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sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Esta noite não dormi

Esta noite não dormi
Bateste à porta
E o sono fugiu

Abri a fechadura dourada
Sem espreitar pelo monóculo
E os teus olhos originais
Como sempre
Foram
Lanternas na minha escuridão

Abri os braços antes de qualquer palavra
E contra o peito
Apertei uma mulher
Que largou tudo
Para me oferecer um sonho
Ainda virgem

Deixei de ter os pés na terra
Vénus estava na sala
E eu olhava-a
Das minhas vidas passadas

Esta noite não dormi a beijar-te
E a lançar a tua roupa
Para a via láctea
Como se soltasse raízes
Na cama.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

TU

Vais ao rio por onde escoam
Inexoráveis erosões do olhar
As melancolias que têm beleza
Para nos fazerem felizes
Sobem ao céu
E delas nos lembramos sob as estrelas
Enquanto tecemos redes
De luar de caminhos
De saudade
Às horas fugitivas
Alcançamos a verdade
Que era do mar
Em ventos transformados
Desejos e pensamentos
Libertos no meu coração
Ciladas
De tantos hinos impossíveis
Dos milagres em mim
Como o tempo das flores
Que nos colhem
Nos ilumina.

sábado, 5 de setembro de 2009

O Poeta do Calvário

Há imensas expressões e palavras que cairam tão depressa em desuso que, hoje, só alguém com mais de cinquenta anos que tenha nascido e crescido num meio popular (analfabeto) será capaz de lembrar algumas delas. Lamento muito o facto de se ter substituído em poucas décadas registos linguísticos populares com centenas de anos. Nesse aspecto a escolarização varreu (e para muita gente não suficientemente depressa) toda uma "bio"diversidade que os escritores não tiveram tempo de perceber que era preciso preservar, pelo menos através da escrita. E não estou a pensar apenas em "botar as barbas de molho".
Na minha primeira infância havia personagens que eram estranhamente respeitadas na sua "loucura". Uma delas transfigurava-se no momento em que se punha a dizer versos à porta da taberna. Era um poeta. Dizia que não sabia donde lhe vinham aqueles versos. Falava à maneira de um ignorante para ignorantes. Muitas coisas que ele dizia e fazia "não eram dele" e, de facto, ele nunca tinha estudado e não sabia ler nem escrever. Não conhecia confortos e andava sempre sozinho. Nada tinha e nada ambicionava e com ninguém falava. Quando falava era para um público, fora disso era capaz de passar horas sentado nos degraus da igreja do Calvário, ao sol se fosse inverno e à sombra se fosse verão.
Esse singular e misterioso ancião que nunca perguntava nada, nem respondia a ninguém faz-me pensar que talvez ele fosse um génio que era poeta sem ser "à maneira de" erudito.
Ou sou eu, agora, que estou a ser louco...