domingo, 1 de agosto de 2010

O Velha (XIV)




Desde que se lembra, e até antes disso, deitou-se sempre com um irracional: o medo. Sabia que o medo era irracional, mas estava lá sempre. Às vezes parecia-lhe que o medo não estava e que em seu lugar se deitava a morte, naquele vazio inexplicável maior do que o medo, que ocupava mais de metade da cama. Quando isso acontecia, ficava acordado, alerta, pronto para fugir e gritar por socorro.
Do outro lado da rua, mesmo em frente, toda a noite, havia pessoas à espera que alguém pedisse socorro: era o quartel dos bombeiros. E, um pouco mais adiante, o posto da polícia.
Uma noite, pouco depois de, numa luta sempre desigual, ter sido vencido pelo cansaço e de, por fim, ter adormecido, acordou estremunhado com o toque da campainha. Eram cinco da manhã e estava escuro. Pelo intercomunicador perguntou «quem é?» e pelo vídeo-porteiro confirmou a presença de um vulto indistinto na escuridão. Uma voz arrastada, de alguém, homem ou mulher, com mais de oitenta anos, denunciava uma euforia perversa «ando há meio século à procura de um homem e tudo indica que, finalmente, o encontrei: esse homem és tu. Já posso viver com a consciência do dever cumprido».


1 comentário:

Djabal disse...

"O intocável é a própria realidade e não alguma coisa atrás dela."
Esse pensamento me ocorreu, e tem me ocorrido em seus últimos textos. Quem sabe?
Fique com um grande abraço.