sábado, 25 de setembro de 2021
Eu e Euclides
Podemos
estar no mesmo planeta
Na
mesma sala
À
mesma mesa
Euclides
vive num mundo
Que
foi criado com subtileza
E
livro de instruções
E
acha que o único trabalho digno
É
aprender a seguir as instruções
Por
isso quando morrer vai para o céu
Ou
para o inferno ou para o purgatório
E
diz que eu não tenho escolha
Por
ter nascido no mundo impossível
Que
não foi criado
E
quando se nasce num mundo impossível
Não
se vive nem se morre
Eu
já
lhe disse que não sei nada do mundo dele
E
fico espantado como ele sabe tanto do meu
Apesar
de ser um mundo impossível
Euclides
diz que vive no melhor dos mundos
Eu
Compreendo
melhor o problema
De
vivermos em mundos diferentes
Eu
Crio
espaço
Euclides
cria o número
Eu
Crio
ambiente
Euclides
não quer saber
Fala
convictamente
E
chega a embaraçar
Ostentando
a chave
De
porta inexistente
O
meu mundo é construir liberdade
O
dele estala agoiro
A
partir de linhas imaginárias
Sobe
aos pináculos
Da
comoção
Mas
onde estou
Só
alcanço saber quem ousou
Ser
mais do que devia ser
E
o pôde fazer
Euclides
cedo aprendeu a fazer
O
que quer
Mas
ninguém ainda lhe ensinou
A
cumprir o seu dever
E
se me olha para dizer que
Eu
Faça
o que fizer
Não
faz sentido
Euclides
não é amigo.
sexta-feira, 17 de setembro de 2021
Liberdade de expressão - Igualdade - Liberdade
O facebook pode ser um instrumento de influência e
de condicionamento de opinião e, só por isso, já requer vigilância por parte de
todos nós.
A liberdade de expressão é da máxima importância e
poucos se dispõem a bater-se por ela, como se ela fosse negligenciável, em
troca de um sorriso, de uma palmadinha nas costas ou de uma esferográfica com o
logótipo do chefe.
Quando se negligencia a liberdade de expressão, ou
melhor, quando um de nós, seja em que situação for, perante o papa ou o rei, se
sente impedido, constrangido, abafado, com receio de ser banido do círculo e
lançado às feras, está na hora de pensar que a liberdade de expressão é só para
alguns.
Mas o verdadeiro problema da falta de liberdade de
expressão, que é uma dura realidade, mesmo nas democracias mais evoluídas, é
que ela é o sintoma mais chocante da falta de liberdade e da negação da
igualdade.
segunda-feira, 13 de setembro de 2021
Ainda não chegamos
Naquela manhã o nosso objectivo era simples
montar nos cavalos
e numa hora
chegar ao ponto donde se avistava o castelo
depois cada um procuraria o melhor caminho
mas nunca atravessando o rio
Estávamos habituados a cavalgar a planície
e pernoitamos sob a via láctea
hipnotizados pelo concerto arrebatador
da fauna noctívaga
e pelo aroma inesquecível da pradaria
até os cavalos sonharam
que tinham asas
Para evitar o sol escaldante
ainda as estrelas brilhavam
arreamos as dóceis montadas
e sonolentos partimos
mas ainda não chegamos.
quinta-feira, 9 de setembro de 2021
Perder de vista
sábado, 4 de setembro de 2021
Deambulação
Deambulas
De suave fragor
De vagas
De mar
De verão
De olhos
De peixes fora de
água
De aves agora famintas
De teu pão.
quinta-feira, 26 de agosto de 2021
O MAIOR INIMIGO
Quando o velho bebeu o último copo
E foi embora
Fecharam o bar
Lá fora no escuro da noite
Ele sabia que os lobos só o espiavam
Por curiosidade
Para lhe farejarem a alma
E não lhe quisessem o coração
Mas por precaução
Levava consigo duas cabeças de carneiro
Para lhes arremessar
Quando se aproximassem
Não era a primeira vez
Que tinha de percorrer um caminho
Emboscado
Até chegar a casa onde vivia sozinho
E desencantado
Era como se os lobos em troca
O escoltassem
Porque matariam qualquer ladrão
Que arriscasse ser farejado
Nos seus intentos
Toda a vida preferiu percursos perigosos
E essa é a explicação que dá a si mesmo
Para a solidão em que sempre viveu
Em troca de não ser forçado a nenhuma alienação
Que não fosse o normal esquecimento
Faltava-lhe instinto de fuga
Vivia como se não passasse pelas coisas
Como se permanecesse num tempo de burro
A olhar para a experiência
Sem descartar nada
Nem o perigo
Até que já não podia mais
Enfrentar o maior inimigo
A tristeza
Das suas memórias.
domingo, 22 de agosto de 2021
Promessas
sábado, 14 de agosto de 2021
História por contar
Há uma história recente para contar, desde o 25 de abril, que é a resposta à pergunta: "como a direita e os fascistas se têm vingado levando, pelas mãos da esquerda, um país livre à ruína, sabotando toda a economia e todos os apoios e toda a redistribuição de riqueza?".
O panorama empresarial português, sobretudo algumas empresas que passaram ou ainda estão na bolsa de valores de Lisboa, e não apenas no PSI20, ou 18, ou 15, podem ser boas pistas de investigação e de reflexão. Mas trabalham numa amplitude temporal que lhes permite passarem despercebidos aos radares "fotovoltaicos" da atenção conjuntural.
A direita percebeu muito bem que quem domina em ditadura domina em
democracia, a questão do domínio não é meramente política. Basta afivelar a
máscara no palco da tragédia.
domingo, 1 de agosto de 2021
Ser Poeta
Num mundo em que a indústria do som, das arengas, das propagandas e dos engodos é capaz de manter perpetuamente infatigável a máquina, a troco da nossa fadiga e alheamento, ser poeta é ser um pobre diabo sem procuração para representar nada nem ninguém.
Neste mundo estranho, fascinante para quem consegue, num concurso para escolher o seu sósia, o poeta não seria classificado nos três primeiros lugares.
De todos os que falam, ou lhe falam, em nome de qualquer coisa, ou entidade (é a mesma coisa), seja Deus (não há quem declaradamente se afirme mandatário do diabo), seja a Verdade, seja a Justiça, a Sabedoria, a Beleza, a Virtude, o poeta não se contenta com menos do que uma procuração conferindo-lhes esses poderes especiais, devidamente assinada por quem lhas, alegadamente, outorgou. E por não se contentar com menos do que isso, fica por contentar, porque ninguém tem esses poderes.
O poeta não fala por procuração. Não é advogado de causa nenhuma, nem professor de coisa nenhuma. Ao falar, em nome próprio, o poeta não está a falar acerca de nada, está a falar (a)penas.
Carlos Ricardo Soares
quarta-feira, 21 de julho de 2021
Alguém o fará por eles
Gostar de, ou não, ou desprezar, Shakespeare, Gil
Vicente, concordar ou discordar de Platão, Kant, contestar ou refutar Newton,
Einstein, ser apologista ou contra Karl Marx, venerar Beethoven ou Mozart,
adorar Deus ou renegar o diabo, não está ao alcance da veleidade e do capricho
de todos, como dizer sim ou dizer não, desta liberdade natural e essencial do
humano, e não está ao alcance de todos apresentar razões justificativas
consistentes e aceitáveis para o fazer.
O sim e o não, como nos referendos, são actos ao
alcance de uma cabeça que ouça e abane ou, para colocar uma cruz numa
quadrícula impressa num papel, de uma cabeça, mesmo que não saiba ler, com
olhos coordenados com uma mão, assinando de cruz o seu destino e o dos outros,
sem necessidade de fundamentar por que o faz.
Alguém o fará por eles.
O que ninguém fará por eles são as obras, que são de
quem as faz, apesar de sabermos que as obras, na realidade, pertencem a quem as
detém, ainda que não seja quem as tenha mandado fazer.
quinta-feira, 15 de julho de 2021
Quando o critério é o poder, o poder é o limite
O mecanismo de correcção dos erros que tem conduzido a humanidade, de superação em superação, numa clara melhoria das suas condições gerais de vida e de organização social, tem os seus limites.
À primeira vista, seríamos levados, numa escalada de correcção de erros e de aprimoramento das escolhas, individuais, colectivas, nacionais, estaduais, supraestaduais, globais, a uma situação cada vez melhor, ressalvado o facto irremediável dos males perpetrados e dos erros sofridos.
No entanto, esta lógica parece deparar com uma realidade, que nunca tinha sido considerada, até que se nos impôs da forma mais brutal: há erros, mentiras e fraudes, alienações, loucuras humanas, ganâncias, megalomanias, ignorâncias e estupidez, que são tão graves e foram tão longe, que não é possível remediar ou corrigir as suas consequências e efeitos.
A humanidade não tem sido capaz de se autorregular suficientemente.
Pelo contrário, tem sido empurrada para o abismo por aqueles que se arrogam e autodenominam governantes. Governantes segundo os interesses e as conveniências dos gananciosos e estúpidos que têm exercido todo o tipo de violência sobre o mundo.
É evidente que o homem, a pessoa humana, nunca foi respeitada, nem tida na consideração devida pela sua natureza, mas apenas em função do seu poder. Mas isto tem sido a chave para a maldição que recorrentemente nos atropela e desbarata a todos.
Talvez ainda não seja tarde de mais para limitar os poderes
daqueles que não respeitam nada nem ninguém que não tenha um poder igual ou
superior ao deles.
sábado, 10 de julho de 2021
O verso e o reverso da racionalidade
Se ter razão fosse uma coisa muito importante, os maiores torneios e competições não seriam de futebol. A razão, ou por outra, a racionalidade, é a marca de tudo o que fazemos, não por sermos de natureza física, material, corpórea, de partículas, ou outro plástico qualquer, mas por sermos biológicos.
A racionalidade que é a característica dominante do humano, não é exclusiva dele e isso é nítido se observarmos o comportamento dos seres vivos e tivermos em mente o que é a racionalidade. O que é fundamental para superarmos o mito, com uma história trágica, de que o que é racional é bom e apenas o que é racional é bom, é verificarmos que a racionalidade tem o verso da verdade e o reverso do erro, ou vice-versa.
Racional é tudo o que “fazemos”, entendido isto como “acto”, consciente, voluntário.
Racional é o trivial humano. Podemos ser responsabilizados pelo racional, mas
não pelo irracional.
Aliás, por ser o erro racional, pelas
mesmas razões que a verdade é racional, é que a mentira e a fraude campeiam e
fazem o maior sucesso, em todas as áreas de actividade (acto) humana.
Para não me alongar sobre este tema que
muitos acharão chato, mas que eu acho central para promover uma mudança de
visão e de análise crítica da nossa cultura hiperdiscursiva, que a filosofia, ao tentar derrotar-se a si
própria, levará de vencida, afirmarei apenas que a verdade depende menos da razão
do que da percepção da realidade e que, qualquer método, ou estratégia, ou
técnica, que nos ajude a refinar a percepção das coisas e dos fenómenos, será
para nós uma vantagem, uma mais-valia, porque nos permitirá exercer a razão no
sentido da verdade e não do erro, da falsidade, da fraude e da mentira.
Assim se compreende, se outras razões
não houvesse, a importância crescente (e transcendente) das ciências e das
matemáticas, nomeadamente, na função de desencantamento e fixação dos factos.
domingo, 27 de junho de 2021
A importância do PENSAR
É impossível exagerar a
importância do pensar, ou, como diz António Damásio, a importância da
consciência. Mas pensar e consciência só por si não são garantia de nada de
bom. Os estalinistas pensavam e eram conscientes, assim como os nazis e muitos
outros que perpetraram os maiores horrores, ao longo dos tempos. Ainda hoje, as
máquinas de guerra e de destruição massiva continuam a ser do mais
"pensado" e consciente que se pode imaginar e os indivíduos e grupos
que dominam e controlam os poderes e as riquezas são dos mais
"pensadores" e conscientes e inteligentes. Se quisermos encontrar
inteligência é nos núcleos de interesses que são mais disputados. O sector
financeiro é certamente um deles. Eles fazem a melhor escolha. A melhor
escolha, do ponto de vista evolutivo e da economia dos sistemas vivos, é aquela
que melhor serve os interesses do proprietário da racionalidade, que é um
indivíduo. Até que ele processe, por efeito da cultura, que a melhor escolha do
ponto de vista individual é a que recair sobre um interesse colectivo que não
seja conflituante com interesses de indivíduos ou grupos mais fortes, pode
decorrer uma eternidade, ou não, mas constatar que os problemas de composição
de conflitos (e as relações humanas assentam em interesses que, por definição,
são susceptíveis de gerar conflitos) são problemas de relação de forças e de
poder, que se sobrepõem à neutralidade da matemática e da ciência, que serve
todos igualmente, quer sejam estalinistas, nazis ou outros igualmente
autoritários.
O paradoxo, ou a ilusão da melhor
escolha é que ela é determinada em função de um indivíduo, do indivíduo que a
faz, mas relativamente a um interesse, ou seja, a algo que é disputado pelos
outros indivíduos e, se a solução procurada for mobilizar um grupo, a disputa
agrega-se e amplifica-se. Nesta fase, já o conflito está institucionalizado e o
pensamento e os valores mobilizados para "a melhor" escolha que é a
que se impõe, numa inevitável identificação do melhor com o menor dos males
possíveis.
Acredito na via institucional,
nomeadamente jurídica e política, com a Declaração Universal dos Direitos do
Homem à cabeça, em permanente actualização, de modo a abranger a defesa e
protecção da natureza e do ambiente saudável, iluminada pela ideia de Direito,
sem conceder nos direitos naturais do indivíduo humano, como único e
insubstituível dador, intérprete e destinatário de significado, de valor e de
sentido, que o coloca no topo da hierarquia do que deve ser respeitado e
defendido.
O reverso da medalha são as
implicações severas para o humano que ofender o humano e para as estruturas e
organizações estaduais, militares e policiais, ou económico-financeiras, que
subestimem ou violem os direitos, liberdades e garantias dos indivíduos, não
apenas enquanto cidadãos de um qualquer país, mas como titulares de direitos
humanos universais, de gozo e de exercício.
Desde a consagração
constitucional dos direitos fundamentais do indivíduo que a civilização deu
sinais de ter realizado um salto evolutivo. Mas os sistemas totalitários
reagiram de um modo brutal e desesperadamente demagógico e apocalíptico à
necessidade de empoderamento real e físico do indivíduo, dos indivíduos, face a
qualquer tipo de poder que não os respeite.
Lembremos que os Direitos Humanos
não são meras advertências, ou proclamações de princípios solenes, para
conforto psicológico ou ideológico dos indivíduos, uns perante os outros, mas
baluartes de defesa contra os poderes, mormente estaduais, militares e
policiais, de tal modo eles têm sido ameaça e ofensa efectiva desse valor
máximo que a nenhum outro deve ser sacrificado.
Actualmente, uma ameaça notória e
muito consentida pelos padrões de tolerância liberal do jogo capitalista ganha
terreno, à custa da valorização do indivíduo e da protecção que lhe é devida.
Os Direitos Humanos vão ter que se focar, não apenas na ameaça do Estado,
militar e policial, mas também na ameaça dos poderes económicos e financeiros,
nacionais e internacionais.
A liberdade individual, por um
lado, dá azo a que os poderosos abusem e as políticas sociais, justificadas pelo
dever de solidariedade e pelo sistema de mutualismo, bem como pelos direitos
dos mais carenciados, na prática funcionam como políticas de estímulo e de
investimento nas estruturas privadas de assistência médico-hospitalar e outras.
Aparentemente, a “guerra” é feita
pelos queixosos, pelos desagradáveis dos queixosos, que andam a importunar a
felicidade dos outros, pelos necessitados, pobres e doentes, que andam a
perturbar a paz dos ricos e bem sucedidos dissipadores de recursos. A vítima é
sempre mal vista.
Que a actual pandemia nos inspire
para concepções de prevenção e defesa do organismo humano, individual, que
sirvam de modelo para defesa e prevenção de outras pandemias não menos
perigosas e devastadoras.
terça-feira, 22 de junho de 2021
Não existem condições para o que não acontece
Dir-se-ia que nada está
pré-programado, mas que existem condições para as coisas serem. Não existem
condições para o que não acontece. E o que acontece, ainda que não saibamos as
causas, ou condições, é o que é susceptível de conhecermos, a partir da
memória. São factos. Memória. Passado.
A causalidade terá a ver com a
nossa relação consciente, em diferido, descontínua, irregular, episódica,
variável e nem sempre controlável, com tudo. A nossa consciência permite o
nosso conhecimento, que é sempre “reportagem”, memória, desactualizada, daquilo
que acontece. Digamos que o conhecimento está para a realidade assim como os
factos estão para o devir.
A consciência, ela própria, como
facto, parece não existir. Mais lembra o comboio da realidade, ou fluxo, que
não para em sítio nenhum e que estamos constantemente a perder.
O passado não é senão memória,
não tem lá nada que não seja registo de imagens, sons, etc.. Temos consciência
muito esquiva do presente que logo se faz consciência de memória. Até o futuro,
não existe senão na memória do que futuramos.
Se não tivéssemos memória,
teríamos alguma percepção do tempo? Ou, até, alguma representação da realidade?
A ciência inventou um teatro e
uma linguagem para representar a realidade, num tempo em que não havia
fotografia nem filmes e isso trouxe as vantagens que são conhecidas.
Assim como a literatura e o
teatro e as artes, em geral, fixavam ou congelavam a realidade no presente e a
filosofia procurava dar-se conta das realidades e suas razões, significando-as
e explicando-as, as ciências criaram um método “intemporal” de observação e de
consciência da realidade, enquanto fenómeno temporal.
No que respeita ao cérebro, os
incríveis avanços revelam-nos o que acontece, em termos de física de
partículas, por ex., quando percepcionamos um objecto, movemos os olhos,
voluntaria ou involuntariamente, reconhecemos esse objecto, pensamos sobre ele,
decidimos tocá-lo e fazemos o movimento e registamos a memória disso ou,
simplesmente, ignoramos, etc..
Os neurocientistas e os
cientistas da física de partículas, ou do que quer que constitua a vida, ao
serem capazes de explicar como é que a matéria, ou o “plástico” que existia no
momento do big-bang se foi reorganizando ao ponto de se tornar sensível
(homeostático?) e de ganhar um critério de reorganização que já parece uma
racionalidade diferenciadora entre dois ou mais termos, e como evoluiu, por
selecção natural, para formas de reorganização, nomeadamente nervosa, capazes
de memória e de sentimento e de consciência, etc., acabam por mostrar que a
ideia de programa é ela própria a ideia das condições que existem para as
coisas serem.
E, neste momento, creio estarem
criadas as condições para a filosofia ultrapassar algumas das discussões
clássicas e, partindo de novos pressupostos, se interrogar sobre a realidade
dos problemas e das soluções que eles devem ter.
quarta-feira, 16 de junho de 2021
A natureza não erra?
O maior erro humano, desde sempre, que sobreleva, hoje não menos do que antigamente, sobre todos os erros (não esqueçamos que errar é humano) é que não há erro humano, o que há é homens que erram. Quando alguém erra, não é a humanidade que erra.
A humanidade nunca erra. Porquê? O que é a humanidade?
Só os indivíduos é que erram.
Vai ser revolucionário admitir que, uma vez que as teorias da verdade, do conhecimento, doutrinas da salvação, da felicidade e do prazer, da sabedoria e do estoicismo, não foram capazes de resolver os problemas de sempre, nem, vistas bem as coisas, identificar esses problemas, vai ser revolucionário admitir que, dizia, a aposta deve ser na teoria do erro, em sentido amplo, de modo a incluir a mentira, a falsidade, enfim, todos os vícios humanos, e não apenas a condição de ignorância e a estupidez e, tentar substituir ou, talvez, converter as teorias do conhecimento em teorias da ignorância e do erro, ou do desconhecimento. Fará toda a diferença.
Talvez começássemos a compreender que as razões pelas quais se busca ou deixa de buscar o conhecimento e a formação e os saberes não são as melhores razões mas aquelas que, desde sempre, se apresentam como tais, ao colocarem o homem contra o homem e a humanidade contra a humanidade.
Actualmente, já há sinais, que muitos percebem como enigmáticos, de reconhecimento de que o homem, individualmente considerado, é o único e verdadeiro centro de conhecimento, de sentido, de dignidade e de valor.
Nada, nem ninguém, transcende este imperativo.
Aliás, é por ser transcendente que este imperativo demora tanto a
ser entendido e continua a ser confundido com o “inimigo”, na concepção do
homem lobo do homem. Qualquer indivíduo que se atribua uma dignidade e direitos
naturais que não esteja disposto a atribuir e não atribua de facto aos outros,
quaisquer que sejam as determinações sociais relativamente a isso, não poderá
deixar de admitir que os outros se atribuam a si mesmos nessa medida. Mas isto
é um erro. E é para nos defendermos dos indivíduos que erram que a civilização
faz sentido e o conhecimento é tão importante.
segunda-feira, 7 de junho de 2021
Não conhecemos nada que não tenha acontecido
A ciência não é apenas uma maquinaria de previsão do futuro a partir do
presente, mas também pode ser de adivinhação do passado, ou retrovisão. Ou
seja, não apenas permite antever os efeitos a partir das causas, como
determinar estas a partir dos efeitos.
Há, porém, um problema sério que não ganhamos nada em ignorar: tudo o que
aconteceu não podia ter acontecido de outro modo. Quando buscamos causas é
sempre do que acontece e nunca do que poderia, ou poderá, acontecer. Não há
causas do que não acontece.
O determinismo, neste aspecto da questão, é irrefutável, ainda que não sejamos
capazes de explicar todas as causas de um facto.
Aproveito para
introduzir aqui o problema do livre-arbítrio, que é fascinante.
Se tudo o que acontece é determinado por causas e se não conhecemos nada que
não tenha acontecido, onde é que vamos situar o livre-arbítrio?
Já li bastantes coisas à volta do assunto, umas mais confusas do que outras,
mas ainda não vi ninguém a colocar a questão desta forma.
quarta-feira, 2 de junho de 2021
Os professores
A propósito de um texto publicado no blogue, http://dererummundi.blogspot.com/2021/05/acordai-professores-que-dormis.html , comentei o seguinte.
Os professores não precisam de acordar, precisam de descansar e de dormir, mas não os deixam.
Não precisam de mais alertas, porque já estão em alerta permanente há demasiado tempo.
Os professores, mesmo quando não há guerras declaradas com espingardas e
granadas, ou incêndios e sirenes, assumem o papel de militares, num
enquadramento de combate e luta, sem quartel, em todas as torres de vigia e
guaritas, que se possam imaginar, com carregadores de balas de pólvora seca,
autênticos placebos, que escrupulosamente tomam como princípios activos contra
inimigos muito mais poderosos do que eles que, de dia e de noite, a todo o
momento, lhes infligem derrotas e que são os mesmos que lhes fornecem os
placebos e a pólvora seca e lhes dão instrução rigorosa de como a usarem, ao
toque do clarim, ou da caixa, e que aparecem, estrategicamente, nas horas
mortas, para os atormentarem com a prova de os apanharem a dormir.
Os que se fazem fortes, porque o são, ou acreditam nisso, e decidem ir à
luta, como os touros, ou os guerreiros, por valentia e grandeza de carácter,
como manda o hino, só acordam se tiverem a sorte de ir parar a algum hospital
que os reanime.
Ninguém aguenta muito tempo uma guerra interminável e sabotada.
O essencial não é lutar, é identificar os inimigos, ou os adversários, avaliar o seu poder de fogo e adoptar estratégias de ataque e de defesa.
Mas os
professores não recebem preparação para isso.