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segunda-feira, 31 de maio de 2021

Livre-arbítrio

Hilário: responde-me sem evasivas

Amiga: não sou de evasivas

Hilário: perguntei-te alguma coisa?

Amiga: agora perguntaste se me tinhas perguntado

Hilário: o livre-arbítrio não existe?

Amiga: se as nossas acções e decisões são efeito de partículas que atravessam o corpo e o cérebro de acordo com as leis da física, que achas?

Hilário: aparentemente são essas partículas que agem e decidem e não nós

Amiga: eu e tu e o universo somos partículas em movimento

Hilário: e as nossas palavras também

Amiga: e os pensamentos e a memória

Hilário: até a anti-matéria e o conhecimento da matéria

Amiga: se calhar o livre-arbítrio só existe para algumas coisas

Hilário: não somos livres de dar verdade a uma falsidade

Amiga: nem és livre de fazer com que esta conversa nunca tenha existido

Hilário: mas foste livre de dizer essas palavras em vez de outras

Amiga: como poderíamos prová-lo?

Hilário: em qualquer caso, lá estariam as partículas a reivindicar que tinham sido elas

Amiga: ninguém nos pode culpar de nada

Hilário: ou seja, as partículas é que têm a culpa

Amiga: têm tudo, a culpa e a inocência

Hilário: só não têm livre-arbítrio

Amiga: e nós só temos partículas

quinta-feira, 27 de maio de 2021

O controlo das mentes é possível?

O que me preocupa, sobretudo, é que haja possibilidade de controlar a mente das crianças e, em geral, das pessoas sujeitas a processos de educação e de aprendizagens. 
O que elas aprendem, ou não, é questão de somenos, quando penso na hipótese de ser possível controlar as mentes. 
Se isto for possível, temos um gravíssimo problema para resolver. Haveremos, então, de admitir que é um problema tão antigo como a humanidade e, talvez, o maior de todos. 
A liberdade, que é algo tão difícil de conseguir para a maioria, está cada vez mais ameaçada pelos processos de delegação da decisão da melhor escolha. 
A IA é a melhor ilusão que nos podiam vender de que estamos mais bem representados do que nós próprios. 
Mas ainda não aprendemos sequer a primeira lição: uma pessoa é insubstituível para si própria, mas não, necessariamente, para os outros. Isto faz dela o critério irredutível de tudo, o qual, se não for explicitamente, ou positivamente legislado, dá azo às maiores atrocidades e aos ódios mais insanáveis, como temos verificado na história humana. 
Nenhum robot tem este problema de só ter de aceitar como dever o que, igualmente, e por idêntica razão, for dever para os outros.

quarta-feira, 19 de maio de 2021

Cultura do amesquinhamento alheio

A minha percepção de português, nado e criado, e educado em Portugal, e exercendo nos tribunais e nas melhores escolas do país, é que a cultura portuguesa, seja o lado ou a perspectiva pela qual queiramos vê-la, é a cultura do amesquinhamento alheio. E quando assume tons de compadecimento e de solidariedade é porque já se foi vítima e se percebe o problema. 

Mas tem sido prática assumida e aceite, desde que me lembro (hoje está muito melhor), e até valorizada, a cultura de chacota e atrofiamento, sempre para penalizar e desvalorizar, até nas agressões escolares institucionalizadas como castigos pelos erros, bem patente na literatura portuguesa, no linguajar português, nos apelidos e alcunhas dos portugueses, etc.. E, se formos aos conselhos de turma, embora nas actas se evite quase sempre cair nesse erro, a adjectivação usada para qualificar e classificar alunos não está isenta de críticas, para ser brando. 

Um adjectivo, em determinados contextos, pode deixar de ser neutro e até passar a ser um problema de ética, quando não jurídico. Sinceramente, penso que só há um caminho a seguir para se sair desta choldraboldra: legislação e práticas educativas que eduquem para a não resignação a uma realidade "violenta" cujas raízes não é difícil de localizar na história. 

Ainda há quem acredite e agite a bandeira da meritocracia, ou seja, da aristocracia. 

Temos de ter em mente o iluminismo e o marxismo para percebermos quanto ainda precisamos de reconhecer face humana e direitos do homem num mundo que faz tudo, desde sempre, exceptuando os que têm lutado contra isso, para triturar o homem, e desvalorizá-lo, para o mercadejar ao melhor preço.

quinta-feira, 13 de maio de 2021

Língua prodigiosa

De vez em quando, e ultimamente cada vez mais, entre afazeres e actividades, dou comigo a tomar sentido, pela primeira vez, em que a minha língua me fala mais a mim, desde criança, do que eu a ela, e só muito tarde comecei a reparar quão carregada de cultura, de significados e de sentidos, a minha fala e escrita e leitura andavam e como me sabe bem dizê-lo agora.
Passei a perceber que a língua, só por si, nos dá a filosofia e a ciência, até das perguntas e das respostas nunca antes feitas. 

Comecei a ver, numa acepção muito especial de sentir, que, além dos sentidos do sistema sensorial, visão, audição, sensações corporais, paladar, olfacto, temos outros sentidos mais internos, que trabalham no silêncio e no escuro, com que sentimos dores, alegrias, entusiasmos e tristezas, paixão, saudade, amor e ódio, etc., e passamos a vida a dar sentido, aos sentimentos, ao que sentimos e ao que pensamos, porque pensamos o que sentimos, mas também sentimos, muitas vezes o que pensamos.
E quando me ponho a pensar e a falar das minhas descobertas, e sentir em todos os sentidos é uma delas, é com a sensação, senão com a certeza, de que quando se fala ou escreve sobre algo, já estava tudo na língua.


quarta-feira, 12 de maio de 2021

Aproximações à verdade

Hilário: talvez não haja muitas coisas que eu e tu não compreendamos

Amiga: se for assim, poucas coisas haverá que não tenham explicação

Hilário: tudo tem uma razão de ser

Amiga: ou melhor, para tudo temos uma razão de ser

Hilário: excepto o que falta explicar

Amiga: os crimes, as guerras, o holocausto, os deuses, as religiões, a corrupção, as desigualdades…

Hilário: têm uma explicação, são racionais

Amiga: os actos humanos são racionais

Hilário: o amor, a teoria da relatividade, a música, a alegria, a crítica da razão…

Amiga: racional é tudo o que os humanos fazem voluntariamente

Hilário: o nosso problema é que muito do que fazem é inaceitável e incorrecto

Amiga: concordo, olhando para a história e para o que acontece à nossa volta.

segunda-feira, 10 de maio de 2021

De desilusão em desilusão

Hilário: sinto-me desiludido

Amiga: dizes isso como se tivesses ganho o euromilhões

Hilário: de cada vez que me desiludo, sinto alegria

Amiga: de cada vez que me desiludo, sinto que fui burra e fico triste

Hilário: quando descobres que estavas errada só tens motivos para ficar contente

Amiga: deve ser por isso que estás sempre feliz

Hilário: e achas que estou errado?

Amiga: para te sentires feliz é porque descobriste que andavas iludido

Hilário: e já não ando?

Amiga: quando descobrires que a ilusão é como o trabalho, que não acaba, ainda vais ficar mais desiludido e mais contente

Hilário: o meu objectivo é viver de desilusão em desilusão, até alcançar a verdade

Amiga: mas acreditas que conseguirás atingir a desilusão total?

Hilário: aí sim, terei alcançado a verdade

Amiga: queres maior ilusão do que essa? Gostas mesmo de viver iludido

sábado, 1 de maio de 2021

Liberdade

Gosto de pensar que a liberdade não é constituída por átomos, que não a encontro em lado nenhum, não posso recolhê-la como uma lágrima num tubo de ensaio, nem olhá-la de lado nenhum, mas que é de tal modo uma realidade da experiência, que não se faz a frio, nem ao lume, ou uma experiência da realidade, que não precisa de demonstração e que não pode ser refutada por nenhuma experiência.

A felicidade, a ciência, a filosofia, a verdade, a saudade e a alegria da dança e da música também não são constituídas por átomos, são da experiência e não carecem de experimentação para serem provadas. No entanto, e embora tenham no big-bang a sua origem, como os átomos e as estrelas, e talvez por não as encontrarmos no espaço e no tempo, é mais difícil defini-las do que falar delas.

Gosto de pensar que a minha natureza é ser livre, mas como dizer natureza se a liberdade não se encontra no espaço, nem no tempo?

Ser livre é a minha natureza, o resto são obstáculos, constrangimentos e limitações. Ser livre coloca-me em guerra com tudo o que é obstáculo e constrangimento e limitação, exógenos e endógenos.

O controlo, que não é apenas social, porque o cérebro é uma máquina com um prodigioso sistema de controlo natural, que não está sob o controlo do seu proprietário, mitiga o que seria uma guerra, em guerra fria.

Então, ser livre é essa condição subjectiva de poder aproveitar as condições objectivas para viver, não apenas de acordo com os instintos, mas de acordo com a vontade.

Claro que a condição subjectiva do meu gato que entra e sai de casa pela gateira e que trepa à árvore alta a grande velocidade é bem diferente da minha. Como são bem diferentes das minhas as condições, subjectivas e objectivas, do candidato a rei de Portugal, ou do Bill Gates. Para já não falar nos toxicodependentes que travam uma luta interna muito feroz entre duas forças ou duas vontades em que normalmente vence a que, paradoxalmente, não é um acto de liberdade.

Por outro lado, que liberdade é a de alguém poder escrever tudo o que lhe aprouver no seu caderno secreto, mas não o poder escrever ou dizer publicamente, ainda que o faça em voz alta para as paredes do seu quarto, desde que ninguém mais ouça? 

De resto, é fundamental que a liberdade do indivíduo seja tutelada pelos meios institucionais de poder, uma vez que é imperioso, do ponto de vista da razão e da justiça, que ela seja garantida. Quer como um direito de exercício, quer como um direito de gozo. Caso contrário, como tem acontecido ao longo da história, em que a liberdade era poder de facto, mas não reconhecido e tutelado como direito, é grande o risco de a “guerra fria” se transformar em guerra.

segunda-feira, 26 de abril de 2021

Conhecer a história para julgar

Parece-me que há duas questões a considerar: a história, do ponto de vista científico do historiador, e a história enquanto objecto de julgamento, por ser acção humana e toda a acção humana ser susceptível de submissão a algum tipo de julgamento.

Quanto à averiguação e determinação dos factos, esta não deve, de modo algum, ser contaminada por preconceitos, prejuízos ou subjectivismos, valorativos ou outros, porque isso poria em causa a credibilidade e a validade dos mesmos, pelo menos nos aspectos em que os factos tivessem carácter mais descritivo ou narrativo.

Quanto a julgar a história, talvez mais importante do que conhecer a história seja conhecer a história para podermos julgar a história e encontrar responsáveis, os culpados e os bons, credores do nosso respeito e apreço.

Mas o julgamento da história não pode deixar de ser feito, quer à luz dos valores e demais circunstâncias do tempo em que ocorreram os factos, quer à luz dos valores actuais.

Não se trata de ignorar ou de apagar a história, bem pelo contrário, é necessário conhecê-la para podermos julgá-la.

E, para podermos julgá-la, é necessário adoptar critérios e aplicá-los. Não serve um qualquer julgamento. Só é admissível um julgamento justo. Que possa contribuir para a visão verdadeira, como a única que nos poderá ajudar a evitar e impedir más escolhas.

terça-feira, 20 de abril de 2021

Cultura/dever-ser/sabedoria

As preocupações e as inquietações da nossa cultura, como processos humanos que, paradoxalmente, tendem a tornar-nos tanto piores, quanto mais deliberadamente procuram tornar-nos melhores, ou, pelo menos, num certo sentido de melhor, também são cultura.

A cultura, na minha perspectiva, é de matriz normativa. Embora a normatividade ética, moral, religiosa, jurídica, estética, do conhecimento, da política, etc., seja fundamentalmente o mesmo fenómeno de dever-ser, não deixam de ter expressões, conteúdos, objectivos e sanções diferenciados. Importa salientar que, se assim for, é uma realidade, como foi realidade toda a sucessão de guerras e de monstruosidades perpetradas pelos "melhores" que a cultura produziu.

A cultura continuará a fazer aquilo que sabemos e queremos, a todo o custo, fazer, ou, por outra, o homem continuará a fazer o jogo que é suposto dever saber jogar.

As vozes que se levantaram ao longo da história contra a cultura dos guerreiros, de violência e de dominação, de subjugação e de superação dos adversários e dos inimigos, além dos padecimentos, do choro e lamentos, dessa inenarrável e insuportável realidade, pouco puderam mudar. Até o cristianismo, que ensaiou inverter o conceito de homem melhor, acabou por se revelar o maior promotor daquilo que criticava e censurava. Mas os outros, os que fizeram tudo o que estava ao seu alcance para realizar e personificar os valores da civilização, que enfrentaram e anularam o poder dos inimigos, mais não fizeram do que reforçar e promover as razões da cultura de guerra. De tal modo que as sociedades, ainda hoje, são guerreiras e implacáveis para com os fracos, os inúteis, os fardos, os deficientes, os inábeis, os ignorantes, os inaptos para o combate.  Quando descansam, curam as feridas, reorganizam as forças e os recursos, fomentam as suas economias e divertem as populações, não se distraem nenhum momento da principal razão de tudo isso: recuperar a força, o poder militar. Tudo está preordenado e instrumentalizado para esse grande fim, a que chamam Paz.

E não é apenas porque se sentem ameaçadas no quadro do jogo político e militar. Se não for para se defenderem de um ataque, é para impedirem que desrespeitem as regras do jogo, chamemos-lhes assim. E se desrespeitam as regras do jogo, há que obrigar a repor a situação e a respeitar. E se as regras do jogo permitem certos avanços para uns, também permitem para os outros, mas isto não é aceite pelos poderosos. Aliás, só há liberdade para os que podem.

Esta é a cultura dos melhores, dos heroísmos, dos invencíveis, dos laureados, dos troféus, dos pódiuns, e dos que clamam por vingança, que nem fingem acreditar na justiça.

E os melhores são aqueles que superam e vencem os desafios de salvaguarda dos valores em que acreditam. São os que ganham os jogos e os campeonatos, em todos os campos ou, pelo menos, mais do que os outros.

Os melhores no sentido de terem mais bondade, de se tornarem mais solidários, pacíficos, tolerantes, empáticos, dotados de compaixão, de paciência, de generosidade, companheirismo e de amor pelos outros, não deixam de ser, como os outros, expressão e fruto da cultura, mas não há competição nestes domínios.

É lancinante pensar que o dever-ser que a cultura é, seja expressão de sabedoria. Principalmente, quando são os melhores, sempre em nome do que “escolhem”, ou “elegem” como melhor, a perpetrar o pior.

domingo, 11 de abril de 2021

Arbitragens e batota

A cultura partidária, clubística, religiosa, comercial, mercantil, não escapam de uma determinante, que a todos entristece, ou exalta de euforia, consoante as coisas sejam desfavoráveis ou favoráveis.

Essa determinante, que em minha opinião, só por si, já justificaria que não há justiça privada (justiça privada é um contrassenso), é a mesma que faz que alguém acredite que o seu Deus é mais forte que o dos outros, que justo é o que lhe é favorável (o que for desfavorável é sempre injusto), que nenhum partido esteja na política para promover as melhores escolhas e soluções, em geral e abstracto, mas para impor as suas escolhas e soluções como sendo as melhores, do mesmo modo que jogar é para ganhar.

E, quando se trata de inimigos, já nem é um jogo, mas uma guerra. Os inimigos nunca têm razão. Esta mentalidade arcaica, no fundo, embora saiba que a batota não faz parte do jogo e não a aceite, também está construída sobre a constatação, ou a convicção, da sua inevitabilidade.

Por mais que a odiemos e haja a preocupação educacional de a mascarar com a eloquência de grandes e belos princípios e leis e símbolos e hinos, templos e basílicas.

Nascemos e crescemos a ser educados nas virtudes como se elas fossem universais, mas cedo aprendemos que o egoísmo e a disputa pelos interesses é que são a regra, são promovidos como ideologia estrutural, e até como um valor.

Assim, todos os árbitros são maus quando arbitram contra nós. Mas isso também é o que faz deles bons para os outros, quando beneficiam da arbitragem.

terça-feira, 6 de abril de 2021

Polícia do pensamento


A produção literária, mais do que a produção de livros, tende a ser banalizada como um efeito da abundância, mas isto não significa que tenha perdido a importância nem, muito menos, que nunca a tivesse tido.

Ficamos estupefactos quando lemos que alguns dos maiores mentores da nossa civilização não deixaram obra escrita (Sócrates, Jesus Cristo). Eu acredito que, se o tivessem feito, tinham assegurado menos o seu futuro, não obstante, este dependeu da escrita e da sua divulgação.

Também sabemos de casos notáveis, de que Descartes é mero exemplo, que não publicaram em vida, por medo da polícia do pensamento que, na época, metia na ordem Galileu Galilei.

Nos tempos que correm tudo isso parece ficção e é difícil, para não dizer impossível, ensinar às crianças que estamos a falar de absurdidades cometidas por estúpidos, provavelmente assassinos, contra génios da humanidade a quem devemos imenso.

Mas a questão nem é essa.

Génio ou louco, qualquer livro e qualquer objecto cultural deve estar a salvo de qualquer juízo de qualquer humano.

Não é só pela falta de confiança nos humanos para julgar seja o que for, mas mais pela necessidade de não nos submetermos uns aos outros. Isto é verdadeiramente crucial.

Nenhum humano, seja em nome de quem for, tampouco em nome do humano, deverá poder negar este.

Os livros podem conter aberrações, como sabemos que contêm os mais sagrados, adorados, celebrados e respeitados. Mas não devem deixar de existir, não devem ser proibidos, não devem ser destruídos, porque não fazem mal a ninguém. Menos ainda a quem não os ler.

São objectos tão insignificantes, tão quietos, tão inofensivos, só papel e tinta em caracteres, nem sequer têm ideias, não pensam, nem falam, nem pisca-piscam, exigem tanta competência e tanto empenho para serem lidos…

É impossível não odiar quem se sente incomodado com a inocuidade de um livro.

Como justificar guerras por causa de cem ou duzentas folhas de papel? A culpa é de um livro? Dessem um tiro no livro. Enforcassem o livro. Limpassem o cu ao livro. Mas não.

O problema dos livros é que eles, mesmo cobertos de teias de aranha, são terríveis. Dentro deles está algo que, quando entra num cérebro, começa a produzir efeitos. Quaisquer que sejam estes efeitos, provocar a polícia do pensamento (coisa terrível de imaginar, mas que é a nossa realidade essencial, o humano é essencialmente polícia do pensamento, definir o humano implica dizer que é um EU, que é construído de base, de raiz, por censura, autoridade, dever, polícia, castigo, violência, deus, pai, poder, dever-ser, punição) não é o menor deles.

A liberdade ainda está a ser inventada pelos livros. Não propriamente pelos livros, mas enquanto eles são o suporte dessa experiência que a memória, só por si, deixa escapar.

E não adianta querer destruir os documentos para destruir a história.

Destruir a história dos outros é destruir a nossa.

No fim, fica uma história, a única que existe.

sábado, 3 de abril de 2021

A invenção da liberdade


Que fragilidade é essa

Que vês uma foto e desfaleces

Como se ela disparasse balas

Do tempo em que nada existia

Ouves uma canção e adoeces 

Como se a música fosse um veneno 

Só teu

Vês uma mulher e falas 

Sozinho

Como se a sombra dela

Te possuísse

Começas a escrever um verso

E antes que enlouqueças

Invocas um exército de razões

Para adormeceres

E perseguires

O rumo dos ladrões

De todo o mistério?

 

Que liberdade é essa

Que podes fazer

Mas não fazes

queres pensar

E não obedeces

Queres não ter

E tens

Dizer

E não dizes?


Carlos Ricardo Soares


sexta-feira, 2 de abril de 2021

As expectativas da democracia


A nossa democracia, apesar do foguetório com que se anuncia, e das mistificações políticas à volta de fogueiras e de bandeiras e de marcas que valem mais do que programas, tem sido do mais anémico que há. As expectativas criadas são sempre imensas. Respeita-se mais a palavra Democracia do que o Povo.
O povo, induzido pelos altifalantes e pelas girândolas, amplificados pelos telejornais sempre e cada vez mais apocalípticos, numa espiral de temporizador de contagem regressiva ao vivo com animações de feira, lá foi trocando estas e os arraiais minhotos pelos hipermercados e pelas confissões ao domicílio, entre guerras frias e cataclismos mais globalizados do que os benefícios das tecnologias, ora aliciado por algum produto milagroso, ora fascinado por promessas de liberdade, de riqueza e de justiça, no fim de contas, confirma o que sempre suspeitou, que não foi enganado ao trocar as igrejas pelas assembleias e pelos parlamentos.
O povo nem sequer pode invocar como desculpa que foi enganado.
Se há coisa que todos sabemos é que a democracia é mais uma das charneiras, mas que goza de presunção de indiscutível superioridade a qualquer religião ou igreja, através das quais os poderes se afirmam e se impõem. Devidamente avalizados, governos e oposições, passados os momentos populares e pseudofestivos das bebedeiras eleitorais, entram em modo sonâmbulo, também conhecido como hibernação, ou fantasmático, como convém à natureza da máquina dos poderes.
Mas a democracia não deixa de ser uma máquina em que as oposições nada fazem que não pudesse ser feito sem elas.
Nenhum dos grandes escândalos em democracia foi despoletado pelas oposições. Estas são sempre quem menos sabe do que andam a fazer nos bastidores do poder.
A máscara da democracia é demasiado valiosa para ser usada indiscriminadamente. Quando a democracia não é mais do que um simulacro de democracia, temos de começar a pensar em que é que a palavra corresponde à realidade e se devemos transformar a realidade ou a palavra.
A descentralização, por sua vez, não deve ser outro expediente para centralizar ainda mais o que nunca devia ter sido centralizado. Há matérias, e esta é uma delas, em que não podemos pensar acertadamente senão através de números. Tudo o mais que venha embrulhado em retórica só serve para nos distrair e desprevenir de que não poderemos queixar-nos se formos enganados.

segunda-feira, 29 de março de 2021

Mais do que o teatro


Mais do que o teatro, propriamente dito, em que o actor representa um papel previamente escrito e ensaiado e que poderá ser reproduzido e recriado e gravado, o mais desconcertante para qualquer pessoa é pensar que o seu teatro e os seus papéis, as suas falas e movimentos, gestos e pensamentos, dores e alegrias, sonhos e fantasias, amores e ódios, são tão efémeros e privados que é como se não existissem. 
Se fizeres um mapa da localização do inferno já vais ficar na história, por uma boa razão. 
Se fizeres uma viagem ao paraíso, se não caíres do avião e se fores simplesmente feliz com as tuas memórias, mesmo que o alzheimer te poupe, tu passas e as pedras ficam. Mas as tuas memórias (conhecimentos, etc.) eram a tua realidade, a realidade daquilo que tu és: nada.
A realidade humana, ainda assim, dá sentido a toda a realidade e nenhuma outra realidade dá sentido à realidade humana.

quarta-feira, 24 de março de 2021

Antes tivéssemos


Não quero pensar no dia em que

Também abandonaremos

As nossas carroças

Para não perdermos os cavalos

Prefiro pensar que a vida é feita de perdas

E não é que seja má

Porque ficamos com a memória

Para reviver sem perigo

Pelo menos enquanto a não perdermos também

E já não pudermos encontrar

Nem nos livros que escrevemos

O mínimo sinal

De termos vivido

Em nosso redor de há muito habituados

A não ver nem ouvir

De olhos fechados para ver melhor

As grandes distâncias que nos excitam

As nossas dores e prazeres são também

De pensar

No que não perdemos

Porque não tivemos

Mas antes tivéssemos

Perdido.


terça-feira, 23 de março de 2021

Ouvir o coração

Se reparares as casas

Não são um amontoado

Nas ruas

A luz e as sombras andam

De mãos dadas

Na praça

A domadora de gaivotas vadias

E o maestro de gritos

Fundem-se num abraço H2O

No chafariz

De momentos perfeitos

As cores fecundam

Os olhos da Pureza

Da cervejaria icebergue

Que serve canecas de maresia

À sede insaciável de saber

Se o vinho é mais puro do que a cerveja

E ela

Com deleite não fermentado

Diz tem graus

E eu a ver degraus

Sem palavras

Com o coração a bater.

 

sábado, 20 de março de 2021

Ainda tento explicar a beleza


Ainda tento explicar a tua beleza

E o cheiro de chuva

Que parou depois

De me encostar a ti

Como ser a árvore

Para construires os teus barcos

Sem que as aves desamorem

A tua respiração

No meu queixo

Enquanto fechava os olhos

Para desenhar janelas

Na nossa roupa

Com as mãos

No agasalho do teu corpo

Confirmava

Que não eras fantasia.


sexta-feira, 19 de março de 2021

Crentes e ateus

Há ateus que não permitem que serem ateus os incompatibilize com os crentes. Por exemplo, que sentido faria humilharmos a nossa mãe porque se sente feliz a rezar o terço pela nossa saúde? Ou pela paz do mundo? Ou pelo perdão dos pecados? Ou pela superação da nossa ignorância?

Os ateus não têm respostas, ou, pelo menos, melhores respostas do que os crentes para as questões a que aqueles respondem com a fé.

Os crentes colocam Deus no ponto de partida e os ateus não o colocam, em ponto nenhum, nem no ponto de chegada. Mas estão todos perante o desconhecido. Desconhecido, nesta matéria, significa mesmo que ninguém sabe, se bem que os crentes afirmem um tipo de conhecimento metafórico, adjectivo e analógico.

Não é como alguém dizer que não conhece a Condessa de Ségur, confessando a sua ignorância.

O problema dos crentes é que os ateus não têm razões para crer no que eles acreditam e não são capazes de lhas darem. Mas os ateus têm razões, muitas, aliás, para crerem que os crentes são pessoas de boa fé.

O problema dos ateus, no entanto, é que há falsos crentes e esses não são pessoas de boa fé.

Os crentes, por sua vez, têm muitas razões para crerem que os ateus não se dizem ateus só para os importunarem e porem à prova a sua fé, ou seja, os crentes têm razões para pensarem que os ateus o são de boa fé.

Agora, a questão é a seguinte: faz sentido que haja um ateu de má fé?


sábado, 13 de março de 2021

Bitolas, o papa e o sacristão

Novo ou velho não é nenhum certificado de valor, ou mérito, ou garantia de ser melhor, é apenas de ordem cronológica. Nem sequer é, penso eu, de ordem biológica. Os nossos esquemas mentais de classificação e ordenamento de tudo, seja no espaço, seja no tempo, seja na balança, seja na lógica, seja na causa, seja no efeito, seja na dor, seja no prazer, seja na memória, seja no esquecimento, seja no ganho, seja na perda, seja na verdade, seja na mentira, na fraqueza ou na virtude, no menos e no mais, no pequeno, ou no grande, no bom ou no mau, no bonito ou no feio, etc., conduzem-nos a avaliar tudo e mais alguma coisa tomando sempre qualquer bitola, ainda que seja a nossa bitola, em função seja do que for. Se assim é, parece que tem de ser. Mas não.

O grande mérito da ciência, que é um grande paradoxo, está em, ao tentar conhecer o ser, o que é, o que tem-de-ser, por força da objectividade e do rigor, descobrir que o ter-de-ser é um conjunto de possibilidades daquilo que é.

Enquanto a religião e os sistemas morais e éticos, já para não falar em político-militares e económicos, de subjugação do indivíduo, coarctando a sua vontade e os seus interesses, ainda, alegadamente, em nome do seu interesse, indivíduo que, na retórica da publicidade, é rei, mas sem que tenha uma palavra a dizer, desde que nasceu, ditam, sem pejo e sem respeito pelo indefeso indivíduo, numa tábua de deveres tão ampla e tão violentadora do ser, as leis, não naturais, do que eles devem ser, em nome de deuses ou divindades que antecipam, por revelação misericordiosa, a resposta que não precisa de ser questionada, nem procurada, sem contemplação do que eles são ou sejam, ou possam ser.

O verdadeiro problema do humano não são tanto as bitolas, mas quem as estabelece e quem não está sujeito a elas.

Aceitaríamos as leis mais duras, se todos, e em primeiro lugar quem as dita, estivessem sujeitos a elas. Não aceitaremos nem as leis mais sofríveis, se quem as dita não estiver igualmente obrigado por elas. Podemos por a tónica nos direitos ou nos deveres, tanto faz.

Supostamente, não conseguimos viver sem elas. Mas há quem viva.

Elas tornaram-se mais importantes do que nós. Mas não para nós. Nós não somos nada, as bitolas são tudo. Sobretudo no dia em que só vai haver bitolas.

A explicação da música vai estar em registos, assim como toda a explicação do universo, que até já pode existir, mas enquanto não passar pela minha cabeça, é como se não existisse, para mim.

Nenhuma ciência, filosofia, ou música, religião ou discurso poderão, todavia, abrir uma simples caixa de sapatos, ou limpar as lentes de uns óculos embaciados. Nem todo o saber do mundo o poderá fazer. Até o papa, que lê os evangelhos, precisa de um sacristão que lhe abra o livro. E o sacristão, provavelmente, não achará interesse em saber lê-lo.

 

segunda-feira, 8 de março de 2021

As coisas e os números

Enquanto escrevo sobre realidade e conhecimento, volto a pensar no Hilário, que disse ao seu amigo:
- O uno é o todo, que nós desconhecemos.
E o amigo acrescentou:
- No entanto, a unidade(=1) é composta de um número infinito de partes.
Hilário: cada parte, cada fracção da unidade é, por sua vez, uma unidade.
O amigo: o todo é constituído pelas partes, do mesmo jeito que a unidade é o somatório, ou o conjunto, o total das unidades.
Hilário: unidades entendidas como 1+1+1..., de tal modo que, por exemplo, 1/2= 1+1=2.
O amigo: dividida em duas partes a unidade passa a ser duas unidades.
Hilário: boa! Deste-me uma ideia: se dividir um euro em dois, posso ficar com um e dar-te o outro.
O amigo: mas não consegues dividir um euro em dois, como não consegues dividir uma maçã em duas, ou outra coisa qualquer.
Hilário: pois não, só se consegue isso com os números.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Um país sabotado

Entre as preocupações e frustrações, neste país, uma das maiores é ser um país ao contrário. Não é um país para viabilizar e facilitar e ajudar o cidadão.

É um país para derrotar, diminuir e anular o trabalhador crédulo e confiante de boa fé.

É ser uma plataforma de sabotadores.

É uma engrenagem em que se entra grande e se sai pequeno. Em que se entra optimista e se sai aniquilado.

Isto aprende-se, desde muito cedo. Só há lugar para os melhores, mas, no fim, não há lugar para ninguém. É muito preocupante a nossa cultura de sabotagem e de sabotadores. É no que dá a aprendizagem, até pela experiência diária, de que toda a gente anda a sabotar o trabalho de toda a gente.

Nós não somos um país adiado, somos um país sabotado.

E quando esta cultura se instala, não está tudo perdido, mas estamos perdidos. A parte interessante e positiva é que não está tudo perdido.

Quem mais e melhor sabota, mais e melhor faz. Não é o salve-se quem puder, é o sabote quem puder.

Nem precisava de referir a escola superior da política.

Mas, o que tem sido a política senão a sabotagem mais concertada e mais imbatível dos sonhos e das aspirações e do trabalho de quem acredita na solidariedade e na justiça, enfim, no amanhã?

Ao serviço de quem têm estado os nossos partidos e os nossos governantes, sob a capa da impunidade? Que miserável visão nos proporcionam os governantes!

Muitos dirão que é tudo uma questão na perspectiva do lado de que se está.

domingo, 21 de fevereiro de 2021

Banqueiros e cumplicidade de políticos

Os banqueiros e os políticos cúmplices são a fórmula imbatível e inexpugnável para quebrar a espinha dorsal de uma sociedade crédula e confiante.  

É o pior que se pode fazer, tudo por ganância e por desprezo total dos mais elementares valores, códigos de honra e ética social, para não falar em Códigos Civis e Penais.  

A educação para a cidadania e para a literacia financeira devem deter-se pacientemente nestas realidades, muito tristes, é certo, mas incontornáveis.  

E estamos a falar muito vagamente, de um mundo que gere as poupanças dos outros, praticamente sem controlo, e que, tantas vezes, promove investimentos em que, fraudulentamente, as perdas de uns são uma das faces da moeda dos grandes ganhos de outros. 

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

A arte não tem outro modo de ser senão ela própria

A arte não tem outro modo de ser senão ela própria. 
A um «objecto» de arte, seja poema, pintura, escultura, música, não se pode exigir nada. 
Não se pode exigir que esteja "bem escrita", "bem pintada", etc.. 
Em tempos, numa conversa de passagem pelo corredor da escola, disse a um professor de português, a propósito não sei de quê, que um poema, um conto, um romance, por mais erros de ortografia, e outros, que tenha, não pode ser considerado mal escrito. 
Ele ficou a olhar para mim sem perceber que eu estava a falar a sério e riu-se. 
O artista não está vinculado a nada. 
O autor de uma tese está vinculado a imensas coisas, não pode escrever o que lhe der na veneta. O executante de uma partitura e o professor de português, também. 
Só o artista não. 
Nem sequer está vinculado a fazer arte.