Desde que se lembra, e até antes disso, deitou-se sempre com um irracional: o medo. Sabia que o medo era irracional, mas estava lá sempre. Às vezes parecia-lhe que o medo não estava e que em seu lugar se deitava a morte, naquele vazio inexplicável maior do que o medo, que ocupava mais de metade da cama. Quando isso acontecia, ficava acordado, alerta, pronto para fugir e gritar por socorro.
Do outro lado da rua, mesmo em frente, toda a noite, havia pessoas à espera que alguém pedisse socorro: era o quartel dos bombeiros. E, um pouco mais adiante, o posto da polícia.
Uma noite, pouco depois de, numa luta sempre desigual, ter sido vencido pelo cansaço e de, por fim, ter adormecido, acordou estremunhado com o toque da campainha. Eram cinco da manhã e estava escuro. Pelo intercomunicador perguntou «quem é?» e pelo vídeo-porteiro confirmou a presença de um vulto indistinto na escuridão. Uma voz arrastada, de alguém, homem ou mulher, com mais de oitenta anos, denunciava uma euforia perversa «ando há meio século à procura de um homem e tudo indica que, finalmente, o encontrei: esse homem és tu. Já posso viver com a consciência do dever cumprido».
Era alto e vergadiço como um salgueiro. Andava como se fosse gordo. Vestia-se como se o derradeiro inverno estivesse congelado no tempo. Falava mais depressa do que pensava e concluía sempre muito antes de chegar ao fim do raciocínio. Se fumava? Sim, fumava como uma chaminé e seguia o fumo até vê-lo… desaparecido. Nunca se tinha deitado com uma mulher. E sonhava escrever um poema.
No momento em que nasceu, sua mãe estava de pé e não o quis ver, alegando que estava morta. Foi um momento desumano, porque ela não morreu. A parteira compreendeu sem dificuldade as dores daquela mulher «também já fui assim!»-pensou, mas foi em vão que tentou compreender o choro do recém-nascido.