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segunda-feira, 23 de março de 2020

As equações e o sinal =

A discussão sobre o conhecimento e sobre a linguagem, sobre as humanidades, as artes, as expressões, as ciências...não pode ignorar a ciência feita sobre essa mesma discussão e que é uma vasta filosofia, no melhor sentido da palavra, considerando as duas vertentes privilegiadas de produção de conhecimento, a dedução, a partir do que se conhece e a indução, partindo de hipóteses...
As equações são um bom ponto de partida para pensarmos na consistência dos nossos conhecimentos, sejam eles mais matemáticos ou menos. 
No fundo, estamos constantemente a equacionar e a procurar resolver equações. 
Neste pormenor, o que me parece distinguir mais as ciências, o conhecimento científico, das outras modalidades de conhecimento, competências, respostas, comportamentos, é sobretudo o modo e a linguagem em que equacionam os problemas e o modo e a linguagem em que resolvem, quando resolvem, as equações.
Todos nós passamos os dias a equacionar e a resolver equações e deitamo-nos com as equações, acordamos com elas e não nos livramos delas. 
Quando resolvemos umas, logo emergem outras e isto tanto acontece na música, como nas línguas, como na pintura, na moral, ou na religião...
Na matemática, as equações, tanto quanto sei, são da ordem numérica, do mais, do menos, da multiplicação, da divisão, da proporção, da progressão, regressão, finito, infinito, etc., e o significado, muitas vezes, depende de algum atributo dos números, como, por exemplo, "3000 mortos", em que mortos é decisivo no significado.

sexta-feira, 20 de março de 2020

Entrincheirados


Nas últimas semanas, à defesa do covid.19, nesta guerra de trincheiras, que muitos dariam por ultrapassada, sobretudo depois do imenso sucesso do poder militar aéreo, o inimigo é mais insidioso e diabólico do que nunca.
É um inimigo que faz parar os aviões e guardar os mísseis e todos os arsenais de torpedeiros e manda as pessoas para os abrigos, mesmo sem bombardeamentos, submissas e abatidas.
Em vez de activar a economia, numa corrida para as fábricas de armamento, tanques e equipamentos...para-a, afunda-a.
Em vez de obrigar a mobilizar tropa rija e violenta, obriga a cuidados paliativos e, tragédia das tragédias para quem é senhor da guerra, é um inimigo que escolhe o campo de batalha e as armas e move-se à vontade, ataca em qualquer lugar, a qualquer hora, invisível aos radares e sem estrondo, inexpugnável e impune.
Um inimigo cobarde. Um terrorista da pior espécie. Desconhecido. Destituído de intenções. Um facto e não actos. Ao contrário de uma guerra.
Guerra é o que vamos ter de lhe mover. Guerra é coisa de humanos.

sexta-feira, 13 de março de 2020

Ainda podes ser acusado de não teres nada

Na realidade, o problema da burocracia, da corrupção, do nepotismo, dos compadrios, dos complôs, das arbitrariedades do poder e todo o tipo de abuso, é que, apesar das queixas gritantes e embora plenas de razão, os cidadãos não são tidos em conta senão para obedecer, trabalhar, votar e respeitar a estrutura política que são obrigados a pagar, sem escolha.
E quando alguém apresenta alternativas e soluções para os problemas é visto e considerado como uma ameaça. Logo tratam de ignorar ou desdenhar para não terem de reconhecer que muito pode e deve ser feito para bem de todos (excepto daqueles que deixariam de ter as vantagens que indevidamente têm).
Não falta quem seja capaz de revolucionar com melhores leis e procedimentos e práticas. Não falta quem tenha competência para fazer melhor do que aquilo a que temos assistido (pior era difícil).
O problema, insisto, é que ter razão é pouco e pode ser nada.
Aqueles de quem nos queixamos, com razão, não têm razão mas têm e fazem o que querem.
Os outros, aqueles que têm alternativas e soluções, com razão, só têm isso, não têm o poder.
E podem até estar cansados de ter razão, ao ponto de já não terem vontade, nem determinação para a acção.
É preocupante e alarmante que o poder da razão continue a ser vilmente (para não dizer democraticamente) derrotado e suplantado pelas razões da força.
Mesmo quando tens razão, se não tiveres algo mais, ainda podes ser acusado de não teres nada.

quinta-feira, 5 de março de 2020

O que são direitos? Sentem-lhes o cheiro?

"Quando concretizamos direitos, damos um sentido à tragédia humana e à nossa própria existência!

O direito e a arte são as únicas evidências de que a odisseia terrena teve algum significado!”

                                             Não resisti a publicitar este texto da Juíza Federal Raquel Domingues do Amaral.

sábado, 29 de fevereiro de 2020

A direita é quem governa


Reparem que a direita é quem governa, mesmo quando ganham os partidos de esquerda. 
É mais simples e mais eficiente do que montar estruturas partidárias declaradamente de direita. 
De resto, os partidos de direita que temos tido são só para disfarçar e compor o painel. 
Aliás, pegam em dois ou três temas que animam toda a gente, iludindo e confundindo quem se habituou a pensar a esquerda como a luta pela justiça e...o eleitor criterioso e exigente deixa de ter em quem votar. Com a abstenção, mais uma vez, quem ganha é a direita. 
A direita ganha sempre. 
Não se iludam, se a direita quisesse assumir-se como tal e ganhar as eleições por larga maioria, só tinha que se dedicar, porque meios não lhe faltam, e a democracia também é terreno fértil da manipulação. 
Mas preferem ganhar as eleições disfarçados de esquerdas e, na realidade, parece ser a melhor estratégia. No dia em que se tornar explícito que a direita domina, porque ganha eleições, se isso chegar a acontecer, mas não creio que a direita queira, a própria direita voltará a disfarçar-se de esquerda. 
Isso de esquerdas e de direitas, na actualidade, é só para intelectuais prestarem um serviço aos mesmos: à direita.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

A ética como factor perturbador do objecto de conhecimento

Apontamos para horizontes que serão alcançados mas, por enquanto, sobrelevam lutas tribais por domínios e liberdades que são negados aos outros. É a realidade, é a biologia e o cérebro a funcionar. São os determinismos da natureza. 
Mas, então, porque continuamos a acreditar que somos capazes de perceber que os outros procederão como nós e que o egoísmo é um suicídio?
Vivemos num tempo assustador. porque é necessária, cada vez mais, atenção e desconfiança, por parte de todos, para não serem comidos e isto é um estado de guerra demolidor que esgota as energias e a paciência da maioria, que tem de jogar à defesa dos seus interesses vitais, sem ser capaz de um ataque...
A ciência seguirá para onde terá de seguir e vencerá, como não poderia deixar de ser. É sempre assim. 
O que tem de ser tem muita força.
Não será por querermos empenho que haverá empenho. Se é preciso que nos empenhemos, certamente nos empenharemos. 
A necessidade não é a mãe de todas coisas? 
Mas a necessidade de uns pode não coincidir com a dos outros e podem até ser antagónicas.
É muito ingrato e terrível enfrentar o cenário "científico" dos problemas, mas sobretudo da resolução dos problemas.
A ciência das "leis da natureza" já deu frutos preciosos e permitiu avanços notáveis no capítulo das "leis sociais e económicas".
Mas é importante considerar, cientificamente, o sentido que a estupidez humana poderá ter no "puzzle" da compreensão do mundo, uma vez que tem desempenhado a principal função.
Do ponto de vista da evolução, não há problemas, porque bate sempre tudo certo, está tudo sempre bem, etc..
Estou a pensar, não no interesse que alguém pode ter em sacrificar os outros, mas no interesse que alguém poderá ter em sacrificar-se pelos outros ou por uma coisa qualquer.
Se abstrairmos do lado ético (de que a ciência se ocupa enquanto manifestação da natureza, nomeadamente a neuro-ciência e a psicologia), a diferença entre sacrificar os outros e os outros sacrificarem-se só não é nula porque esta última alternativa é imensamente menos provável de acontecer.
Se excluirmos a ética, na natureza, está sempre tudo em equilíbrio, é sempre tudo igual ao litro.
A ética, embora não afecte o conhecimento, apresenta-se como o factor perturbador do objecto do conhecimento, da natureza.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

As coisas e a vida não precisam de ter significado, ou explicação, para serem o que são

Quantos de nós se apercebem de que, apesar de vivermos numa cultura intencional e sistematicamente "significadora", centrada na formulação e exploração de significações e de sentidos, há um predomínio daquilo que não tem significado, nem precisa, nem pode verdadeiramente ter, nem interessa que lhe atribuam?
Se tomarmos a Escola como exemplo para ilustrar o que digo, logo daremos conta de que a questão do "significado" e do "sentido" é um prévio requisito de elegibilidade, mormente se o critério geral for o da utilidade/retorno...
Todas as disciplinas se tornaram ávidas, pelo princípio de alguma forma de economia/importância/relevância, da evidência do significado e do sentido de existirem.
A ironia é que esta exigência de justificação impõe pensamento e construção racional que, ela própria, é um objecto de parca valia e menos apreço.
Atalhando, quero eu dizer que as sociedades hodiernas assistem a um recrudescer da importância dos talentos não directamente revelados como talentos de discurso do pensamento, saber pensar (filosófico, científico, político, económico, religioso...), que se revelam nas áreas do desporto, das artes, do lazer, da poesia, música, gastronomia, contemplação, ócio, vadiagem...
Se observarmos e analisarmos os dados das economias dos países, talvez nos surpreenda que mais do que os suportes tecnológicos da comunicação o que importa são os "conteúdos" comunicados e estes, da música ao futebol, passando pela dança, pela contemplação de uma paisagem, pela gastronomia, ou por uma droga...quanto mais se apresentarem como simples fruições e menos como interrogações ou respostas, maiores adesões obtêm e mais compensações/retornos dão aos seus autores e respectivos países.
Por incrível que pareça, não são os filósofos, nem os historiadores, nem os cientistas, nem os engenheiros... que obtêm ou geram mais rendimentos nas economias dos países.
As coisas e a vida não precisam de ter significado, ou explicação, para serem o que são, interessantes (como um chocolate, uma dança, um quadro do Picasso...) ou não (como a morte, um acidente...), mas o significado e questões de pensamento e de sentido poderão fazer acreditar que as coisas não têm de ser como são.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

A Escola é um bicho de sete cabeças

A Escola é e pode ser muito mais do que um instrumento de socialização programado, porque é investimento, ordenamento e controlo social e sistema institucionalizado de (des)classificação social, que tende a normalizar as ignorâncias instituídas e a promover os interesses reinantes, numa espécie de círculo vicioso.
Na sociedade tudo funciona. Funciona a ditadura, a democracia, o totalitarismo, a escravatura, o liberalismo, a república, a monarquia, o capitalismo, o socialismo...O cristianismo, o ateísmo...
Não nos deixemos enganar pelo critério da eficiência como boa racionalidade.
A eficiência pode ser obtida à custa de muitas coisas bem mais importantes.
Se a Escola não fosse obrigatória e não fosse Pública, as questões eram outras.
No caso da Escola obrigatória e Pública, compete ao Estado o discernimento, clarividência, bom senso e justiça de cuidar de um bem comum que é muito mais do que um instrumento de ordenamento da sociedade, com o séquito usual de sanções positivas e negativas e consequentes injustiças.
A Escola, como representante do saber e do conhecimento, gera expectativas muito elevadas, demasiado elevadas, mas tem de saber muitas coisas e uma delas é saber ser solução e saber não ser problema para os alunos e professores.
A Escola, em Portugal, ainda é um bicho de sete cabeças para toda a gente, menos para os políticos, que a resumem a um problema de números de orçamento, a eventuais prescrições económicas e a algumas más memórias suas.
Mas a Escola não pode ser aquele labirinto onde os teus pais te abandonam, fecham a porta e nunca mais encontras a saída e não te encontram, ou, por diversas razões, encontras a saída ou te encontram.
A Escola não pode, simplesmente, forçar o aluno a deslocar a sua atenção de si mesmo, dos seus problemas individuais, pessoais, e esperar que se dedique, abnegadamente, aos problemas da sociedade, como um sacerdote, sem uma razão convincente dessa abnegação (na perspectiva dele e não da sociedade)...
A Escola não pode ser o protótipo da Casa dos Problemas e dos Terrores, sem presente, onde tens de entrar no futuro ou no passado e onde tudo soa a ameaça e a fim do mundo, ou a depressiva e culpabilizante retrospectiva de uma História da humanidade, de horrores, infâmia, violência e destruição.
De cada vez que se introduz um novo projecto, seja de saúde, de sexualidade, de sustentabilidade ambiental ou de direitos humanos conexos, a advertência é grave e as perspectivas não são animadoras.
A Escola não é não será o paraíso dos crânios ermos, mas tem de ser mais do que o inferno ou o purgatório das jovens almas censuradas.
A Escola pode ter de ser subversiva para continuar a ser Escola.
E tem de ser diversa como diversos são os alunos e os professores.
Realista, para os alunos e os professores que existem.
A Escola não pode contar com um ideal de aluno e um ideal de professor, por mais perfis que se façam.
Os políticos da educação e os diretores das escolas deviam, obrigatoriamente, dar aulas, nem que fosse a uma turma e, de preferência, a que estivesse sinalizada como mais problemática.
De resto, para abreviar, premiar os alunos bem classificados e punir os mal classificados, em âmbito de escolaridade, parece-me um mau princípio.
O valor das classificações, para todos os efeitos e mais algum, está longe de corresponder ao interesse e ao valor das aprendizagens, para já não falar dos saberes e das competências e, mais ainda, do mérito e das realizações/reconhecimentos sociais e profissionais.
A Escola não pode ser, não deve ser, nem para alunos, nem para professores, mais labirinto do que a vida já é.

sábado, 1 de fevereiro de 2020

Nas Portas do Sol de Santarém

Já entrei por uma porta grande
e subi às torres da fortaleza
e vi o sol nascer
ao som das trombetas
duvido que algum imperador tenha mijado
nas portas do sol
a contemplar o Tejo e Almeirim
nem o rei
D. Afonso Henriques o conquistador
compreenderia
o esplendor da minha ingénua alegria
enquanto fumava um cigarro
às escondidas da tia.

sábado, 25 de janeiro de 2020

Para quê/porquê


O "para quê", de algum modo, apresenta-se ou soa como desconcertante, desmancha discursos ou prazeres, mais ainda quando pretende ser, não uma pergunta, mas algum modo de resposta. Quando alguém pergunta "para quê?", já está a responder de um modo frustrante e derrotista.
Se a mãe disser à Leonor para ir à fonte e a Leonor perguntar "para quê?", tanto a mãe como a Leonor entendem isso como uma resposta e não como uma pergunta. Se a Leonor perguntasse "porquê?" tudo poderia ser diferente, dependendo dos contextos.
O "porquê", comparado com o "para quê" parece ser mais contextualizado, objetivável e promissor de respostas relevantes e sustentáveis e menos provocador ou desafiante.
Há "para quês" a que se responde com "porque" em vez de "para que".
Será que "professores para quê?" é uma pergunta ou uma resposta, ou nenhuma das duas, ou ambas?
Se procurarmos responder "professores, porque..." seremos nós que estamos a desviar-nos do assunto, ou nem por isso, de modo algum, antes pelo contrário?


terça-feira, 21 de janeiro de 2020

A inteligência artificial (AI)

A IA é um assunto que apela a que se faça investigação, mas mais ainda ficção, porque os cenários prováveis, provavelmente, serão mais inesperados do que pensamos.
Acredito que a IA já começou a degradar, de um modo muito brutal ou abrupto, o próprio conceito de inteligência humana e a própria aura do humano, enquanto dotado e apto a grandes realizações.
Pela primeira vez, talvez, algo não produzido pelo homem, mas produzido por algo que ele produziu, promete ou ameaça suplantá-lo, se é que não o suplanta já em muitos casos.
A inteligência como um produto parece-me algo novo na história, mais ainda se considerarmos que esse produto é inatingível pelo próprio homem. 

O que vamos contar ou valer, já hoje, e não apenas futuramente, será ditado por uma inteligência que deixaremos de compreender e contra a qual, já hoje, pouco ou nada podemos (independentemente de o proclamarmos em slogans eleitorais). E isto é uma ameaça muito grande, mas talvez menor do que aquela sob a qual a humanidade tem vivido sempre, de contar e valer aquilo que os poderes (inteligentes ou não) determinam.
Tenho tendência para considerar a inteligência artificial, assim como a inteligência da matéria, mais confiável (não obstante ser inevitável) do que a outra.
Ainda vou ter de pensar por quê.
Já hoje, nenhuma pessoa, por mais sábia que seja, a menos que nos proporcione vantagens de outra natureza, permite interações como as que nos estão acessíveis pela IA. Mas parece-me perfeitamente concebível, num horizonte muito próximo, que um simples telemóvel se torne naquilo que mais utilidades e soluções e conforto possa trazer às pessoas. Um telemóvel já resolve problemas de incomensurável grandeza e pode conhecer-nos como nunca a nossa mãe ou os nossos amigos nos conheceram. E pode informar-nos e aconselhar-nos como nenhum humano seria capaz. Pode até tornar-se um impostor que só apresenta boas intenções. Estou a pensar que pode falar-nos como se fosse deus, ou, levar-nos a crer que deus, finalmente, passou a falar aos homens, através do telemóvel (ou outra IA).
Não me admiraria se as igrejas começassem a recorrer à IA, em vez de recorrerem à bíblia.
Porque os partidos, os banqueiros, os militares, os detentores das finanças, mais do que as polícias...Já o fazem e não podem dispensá-la.

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Desçamos à terra

Que o vão seja a forma
de um apenas
e haja forma de o ser
manter raízes
que a dor de saber
que nos condenas
oh, Deus! É uma dor
por aquilo que não dizes.

Não busco canto nem
dia perfeito
não busco nada
no que aparece
a maior parte
é este meu defeito
de acreditar
naquilo que acontece.

Como se a própria vida
me traísse
embora eu pense
que o traidor sou eu
tenho pena por tudo
o que não disse
melancolia
pelo que morreu.

Estranha esta alegria
de estar vivo
estranho mundo
sob estranho céu
a minha vida
ganha algum sentido
se penso no sentido
que perdeu.

sábado, 21 de dezembro de 2019

O sentido da vida

Ainda bem que a filosofia, e não tanto a investigação empírica, não tem como objecto a formulação de receitas para responder a questões e, muito menos, a resposta teórica a problemas de ordem prática.
A própria questão do sentido dificilmente será uma questão objectiva, quanto mais a questão do sentido da vida, da minha para os outros, para mim, e dos outros para mim, para eles. E, em tudo o que tiver de objectivo, provavelmente, já não é uma questão do sentido que se interroga, mas do sentido de que se parte.
Dentro das escalas e acepções possíveis de sentidos, imediatos, de mero expediente, de sobrevivência, ou teleológicos, biológicos, culturais, é possível concluir que tudo faz sentido, ou não, consoante a "oferta" de "sentido" disponível na cultura.
Do mesmo modo e ainda de acordo com essa oferta, seja ela religiosa, filosófica ou científica, não existe nenhuma "oferta" meramente subjectivista. A própria religião recusa peremptoriamente qualquer resposta subjectivista, relativista, pessimista, para a questão do sentido da vida.

domingo, 8 de dezembro de 2019

Engodos e Bluff

Quando nos sentimos obrigados a vir para a rua gritar...
As nossas percepções tendem a ser influenciadas e manipuladas e viciadas pelas forças políticas, económicas e religiosas no terreno, que se manifestam diante dos nossos olhos e ouvidos de um modo tão virtual, com tantos engodos e bluff, com tanta representação social à mistura, que o facto de as televisões e os jornais e as redes sociais serem a nossa fonte de informação só por si constituem um problema sério porque, de algum modo, são nossos sequestradores.
Não há uma verdade oficial. E ainda bem.
O discurso oficial, o politicamente correto, são tão suspeitos que, eles próprios, se demitiram do dever de informar, porque eles têm interesse em não informar, ou em informar apenas o que lhes interessa.
E era aqui que eu queria chegar.
Os governos devem assumir como uma das suas funções principais, através da criação de equipas técnico-científicas, não a pedagogia das populações, nem a doutrinação, nem a propaganda alienante, virtual e massificadora, mas a informação a que, objetivamente, cientificamente, já é possível chegar e o cidadão tem direito.
Este “possível chegar” não é para o cidadão comum, mas é possível para o Estado.
Acredito que os Estados mais ricos tenham capacidade para recolher (e recolham) e tratar dados (e tratem) sobre praticamente todas as áreas, nomeadamente polítcas e económico-sociais.
A explicação para fenómenos tão estúpidos e vergonhosos como racismo, xenofobia, chauvinismo, hooliganismo..., ficaria acessível ao público e a sua análise permitiria concluir muita coisa, válida e consistente, sobre a sociedade, em termos comparativos no espaço e no tempo e as tendências atuais, nomeadamente políticas, para além daquilo que sabemos pelos telejornais e pelas impressões dos nossos amigos e inimigos.
Enquanto, aparentemente, os Estados andarem todos a fazer bluff (como se estivéssemos perante fenómenos inexplicáveis e sem solução) seremos induzidos a seguir líderes de coisa nenhuma, porque tudo o que têm para nos dizer (limitam-se a ampliar/amplificar populismos e demagogias à cata de votos ou anuências ou proselitismo) não vale mais, nem é melhor, que aquilo que nós sabemos.
Se soubéssemos (e acredito que há Estados e polícias que sabem) quem são os racistas, etc..., e as razões e motivos que os movem, talvez ficássemos esclarecidos sobre aspectos muito importantes, graves e deploráveis, que podemos e devemos corrigir com justiça.
As cortinas de silêncio, o clima de suspeição, a cultura de bruma e de medo, os fantasmas da guerra... são instrumentos poderosos cuja utilização interessa a quem sabe muito daquilo que nos interessa saber mas não informa, porque tem poderes para “não informar”.
No entanto, não mais basta que um grupo dominante queira isto ou aquilo.
A minha percepção é que este é o problema, mas também é a esperança de mais justiça e de mais racionalidade.

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

O mercado da atenção


Vivemos numa sociedade em que as palavras são reproduzidas diante dos nossos olhos, quando somos leitores, ou atingem os nossos ouvidos, quando estamos no papel ou atitude de escutar o que diz Molero ou o que falava Zaratustra, com a previsão de serem entendidas e interpretadas como cada um quiser ou for capaz...
O mercado da atenção é um problema muito complexo para toda a gente que depende dele.
E, cada vez mais, dependemos desse mercado, não apenas como dizentes ou falantes, mas também como escutantes ou ouvintes.
Neste mercado da atenção, tudo se transforma em ruído, mas a liberdade, que é muito bonita, não é para todos.
A liberdade de dizer/falar e a liberdade de escutar/ouvir não são da mesma igualha e, no mercado da atenção, a liberdade de uns não é propriamente liberdade de outros.
O paternalismo e a emancipação têm vindo a ser o ator e a sua personagem dramática e/ou trágica, das relações de poder, num teatro que virou tudo do avesso ao tornar-se verdadeiro poder e um poder maior.
Tudo sob a égide de um deus (dinheiro), que não precisa de saber, nem tem de valer nada, para ser critério de (quase) tudo.

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Uns poetas e uns vencidos da vida venal

A diplomacracia, em Portugal, começou por ter os contornos de um poder e de um status que eram conferidos por uma espécie de "divindades" iluminadas cujo saber absoluto só era distribuído (não aleatoriamente) a conta gotas como um raro privilégio destinado a ser invejado e idolatrado pela esmagadora maioria dos ignaros, leigos e gentios dependentes das migalhas da soberba da sapiência.
Mas foram aparecendo uns tipos mais interessados em humanidade do que em vaidade, uns poetas e uns vencidos da podridão da vida venal, enraivecidos e revoltados contra a hipocrisia de uma ignorância arvorada em classe, virtude e divindade, que rejeitaram a sapiência por aspersão divina, como se houvesse mais do que um tipo de chuva, para além da que molha.
A instituição da diplomacracia não deve ter tido um grande sucesso, porque a democracia tratou de mostrar que há outros poderes.
Neste aspecto, o 25 de abril de 1974, foi o mais traumatizante para qualquer crânio formatado pelo Estado Novo.
Aqueles que nos tinham habituado a ir à escola e a considerar todos os outros analfabetos, iletrados, impreparados, rudes, labregos, perderam o poder e os novos "senhores" mandaram, com muita condescendência, os diplomas para as prateleiras dos museus e os diplomados para a reciclagem de um sistema que não sabe como reciclar diplomados, quanto mais analfabetos.
Na realidade, o que se mantém inalterável é a "cracia".
Já a composição por aglutinação... É do mais camaleónico que há.

                     Carlos Ricardo Soares

terça-feira, 26 de novembro de 2019

A mais antiga tirania do mundo

Vai-se tornando notório que slogans como Livre, Liberal, Liberdade...são uma espécie de tumores cerebrais que ninguém quer. A tirania da liberdade é a mais antiga tirania do mundo. A da civilização à força vem a seguir. Quando a civilização conseguir conciliar o capitalismo com o socialismo, os interesses individuais com os interesses colectivos, sob a égide do respeito e do "culto" (de cultura) do planeta, submetendo o poder do dinheiro ao poder da razão e da ética, então pode deixar uma via de emergência aberta para quem quiser saltar fora, em vez de querer atirar os outros para fora.

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Civilização à força

Ainda está por começar uma República, que seja democrática, respeitadora dos direitos individuais, desenfeudada dos poderes económicos organizados nos bastidores da fachada política, cujos eleitos (representantes) não sejam marionetas de um teatro que a turbamulta toma por vida e gesta de deuses e de demónios a que tem de estar sujeita.
Ainda estamos na antiguidade da organização social e política, mas acredito que não será por muito mais tempo. É como se andássemos a laborar no modelo ptolomaico por não conhecermos o modelo copernicano.
Estamos a remendar um tecido podre com todo o tipo de tecidos. Isto favorece um estado de espírito eufórico e muitas vezes alienado de crença no sistema de soluções, muito mais do que nas soluções do sistema.
Muito pouco daquilo que nos ensinam sobre liberdade e direitos e dignidade é verdade, mas nós só saberemos se descobrirmos.
As incoerências são tantas que ao defendermos a liberdade estamos a defender a prisão, a caixa.
O ensino e a aprendizagem são instrumentos que, como qualquer instrumento, não são desinteressados, nem inócuos, nem inocentes, têm objetivos.
O serem obrigatórios, em qualquer estádio de socialização do indivíduo, não pode deixar de os tornar suspeitos, de muitos pontos de vista, militar, político, económico, religioso...
Numa perspectiva de dogmática jurídico-política, sempre podemos questionar o sentido e a legitimidade da obrigatoriedade de ser civilizado, de frequência e avaliação do sistema de ensino, ou de um sistema militar, ou religioso...
Aliás, o simples facto, anódino e inofensivo, de alguém querer ser selvagem não me parece encontrar solução nem acolhimento no cardápio de direitos, liberdades e garantias, do catecismo das nações civilizadas.
Ou não vivemos numa civilização à força, que tem como bandeira a liberdade?

domingo, 17 de novembro de 2019

Os ideais de todos e a realidade de ninguém

Enquanto as discussões sobre os problemas ocorrem sob a égide de uma suposta bondade estribada numa suposta racionalidade de uma suposta justiça classificativa e seriadora, não temos razões para pensar que aqueles que suspeitam de uma tramóia não sejam, no fim de contas, os mais devotos defensores dos princípios e do paradigma em que a mesma assenta.
Acaso alguma vez os sistemas de ensino, mesmo esquecendo a autocrática supremacia da Teologia, em tempos mais recuados, relativamente a todas as outras disciplinas, corporizaram os ideais de todos e a realidade de ninguém?

terça-feira, 12 de novembro de 2019

A educação da linguagem/a linguagem da educação


O mundo em que vivemos atinge graus de complexidade cada vez maiores, não apenas por serem mais e maiores os problemas que enfrenta, mas também por ser tendencialmente desgovernado, se tivermos em mente a noção de governo em que fomos "educados", mas sobretudo a ideia, generalizada, mas não aceite, de que os governantes são tão inteligentes que nem precisaram de estudar para nos darem ordens e de que, nós, os governados, somos tão burros que precisamos de estudar toda a vida para tentarmos perceber as ordens que eles nos dão.
Os governantes "sabem", mas eu não sei, se é a educação que perverte a linguagem ou se é esta que perverte aquela, ou se a linguagem, pervertida, perversa, ou não, é um problema para a educação, ou vice-versa, embora o problema, na realidade, seja o problema da educação e não o problema da linguagem.

sábado, 9 de novembro de 2019

Nada será como antigamente

Torna-se cada vez mais patente, para não dizer evidente, que muita coisa está a mudar e, no ensino, também.
Se é para melhor ou pior, eis o problema.
Mas nada será como antigamente. E antigamente era o que se sabe: nem tudo se recomendaria.
O antigamente seria recomendável nas situações em que o presente fosse tão abonatório do passado que nem havia necessidade de o recomendar. Assim, estamos forçados a censurar e a louvar o passado pelo presente que nos "legou".
Se é preciso trabalhar muito para que tudo continue na mesma, quanto mais ou quanto menos não é preciso para mudar?

sábado, 2 de novembro de 2019

Fugir ao destino - Big bang

Será que podemos fugir ao destino? O destino, por natureza, é triste e, muitas vezes, trágico. Não precisamos de ser muito sábios para constatarmos a realidade do destino. Tudo isto é fado, tudo isto é triste, ou, tudo isto é triste, tudo isto é fado. Não se trata de optimismo ou de pessimismo. Optimismo ou pessimismo, cada um toma o que quer.
Talvez nenhuma espécie, como a humana, viva o dilema e o problema de as coisas não terem de ser como são, mas serem como são, apesar de não deverem ser como são.
Volto ao princípio: será que podemos fugir ao destino?
Tudo indica que sim e tudo indica que não. O big bang pode ser entendido como uma fuga ao destino. No entanto, cumpriu o destino. E, assim, tem sido ao longo de milhões e milhões de anos. Nos últimos séculos, os registos históricos revelam que a humanidade tem estado tão obcecada a fugir ao destino, que quase não tem tempo nem disponibilidade para mais nada. E, assim, cumpre o seu destino de fugir ao destino.
Inventa-se tudo, pensa-se em tudo, sacrifica-se tudo, faz-se tudo, para escapar ao destino. Mas o destino é cada vez mais destino.
Sem querer ser "totalitário", diria que todas as revoluções, toda a discussão e dialéctica entre o bem e o mal, toda a cultura e todas as guerras, quiseram moldar o destino e conseguiram-no.

sábado, 26 de outubro de 2019

Pão pão, queijo queijo

Um discurso no qual cabe tudo e mais alguma coisa é um discurso vazio, opressivo, violentador da atenção e das expectativas de coerência.
Se o pensamento tivesse tímpanos, rebentariam.
Receio bem que a Escola esteja demasiado inundada por esta onda devastadora de palavreado psicadélico.
Ainda não compreendi por que razão a maioria das pessoas não prefere o "pão pão, queijo queijo" das ciências, nomeadamente da natureza, em que cada coisa tem um nome e uma função e uma composição.
Só por isto, por a escola não ser capaz de mobilizar as aprendizagens para o "pão pão, queijo queijo", inclino-me a pensar que tem muitas ineficiências.

domingo, 13 de outubro de 2019

Mais perigosa do que o buraco do ozono

A ciência e a técnica e as tecnologias vieram estabelecer (fazer com que se estabelecesse) um sistema de prioridades e de valores que tende, senão a desprezar, pelo menos a relegar para plano secundário, ou irrelevante, a história, o sentido e o conhecimento do passado.
O capitalismo financeiro e o capitalismo industrial formaram a dupla perfeita e são a dupla perfeita para a promoção da ciência, da tecnologia e de tudo o que possa dar retorno (estou a falar de dinheiro).
Infelizmente, os critérios do retorno (capital financeiro) não são sustentáveis, e nem questiono se são desejáveis ou se são eticamente admissíveis.
Também foi uma pena imensa não ter havido da parte de ninguém uma previsão (visão) da furibunda barbaridade que se estava (e está) a cometer contra o planeta (em troca de mais dinheiro, para cometer mais barbaridades, em troca de mais dinheiro...).
O melhor dos mundos possíveis instalou-se e o dinheiro, que avançava na forma de tanques de guerra, passou a chover sob a forma de bombas em cima de cidades incrivelmente belas, com uma história incrível. Mas que ficaram reduzidas a cinzas (as cidades e as pessoas). As cinzas não fazem história.
Hoje interrogo-me se posso dizer que não participo ou participei
(conscientemente) em alguma guerra (do dinheiro e seus servidores).
As guerras tendem a ser vendidas como amor, mas as suas consequências são desastrosas.
E, se calhar, não merecemos mais do que isso. Mas aqui acabam os direitos do homem. Se é que alguma vez existiram verdadeiramente.
A ciência e a tecnologia e os poderes políticos colocam-se de tal modo ao serviço da ignorância e da estupidez, que é preciso criar um super poder que o impeça, que impeça a vaga (espiral) de destruição bélica e punitiva, quando não são apenas comportamentos chauvinistas e xenófobos, aberrantes (e cá vem a palavra proibida "odiosos").
A cultura não tem chegado a todos.
Muitos episódios, de que temos conhecimento através dos noticiários (os meios de difusão e de comunicação também servem para isto), revelam um desconhecimento preocupante, por parte de populações urbanas de países desenvolvidos, do significado de igualdade, liberdade, direito e, pior do que isso, uma ausência de percepção ou sentimento de reciprocidade, negando a lógica inerente ao "meum et tuum", que sustenta o entendimento do respeito do indivíduo.
Esta lacuna é mais perigosa do que o buraco do ozono, mas não vi nenhuma comunidade científica a vaticinar tragédias.

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Democracia e boa governação

O estado crítico da matéria é um dos mais avançados estados que a matéria pode atingir.
No momento atual, quando me perguntam em quem vou votar, sinto um nó na garganta, porque penso que está instituída uma cultura de perseguição pelo voto.
Um pouco mais de "propaganda" e essa cultura deixaria cair a máscara e mostraria, com orgulho, o rosto de alguma máfia. Se eu estivesse metido no aparelho político não falaria assim, sob pena de me considerarem louco.
Mas a sacrossanta democracia paira, com a sua auréola, apesar da inaptidão dos partidos, que têm provado não ser dignos dela.
Todos a invocam, mas fazem-no porque transferem as suas incompetências e falta de ideias para governar, para o inequívoco potencial da democracia para proporcionar as condições para o melhor dos governos. Como se a democracia, por si só, resolvesse os problemas, ei-los à cata de votos. Mas isto é enganoso, é querer que as pessoas pensem que votar resolve os problemas. Mas os problemas que a democracia resolve, ou previne, não se confundem com os problemas que os partidos são chamados, mandatados, para resolver. Democracia não é garantia de boa governação. A boa governação não é possível com os partidos que têm governado. Lançaram o país num pântano e não têm ideias de como sair dele. Eles mesmos estão atolados, atados, acusados, descredibilizados, a precisar que os salvem através do voto. O voto, para eles continua a ter um valor inestimável. Para eles, porque, para o cidadão, só tem valor na medida em que tem valor para os partidos. O que era importante, que o voto tivesse valor porque podia resolver problemas, ainda não está ao alcance do voto. A democracia não tem culpa de não termos partidos com as soluções de que tanto precisamos. Não basta ficarmos a saber de que lado está a maioria. Falta concretizar políticas que sejam as melhores.

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Por um mundo melhor

Apetece perguntar "quem pode dar-se ao luxo de estudar Humanidades?".
Ninguém melhor do que os estudiosos e versados em Humanidades para explicar porquê, como e quem, ao longo da história, se dedicou às Humanidades.
Mas há cientistas que, inevitavelmente, mergulham nesse imenso passado de estudo e investigação, para nos contarem histórias de escolas e de indivíduos, sábios do seu tempo, que estudavam e investigavam sem outro objectivo que não fosse o de conhecer, o de responder a perguntas, a maior parte das vezes, de meros problemas sem repercussões económicas.
O passado exerce sobre a nossa curiosidade um poder "gravitacional" tão intenso e tão forte que nem precisamos de ser convencidos da sua importância. Se o passado está prenhe de futuros que não aconteceram, também esteve prenhe de futuros que aconteceram e continua prenhe de futuros.
Vivemos uma era de inseminação artificial.
Os lunáticos que viviam obcecados com a observação e a explicação do espaço sideral não conseguiam trocar noites a fio, a localizar estrelas e constelações, por um saco de batatas. Acreditariam eles que estavam no caminho das importantes descobertas científicas que se concretizaram nos últimos séculos da nossa era?
Mas estavam a inseminar e, de algum modo, apostavam nisso, em vez de apostarem noutra coisa.
Comparativamente, os progressos do conhecimento das últimas décadas, ou séculos, foram uma explosão de "nascimentos", após uma inseminação, gestação de milénios.
Para explicar o mundo, um cientista ocupa mais de 2/3 do seu trabalho a descrever o objecto das atenções dos antigos e as dificuldades que encontraram e que não conseguiram resolver.
Não obstante, explicar o mundo, numa perspectiva da evolução da ciência, exige e impõe que se explique a parte não menos importante do mundo, que é o mundo propriamente dito, a humanidade, os fenómenos sociais, os factos sociais, a realidade social.
Em boa hora, Augusto Comte, Karl Marx, Herbert Spencer, Durkheim, Max Weber, entre outros, procuraram aplicar o método científico à investigação e exploração da realidade social.
Os governos de hoje, os parlamentos de hoje, os partidos de hoje, a visão do mundo de hoje, os programas e as agendas políticas, culturais, económicas e científicas, devem tanto ou mais aos revolucionários da análise e do pensamento sociológico dos dois últimos séculos, como a todos os seus predecessores juntos.
E estou convicto de que as Economias de hoje assentam maioritariamente na riqueza gerada pelas Humanidades, Artes, Espectáculo, Desporto, Comunicação, Entretenimento, Jogos, Lazer, Cultura, Saúde, Direito(s)...
Nenhum governo, em países democráticos, escapa ao poder e à pressão crítica de um mundo que quer moldar os governos e não aceita ser moldado.
Tudo, em princípio, está na disponibilidade do homem, excepto o próprio homem, que não é disponível por nada, nem por ninguém.
Esta condição humana é a fonte, diria, de toda a conflitualidade e da esperança num mundo, não apenas mais conhecido, mas melhor.

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Ficar no poema

Dói não poder
ficar no poema
como se fica num tempo
inexplicável
como uma paisagem
com que se depara
nos prende
como numa viagem
que ainda não é de regresso
como uma janela se abre
ou como a chave
de que não vemos a porta
ou como a porta
de que não vemos a prisão.

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Livros e bibliotecas

Esta sensação de que, embora haja imensos livros e bibliotecas, o mais importante ainda está por ler ou escrever... 
Uma parte da sabedoria estará em resistir à tentação de pretender ler tudo ou escrever tudo. 
Cada vez mais me contento com ler e ouvir, em cada momento, aquilo que faz sentido, dentro do quadro de sentidos que a vida permite.
Sem dúvida, a literatura é o caminho, apesar de ser o caminho mais desamparado e mais solitário. 
Mas é o caminho por onde todos podem seguir, se quiserem, basta saber escrever, nem é preciso saber escrever de certo modo, porque a literatura é aquilo que cada um quiser escrever. 
Este direito e esta liberdade, que eu saiba, só existe na literatura. 
Até os cientistas e os filósofos e os engenheiros e os médicos, e os artistas, em geral, incluindo os políticos, deviam perceber (muitos percebem e sabem muito bem) que a literatura é o reino em que cada um pode ser rei, o paraíso em que cada um pode ser deus, o inferno em que cada um pode ser demónio, o mundo em que cada um pode ser sábio. 
É o maior desafio intelectual, e não só, porque os seus domínios não conhecem limites que não sejam os da criatividade, conhecimento, sabedoria, arte, de cada um.

Carlos Ricardo Soares

domingo, 11 de agosto de 2019

A poesia está para além das estrelas e leva-as

A poesia está para além das estrelas e leva-as para lugares onde elas não podem estar, mas fazem falta. 
A poesia está para aquém das estrelas e trá-las para lugares e momentos em que não seriam poéticas, se não fosse a distância. 
A poesia das estrelas e a ciência das estrelas não se prejudicam, mas se quiseres fazer um poema sobre o sol é inútil reproduzir o que a ciência diz no respectivo manual. 
E, se quiseres explicar o que é o sol, podes precisar de citar/escrever apenas um poema... 
As estrelas e o astro... sol... não são poemas, nem são ciência, mas as estrelas da minha noite e o sol do meu paraíso, ou inferno, podem ser mil poemas...

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Ler e Escrever

Ler, quando não é obrigatório, é uma actividade cheia de implicações e de significados. O que me leva a ler, não qualquer coisa, mas o que leio, pode ter as respostas mais surpreendentes sobre quem eu sou através do que sei, penso, desejo, quero.
Este conhecimento pode (ou não) interessar a mais ninguém, nem à polícia, nem aos vendilhões, nem aos crocodilos, mas pode ser de suma importância para mim. Se eu reflectir sobre isto, só tenho a ganhar (dinheiro não é tudo).

Escrever...Ah, escrever, "falar sem ser interrompido". 
Explorar, sem limites senão os próprios, tudo e mais alguma coisa, ser deus...
O maior desafio intelectual, político, ético, social...
Sentir-se desafiado, mas não como o touro, que "estupidamente" se deixa cegar pela cor, sendo toureado e farpado até à exaustão, para depois ser assassinado na arena com um gesto de desprezo do matador, cobarde, mas que simboliza o gozo humano em sacrificar...
A vida é feita de sacrifícios (ao sagrado). Não há outra possibilidade. Escolher, a todo o momento, é sacrificar. Não se pode ter tudo...
Escrever é sacrificar imensas coisas, imenso tempo, imenso...Escrever é sacrificar para não ser sacrificado e, só por isso, vale todo o sacrifício.

Não no sentido de "sacrifica-te e ficas desonerado", como quando vais ao psiquiatra, ou à farmácia, ou à igreja, ou à caixa das esmolas... e largas o dinheiro ao santo em que acreditas...Ou fazes aquela viagem obrigatória... ao santuário...Como se o preço te desonerasse de tudo o mais, como se tudo fosse uma questão de preço (sacrifício) a pagar...

Mas no sentido de teres de escolher (gastar o dinheiro/tempo que tens) entre uma coisa e outra, quando ambas são importantes para ti, mas só podes comprar/ter uma delas. E teres de escolher sem teres qualquer certeza ou garantia de essa ser a melhor.

domingo, 21 de julho de 2019

Artes e Ciências


As diversas disciplinas têm uma linguagem que pode distingui-las, até certo ponto, mas todas têm em comum o serem sistemas de observação, análise, investigação, estudo e reflexão sobre determinados "objectos de estudo", com objetivos de "conhecimento".
A linguagem de cada uma delas, normalmente, já constitui um repositório decantado de conceitos e de noções que corporizam alguma forma de conhecimento. 
Assim, por exemplo, quando estudamos literatura, ou teoria da literatura, ou história da literatura, filosofia ou história da filosofia, estudamos conhecimentos corporizados em torno de obras literárias, de obras filosóficas, ou de problemas filosóficos, mas grande parte desses conhecimentos são teóricos, são teorias sobre...as obras, as ideias, os processos, os conteúdos e a forma, a contextualização, os significados, os impactos.
Outra coisa são as obras objeto de estudo. 
Ao falar da literatura, da filosofia, da história, das artes, posso fazê-lo com o mesmo rigor e exatidão com que falo do peso da lua, do volume da água do mar, da velocidade da luz, etc..
Embora este tipo de conhecimento não nos ensine a pesar a lua, nem quanta água há no mar, nem nos prepare para usar a eletricidade como força motriz, ou a perceber a velocidade da luz, ou por que razão a velocidade de um corpo não pode ultrapassar a velocidade da luz...não deixa de ser a linguagem da(s) ciência(s).
O cientista, supondo que mantém sempre a mesma preocupação e responsabilidade científica, não fala com mais rigor científico, quando fala sobre a teoria da relatividade geral de Einstein, do que quando fala sobre a autoria e o conteúdo dos Lusíadas, ou sobre a Lógica de Aristóteles, ou sobre a batalha de S. Mamede.
O rigor ou a falta de rigor não tem a ver com o rigor e o mérito científico das disciplinas propriamente ditas, mas com o rigor e o mérito científico de quem fala delas.
Neste plano, poder-se-ia dizer que todas as ciências são exactas, senão não seriam ciências, embora possamos talvez distinguir entre juízos científicos, sobre realidades (as realidades não são exactas) e "juízos" conclusões de lógica pura e abstracta, cuja referência à realidade é de ordem matemática.
A divisão entre ciências não pode ter o significado de umas serem mais ciências do que outras.
Se um cientista da área da Física acha que não deve ouvir um cientista da área da botânica, porque este não lhe merece respeito científico ou um cientista da área da história despreza um especialista de Direito Fiscal, por este não ser das ciências exactas, aí já estamos a falar de uma divisão de ordem diferente, que tem a ver com estatutos sócio-económicos-académicos das várias ciências.
De qualquer modo, as diferenças entre um cientista e um matemático e um artista, um romancista, um pintor, um poeta, no que respeita aos respetivos objectos, problemas, de trabalho, ou "estudo", elaboração, incluindo as respectivas linguagens, objectivos(resultados) e finalidades, são muitas e são notáveis.
Aqui, talvez seja comum encontrar pessoas que se ignoram umas às outras, simplesmente, porque não estão interessadas no que os outros fazem, ou porque não conseguem dedicar-se a muitas coisas ao mesmo tempo, ou porque não sabem, etc..

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Macacadas

Olhando sem deslumbramento, nem comodismo, nem paixão, para o mundo que nos rodeia e invade, sem dar tréguas, vejo macacos a fazerem macacadas, com o ar mais sério deste mundo, de colares no pescoço e penteados fabulosos emoldurando um rosto, tantas vezes velho e sisudo, para não dizer carrancudo, que não abdica da sua proeminência sobre os outros macacos, ainda que se queixem de tudo.
Não tratemos dos humanos como se fossem macacos e nós não.

Carlos Ricardo Soares

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Surtos migratórios e dever de solidariedade


É incrível o modo como tem sido tratado, resolvido, o problema dos migrantes, mormente, dos refugiados, pelas mais diversas e dramáticas razões.
Nem quero imaginar o que aconteceria se os europeus, ou os americanos...se vissem forçados a um êxodo em massa, por causas climáticas, guerras, catástrofes naturais.
O que fariam se tivessem que evacuar uma cidade de 12 milhões de pessoas para outro território?
Se uma cidade como Paris, ou Londres, ou Nova Iorque, se tornassem inabitáveis por causa do calor, ou de um bombardeamento, ou de uma epidemia...
A crise dos migrantes veio colocar um problema dos mais difíceis, porque era suposto que, neste ponto da história, os governos dos diversos países, ufanos de inteligência, poder e invencibilidade, guardiões da experiência milenar dos surtos migratórios pelas piores razões, peritos no pronto-socorro e manobras de salvamento, com forças militares e para-militares em permanente alerta, capazes de neutralizar qualquer ameaça nuclear, fossem capazes de equacionar e de resolver uma "simples" questão de emergência humana.
Por não terem sido capazes, sequer, de a considerarem como questão sua, ou problema seu, deram o sinal, que ninguém esperava e todos receavam, de que o planeta não é de todos ou, de que, uns têm mais direitos sobre o planeta do que os outros.
Os países, ou as pessoas que agora se recusam a ajudar refugiados, se um dia precisarem de refúgio, merecerão o quê? Suspeitamos de que, se tiverem poder para isso, não pedirão acolhimento, nem asilo, nem exílio. Invadirão.
Por outro lado, não deixa de ser uma triste ironia que, há quatrocentos anos, forçassem as pessoas a "migrar", raptando-as das suas terras e levando-as para trabalhar nesses lugares que, hoje, elas buscam para se salvarem e lhes recusem o salvamento.
Dificilmente qualquer um de nós pensará nos migrantes desesperados sem, por algum momento ou razão, admitir que, amanhã poderá ser um deles e que eles possam ser como nós.

sexta-feira, 5 de julho de 2019

A educação e o ensino, antes de o serem, já o eram.


Penso que muitas confusões são disseminadas (intencionalmente) ao sabor dos ventos políticos, não políticos, ou ideológicos propriamente ditos, mas políticos de partidos (não necessariamente organizações político-partidárias) avassalados. 
Parece fácil ser contra uma coisa e a favor de outra, mais ou menos contrária. 
Parece fácil ser, ao mesmo tempo, a favor de uma coisa e da sua contrária. 
Mas há uma dificuldade que é o vazio, a náusea, a imunidade. 
Os anticorpos são o que nos salva, professores e alunos, do caldo sulfuroso e demoníaco do palavreado. 
Se a educação sofre e corre perigo, é por causa do palavreado que se reproduz à velocidade da luz. 
Os educandos desenvolvem anticorpos, estão a salvo, mas a educação tem que se cuidar. 
E não tem outro remédio.
Falar em educação moderna, ou nova educação e em educação tradicional é falar de um problema que nem é novo, nem é tradicional.
O problema da educação não se reduz a opções de pedagogias, nem de didácticas, nem de métodos de ensino, nem de métodos de aprendizagens.
Diria que estes aspectos são a realidade da escola enquanto lugar/espaço/tempo de transmissão/aquisição/avaliação de competências/conhecimentos/valores.
Ou seja, não existe escola sem isso. A escola é isso. 

É muito? Depende. É pouco? Depende.
Depende do que ensinar e do que aprenderem e de muitas coisas mais. 

Mas o ensinar e o aprender dependem de inúmeros factores, uns controláveis, outros não e outros mais ou menos controláveis.
Das inúmeras falsas questões, ou pelo menos irrelevantes, meramente redundantes ou ruidosas, em torno da escola, destaco a recorrência ao qualificativo "tradicional", como se fosse a panaceia e a resposta para todos os problemas. 

O ensino é tradicional, a educação é tradicional. 
Isso é bom? Mas se até os defensores do tradicional/panaceia/resposta estão na primeira linha da sua crítica?!
Se os testemunhos pessoais valessem como argumento para alguma conclusão, eu, que fui educado e ensinado no século anterior, na escola do Salazar e do Caetano e, depois, do 25 de abril, não lhe encontrei nenhuma qualidade ou virtude. 

A escola não deve ser apenas uma instituição de certificação de competências. Isto é o caminho mais fácil para a escola e para muitos alunos, mas não é para todos. 
A escola de hoje é incomensuravelmente melhor, nem tem comparação, com a escola (era escola?) dos meus tempos de estudante. Aprendia-se mais? Ensinava-se mais? Avaliava-se melhor? Não. 
Experimente-se um quadro comparativo, em duas colunas, entre a escola de há 40/50 anos atrás e a escola de hoje.
Quanto às teorias, do ensino centrado no aluno ou expositivo, não são mais do que isso, teorias. 

O construtivismo? Não foi a geologia que produziu as pedras. 
A educação e o ensino antes de o serem já o eram.

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Os constructos sociais são o diabo


Os constructos sociais são o diabo. Até temos de "desconstruir" a ideia de cientista, por oposição/contraposição a ciência.
E se, por acaso, a ciência confirmasse a existência de raças humanas? Qual o problema? E se confirmasse que os brancos eram inferiores? O que é que isso (inferior) significaria?
E se se confirmasse que uma mosca é uma espécie muito superior (pelos critérios racistas-quais?) à humana?
Nas ciências sociais e humanas surpreende-se uma subtileza interessante, no que respeita ao método científico: as explicações naturais, que são a regra para a explicação dos fenómenos, pelas leis da natureza, geralmente são falaciosas para os fenómenos sociológicos, ou, por outra, é incorrecto procurar explicar "naturalisticamente" fenómenos sociológicos, como por exemplo, procurar explicar o analfabetismo de quem não foi à escola com a natureza estúpida dessas pessoas.
A ciência é e será utilizada pelas pessoas para atingirem os seus interesses. Tal como a pseudociência e a numismática ou a homeopatia, ou a religião, ou as ideologias.
Neste momento, a ciência já está sitiada pelos poderes e não tem poder para se livrar deles. Assim vai o mundo!

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Escola imensa escola


Tudo o que se possa dizer sobre a Escola, e é imenso, não pode deixar de ter em atenção um princípio, que deverá nortear tudo o resto, o princípio da humanização da Escola e a sua função civilizacional.
Se a Escola e os professores e os currículos e os programas e os projetos e os espaços e os tempos e os princípios pedagógicos e as políticas educativas e as filosofias e os valores...não respeitarem e não se subordinarem àquele princípio de humanização da Escola, de que Escola estaremos a falar?
Não é sequer a questão do estudo das humanidades. É a questão do respeito e da cultura de humanização, civilização, cidadania, paz e desenvolvimento, cada vez mais prementes.
Nada, nem ninguém, substitui a vocação humanizadora e civilizacional da Escola e tudo lhe deve ser vinculado, sob pena de os problemas maiores a temer serem as pessoas.
As realidades humanas e sociais, os problemas humanos e sociais, os problemas sociológicos, sobrelevam cada vez mais em acuidade, relativamente a tantos problemas técnicos e tecnológicos.
Não faz sentido centrarmos mais a nossa preocupação no perigo dos robots e da inteligência artificial do que no perigo que as pessoas podem representar, sobretudo as que controlam os poderes da ciência e da tecnologia.
O mais difícil, que nenhuma ciência por si só resolve, é assegurar que a Escola tenha um rosto humano, seja humana, amigável em vez de hostil, integradora e incentivadora de bons comportamentos e atitudes, com as condições físicas e ergonómicas básicas.
Nem as sociedades mais evoluídas e mais ricas o têm conseguido. Conseguem mais facilmente produzir bombas atómicas e venenos e demónios invisíveis.
E depois, mas isso são outros problemas graves, há o papel avaliador e classificador da Escola.
A Escola não pode ser reduzida a esta função mobilizadora das aprendizagens e dos alunos.
As aprendizagens, a motivação para aprender, para questionar, para explorar e descobrir, muitas vezes abortam em ambiente de avaliação, classificação. E, independentemente disso, muitas vezes não se coadunam, nem convivem saudavelmente, com a pressão de competições viciadas, utilitaristas, mercantilistas, dos saberes que “contam”.
Muita curiosidade se dá bem com as contas a receber, mas nenhuma curiosidade resiste à pressão das contas...a pagar. 

domingo, 9 de junho de 2019

Educai-vos uns aos outros

A educação e o ensino e a aprendizagem são demasiado importantes.
Se houvesse um mínimo de racionalidade científica sempre que se opina sobre esta temática, os progressos impor-se-iam, quase involuntariamente.
Os templos da educação e do ensino não passam de mistificações seculares, redundantes e falaciosas como uma religião qualquer.
Pode parecer provocatório ou irónico, mas ainda não foi dada a necessária atenção crítica ao problema. O sistema de ensino está condenado porque não permite que os professores sejam professores, que os alunos sejam alunos, nem que a aprendizagem seja aprendizagem no bom sentido da palavra. Aprender, aprende-se sempre. Ensinar, não. Mas há a boa e a má aprendizagem.
E não vou dizer mais porque estou cansado, já tive o meu dia de trabalho assalariado (sal) e não sou ministro da educação, nem das finanças, nem comentador de televisão (banqueiro, que vive do dinheiro dos outros e se queixa do pib como se fosse o rei a queixar-se da pila, dirigente político à espera que o voto resolva os problemas, presidente de associação de empregadores a queixar-se da falta de ambição dos trabalhadores, sindicalista a fingir que reivindica, piscando o olho ao seu partido no governo...)


domingo, 26 de maio de 2019

O maior desafio intelectual

O acesso à literatura sempre foi dificultado e, atualmente, muito mais. Não é que alguém tenha dificuldade em aceder a um livro. É muito mais do que isso. Só tem acesso à literatura quem tiver tempo e condições de leitura, pensamento, reflexão, escrita, partilha, crítica. 
Na realidade, é preciso ser uma espécie de herói ou de privilegiado para aceder, usufruir e escolher um modo literário de estar e de manifestar.
Mas é o modo de estar e de se manifestar mais promissor e mais poderoso que se possa imaginar, mais aberto e livre e libertário, sem condicionantes metodológicas ou de processos, nem morais, nem éticos, nem científicos, nem pessoais...
Nada pode ser tão apetecível para um humano que quer expressar, comunicar, divulgar, registar...como a literatura.
Não conheci ninguém que lhe encontrasse limites, a não ser, claro está, os que apontei inicialmente e que se vêm agravando com a despromoção e eliminação de espaço e tempo "concedido", no ensino e na vida, à literatura.
Infelizmente, uma das razões para não escrever ou ler, é estarmos mobilizados para uma guerra prioritária dos outros, que não se compadece com aquilo que tu sentes, ou queres, ou pensas, ou gostas, ou imaginas e que é insensível e surda à tua guerra e à tua paz... e à tua vida. 
Mas há quem, no meio dos bambardeamentos, ainda encontre força e discernimento para olhar, pensar, sentir, escrever, nem que seja com sangue, nas paredes, no chão...
A literatura é o maior desafio intelectual que um homem pode aceitar.
Haja inteligência e imaginação para criar personagens que sabem muito mais do que o autor. 

quinta-feira, 23 de maio de 2019

Direito de voto

Se vota, a culpa é sua, porque os elegeu? Não tem de que se queixar? Tem.
Votar não significa que vai aceitar o que quer que seja para além de um determinado programa que deve ser do conhecimento dos eleitores e, mesmo esse, com as limitações e condições da ordem constitucional do Estado.
É com equívocos que as pessoas são enganadas, sem quererem. 
O direito de voto não é uma obrigação de voto. 
Não há obrigação de voto. Isto seria uma forma de ditadura. 
O direito de voto deve ser entendido como um direito de votar ou de não votar, consoante as propostas elegíveis. 
Faz mais sentido culpar os votantes da má governação do que culpar os não votantes. 
Mas, ainda assim, os votantes têm todo o direito de se queixarem dos governantes que elegeram. 
Parece-me de má fé ou grosseira ignorância, ou mesmo dolo, esse anátema que se vai repetindo um pouco pelas redes sociais contra quem não votar.

terça-feira, 21 de maio de 2019

Nenhum político é portador de esperança se não...

 Nada pode ser construído contra o ambiente, com a exploração de recursos para além do que é sustentável, nada pode ser edificado contra a biodiversidade e contra o homem.
O paradigma da exploração industrial desenfreada já fez tantos estragos que vai ter mesmo que mudar. O que tem de ser tem muita força. E nem vai depender de votação.
Nenhum político, nenhuma política é portadora de esperança se não apontar para a preservação de um planeta saudável e sustentável e para uma organização política e económica e social equilibrada e justa.