Blogs Portugal

quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

Encruzilhada e transições


Quando estar na encruzilhada, ou na transição (digital, climática, energética, demográfica, social, política…) é estar consciente dos processos de mudança em curso que dificultam e complicam a necessidade de manter e de reproduzir uma ordem social, económica, política, jurídica, nacional e internacional, pelo menos ajuda a compreender porque é que as instituições deixam de ter a capacidade e a agilidade necessárias para amortecerem e se adaptarem aos choques em cadeia dessas transições, por mais expectáveis e previsíveis que sejam.

De qualquer modo, será através das instituições, atualizadas, renovadas, reapetrechadas, que as transições ocorrerão, num processo dinâmico e dialético de várias vertentes, sendo uma delas por inerência das instituições, porque, pela própria razão de ser, devem assegurar e reproduzir as condições para a realização de objetivos programados, e outra por iniciativa própria, antecipando e promovendo processos de mudança.

O tema abre perspetivas de análise e de compreensão dos fenómenos sócio-culturais, mormente políticos, carregados de interesse.

Os Estados, através das suas instituições, mais nos últimos séculos, têm vindo a assumir um protagonismo e uma iniciativa crescentes nos processos de mudança, todavia fazem-no, não apenas pelas vantagens que essa mudança pode trazer por si mesma, mas também e sobretudo porque os processos de mudanças se representam como necessários, ou como a melhor forma de manter e reproduzir uma certa ordem das coisas.

Isto parece paradoxal, mas está na linha daquele pensamento anedótico segundo o qual é preciso trabalhar muito para que tudo continue na mesma e não se consegue.

Ainda nesta ordem de ideias, e para abreviar, se quisermos pensar, por exemplo, no modelo do Estado liberal, veremos que este, para o ser, mesmo que se limitasse a manter e a reproduzir o modelo, só para conseguir isso já teria de fazer muito mais do que isso, tomando e assumindo prerrogativas e iniciativas de toda a ordem que, em última análise, não são próprias de um Estado liberal.

Carlos Ricardo Soares 


domingo, 1 de dezembro de 2024

Aproximações à verdade XXXIV - Luís Vaz de Camões


Hilário: já acabaste de ler a biografia de Camões?

Amiga: esta sim, mas ainda não li a que ainda não acabei de escrever

Hilário: também estás a escrever uma biografia de Camões?

Amiga: não é bem escrever, é mais imaginar do que construir, construir dá ideia de um puzzle, de andar a juntar peças

Hilário: sou leitor entusiasta de biografias, mas quando tento falar delas sinto que há uma distância intransponível entre a minha imaginação e aquilo que é comunicável

Amiga: Camões é um dos Lusíadas mais notáveis e fascinantes, mas não consigo dizer o que sinto e o que penso que me leva a afirmá-lo

Hilário: não se fala de Camões e, sobretudo, não se pensa em Camões como num indivíduo, acerca do qual pouco se sabe, apenas que escreveu poemas e um livro

Amiga: não se fala em Camões como se fala em Camilo Pessanha, ou em Fernão Mendes Pinto, por exemplo

Hilário: quanto mais tentamos imaginar e colocarmo-nos na pele da sua humanidade, da sua humana experiência, vida, conhecimento, arte e obra, mais nos deparamos com um protagonista que, surpreendentemente e por razões de sobejo, podia ser a principal figura dos Lusíadas

Amiga: se estás a pensar o mesmo que eu, paradoxalmente, Camões não teve quem o escrevesse, quem o inscrevesse nos Lusíadas, como ele inscreveu Vasco da Gama e tantos outros

Hilário: mas a voz dele está lá, e o nome, e muitas ressonâncias que nos fazem desejar entender o verdadeiro significado das palavras e dos simbolismos que seduzem e ocupam tantos de nós

Amiga: Camões é um personagem que cada leitor tem de criar nos termos do próprio Camões, da sua experiência, da sua arte e elevação discursiva, segundo as condições e acontecimentos do seu tempo

Hilário: poeta que escreve para o mundo do seu tempo, que o hostilizou e ele conheceu com uma acuidade e envolvência singulares, numa ambivalência de amor e ódio, donde partiu amargurado e ao qual voltou, não menos dificilmente do que tinha partido dezassete anos antes, ainda para realizar os seus objetivos, que estavam por realizar, que a vida dá muitas voltas, que eram fazer-nos ouvir a sua voz, uma voz de outros mundos

Amiga: para mim, que sou uma estudiosa de Camões e do seu tempo, há um Portugal antes de Camões e um Portugal após Camões e ele tinha a percepção dessa realidade

Hilário: achas que ele sentiu um choque quando comparou os Lusíadas do poema com os lusíadas com quem passou os últimos dez anos de vida?

Amiga: acho que ele sentiu a confirmação da grandeza do seu poema épico

Hilário: mas Portugal estava numa rota de crescentes dificuldades e decadência

Amiga: a grandeza de Portugal sempre se manifestou nas dificuldades e na decadência, assim como a grandeza de Camões se manifestou na forma como viveu, sublimando os obstáculos e os desaires em etapas de um percurso e obra cujo significado não se obtém senão pela perspetiva histórica

Hilário: Camões e os navegadores portugueses dessa época comungavam de um sentido de abnegação muito grande como se tivessem a noção de que eram personagens de uma narrativa maior que eles, pela qual estavam dispostos a sacrificar tudo

Amiga: eles tinham a noção de que estavam a fazer grandes descobrimentos e grandes obras originais, em que se tornariam, indissociavelmente, as suas vidas.

                      Carlos Ricardo Soares

sexta-feira, 29 de novembro de 2024

Lei das escolhas


Deixo aqui a reprodução das minhas considerações acerca dos pontos que estruturam a minha teoria segundo a qual a cultura, sob qualquer das suas formas, é um resultado, efeito, consequência, produto, enfim, escolha de indivíduos conscientes, racionais. Neste aspeto é um facto, mas todo o processo ou génese é acto, individual, consciente, racional. Os artefactos, resultados, etc, podem ser todos diferentes, no tempo, no espaço e na autoria, ou agente.

As ideias de um indivíduo sobre a filosofia e a ciência e a ética podem ser e são diferentes das outras, se não em todos, em alguns aspetos. Mas são produtos, na acepção referida. O acto, ou actos, que se concretiza, ou manifesta, ou objetiva, ou objetifica em facto cultural é um processo mental, individual, mais ou menos complexo, de escolhas, ainda que apenas pensadas antes de serem manifestadas ou objetivadas. E, em meu entender, a cultura, em qualquer das suas formas, corporiza esta realidade de ser produzida por indivíduos com uma estrutura mental e neurológica que é a forma de que dispõem para isso.

As diferentes ideias, as diferentes culturas, enfim, as tuas, as minhas, as dos antigos, as dos cientistas, dos religiosos, dos crentes, dos ateus, dos artistas, do legislador e do polícia, têm em comum o serem produzidas segundo um processo mental de pensamento, consciente e racional, conducente a uma escolha. Daí que seja indiferente dizer que devemos ser racionais, na medida em que, se estivermos conscientes, em algum grau estaremos capazes de distinguir aquilo que se nos representa mentalmente.

Os apelos à racionalidade e à consciência pretendem significar que o processo das escolhas, do ponto de vista da estrutura neurológica e psicológica, em suma, biológica, embora seja uma “constante”, ao longo dos tempos e dos espaços, no processo de produção de cultura, esta, por sua vez, depende e varia incomensuravelmente da dimensão, intensidade e extensão da consciência de cada indivíduo sobre as possibilidades, subjetivas e objetivas, de escolha.

Escolha que incide sobre “aquilo” que o indivíduo mentalmente representa como efeito da escolha, ou seja, de um processo racional.

Perante o quadro, ou panóplia de possibilidades, o indivíduo escolherá a melhor. Esta é uma “lei” a que poderei chamar lei da melhor escolha, ou, lei das escolhas, para evitar a redundância, uma vez que a escolha é, e não pode deixar de ser, a melhor.

                        Carlos Ricardo Soares


domingo, 24 de novembro de 2024

Vivíamos


Não íamos à procura de nada

Simplesmente descobríamos

E vivíamos

Se nos perguntassem

Mais tarde

Nem nomear sabíamos

E se nomeássemos

Não responderíamos

Ainda que nos olhassem

Compreensivamente

Não podíamos

Nem dizer a nós próprios

Ao que íamos

E se o que víamos era

O que descobríamos.

                           Carlos Ricardo Soares 

segunda-feira, 18 de novembro de 2024

Aproximações à verdade XXXIII


Amiga: se fosse possível, gostava de captar este belo momento numa imagem que aparecesse com uma legenda que contivesse todo o significado que eu gostaria de ver também em palavras
Hilário: podes tirar uma foto, ou fazer um filme e falar ou escrever as palavras que gostarias
Amiga: para mim, até podia ser suficiente, enquanto me lembrasse, ou perdurassem os efeitos desta vivência, mas se quisesse comunicá-los com alguém provavelmente não teria sucesso
Hilário: podes tentar, estou aqui, experimenta
Amiga: sempre admirei em ti essa atitude resoluta de procurar sempre, não apenas a melhor perspetiva de tudo, mas também um bom enquadramento, sem prescindires de que não há nada que não possa ser visto de um ângulo positivo, ou menos negativo
Hilário: deve ter a ver com uma disciplina que desenvolvi ao longo da minha formação e atividade de fotógrafo, a arte de fotografar transforma a pessoa do fotógrafo, quando dei conta percebi que é como se os objetos me fotografassem a mim
Amiga: mas isso é porque, para ti, fotografar é uma arte, tens a arte de ver e sobretudo de olhar para as coisas à procura de uma singular beleza que tudo tem mas que, muitas vezes, é preciso ser capaz de descobrir para se obter a satisfação de uma foto e tanto
Hilário: nunca tinha visto as coisas dessa maneira, mas é muito interessante o que dizes, realmente, funciono como um prospector de ouro ou pedras preciosas mas, ao contrário deles, o valor daquilo que obtenho é como se dependesse apenas de mim e não dos objetos
Amiga: é como se o teu olhar definisse uma perspetiva e um enquadramento que transforma, por exemplo, um anónimo numa estrela ou numa referência histórica
Hilário: a minha vida tem sido uma busca contínua e infatigável pelo lado bom das coisas
Amiga: mas quando o lado bom das coisas é para os outros e o mau é para ti, como é que é?
Hilário: muitas vezes isso acontece mas, se bem pensarmos, o lado bom das coisas para ti pode não ser assim tão bom para mim e vice-versa
Amiga: estou a pensar no mal irremediável da guerra, na destruição, sofrimento e mortes de inocentes, que nada, nem ninguém, poderá reverter
Hilário: até nesse caso, será bom que se levem a julgamento os responsáveis, mesmo que essa seja a única vantagem da guerra.

Carlos Ricardo Soares

quinta-feira, 14 de novembro de 2024

Direitos e Deveres/Bem e Mal


É o menor dos teus deveres

Que não faças mal

Não causes dano

Não prejudiques

Nem estorves ninguém

E

Se não fizeres bem

Se não ajudares

Fazes mal

Mas se fizeres mal

Porque queres

É o maior dos teus deveres

Que não fujas de responderes.

                      Carlos Ricardo Soares


domingo, 10 de novembro de 2024

Eu canto para ti - 6


Como uma multidão de vozes

Põe o tempo à espera

Eu canto para ti

Porque me encontraste

E eu pude descobrir

Quem era.

                  


sábado, 9 de novembro de 2024

O Homem vive sob a égide do dever-ser (a escolha certa e a melhor escolha)


No intuito de elucidar alguns conceitos que usei no anterior artigo intitulado "O Homem é um animal que censura", chamo a atenção para este ponto: o dever-ser, sob cuja égide um ato se processa, não é apenas, nem se reduz, ao dever ético, ou moral. 

Tenho constatado que alguns leitores entendem o meu conceito de dever-ser na acepção de dever ético e que, nesse sentido, quando uso a expressão "dever-ser" estou a falar de questões de ética. Mas é preciso destrinçar o que quero significar com "dever-ser" do que quero significar com dever ético, ou dever estético, ou dever moral, ou dever científico. Sem esta destrinça, toda a riqueza e alcance inovador do conceito de "dever-ser", como o formulo, ficam desaproveitados.

A ética é um dos modos de manifestação do dever-ser, como condição que rege o ato, que emana da consciência/racionalidade e dita a escolha.

Assim, quando refiro, por exemplo, o dever-ser da ciência como dever de verdade, isto não significa que o dever de verdade da ciência é um dever ético.

Os deveres éticos são especificamente éticos, assim como o dever-ser estético não é ético, nem científico.

Então, é importante considerar, por exemplo, que a ciência e a estética são eticamente neutras. Não é da sua essência serem éticas, e também podemos afirmar, do mesmo modo, que não é da essência da ética, ou da estética, serem científicas.

Em qualquer situação humana de escolha, seja científica, ética, estética, económica, moral, etc, a escolha obedece a representações do que serão os efeitos dessa escolha, num processo de racionalidade em que, perante as possibilidades, a escolha incide sobre a melhor das alternativas, ou a melhor das possibilidades.

No caso da escolha de verdadeiro/falso não há considerações de requisitos estéticos, nem éticos. Nos casos de escolhas éticas, ou estéticas, por sua vez, também não há considerações de requisitos científicos.

Em qualquer caso, não obstante, tanto a escolha de (1)verdadeiro/falso como a escolha (2) ética, ou (3)estética, resultam da consideração/avaliação e representação que o indivíduo faz da escolha certa (1), ou da melhor escolha (2) e (3), melhor em sentido estrito porque, efetivamente, a escolha certa, como vimos, também é a melhor.

Carlos Ricardo Soares


sexta-feira, 8 de novembro de 2024

Eu canto para ti - 5


Canto o delírio

De crer que a eternidade

É como um cofre forte

Que guarda os tesouros

Depois da morte

                    (continua)


quinta-feira, 7 de novembro de 2024

Eu canto para ti - 4


Quem dera que o meu canto

Te dissesse quanto

Gostaria

Que fosse sempre

Tarde de mais

Para partir

Como um cristal plangente

                              (continua)

terça-feira, 5 de novembro de 2024

Eu canto para ti - 3


Canto para ti

Baladas ao vento que passa

À porta da tua ausência

Por um ar da tua graça

À porta da tua ausência

                    (continua)

segunda-feira, 4 de novembro de 2024

Eu canto para ti - 2


Como se pudesse salvar a vida

De um pássaro preso

Numa tempestade de silêncio

A caminho da noite prometida

                                       (continua)

domingo, 3 de novembro de 2024

Eu canto para ti - 1


Eu canto para ti

Como se ouvisses maio a florir

No fundo da memória esvanecida

                              (continua)

sexta-feira, 1 de novembro de 2024

O Homem é um animal que censura


Os actos e os efeitos de censura, ou de censurar, na acepção mais ampla da palavra, estão de tal modo intricados e são tão conaturais, ou intrínsecos, ao modo de ser “sapiens”, do “homo sapiens” ou, se quisermos, à cultura como produto, resultado, efeito, consequência, exteriorização, objetivação, objetificação, manifestação da racionalidade humana, que a hipótese de perspetivarmos e analisarmos o humano, em toda a sua dimensão cultural, social e pessoal, pelo prisma da censura, se apresenta espantosamente fecunda e promissora.
Diria que o Homem é um animal que censura.
O que eu afirmo é que vivemos, a humanidade vive, sob a égide do dever-ser, como já tenho repetido a propósito da minha teoria unificadora acerca da faculdade da racionalidade, neste caso, humana, como condição “sine qua non” das escolhas, que o ser humano tem de fazer em cada momento do seu estado de consciência, como se esta, realmente, seja o “modus operandi” do acto de escolher, que o é, mesmo quando é aleatório, ou omissivo.
Em todos os casos, ainda assim, a escolha é um acto e isto significa que mesmo quando é arbitrário, o é por escolha. Esta resulta de um processo de avaliação por antecipação do efeito da escolha.
A representação antecipada daquilo que se escolhe é inerente ao processo de escolha, tanto nos casos de escolha teórica, filosófica, científica, de verdadeiro ou falso, como nos casos de escolha prática, estética, económica, ética, moral, jurídica em que, normalmente, a bondade da escolha não depende fundamentalmente de um silogismo, como nos casos do verdadeiro falso, mas de uma ponderação “a posteriori” dos custos de oportunidade, entendidos “lato sensu”.
Não vou aqui referir implicações filosóficas, científicas, sociais, políticas desta constatação, porque se trata de uma constatação, pelo menos plausível, da realidade e não de uma ideologia, política, doutrina, proclamação, acerca da realidade, nomeadamente implicações resultantes do confronto com teorias kantianas sobre a razão e sobre imperativos morais, mas quero assinalar que o imperativo para o homem, da inelutabilidade natural da escolha, o coloca, por força da racionalidade/consciência, ou consciência/racionalidade, perante todo o tipo de problemas cuja solução é a que deve-ser, não apenas segundo a ética, ou a moral, ou a estética, ou a economia, ou a ecologia, nos casos das escolhas/crenças/investimento/apostas, mas também a que deve-ser nos casos das escolhas/confirmações/provas/revisões dos enunciados de verdadeiro/falso, dos discursos filosófico-científicos. Uns e outros, como produtos culturais que são, não podem deixar de ser como devem ser.
E isto que eu afirmo com toda a simplicidade é uma pequena diferença na análise e na descrição do acto como processo de consciência (obviamente individual), que faz toda a diferença no entendimento acerca dos comportamentos humanos, nomeadamente acerca de uma evolução cultural para melhor, de tal modo que, mesmo quando se recuperam valores perdidos, isso não é um retrocesso.

Carlos Ricardo Soares

segunda-feira, 28 de outubro de 2024

A presença faz toda a diferença


É de grande relevância distinguir os problemas de linguagem e da lógica dos problemas do conhecimento e da compreensão da realidade e das relações e conexões que cada indivíduo é capaz de estabelecer, com a realidade e na comunicação acerca da realidade. 
A linguagem e a lógica encerram-nos dentro do seu próprio sistema, do sistema que elas próprias são. Isto é um problema, mas quando necessitamos de recorrer a elas para objetivarmos o nosso entendimento da realidade (com todas as conexões e relações que formos capazes de ver) constatamos que existe outro problema, que é o de não ser possível objetivar o subjetivo. 
Para mostrar o que sinto, ou penso, descrevo ou pinto, ou faço um gesto, utilizo alguma linguagem e, mesmo que a use de um modo muito eficaz de comunicação esta eficácia nunca dependeria apenas de mim e, de qualquer modo, seria uma representação, não da realidade, mas do que sinto ou penso sobre ela.
É como se o real, para mim e para ti, fosse virtual, embora a presença do objeto faça a diferença.

Carlos Ricardo Soares

domingo, 27 de outubro de 2024

O virtual e o real - a multiplicação da confusão


Lá fomos tomando juízo

E aprendendo a distinguir

No meio da confusão

Que em vez de diminuir

Se multiplica

Por alguma causa

Há sempre uma causa

Ainda que desconhecida

Mas nem sempre temos razão

E é necessário ter razão

Conhecer a razão

Qualquer que seja a causa

Lembrar esquecer

Acordar adormecer

Sofrer a sonhar

Sonhar a sofrer

A amar sempre

Como sempre

Odiar

Como nunca

Tirar lições da vida

Do que podemos ou não

Fazer

Do que é ou não permitido

Quais delas as mais difíceis

Nem tudo é para dizer

Nem tudo é para calar

Nem tudo é para ver

E muito do que se vê

Não é flor que se cheire

Ou deva tocar

E muito do que se quer

Não é para possuir

Ou dispensar

Nem tudo é para ouvir

E muito do que se ouve

É melhor ignorar

Mas sempre podemos sentir

E afinal pensar

Nas lições e nas interações

Da vida

Do ter do ser e do saber

Fazer

O bem e o mal

Além do virtual.


          Carlos Ricardo Soares

terça-feira, 22 de outubro de 2024

Conhecimento e o conhecimento de si mesmo - 3

Apostem o que puderem e creiam no que quiserem, que não temos nada com isso.
Já quanto a misturar tintas, seja pela razão que for, sinceramente, não é compatível com a necessidade de promover e de alcançar esclarecimento, antes pelo contrário.
Quando alguém não está interessado em esclarecer, ou ser esclarecido, o primeiro passo costuma ser confortar-se com a ignorância ou o mistério, em que assentam os seus pressupostos, ou crenças, assim se julgando justificado, como se esses pressupostos obrigassem à humildade de quem não se resigna à ignorância e se atreve a desvendar.
Causa mais satisfação a um crente, seja de uma religião, seja de uma teoria científica, seja de um apostador, ou mesmo de um investigador imparcial e isento, a confirmação das suas suspeitas, ou hipóteses, do que o contrário. Isto pode ser discutível, mas é muito curioso que o conhecimento obtido por confirmação possa dar mais satisfação do que o conhecimento adquirido por infirmação ou mesmo contradição.
É manifesto, notório e ostensivo, até no discurso dos cientistas mais experimentados, que, por formação e dever profissional, estariam imunes a essa espécie de fanatismo relativamente ao resultado do seu trabalho, um desejo, mais do que uma expectativa, desse resultado. É como se não fosse possível fazer um jogo, ou assistir a um jogo, sem torcer por um dos lados. Neste aspeto os cientistas não se distinguem dos não cientistas. Até eu, que não sou cientista, nem sou religioso, mas não tenho outro remédio senão viver em função da verdade dos factos, sou um fanático que, no jogo da verdade contra a mentira e as meias tintas, torço e sofro para que a verdade triunfe.
E não me atirem com autoridades aos olhos para me calarem, nem me deem chá para adormecer o tigre, como se eu não tivesse o direito de me pronunciar, porque isso é o contrário do que deve ser feito, para tentarmos sair da sombra das figuras, que devem a sua imponência à sombra que projetam e amplificam, e para percebermos e comunicarmos qualquer coisa, por mais misteriosa que possa parecer.
Aliás, em matéria de mistérios, bem podemos dizer que não há autoridades, ou que somos todos.
Daí que me aventure com confiança até onde me aprouver, em abono da verdade e contra a falsidade, a mentira e a ignorância, que são motivos mais do que suficientes para não me limitar a adormecer ou a acordar a ouvir o zumbido das palavras.
Quem começar por dizer que não sabemos o que é a consciência, ou, ainda mais enfaticamente, que não há explicação científica da consciência, estará a dar e a propor, ousada e displicentemente, que demos um passo em falso nos degraus dos problemas que envolvam a noção da consciência.
O resto já não importa, se são neurologistas, ou filósofos, ou profetas, se é vinho português, se a aldeia dos maus é daquele lado ou deste, porque isso já não tem a ver com o problema, é só para turvar o raciocínio.
E porque razão alguém haveria de crer que as máquinas nunca terão consciência?

Seria pela razão de não saber o que é a consciência?

Carlos Ricardo Soares

sábado, 19 de outubro de 2024

O tempo de cada um, o nosso tempo e o tempo de ninguém - I I I


Arriscaria afirmar que cada um de nós também é fruto dos tempos que privilegia, ou pratica mais frequentemente, sem querer significar com isto que uns são melhores do que outros, mas não é indiferente que alguém viva predominantemente o tempo da oralidade, ou o tempo da leitura, ou o tempo da escrita, ou o tempo do jogo, ou do fazer, não fazer comportamental. São atividades muito diferenciadas, nos objetivos e nos meios envolvidos, nomeadamente nas funções cerebrais e neurológicas.
Por outro lado, em muitas situações, os indivíduos têm de planificar e tentar prever o tempo de que dispõem para os seus tempos, por forma que, por exemplo, o tempo de ouvir e de falar, ou de observar, não impeça outros tempos, de refletir, de escrever, de ler, de fantasiar, de dormir...
Deixar às preferências e aos caprichos de cada momento o exercício dos nossos tempos, pode ter muitas desvantagens, inquietação e mal-estar, mesmo que seja por uma boa causa que sacrificamos os nossos outros tempos possíveis aos tempos da nossa predileção, ou mesmo paixão.
É muito interessante observar este fenómeno em nosso redor e sobre nós próprios, até porque nos ajuda e permite entender e compreender melhor as assimetrias comportamentais e de atitude entre as pessoas, mas sobretudo porque nos permite interrogar e compreender a relação causal entre as práticas desses tempos e as manifestações culturais dos indivíduos e dos grupos, desde preferências e valores até desenvolvimento de objetivos e respetivas técnicas de fomento desses tempos, passando por reconhecimento e análise de vantagens e desvantagens associadas ou, simplesmente, como instrumento de acuidade na descrição e caracterização do meio sócio-cultural.
Outro aspeto tem a ver com a oportunidade de estudos comparativos entre os tempos que atualmente predominam na vida das pessoas e os que predominavam no passado, mais ou menos remoto, porque nos ajudaria a entender de que novos modos temos vindo a ser condicionados na nossa vida pessoal e social e a avaliar se isso é bom, ou não, e a ensaiar formas de evitar o indesejável e o nocivo, promovendo, por sua vez, o desejável e o vantajoso.

                             Carlos Ricardo Soares

O tempo de cada um, o nosso tempo e o tempo de ninguém - II


O tempo e os tempos na percepção, na emoção, no sentimento, no pensamento, no discurso, na exteriorização, na comunicação, no ensino, na aprendizagem e na função da memória, nomeadamente, do esquecimento.
Cada um de nós, qualquer que seja a noção que tenhamos dos nossos tempos, de quais desses tempos possíveis utilizamos mais, ou predominantemente, viveu e vive a seu modo, umas vezes passivamente, outras de modo intencional e direcionado, pelos mais diversos motivos, físicos, psicológicos, neurológicos, culturais, sociais, acidentais ou não, tempos de interioridade e de exterioridade, de interação, de exteriorização, de comunicação, de mera percepção, ou de observação.
Exemplificando, o tempo de ouvir (sons, música, palavras) não é igual ao tempo de ver (objetos, signos, palavras, imagens, movimentos, cores, formas, relações espaciais) nem é igual ao tempo de ler e descodificar. O tempo de pensar é ainda mais específico, com níveis e dinâmicas e exigências espaço-temporais muito particulares. Também são diferentes os tempos de falar e de escrever, cada um destes tempos envolvendo formas e condições de aprendizagem diferentes.
Cada pessoa vive estes tempos de modo particular e singular, desde aqueles que nem sequer leem, ou escrevem, àqueles que se limitam a ver, falar e a ouvir, em contextos ligados às necessidades práticas e básicas da vida.

Carlos Ricardo Soares

sábado, 28 de setembro de 2024

Conhecimento e o conhecimento de si mesmo - 2

Na sequência do texto anterior é, de qualquer modo, importante prestar atenção no seguinte.

Se tenho dimensões que só ao meu conhecimento serão acessíveis (serão, se ainda não são), o conhecimento propriamente dito dessa esfera subjetiva não é algo que não dependa do que eu tenha adquirido e aprendido, ou seja, a forma como me vejo e me analiso e me interpreto e me julgo e me avalio, me penso, me sinto e me projeto, é algo inerente à minha relação umbilical com a cultura e com as linguagens que fazem parte dos meus repertórios .

Mesmo que eu diga “sou quem só eu sei”, “sou quem poderei ser e não aquilo que sou”, todas as representações que isto envolve ou tem subjacentes, não são, digamos, minhas, nem de ninguém em particular.

Os processos de consciência e de escolha, mesmo do que pensamos, com mais ou menos confiança na sua consistência e implicações, operam segundo o dever-ser, em função do que deve-ser. E os processos de auto-conhecimento não escapam à regra.

Ora, esta égide do dever-ser, nos processos de pensamento racional, de juízos, de escolha, de ação, seja científica, ética, moral, estética, religiosa, ou outra, é uma função mental originada e situada na cultura e na sociedade.

No mais recôndito e no mais íntimo do indivíduo, a subjetividade consiste mais na inacessibilidade, na imprescrutabilidade e na privacidade dos pensamentos e dos juízos, do que na sua incomunicabilidade. Esta incomunicabilidade está mais associada a uma incompetência, seja do emissor seja do recetor, devida, por exemplo, a uma linguagem deficiente, limitada, ou deficientemente utilizada.

Todavia, se falarmos de estados mentais como, por exemplo, a experiência musical, a experiência do silêncio, do devaneio, da fantasia, do sonho, dos sentimentos, das emoções e das sensações das qualidades, pelo menos enquanto não derem origem, ou não as transformarmos em pensamentos e juízos, operam fisicamente e não são expressáveis, ou comunicáveis. Em grande parte das situações, como estas, ainda assim, poderemos considerar a ocorrência de fenómenos de empatia, de simpatia, de comoção e compaixão que não deixam de ser, a seu modo, modos de expressão, de comunicação e de compreensão que, aliás, têm a primazia e não dependem de outras linguagens para se manifestarem.

            Carlos Ricardo Soares


sexta-feira, 27 de setembro de 2024

Conhecimento e o conhecimento de si mesmo - 1

FALAR DE SI MESMO E DA SUA RELAÇÃO COM O MUNDO (refletir sobre si para compreender-se a si próprio e fazer-se compreender pelos outros)

Ainda acerca da máxima, ou aforismo “conhece-te a ti mesmo”.

Se eu procurar saber quem sou, na perspetiva do que “dizem” o que sou, quem sou, seja na perspetiva das ciências, física, química, biologia, humanas, sociais, económicas, médicas, seja na perspetiva da ética, moral social ou individual, da ideologia, ou da religião, isso equivale a procurar saber sobre algo que me é objetivo e exterior, como um objeto que se oferece à possibilidade de conhecimento.

Ainda assim, se eu procurar saber quem sou, nessa perspetiva, tal não representa a mesma coisa que eu procurar saber quem tu és, ou o que é, por exemplo, uma árvore, ou o sol, ou a força da gravidade. Se eu procurar saber quem tu és, naquela perspetiva, e há outras, muito do que se poderá legítima e cientificamente conhecer sobre ti será válido também para todos os humanos, incluindo-me, obviamente. Desta forma, trata-se de ter um conhecimento de ti e de mim, da nossa natureza de seres humanos como os outros o que, sendo relevante e essencial, numa perspetiva de objetividade, nada diz sobre a tua, ou a minha condição individual e particular, a tua ou a minha história, nem sobre os teus, ou os meus estados mentais, nem sobre a tua ou a minha autoconsciência psicológica, cultural, social, ética, moral, estética, económica, etc..

É nesta acepção que me parece fazer sentido, com seu quê de desafio “atreve-te a conhecer-te a ti mesmo”, de provocação “ousa conhecer-te a ti mesmo”, de advertência “é preciso que te conheças, não apenas no sentido em que os outros te podem conhecer, mas no sentido em que há uma parte, ou dimensão de ti que é só tua e que só a ti é acessível, ou te será acessível se fores capaz de te conhecer a ti mesmo”.

Carlos Ricardo Soares

quarta-feira, 18 de setembro de 2024

O tempo de cada um, o nosso tempo e o tempo de ninguém - I


A nossa relação com o tempo é tão importante que, muito mais tarde, podemos entender que o presente é o lugar de quase todos os futuros que não aconteceram e que isso pode não significar algo que devamos lamentar. 
Este tema é dos mais promissores para quem aborde a psicologia individual na perspetiva do próprio indivíduo, mais do que na perspetiva do que seja uma psicologia, geral e abstrata. 
O modo como cada um vive, ainda que se não dê conta, voltado para o passado, criando narrativas, ou projetado para o futuro, criando narrativas, é um modo de viver o presente. 
O importante não é ter consciência de que se vive numa ilusão, é ter consciência de que esse modo de viver funciona. 
Nem todas as ilusões são convenientes e algumas são desastrosas. 
A nossa relação com o tempo é delicada e exigente do ponto de vista das contrapartidas. Sempre que tentamos enganar o tempo, fugir ao tempo, passar tempo, perder tempo, ganhar tempo, lutar contra o tempo, estamos em conflito com alguma realidade que nos ultrapassa e preferimos tentar ignorar. 
O tempo não é nosso, apenas nosso. 
O meu tempo e o teu tempo não são o nosso tempo. 
Cada indivíduo vive, irremediavelmente, num tempo que é, simultaneamente, seu e de ninguém. 
A ilusão a que me referi acima desempenha aqui o papel crucial de nos fazer acreditar que o meu tempo, o teu tempo, o tempo dos outros, é o nosso tempo.

Carlos Ricardo Soares

domingo, 15 de setembro de 2024

Aproximações à verdade XXXII


Hilário: és feliz?

Amiga: às vezes, e tu?

Hilário: eu não sei, nem sei se a felicidade existe

Amiga: queres que te diga?

Hilário: se pudesses mostar-me a felicidade, agradecia

Amiga: eu aposto que és feliz e não sabes

Hilário: e é possível alguém ser feliz sem saber?

Amiga: o ser não é da mesma ordem do saber

Hilário: não sei o que queres dizer

Amiga: e isso não impede que o diga

Hilário: mas então como é que sabes se és feliz?

Amiga: perguntei ao vento

Hilário: a sério? Ao vento?

Amiga: achas que devia ir ver na enciclopédia?

Hilário: mas se não sabes o que é a felicidade, como é que sabes se és feliz?

Amiga: sou feliz e não é por saber dizer, ou não, o que é a felicidade, nem ando atrás dela

Hilário: até podes acreditar no que estás a dizer, mas é algo contraditório

Amiga: e tu não sabes o que é a felicidade, nem sabes se és feliz?

Hilário: talvez me sentisse feliz se soubesse dizer-te o que isso significa

Amiga: mas isso é estranho, devia ser ao contrário, talvez soubesses dizer o que isso significa, se te sentisses feliz.

                      Carlos Ricardo Soares 

sexta-feira, 13 de setembro de 2024

Aproximações à verdade XXXI


Hilário: tu e eu tocamos

Amiga: e cantamos a mesma canção

Hilário: tu pões a ênfase na letra

Amiga: tu pões na música

Hilário: a mesma canção

Amiga: canções diferentes.


         Carlos Ricardo Soares