Blogs Portugal

quarta-feira, 2 de agosto de 2023

Direito, direitos, guerra

Vejo um problema no direito, ou melhor, nos direitos: quando falamos de direitos e de deveres, a igualdade de direitos é defensável e, praticamente, incontestável. O indivíduo humano deve ser colocado no topo da hierarquia dos valores. Nem Deus, nem os deuses, mas simplesmente o indivíduo humano. Afinal, nenhum deus pode ser ofendido, ou ameaçado e não precisa sequer de quem fale em seu nome, ou o defenda, seja em que circunstância for. 
O que deve ser colocado no topo da hierarquia dos valores não é um indivíduo humano, em particular, por muito especial e valoroso e virtuoso e admirável, que seja, mas todo e qualquer indivíduo humano, em geral e abstrato.
O reverso da medalha é que as ofensas a este indivíduo, a qualquer indivíduo humano, são as maiores ofensas que algum indivíduo humano ou grupo de indivíduos, seja qual for a forma de organização e de poder, pode cometer. Assim sendo, e em conformidade, quanto maior a ofensa, ou o crime, maior a pena. O respeito que é devido ao indivíduo humano transforma-se num critério de sanção que é o reverso daquele respeito.
A ideia é, mais ou menos, esta: quanto maior o respeito devido ao indivíduo humano, maior será a responsabilidade, a punição ou o castigo do indivíduo humano que faltar a esse dever de respeito. O princípio normativo é “não fazer mal, ou seja, não causar dano, tomando aqui os verbos como ações do indivíduo, ou seja, manifestação de intenção”.
O conflito que vejo aqui leva-me a considerar que, se assim for, o que está no topo dos valores não é o indivíduo humano, mas o dever de respeitar, não todo e qualquer indivíduo humano, mas apenas aqueles que lhe não faltam ao respeito. E, faltar ao respeito ao indivíduo humano, tem como consequência deixar de merecer o respeito que lhe era devido. Este problema é de grande acuidade na abordagem e reflexão que sói fazer-se quando defendo que mal é o que causa dano e que quem causa dano faz mal e que ninguém tem o direito de causar dano, de ser cruel, de causar sofrimento, de humilhar, enfim, que, quem não sentir vergonha só de imaginar e admitir fazê-lo, merece censura.
Surge, porém, uma perplexidade: a razão que faz com que ninguém tenha o direito de causar dano a outrém, nem, eventualmente, a si mesmo, e que é ser o indivíduo humano a única sede, conhecida e insubstituível, de sentido, de significado e de valor, sem a qual ninguém, nem nada, significa, porque só o humano dá significado e valor, e nada senão o humano dá significado e valor ao humano, é a mesma razão que faz com que o indivíduo possa ser sujeito a dano, violência, crueldade, sofrimento, humilhação? Ou seja, o dano, violência, crueldade, sofrimento, humilhação, podem ser justificados? Em que medida? Até que ponto, em nome dos direitos do indivíduo humano se poderá justificar uma “violação” desses direitos?
O facto de o indivíduo humano estar no topo da hierarquia dos valores não lhe confere apenas direitos invioláveis, mas também, e correspetivamente, impõe deveres que ele não poderá ignorar e desrespeitar. Os direitos do indivíduo humano não são absolutos, como os de um deus sem deveres, a quem nada pode ser imputado senão o bem, são direitos de dupla face, em que cada direito é um dever, não porque o dever seja uma espécie de contrapartida do direito, ou este daquele, mas porque o direito que assiste a um indivíduo só faz sentido se assitir a todo e qualquer indivíduo.
O dever que tu tens de respeitar o meu direito não é mais, nem menos, do que o dever que eu tenho de respeitar o teu.
O direito que tu tens a que te respeitem não é mais, nem menos, do que o direito que eu tenho a que me respeitem. Se este equilíbrio é quebrado, o valor do humano ofendido aumenta na balança e o do humano ofensor diminui, impondo-se o dever de compensação, de justiça, de ressarcimento, de indemnização, de restauração natural, quando possível. O limite desta sujeição pode ir até onde for necessário compensar pelo dano, pela violação desse direito de outrem.
O valor do indivíduo, por estar no topo da hierarquia dos valores, não quer dizer que seja absoluto, ou sagrado, porque é-lhe respeitado e reconhecido na medida em que ele respeitar e reconhecer o valor dos outros indivíduos. E, em medida idêntica, justa, lhe será retirado.
Outro problema é o de saber até onde, e em que medida, um indivíduo pode alienar, ou prescindir desse seu direito, ou de exercer o seu direito de ressarcimento e de vingança relativamente a quem o ofendeu e lhe causou dano. A disponibilidade desses direitos é outro assunto com muito interesse teórico e prático.
Mas não basta dizer e perceber e concordar que é assim, que não podes desrespeitar-me sob pena de eu te exigir responsabilidades, sendo que este exigir e impor não é um desrespeito por ti.
Não é a questão de, por exemplo, partiste-me um vidro eu vou escolher se te parto outro, se te obrigo a pagar pelo que fizeste, ou se te parto outra coisa qualquer.
De facto, não sou eu quem define, primeiro, o que é o meu direito e o desrespeito pelo mesmo, segundo, que responsabilidades são as tuas, terceiro, como posso obrigar-te a responder e, quarto, com que é que poderei exigir que respondas.
Esta questão de saber com que legitimidade alguém pode coartar e restringir e retirar direitos ao indivíduo, também é uma questão interessante, ainda mais se essa limitação dos direitos do indivíduo for feita em nome de algo que não o indivíduo humano, sendo este o valor que está no topo da hierarquia dos valores.
Vamos, numa perspetiva oposta, considerar a hipótese de que um indivíduo humano, por exemplo, tu, ou eu, não reconhece esse valor do indivíduo, incluindo ele próprio. Tu não pensas que tens direitos, eu também não, nem sequer pensamos em deveres de respeito. O indivíduo humano, para nós, não está no topo da hierarquia dos valores, pelo contrário, não vale nada. Nesta hipótese, a questão da ofensa e do respeito não seria preocupação nossa, do mesmo modo que não repugna nada a muita gente, por exemplo, matar uma formiga, ou uma melga.
Transpondo esta hipótese para a realidade histórica das guerras, o que torna insuportável e injustificável desencadear uma guerra é que ela esmaga pessoas como se fossem formigas ou melgas e destrói brutalmente, com imenso e irremediável sofrimento, crueldade, humilhação, negando-lhes todo e qualquer direito, pessoas que, por sua vez, por causa disso, deixam de estar vinculadas a qualquer dever para com o inimigo.
Em última análise, é a relação não danosa, a boa relação, com o outro, que define o direito. Se a relação com o outro for danosa, é sempre o outro que ela destrói e o direito, não o direito do outro, mas o direito do agressor. O agredido continua a ter os direitos que tinha antes da agressão e passa a ter, por via dessa agressão, direitos que não tinha antes, ao mesmo tempo que deixa de ter deveres que antes tinha.
Carlos Ricardo Soares

quinta-feira, 27 de julho de 2023

Jogo limpo

Individualismo, indiferença, desconfiança, aversão, afastamento, hostilidade, ódio...tudo tem a ver com o grau de ameaça, real ou imaginária, daquilo, ou daqueles, que tomamos e registamos como inimigos, ou simplesmente concorrentes desleais. Não há como evitar essas condutas e essas predisposições defensivas, ou como promover o conforto da pacificação e da paz e da cooperação, se o jogo continuar viciado e a batota não for erradicada. 
Se as pessoas e as comunidades e as instituições não criarem vínculos, ou se desvincularem umas das outras, ficam mais livres e descomprometidas, talvez mais independentes e autónomas, mas mais entregues a si próprias e menos apoiadas, ou amparadas.
Falar em verdade fará sentido enquanto for verdade que estamos muito longe de assistir e de participar num jogo limpo. É trivial que as pessoas sejam convidadas e aliciadas, ou induzidas, a participar num jogo que, à partida, elas próprias já sabem que não é limpo. 
Não ser limpo já faz parte do jogo mas, e aqui é que entra a parte essencial do problema, nunca, em circunstância alguma, poderá ser a regra do jogo, ou fazer parte das suas regras. E isto é muito mais (e muito menos) do que aquilo que um ideal pode ser. 
Diria, no calor da expressão, correndo o risco de estar a dizer um disparate, que, se o ideal é que se faça jogo limpo, então a regra deve ser fazer jogo limpo. Embora, na prática, o que interessa seja o jogo e não a regra.
E até ninguém já coloca a exigência “sublime” de as regras do jogo serem justas, porque isso talvez fosse pedir demasiado. Bastava, para começar, que a verdade “desportiva” triunfasse. 
A falsidade e a mentira constroem-se e fazem caminho sobre a ignorância e o erro, mas sobretudo pelo medo. 
A verdade, se for esta, não é tranquilizante e não espanta que leve a comportamentos defensivos, a individualismos mais ou menos gregários e tribais, desconfianças, recusa de solidariedade, porque a verdade é aquilo de que, em cada momento, e em cada situação, estamos convencidos que acontece, ainda que estejamos enganados.
Carlos Ricardo Soares

quarta-feira, 19 de julho de 2023

Dos maus os menos

Este texto foi a minha resposta a um comentário que pretendia fazer humor com a filosofia ubuntu, a redenção da humanidade e as bombas matarem apenas os maus.

A filosofia ubuntu, de que conheço apenas “eu sou porque tu és”, soa-me bem e parece-me empática e muito verdadeira, com uma carga positiva de sentido de gratidão e de reconhecimento dos valores da solidariedade. Já me soa mal e tem uma carga de hostilidade e de arrogância injustificável, uma certa ideologia, com tiques de mandamento novo, “tu és porque eu sou”, que grassa sem pudor nem vergonha, como erva daninha, que dá imenso trabalho a limpar.
No primeiro caso temos o sentido da solidariedade e do reconhecimento do tu em nós próprios. No segundo, uma incapacidade cultural, uma mentalidade preconceituosa erigida sobre pretensiosismos de superioridade.
Temos que nos precaver contra a tentação de decidirmos que os bons são os amigos e os maus são os inimigos, ainda que uma larga maioria não seja uma coisa nem outra. Por esse critério, no dia em que as bombas inteligentes souberem matar apenas os maus, talvez não sobreviva ninguém.
A religião cristã baseou-se na doutrina de que só a morte pode libertar e na crença de que, quem desfaz as cadeias, é o redentor. Sejam as que prendem pés, as que agrilhoam a cabeça, sejam outras, por exemplo, obsessões perigosas, paixões que escravizam, situações de miséria, determinados códigos de honra.
Também já ouvi expressões saídas do léxico da bruxaria, como “estar amarrado”, “ser vítima de mau olhado”, “excomungado”, “possesso”, “enjeitado”, “touro sem marca que não se sabe a que manada pertence”, “ovelha tresmalhada é presa fácil do lobo”, entre imensas outras que, em variadas situações, ajudam a interpretar e a verbalizar problemas individuais e sociais, de integração, de pertença, dignidade e respeito e de igualdade, ou a sua falta.
Interrogo-me sobre se, na prática social das comunidades em que eram usadas, as referidas alegorias, não tinham como finalidade estigmatizar e diminuir e fulminar, com o fito de se aproveitarem da situação de fragilidade e de medo em que elas próprias colocavam a vítima.
Quanto à redenção, ela tem a ver com uma libertação humanamente impossível, não com a libertação da escravatura, que ocorria por vezes e era intensamente desejada, num mundo em que o mercado de escravos também podia ser uma oportunidade para o escravo, se fosse vendido e a troca de amo, de senhor, fosse vantajosa. Neste mundo, a libertação reduzia-se praticamente a ser comprado por um amo a outro.
Para os cristãos, estava claro e assumido que não havia esperança de liberdade, nem de paz, nem de justiça, em vida. Não podiam ser mais realistas e mais pessimistas. Sem este realismo e este pessimismo seria mais difícil fazer o cimento da crença na redenção divina.
Eu não sou tão pessimista e o meu realismo, que me dá esperança, é que o homem, que foi capaz de criar Deus, também há-de ser capaz de fazer justiça divina.
Carlos Ricardo Soares
 

segunda-feira, 17 de julho de 2023

A esperança de acabar com as guerras

Nem todos os exércitos, nem todas as armas têm sido suficientes para impedir e evitar guerras, todos os tipos de guerras e guerrilhas, locais, regionais, coloniais, civis, religiosas, comerciais, químicas, industriais, nucleares, tecnológicas...
Se houvesse uma sociologia das guerras que estudasse as guerras desde os primevos, aprenderíamos muito sobre a função reguladora da violência e, mais conscientes dessa realidade biológica, social, cultural, histórica, mas mais ainda sobre a cultura da guerra, que tem sido, em minha modesta opinião, o círculo vicioso, para não dizer espiral que se escala a si própria, numa lógica de exercício de poder e de defesa desse poder, sempre que encontra obstáculos, ameaças ou ataques, em melhores condições estaríamos para evitá-las, ou impedi-las, ou minimizar os seus efeitos.
Nessa sociologia talvez se descortinassem, em todas as guerras, padrões que ajudariam a compreender o fenómeno da guerra, como violência humana, uso da força para atingir fins e objectivos ilegítimos, ilegais, injustos e desumanos, independentemente dos pretextos invocados para desencadeá-las. Talvez se tornasse mais claro que uma guerra não é como o amor que, quando começa, nunca ameaça ter consequências e que, apesar disso, quem inicia uma guerra tem um plano optimista, não em relação à guerra, nem em relação à resolução de um diferendo, mas em relação a alguns objectivos, mais ou menos confessados, entre os quais um objectivo territorial, de supremacia, ou punitivo, perpetrado por uma força, ou uma potência que se coloca, ou que está, ou pensa que está, em posição de superioridade bélica, em condições de tirar vantagem, ou de, pelo menos, não sair esmagada do desastre da derrota.
As sociedades humanas politicamente organizadas em estruturas militares, nas quais assentam o seu poder de facto, ainda não encontraram outra forma de se estruturarem e não estão preparadas para aceitarem outro tipo de solução dos problemas conflituosos que não seja pela força, pela coerção e pela coacção, mesmo nas litigâncias judiciais internas, das mais simples às mais complexas, em que se não prescinde de contingentes policiais para assegurar a ordem e a segurança e realizar, executar as sentenças.
As pedagogias da paz e da ordem, muitas vezes são contraditórias e andam, também elas, associadas a ameaças, mais ou menos implícitas, mais ou menos tácitas, porque quem dita os termos dessas pedagogias não abre mão do seu sistema de valores, ou de vantagens, sujeitando os outros às condições e termos em que podem manifestar-se e pronunciar-se. Isto faz com que se formem correntes de opinião e se criem espaços próprios de expressão de ideias que, por não comunicarem uns com os outros, em vez de contribuírem para a conciliação dos contrários e a pacificação dos antagonismos, os acirra ainda mais e reforça os ânimos hostis.
Assim sendo, numa primeira fase, a nossa esperança reside no poder de estabelecer uma regulamentação do uso da força, nomeadamente militar, nas relações entre Estados e na judicialização adequada da guerra através de instrumentos de direito internacional, da institucionalização de estruturas internacionais preventivas e, tanto quanto possível, num efectivo controlo, por uma estrutura política internacional credível, de certo tipo de armamento cuja finalidade seja ameaçar e eventualmente destruir massivamente. 
Ou seja, uma espécie de ONU legitimada e empoderada de uma espécie de monopólio sobre uso da força entre Estados, aplicação das leis da guerra, responsabilização e desarmamento, disposição e uso de certo tipo de forças, para certo tipo de conflitos armados.
Esta solução que, com algumas diferenças de escala, é considerada satisfatória para as situações estaduais internas, talvez pudesse ser adoptada pelos Estados, na ONU, pelo menos pelos que o quisessem e a subscrevessem, sem prejuízo de estes fazerem valer a sua posição perante aqueles que não aderissem.
Embora esta solução não estivesse ainda completamente a salvo de guerras, já apresentaria consideráveis avanços relativamente à situação atual.
As forças da Guerra e as forças da Paz estão numa relação de poder, de forças, de legitimidade, de Direito e de justiça que, cedo ou tarde, é decidida para o lado da Paz. Acredito que assim seja e tenho esperança de que as guerras acabem.
Carlos Ricardo Soares

  

sábado, 15 de julho de 2023

Valores e compensações

A parte não menos desmoralizante de observar o que acontece no dia a dia, seja lendo, vendo e ouvindo noticiários, debates, comentadores, palestrantes, políticos, consumidores, é pensar no que não devia acontecer e no que não acontece e devia acontecer. 
Ter a percepção de que, em todas as áreas, a actividade discursiva paira sobre a actividade concreta, material, executiva, transformadora e que só há mudança de algo quando intervem uma força, é algo que afecta a crença nos ordenamentos normativos e diminui a credibilidade nas instituições. 
A percepção de que tudo parece resolver-se ao nível do discurso e da argumentação, no plano dos princípios e das boas regras, mas de que tudo continua a passar ao lado das boas intenções e das belas frases, a começar pelos princípios democráticos e a acabar no quem decide o que é o quê, é uma experiência que acompanha cada vez mais o consumidor de comunicação social.
A começar pelo tão apregoado pensamento crítico, que devia ser sempre, em primeiro lugar, exercido sobre o próprio, a grande dificuldade em promovê-lo e em praticá-lo está na complicação que é pensar criteriosamente, mas não menos no pouco interesse que parece existir em exercê-lo sobre si próprio.
Na política, na justiça, na ordem, no ensino, na saúde, enfim, em todas as áreas, as coisas só acontecem no terreno, quando passam da palavra, ou do papel, para a acção transformadora. A lei, quando é aplicada, a sentença, quando é cumprida ou executada, a ordem quando é cumprida, etc..
Podemos passar uma vida a descrever e explicar o modo como as coisas funcionam, mas quando chega o momento de explicar como deviam funcionar, ou não é possível alterar a ordem das coisas, por ser da sua natureza, e não faz sentido sequer pensar em mudar, ou, se é possível, é preciso quem as saiba fazer, quem queira fazê-las e quem as faça.
Uma das constatações mais intrigantes e curiosas é sobre o que se passa com a filosofia, em que se pode ter opiniões diferentes sobre a realidade, argumentar em vários sentidos, criar sistemas racionais, e nada disso alterar o facto de a realidade poder ser diferente disso e de não ser por isso que deixa de ser o que é. 
As coisas serem como são e não como poderiam ou deveriam ter sido é algo de perturbador e frustrante, embora isso também tenha, em muitas situações, aspectos tranquilizadores que nos subtraem responsabilidades.
E, depois, há valores que só são reclamados dos outros, o que passa por ser um princípio dissonante e irracional, no sentido de ser contrário à razão, mas invocar esses valores pode facilitar a perspectiva que mais convém em cada situação. 
Estou a pensar na independência como uma qualidade pessoal, ou na honestidade como uma virtude da maior respeitabilidade, para as quais não há recompensa, ao contrário da subserviência e da obediência, que chegam a ser principescamente compensadas.
Carlos Ricardo Soares


sábado, 8 de julho de 2023

O castelo de Guimarães


Sempre que visito Guimarães, só penso no castelo. 

E já me especializei nas artes de defesa e de ataque. 

Para mim, Guimarães não é nem pode ser outra coisa, pelo menos enquanto não perceberem aquilo que eu acho que é importante. 

Mas ainda não consegui perceber se as pessoas que iam comigo, e que eu procurava impressionar com a minha veia metapsíquica, estavam realmente a admirar a minha inteligência, não de um guia bem informado, mas de alguém que sabia para além das razões da concepção daquela fortificação. Do género: não estou a contar-lhes a história do castelo, estou a contar-lhes a verdade do castelo que, na realidade, se passou pela cabeça de alguém, foi a minha. Ninguém me contou a história do castelo e a história do castelo que li, tinha pouca história do castelo. Mas vi o que vós estais a ver e desafio-vos a explicar por que é que este castelo era inexpugnável. Não se trata de um enigma, é algo que se descobre simplesmente olhando, mas não seríamos capazes de saber simplesmente pensando.

domingo, 2 de julho de 2023

O direito e a fraternidade

Ainda muito cedo se encheram

de esperança

e entraram pela porta grande

do palácio da justiça

mas tiveram de deixar lá fora

o sol radioso da primavera

para ouvirem ler os seus direitos

e sentirem-se animados

a conviver de igual para desigual

sem serem maltratados

e com o respeito que é devido

sem mais terem a exigir

como eles próprios desejam

que o direito e a justiça

sejam praticados

como o proclamaram as revoluções

e as utopias

e o decreta a declaração universal

dos direitos do homem

e todos se disseram entendidos

e sentiram obrigados

mas ainda longe de serem

e de se sentirem

amados

olharam uns para os outros

quase revoltados

por não terem o direito

de ser amados.

 

sábado, 24 de junho de 2023

A soberania das formas sobre os instintos

Aproveitarei para divagar sobre as formas e os instintos.
O prazer, ou a satisfação da escrita, como o modo, o recurso, o instrumento, de concretizar, de preservar e de construir o prazer de ser, de dominar pelo pensamento, pelas ideias e pelo discurso, pela individualidade, pelo estilo, pela voz própria. É como o prazer da música que se produz, enquanto compositor, tanto ou mais do que enquanto instrumentista executante, ou cantor, embora aqui, o prazer possa ter cambiantes mais evidentemente ligados à voz que se tem.
Muitas vezes é um fenómeno de linguagem, independentemente de comunicação e vice-versa, porque o significado, muitas vezes, não é o que está em causa no processo de comunicação, mas o efeito, por mais distorcido ou desajustado, ou inesperado, ou imprevisível, relativamente ao signo, ao símbolo, ao som, ao gesto, à palavra, ao silêncio, presenciados, percebidos, captados.
E este efeito é, antes de mais, um efeito daquele que escreve sobre aquele que escreve.
Tentar negar a individualidade, o eu, o ego, a representação que cada um faz de si próprio, não ajuda a reconhecer a necessidade de dar a cada um o espaço e a liberdade para ser o que é.
Muitas pessoas descobrem que esse espaço e essa liberdade podem ser conquistados através da escrita, ou de outras artes, ou competências. A tal ponto que se identificam sobretudo pelo que escrevem, ou representam, ou fazem, mais do que pelo que têm ou pelo que são.
“Não me perguntes quem sou, ou o que tenho, pergunta-me o que fiz ou o que faço”. Do género, “não estás a falar comigo, estás a falar com o Cristiano Ronaldo”. E se o outro insistisse “não, não, estou a falar contigo, não sei quem é o Cristiano Ronaldo”, até onde poderia ir a conversa?
São raras as pessoas que não precisam de fazer nada, nem de dizer nada, para se sentirem satisfeitas e reconhecidas e valorizadas. A essas basta-lhes existirem. Para essas raras pessoas, sim, existir é um dom, ou antes, uma dádiva. São avassaladoras pelo que possuem, ou pelas suas formas físicas e não há como não ser vassalo desse poder da forma sobre os instintos. Mas não têm mérito, porque não há virtude em ser/ter, e talvez não percebam a virtude de merecer, à qual a maioria, se não se dedica, finge que é devota.
Como nunca perguntam “quem és?”, há quem sinta necessidade de responder, correndo o risco de lhe retorquirem “alguém lhe perguntou alguma coisa?”.
Tudo acontece fora dos subentendidos, mas nada reside fora deles. Seria impensável, por exemplo, que a mãe de Sócrates lhe perguntasse “quem és tu?”. E menos ainda “quem és tu, Sócrates?”. Sócrates que só sabia que nada sabia, não entenderia uma pergunta dessas.
Mas um poeta sabe que as palavras têm aquela soberania das formas sobre os instintos, bastando-lhes existir.

quarta-feira, 21 de junho de 2023

Malditos

Um rio como este

não retomará o bom caminho

que nunca teve

não vai ficar na foto

não sei como vai ficar

se ficar

na minha memória

e até quando

inequívoco

sem olhos na cara

e sem ambição

eterno liquefeito

paraíso entornado

num leito

caldo de peixe cozinhado

no caleidoscópio mágico

de barcos infantis

que nunca foram resgatados

dos grandes delírios

nem arrebatados da corrente

insustentável

de um rio como este

sem dificuldades

de nunca ter havido

original

mas tão doente

que abraça os choupos

aninhados no lixo

como se ouvisse o mar

dos náufragos

e os confundisse com as brumas

da incontável memória

de vir ao mundo

dos malditos.

domingo, 18 de junho de 2023

O processo de pensamento é um processo criativo

Compreender, entender. À medida que vamos escrevendo as ideias vão-se definindo e redefinindo. 
O processo de pensamento é um processo criativo, de busca de satisfação. Pode ser doloroso e ser tormentoso se não for dirigido, focado, ordenado, proveitoso. 
Se escrevermos sobre ideias feitas, para reproduzir ideias feitas e lugares comuns, através de um discurso corrente e vulgar, estereotipado, o processo de pensamento pode ser muito reduzido e quase inexistente, dada a automatização da linguagem. Mas é muito importante para a nossa integração social e saúde mental. 
Essa comunicação superficial, que pode ser divertida, irónica, humorística, provocadora, irritante, ou simpática, está ligada a competências sociais da maior importância. 
Sobretudo entre os jovens adolescentes adquire uma dimensão que nunca é de mais realçar e deve ser promovida.
Já o processo de pensamento como um processo interno e num espaço interior que não é partilhado, senão por algum tipo de compreensão convivencial tecida por comunicação de emoções, e outros tipos de comunicação, nomeadamente linguística, que nos faz acreditar, ou desacreditar, em algum nível de partilha daquilo que pensamos num determinado momento (que pode ser meramente o efeito que pretendemos na comunicação, ainda que não corresponda, ou seja até contrário, ao que honestamente pensamos) ou, em que nos colocamos como observadores da própria convivencialidade social e tentamos entender e compreender os processos e os fenómenos aí envolvidos, porque nos surpreendemos a nós próprios como marionetas cujos cordelinhos nos escapam ao controlo, incluindo quando pensamos e escrevemos e ordenamos, definimos ou redefinimos as ideias e os pensamentos, nestes casos, o processo de pensamento nutre-se de uma necessidade de satisfação que se vai potenciando a si mesma se os mecanismos de compensações do próprio indivíduo forem funcionando.
Compreender e entender, por si sós, podem não ser suficientemente apelativos ou aliciantes, para indivíduos em determinados contextos de “ignorância”. 
Há na necessidade de compreender e de entender algum nível ou génese de conhecimento e de interesse que podem ser já um patamar avançado de entendimento e de compreensão.
Se extrapolarmos para as aprendizagens, para a Escola, teremos aqui muito material para argumentar a favor de uma educação para as aprendizagens, uma educação compreensiva dos processos físicos, psicológicos, individuais, sociais, linguísticos, da comunicação e das motivações, sem reducionismos "visgarolhos", sem prejuízo, aliás, de estes serem, eles também, processos de pensamento zarolho, que "vesgam"(visam),  compreender e entender.

terça-feira, 13 de junho de 2023

Ciência e Filosofia

É importante, mas sobretudo mentalmente excitante, 

perceber, 

através do pensamento dedutivo, 

tão característico do pensamento filosófico, 

que a ciência não se funda em deduções, mas em observações e constatações impossíveis de deduzir.

 

sexta-feira, 9 de junho de 2023

Entre ensinar e aprender

O que acontece entre ensinar e aprender é um problema de todo o tamanho. Mas ainda bem que acontece. Não creio que esse problema possa ocorrer, por exemplo, na IA.

Esse é um problema que se vai resolvendo, mas nem o conhecemos bem, nem temos à mão a solução. O que sabemos fazer é baseado na experiência, na observação e na tradição.

O facto de querermos colocar o foco todo num problema que, paradoxal e ironicamente, estamos longe de conhecer, é uma excelente desculpa para não pensarmos que eficiência pela eficiência não faz sentido. A eficiência, pelo menos na educação, só faz o sentido que cada um lhe quiser encontrar. É quando começamos a falar de educação a todo o custo, de disciplina e adestramento humano em função de valores mais altos, que começamos a esvaziar de sentido a educação e os valores.

O enigma do que devemos fazer não se resolve com uma resposta sobre aquilo que podemos fazer. Em tempos recuados, a humanidade logrou resolver esse enigma de um modo incrivelmente sofisticado, que foi o modo de acabar com as perguntas, dando uma resposta em vez de formular outra pergunta e proibindo o questionamento.

Se não questionássemos a realidade, e tantas vezes, de vários modos, e tanto tempo, o fazemos, a simplicidade das respostas e dos veredictos seria de tal modo confortante e divertida, que aceitaríamos como um dado, por exemplo, que há humanos estúpidos e humanos inteligentes, assim como damos quase como certo que somos mais inteligentes do que as outras espécies.

Se não questionássemos a realidade, seríamos estúpidos, sem sabermos que os humanos até podem ser inteligentes.

A inteligência só falta quando interrogamos, quando perguntamos, quando duvidamos. É pois natural que o não façamos, porque assim nos sentimos totalmente esclarecidos e satisfeitos. É talvez daquelas evidências de que os humanos estão mais desprovidos mas não menos convencidos, porque ela é como um foco e uma linguagem, na justa medida do que vê, do que diz e do que induz. Não chamemos a isso cegueira. De resto, dizer a um cego que é cego não o faz ver. É fundamental que aprendamos a respeitar o cego e o surdo e o mudo, porque ver não corresponde a ter visão.

É preciso e imprescindível fazer um percurso de aprendizagem daquilo que já se sabe há muito. Não basta, relativamente a um assunto, fornecer as conclusões, ou as sínteses, do mesmo modo que, para quem não sabe escrever, não basta mostrar as palavras escritas para ela ser capaz de escrever. No conhecimento, na aprendizagem, a apropriação das trivialidades é tão fundamental como se cada aprendizagem fosse uma invenção, de novo.

Vulgarmente, quando alguém se entusiasma, por exemplo, com ideias consabidas, como se as tivesse criado, ou porque as criou, embora elas já o tenham sido por outros, logo aparecem críticos enfastiados a desmerecer novos Sócrates e Platões, como se isso já não tivesse valor. Como se o facto de alguém pensar o que outros (até filósofos importantes) já pensaram, fosse menos importante por isso.

A educação como um produto que se pode comprar é algo que se integra na tendência actual dos poderes do dinheiro, à semelhança do que acontecia com certas bulas papais. A ideia e a percepção de que o dinheiro pode comprar a virtude (em sentido amplo) andam muito próximas da ilusão de que a droga transforma um farrapo num deus.

Há uma ilusão, tavez compreensível se considerarmos o processo de pensamento, de aspiração e de adaptação dos humanos, de que podemos saber sem aprender, valorizando até alguma espécie de saber, supostamente, inato, que anda próximo do conceito de talento natural. Se há algo com que os humanos sonham, e almejam alcançar sem esforço, é prodígios. São muito facilitadores e estão em linha com a lógica da eficiência económica. Até há quem acredite que a inteligência não sabe, e que ser inteligente é fazer sem saber.

O que poucos consideram interessante e prodigioso é aprender, observar, ler, mais do que ler um livro sobre “como observar pássaros”, observá-los, de preferência com aquele livro à mão. Mais do que escrever sobre o “espaço interior”, no cárcere, sobre o cárcere, manipulando palavras, como uma IA, observar, e descrever, porque a realidade é algo que não se pode meramente deduzir, como acontece com as fantasias, ad infinitum.

É muito importante centrar a educação nas aprendizagens como processo de realização e de envolvimento pessoal nos prazeres e nos trabalhos da vida.

E isto não é utópico. Está mais próximo das necessidades naturais do que transformar a educação numa linha de formação de mecânicos, por mais necessários que estes sejam.

Utópico é considerar que ensinar “2+2=4” é liberdade de ensinar.

quinta-feira, 25 de maio de 2023

Quando o sol desponta

Quando o sol desponta

na ponta da nave

eu vejo a água a separar

a ilusão da realidade

sinto a saudade a iluminar

o mar e o céu

com a verdade das gaivotas

de todos os tempos

de todos os mares

de todos os céus

de todos os mundos

que nunca serão meus.

sábado, 13 de maio de 2023

Problemas de cariz político, económico e social

Não reconheço qualquer vantagem no tipo de discurso alarmista, vago, pistoleiro, a disparar para todos os lados, pessimista, sem esperança, de impotência e catastrofista, apesar de se acomodar e de se prevenir com as cautelas e caldos de galinha do bom senso pedagógico e pacificador, que é sempre recomendável e, se bem não faz, mal também não.
A maior parte dos problemas de cariz político, económico e social, não são problemas para toda a gente e esse começa logo por ser talvez o maior problema, porque dificulta imenso, quer a abordagem e o reconhecimento dos problemas, quer as tentativas de os resolver. Do ponto de vista de um comentador, de um filósofo, de um sociólogo, o reconhecimento desses problemas como problemas objetivos, pouco ou nada adianta se ficar por generalidades, ou ideias ainda mais gerais sobre essas generalidades.
As coisas funcionam do modo como funcionam, porque as condições para isso estão criadas. Enquanto essas condições se mantiverem continuarão a funcionar. E não é por não gostarmos, ou não estarmos de acordo com essas realidades que elas passarão a ser outras, embora os descontentamentos, as manifestações, as oposições, as revoltas, as lutas, sejam germe e efeito de mudanças, que poderão ser de ruptura.
Normalmente as sociedades realizam algum equilíbrio entre "predadores" e "presas", como acontece na selva desintervencionada pelo homem. 
A nossa cultura é um desenvolvimento e aprofundamento desta relação "comercial" relativamente a mercadorias, sendo que o outro também entra nesta categoria de valores mercantis. Tudo estaria bem, em meu entender, como na selva, se todos pudessem ser predadores, tirar proveito, vigarizar, extorquir, ganhar, como o fazem as empresas que, nitidamente, nos sacam o dinheiro através dos mais sofisticados esquemas. Eu concordaria com esta alta e refinada cultura, em que as maiores inteligências investem desde sempre, se estivesse em situação ou posição de lhes fazer o mesmo. Isso seria a selva e seria bom. Mas estamos nos antípodas da selva e do mérito. 
O problema não é a sociedade baseada no mérito, é a sociedade não ter interesse no mérito, porque só interessa o resultado. Para se alcançar este também é preciso mérito, mas é um tipo de mérito de que ninguém tem coragem de se vangloriar, apesar de quase todos nós invejarem quem o tem: não é fazer batota, é fazer batota por algo que valha a pena sem ser apanhado. Existe uma ética clara em toda esta situação, só que imensa gente é doutrinada e educada para aqueles méritos que, na realidade, não lhes interessam, embora sejam preciosos para sustentarem o mérito dos que atingem os resultados. 
Posso ter o mérito de me preocupar com as questões éticas, de justiça social, de democracia, igualdade, mas não tenho o mérito de ser banqueiro que arrecada vantagens das suas habilidades, e muito trabalho, de estar em situação de deixar as questões éticas para o poder político e judicial, porque a ele talvez importe apenas gerir a realidade como ela se lhe apresenta: o dinheiro permite obter (não confundir com fazer) mais coisas do que qualquer outra coisa. 
Talvez um dia o dinheiro acabe e acabe a economia baseada no dinheiro. 
Admito que muitas das distorções da sociedade desapareceriam como por magia.

sábado, 6 de maio de 2023

Para sermos felizes


O pouco de que precisamos para sermos felizes depende de tanto e de tantas coisas, que preferíamos não ter de fazer, ou de enfrentar, que a felicidade acaba por ter, muitas vezes, um sabor amargo, como se fosse um presente envenenado.
Se é por isso que muitos de nós são lutadores, valentes ou valentões, mas neuróticos, essa espécie de heroísmo de si mesmos, à espera de uma taça que não existe, nem sequer alguma vez foi prometida, é um descalabro.
Quem tem coragem para reconhecer no espelho um idiota vítima da sua boa fé, ou da sua presunção de que os sonhos existem para serem realizados?

quinta-feira, 27 de abril de 2023

O que resta

Se estas ruínas

aliás belas

aliás monumentais

são o que resta

daquilo por que viveste

e por que tanto lutaste

com seriedade

que ao menos pudesses

ter tido a antevisão inefável

do que agora aos nossos olhos

é um desfecho desolador

de tantas vidas escarnecidas

hipotecadas à transcendência

daquele castelo mutilado

outrora altivo

e daquela igreja irreconhecível

outrora preservada

sem que ao menos

soubéssemos um pouco

da história de uma delas

podia ser até da mais humilde

das contingências de uma vida

vivida nestes penhascos

tão acabrunhados

podia ser até da última pessoa

a fechar os olhos à história

a toda a grandeza

de que não se ouve

sequer em memória

uma voz

sequer ilusória

a sair destas ruínas colossais

por onde agora só

alguma sombra de nuvem passa

e não deixa rasto.

 

sábado, 22 de abril de 2023

Não eram ilusões


Não eram ilusões

eram sonhos

necessidades bem reais

dores e angústias

frustrações de ideais

batalhas cruéis

fantasias

que podiam ser fatais

paixões que cortavam

visões carnais

que importavam tanto

por serem apostas totais

sem suspeitas de que aí

a sabedoria

não era mais.


sábado, 8 de abril de 2023

A poesia


No fim só

vi farrapos e não bandeiras

 

orações que agitei

a todos os deuses garantes

da minha ingenuidade

de os ter pela arreata

dos meus caprichos

 

foi isso que em sonhos

antegozava infantilmente

 

que mais dizer

daquilo que me fez sentir

a falta

do que menos tive

quanto mais desejei?

 

E como compreender

que gosto de ter sido o autor

desse mundo impossuído?

 

E como saber

(se o não sei)

porque fui banido

por tudo aquilo em que acreditei?

 

No fim

a poesia

é o único tecido

a adejar

minha companheira

de que faço bandeira

por o ter sido.


terça-feira, 28 de março de 2023

Amor amar e ser amado

No amor não é louco quem quer

mas quem a loucura arrasta

para um negócio em que o perder

não faz sentido nem afasta

da obsessão do prazer

que é suposto amor

ter

e nem por sombras

por amor se pensa

que entre amar

e ser

amado

existe alguma diferença

mas não ama quem quer

que amar requer

ainda mais do que ser

amado

e não é só pelo prazer

desejado

mas pela permissão

do que não nos é dado.

sábado, 18 de março de 2023

Que ecos ouviremos

I

Nem por sombras devemos 

pisar

presenças indefesas

que não vemos

nem com toda a suavidade

tocar a textura

de felgas que tombam

ao menor sopro

II

não devemos morder

nenhum enigma amistoso

nem com toda a delicadeza

ralhar 

às artes impossíveis

nem com a polidez surda

de tanta mágoa

cegos de tanto carpir

sobre muros de água

III

não devemos afluir

ansiosos 

pela tangência das pegadas

para não pisarmos a cauda impalpável

de eternidades 

adiadas

IV

não devemos macular

nem com um dedo fantasma

uma casta amorosa

sem temermos não ser entendidos

na enologia dos bagos

do afeto

das castas espontâneas

sem sermos reconhecidos

à entrada dos recintos

dos pontos cardeais

e despojados da santologia

do ouro e dos cristais

dos estandartes

de castas virtudes

de poentes de gala

a alvoradas de castiçais

V

não devemos cantar

de galo

nem conspurcar nada

nem a ferruginosa fadiga

dos que aguardam nos degraus

das alfândegas da fé

até se tornarem suspeitos

de estarem perdidos

VI

não devemos rogar

para sermos levados

para lugares ainda mais desconhecidos

que os não encontrados

VII

não devemos confiar

que tudo seja como assisadamente

sentimos o mosto

de gentilezas irrecuperáveis

da musa amiga minha

nem perguntar aos claustros

que encontraremos no caminho

das nossas tristezas

que graças libertinas

serão os nossos pulmões

e as nossas tibiezas

no silêncio das visões

da vida interior

que ecos ouviremos

ao pensar no amor.

 

domingo, 12 de março de 2023

Lucidez crítica

Louvo a lucidez e a acutilância crítica, que não cede a ambiguidades.
As religiões e as igrejas e muitas organizações políticas que se lhe assemelham e que lhes copiaram os métodos (estou a pensar nos partidos comunistas e nos fascistas), na minha perspetiva, são respostas humanas adaptativas, culturais, racionais, a situações e necessidades humanas, adaptativas, culturais, racionais. Elas foram e serão a melhor resposta até que apareça outra melhor.
Mas não podemos perder de vista o seguinte: elas nunca foram uma boa resposta.
Aliás, dificilmente ou nunca, houve uma boa resposta, nem sequer científica, a um problema. Este é o drama e a tragédia da condição humana.
Todos pensamos saber o que é melhor, mas ninguém sabe o que é o bom.
Quanto a Cristo, a quem não podemos atribuir méritos, nem responsabilidades, porque não terá escrito nenhuma das palavras que lhe são atribuídas, continua a ser crucificado, como se continuasse vivo na cruz, por aqueles que mais se servem dele para fins contrários ao que ele simboliza.
Os grandes cristãos, verdadeiros cristãos, não eram religiosos e não pertenciam a nenhuma igreja, mas preconizaram a doutrina cristã que, em certo sentido, não deixa de ser ateia.
Encontramo-los no iluminismo, os mesmos pensadores que a igreja católica abomina e culpa de todos os males, que souberam interpretar a doutrina cristã da igualdade, pedra angular de todo o edifício da civilização, que nem os gregos, nem o romanos, nem os teólogos cristãos lograram perceber.
Aqueles que, dizendo-se cristãos, não foram capazes de compreender a doutrina de Cristo, foram superados por quem os desprezava nas suas contradições e que, justamente, não eram cristãos que se serviam de Cristo para fins contrários à doutrina cristã.
Para dizer, em suma, que me causa tristeza e angústia ver, por todo o lado, tantos monumentos à infâmia, de que destaco a basílica de S. Pedro no Vaticano e outras construções faraónicas, não por serem, como as vejo, monumentos à infâmia que, como tais e como obras de arte, devem ser preservados, mas como locais de peregrinação, de culto e de adoração.

sexta-feira, 3 de março de 2023

Por que escreves?

Lembro-me de inúmeras vezes, fora as mais de que me esqueci, em que, à míngua de “inspiração” para escrever e porque não houvesse algo melhor para fazer, em vez de tentar responder à pergunta “por que não tenho algo melhor para fazer?”, ficava a magicar razões para escrever, que acabavam por ser o objeto da minha escrita. Mais do que o clássico “conhece-te”, deparava-se-me o irrespondível “por que escreves?”.
Nem quando escrevia uma carta de amor eu era capaz de confessar a mim próprio que sabia o motivo pelo qual me sentava a buscar as melhores palavras e a mais eficaz concordância entre elas.
Às vezes, mas por razões bem diferentes, perguntava “por que estudas?”, ou “por que lês?”. Estas questões pareciam ser desnecessárias, como perguntar “por que trabalhas?”, ou “por que comes?”.
Hoje, julgo perceber que há um princípio de sabedoria na indagação dos motivos que nos levam a fazer o que fazemos, mais do que na indagação do ser quem somos.
Se considerarmos que cada um de nós é uma ilha, que não há mais do que o ponto de vista de cada um, e que somos seres de linguagem, sociais, que provavelmente não conseguimos demonstrar a objetividade de nada que comunicamos, do mesmo modo que não conseguimos saber até que ponto a subjectividade é comunicada, torna-se desafiante tentar perceber por que motivos tantas pessoas, e eu sou uma delas, se sentem atraídas pela linguagem, sobretudo a escrita, que começa por ser imposta como o fiel e o garante das verdades mais sagradas e mais inquestionáveis, por uma autoridade que remete a sua própria autoridade para essa escrita, como se a escrita, em si mesma, fosse já a face, não de alguma forma de verdade, mas da verdade a que estamos sujeitos, até pelo uso.
Assim que alguém percebe que as palavras para dizer verdades não são as verdades, ou que é preciso usar falsidades para dizer verdades, que é o modo de ser da linguagem, mormente a escrita, o fascínio pela escrita instala-se, se nisso formos tendo um repetido prazer, até se tornar um vício, uma busca do prazer pelo prazer, como um reflexo condicionado de pressionar um botão gratificante.
Na prática, descobrir que é difícil, ou impossível, dizer alguma coisa sem dizer o seu contrário, é como encontrar o santo graal.

sábado, 25 de fevereiro de 2023

Homem de palavra e Homem da palavra

Há poemas que me deixam

boquiaberto sem palavras

e há também palavras como água

que nos engolem se nos detivermos

e isso sabemos da experiência

e de nada mais

o homem da palavra fez deuses

que foram sendo tão iguais a um

único Deus de palavra

pela palavra de Deus

as palavras serviram

para construir as maiores fortalezas

que nenhum exército armado

logrou derrubar

apesar de todos sitiarem

as pontes e os fossos

com palavras de acesso

e sem precisar de coragem

Deus visita cada sitiado

sem abrir brechas

e promete uma passagem

por um túnel de lamechas.


sábado, 18 de fevereiro de 2023

A alma num porta-aviões

Os sonhos eram sempre irrealizáveis

Sonho e realidade 

mas como sonhos que eram

já eram bons

e chegavam a iludir

ao ponto de parecer que os estava a viver

porque eles tinham essa aptidão

de me encher de ânimo

como uma música

ou um espetáculo

e de me mover a atenção

e os músculos

havia sempre o lado agradável

dos sonhos

que me predispunha à gentileza

de olhar para as coisas e para o mundo

a partir da minha vida interior

concebendo as pessoas em cenários

de harmonia e de bondade

a culpa das desgraças

nunca era dos sonhos

os desgostos e as frustrações

não me faziam desistir de sonhar

e tornavam os sonhos ainda mais imperiosos

mas era preciso não ficar apenas a sonhar

parado a imaginar o lado bom das coisas

era preciso agir comunicar sentir

confirmar que existe uma distância

entre a fantasia e a realidade

que a fantasia promete tudo

ao desejo

mas a realidade dificilmente ou nunca

satisfaz

e ainda bem

porque quase sempre a realidade

acabava por dar mais do que prometia

e muito mais do que eu sonhava.