo hábil e oportunístico. 
Os políticos são oportunistas e, se o não fossem, não tinham votos.
Não há como ultrapassar este problema. Tem que se dar às pessoas o que elas querem. 
Não querem direitos humanos? Estão no seu direito. Querem pena de morte? Estão no seu direito. Querem mais direitos para as pulgas ou os cães do que para as pessoas? Estão no seu direito. 
Basta reconhecer o direito às pessoas.
Mas estamos cada vez mais longe de ver reconhecido(s) o(s) nosso(s) direito(s).
O problema fundamental ainda não foi resolvido, qual seja: a que é que uma pessoa (de África, Ásia, Europa, América, Oceania...)tem direito? O que é o direito de uma pessoa? Quais são os direitos de uma pessoa?
O direito é como o natal, é quando uma pessoa quiser...
Talvez devamos concluir que as pessoas não precisam de Declarações de Direitos para saberem o que deve ser o seu direito.

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Partido da neutralidade


Pela neutralidade é tomar partido, tanto ou mais que ser contra ou a favor. É urgente que se reconheça o partido da neutralidade, com todos os respeitos e garantias que lhe são devidos. E não só a neutralidade, também a indiferença. Respeitemos. 
Não obriguem ninguém a tomar outro partido. 
O partido dos neutros e dos indiferentes é esse, o partido deles. 
Ou os outros são melhores? 
Não obriguem ninguém a nada mais que respeitar. 
A cultura da partidarização já foi longe de mais. 
Vamos iniciar um ciclo inédito de despartidarização de tudo e de alfabetização construtiva. 
O futebol da política está a ir, quando a política do futebol já está a voltar. 
A bandeiras despregadas!!!

Nota: eu não sou neutro, nem indiferente.

domingo, 28 de outubro de 2018

O povo

O povo tem um sentido prático que chega a ser espantoso.
O povo só aprecia tragédias na tela da televisão ou do cinema.
E é capaz de trocar tudo o que tem, incluindo a dignidade, por um pouco de paz e de misericórdia.
Para por um povo em armas é preciso que o fim do mundo já tenha acontecido nos arredores,
ou que, num arrebatamento de soberba, sem medo, acredite numa vitória expiatória. 
E, ainda assim, alguém tem que lhe dar as armas e a ordem para se defender, ou atacar.

As coisas não têm de ser


As coisas não têm de ser 
nem têm de ser como são
nem são
entre a vida e a morte
não há
aventuranças
nem há entre a vida e a morte.

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

A questão de Deus


               Como tratar da questão de Deus sem nos envolvermos numa questão da própria questão?
               O significado da palavra chega a ser profundamente contraditório. Desde significar um objeto inerte, uma imagem, um desenho... até significar um animal, um fenómeno natural ou simplesmente fantasiado... ou um conjunto de atributos políticos, morais, estéticos, espirituais...tudo deste nosso reino que muitos acreditam poder descrever outros, completamente diferentes, que possam existir...indo do simbólico até ao conceitual, do objeto de adoração, ou simplesmente de indagação, indiferença ou rejeição, a princípio legitimador de prescrição e de ação e, até, de critério de sanção, Deus é um problema do homem que este resolve do modo que pode, lhe parece melhor, ou dá mais jeito.
             Interrogar "o que é Deus?" é diferente de interrogar "que significa a palavra Deus?" e de interrogar "quem é Deus?" e de interrogar "Deus existe?".
            Debalde se procurará uma resposta objetivamente definida para qualquer dessas interrogações.
           O próprio significado da palavra Deus, que pareceria mais suscetível de ser conseguido objetivamente, depara com subjetividades intransponíveis, talvez por se tratar de algo que, apesar de ninguém saber o que é, tem tantas definições quantas as pessoas que o definem, ou mais.
           Quanto a isso, eu designaria Deus como um significante sem significado, ou, à procura de significado, ou como uma personagem à procura de um actor. E o universo, uma obra à procura de um autor.
           Deus é uma realidade cultural e, como tal, tão histórico como a bíblia, ou os faraós. Enquanto que a bíblia e os faraós são objetos reais e culturais, Deus deixou de ser objeto real (animal, etc....), deixou de ser ídolo e é uma espécie de abstração sobre si mesma, à procura de concretização de que essa mesma abstração está fecundada.
           Para o filósofo, ou para o cientista, Deus é um conceito muito restrito, reduzido a hipótese teórica de Inteligência criadora do universo.
           No entanto, essa hipótese dá azo ao desenvolvimento de teorias que a discussão tradicional entre ateus e crentes, fiéis ou não, tem impedido de acontecer.
           É neste plano que me parece que os ateus também laboram em crenças e, tentar combater crenças com outras crenças é tão impróprio e ineficaz como combater uma religião com outra, embora isto seja uma fatalidade das crenças e das religiões.


sexta-feira, 12 de outubro de 2018

(Des)humanidade


O tema das universidades europeias é de suma importância, pelo que vi tratado, com inusitada competência, no livro «Os intelectuais na Idade Média», de Jacques Le Goff.
De cada vez que recuo no tempo para tentar encontrar o tempo presente verifico, porém, que as grandes questões filosóficas e religiosas continuam em aberto, como no paleolítico, neolítico, etc..
Vivemos aprisionados dentro de um universo que vamos conhecendo cada vez mais. 

Cada vez mais capazes de descrever e de explicar como funciona. 
Mas o nosso problema humano é outro. 
Que é que substitui ou satisfaz a nossa vontade? 
Pudesse ter todas as verdades no bolso da camisa. Fosse Deus.
Como é que isso iria resolver aquele problema da vontade?
Ou, dito de outra forma mais prosaica, um voto serve para alguma coisa?
E se forem todos os votos?
Vivemos numa sociedade que, embora evoluída cientificamente, se mantém arcaica e que não aprendeu, nem aprende com os erros e as dores dos outros, porque destituída de passado, ou, pelo menos, destituída da consciência desse passado, completamente descredibilizada na sua competência para resolver problemas sociais de sempre, mais empenhada no estudo da física atómica e dos astros do que no estudo dos problemas sociais e político-económicos, mais apodítica sobre as rochas e os meteoros do que informativa sobre a justiça e as desigualdades sociais, com mais conhecimentos sobre as galáxias do que sobre os factos sociais, mais segura das característcas físicas da matéria do que assertiva quanto às qualidades dos organismos vivos, a resvalar em movimento acelerado para mais uma catástrofe provocada por uma coisa irracional chamada (des)humanidade.
Faz falta um Newton e um Einstein e um Schrodinger das Ciências Humanas e Económico-Sociais.
Mas continua a ser muito mais difícil do que pareceria no dealbar das revoluções...

domingo, 23 de setembro de 2018

Estado crítico da matéria


António Gedeão é um dos meus poetas preferidos. 
Para o homem de ciência, não me admira que a poesia tenha sido a descoberta do estado crítico da matéria. 
O que me admira é a forma como ele tratou da matéria.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Novas formas de ganhar

         Não me colocaria do lado dos que se recusam a reconhecer que o planeta terra está a ser destruído pelo homem, de múltiplas formas irreversíveis, sem retorno, incluindo alterações climáticas desastrosas.
         Não é por, hipoteticamente, alguma alteração derivar de fenómenos extraterrestres, que me colocaria, não apenas contra as evidências, mas também do lado das improbabilidades, ignorando a enorme realidade da devastação dos habitats.
        Ou seja, não me colocaria do lado de uma qualquer teoria que torturasse, sacrificasse e maltratasse irreversível e definitivamente os factos, até e principalmente o facto de estarmos a ser destruídos, pela acção do homem e não só.
       Vivemos um tempo de alertas e de alarmes mais do que justificados. 
       As soluções baseadas e preconizadas em princípios e práticas antigas, instituídas pela força dos usos e dos paradigmas milenares de organização jurídico-política e económica são hoje um perigo, impensável nos alvores da industrialização e da exploração económica liberal e individual, dos recursos do planeta.
      Muito está a mudar e muito rapidamente, de tal modo que os modelos conhecidos de resposta política, jurídica e económico-social, nomeadamente internacionais, são incapazes de satisfazer as exigências de racionalidade e de fundamento que se colocam.
      Estou a pensar, por exemplo, no problema dos migrantes, dos refugiados...E no problema da apropriação e exploração dos recursos naturais das diversas regiões do nosso planeta.
      Os Estados e os povos não vão poder continuar a fingir que as coisas podem ser resolvidas e solucionadas com base nos princípios clássicos e antiquíssimos, mas muito primitivos e tacanhos, da soberania territorial estadual.
      O princípio de que o planeta é igualmente de todos, de que ninguém tem mais direitos, hereditários ou outros, nem títulos especiais e privilegiados de vocação ao património da humanidade, científico, cultural, material, vai ter de ser equacionado se se pretender responder a algumas das questões mais dramáticas e prementes do nosso tempo.
      Muitos se manifestam pelo que temem perder, mas vai ser preciso aprender novas formas de ganhar.