quinta-feira, 15 de julho de 2010

O Velha - XIII


Era alto e vergadiço como um salgueiro. Andava como se fosse gordo. Vestia-se como se o derradeiro inverno estivesse congelado no tempo. Falava mais depressa do que pensava e concluía sempre muito antes de chegar ao fim do raciocínio. Se fumava? Sim, fumava como uma chaminé e seguia o fumo até vê-lo… desaparecido. Nunca se tinha deitado com uma mulher. E sonhava escrever um poema.
No momento em que nasceu, sua mãe estava de pé e não o quis ver, alegando que estava morta. Foi um momento desumano, porque ela não morreu. A parteira compreendeu sem dificuldade as dores daquela mulher «também já fui assim!»-pensou, mas foi em vão que tentou compreender o choro do recém-nascido. 


2 comentários:

Tere Tavares disse...

"E sonhava escrever um poema".
Isso certamente o salvou. Continuo acompanhando-o!
Abraço

Djabal disse...

E talvez tenha deixado uma obra póstuma ainda maior do que aquele que deixou em vida. Talvez, como é bela esta palavra, como ela nos define, desde o costume dando uma falsa impressão, até o choro indecifrável da criança. Abraços.