Sempre tive a percepção de que, por um lado, me era exigido um esforço penoso para entrar nos eixos e deixar-me moldar ao que era considerado normal, previsível ou funcional
e, por outro lado, sem que me fosse expressamente exigido, fui compreendendo as vantagens de parecer igual e conformado com toda a gente. Essa aprendizagem é o duro percurso da infância que resiste à disciplina, pelo confronto, fugindo à frustração e à raiva, pelo isolamento e pelo devaneio, e que, pela adolescência se metamorfoseia em ideias e ideais, uns mais quixotescos do que outros, que umas vezes nos deixam mais expostos ao ridículo,
e outras nos fazem tristemente reconhecer que há vantagens em ser Sancho, um elevado preço a pagar por um pouco de convivencialidade, aparentemente normal e salutar? O encanto de alguém não está na sua conformidade perfeita,
mas na sua singularidade? E se esta “conformidade perfeita” for o mais singular colete de forças? Esta loucura não pode ser também magnetizante? E se este for o núcleo irredutível, aquela espécie de excentricidade
constitutiva que resiste à absorção pelo comum, dominando o comum, como um surfista domina as ondas? Mesmo que se transforme num Sancho, “num mundo de Sanchos, sê Sancho”? E se esse mundo for de Quixotes? Há encanto
em ser Quixote e não em ser Sancho? Há mais personalidade em ser Quixote do que em ser Sancho? Que é que torna Quixote amável, que Sancho não tem? Será o ponto em que ele deixa de coincidir com as expectativas do mundo
e dos outros?
O que nos atrai em Quixote é que ele não é simplesmente louco. Há nele uma estranha fidelidade a algo que o mundo perdeu. A honra, a aventura, a justiça, a grandeza dos gestos,
a capacidade de ver mais do que aquilo que está diante dos olhos.
A tristeza nasce da desproporção entre a forma que o anima e o mundo que a recebe. O mundo já não tem lugar para cavaleiros andantes, mas D. Quixote continua a ser cavaleiro.
O imaginário humano não é atraído pelo limite. É atraído pela possibilidade. Quixote representa a possibilidade. Sancho representa a adaptação.
Mas Sancho acaba contaminado por Quixote e este acaba contaminado por Sancho. À medida que a narrativa avança, Sancho começa a acreditar em coisas que inicialmente considerava
absurdas, enquanto Quixote vai adquirindo momentos de lucidez cada vez mais dolorosos. Como se a verdadeira humanidade não estivesse em nenhum dos extremos.
D. Quixote não quer simplesmente ser um homem, quer encarnar uma forma superior de humanidade, quer ser cavaleiro. Quer viver segundo uma figura exemplar. Quer tornar-se a manifestação
visível de um ideal. E é aí que reside o encanto. Quando a maioria das pessoas se adapta às formas vigentes, D. Quixote tenta obrigar o mundo a adaptar-se à forma que o habita. Fracassa quase sempre, mas é esse fracasso
magnífico que o torna amável. Diria mesmo que o leitor não ama Quixote porque ele é excêntrico, mas porque ele leva a sério aquilo que os outros deixaram de levar a sério.
Sancho gere a vida. Quixote é trespassado por ela como por uma lança.
Talvez injustamente, a literatura, a filosofia e até o amor, tenham demonstrado uma estranha preferência
pelos que são trespassados por uma forma, mesmo quando essa forma os conduz ao ridículo, à derrota ou à solidão.
Os Sanchos não são inferiores, mas a memória humana parece guardar melhor aqueles cuja forma excede o
mundo onde apareceram.
A minha Teoria Geral das Formas diria que a "pequena loucura" pode ser entendida como a manifestação de uma forma singular que nunca é totalmente absorvida pelas formas colectivas, culturais ou institucionais.
A minha Teoria Geral das Formas diria que a "pequena loucura" pode ser entendida como a manifestação de uma forma singular que nunca é totalmente absorvida pelas formas colectivas, culturais ou institucionais.
Cada pessoa é moldada,
contaminada, condicionada, colonizada, por formas sociais, linguísticas e históricas, mas há sempre um excesso, uma margem de imprevisibilidade, algo que não se deixa reduzir a categorias gerais e que, em alguns casos,
seja superior às próprias forças do indivíduo, de tal modo que isso é indisfarçável.
Talvez não amemos verdadeiramente, ou detestemos, as pessoas pela parte delas que coincide com as normas, mas pela parte delas que
escapa a essas normas sem deixarem de ser elas próprias.
Afinal, quase todos reconhecemos intuitivamente pela experiência que as pessoas mais marcantes raramente são as mais impecáveis, mas aquelas cujas pequenas excentricidades,
obsessões, manias, vulnerabilidades ou desvios, lhes conferem uma singularidade viva, uma espécie de criatividade.
Há pessoas que se dispõem mais instintivamente do que outras a pagar o custo de darem a cara, em vez de se mascararem, por não abdicarem
dessa liberdade, como se essa liberdade fosse tão importante?
Vejamos. D. Quixote parece ser alguém que se mascara completamente. Veste armadura, muda de nome, inventa uma dama ideal, reinscreve a realidade inteira na linguagem da cavalaria. Só que essa máscara tem a característica singular de ele acreditar nela. Não é uma máscara utilizada para esconder quem é, mas para revelar quem deseja ser. Não funciona como dissimulação, mas como manifestação.
Sancho faz quase o movimento oposto. Não inventa um personagem, apresenta-se como é. Porém, aceita continuamente os limites do possível, do conveniente, do razoável. A sua "máscara", se lhe quisermos chamar assim, talvez seja a prudência.
Vejamos. D. Quixote parece ser alguém que se mascara completamente. Veste armadura, muda de nome, inventa uma dama ideal, reinscreve a realidade inteira na linguagem da cavalaria. Só que essa máscara tem a característica singular de ele acreditar nela. Não é uma máscara utilizada para esconder quem é, mas para revelar quem deseja ser. Não funciona como dissimulação, mas como manifestação.
Sancho faz quase o movimento oposto. Não inventa um personagem, apresenta-se como é. Porém, aceita continuamente os limites do possível, do conveniente, do razoável. A sua "máscara", se lhe quisermos chamar assim, talvez seja a prudência.
O génio de Cervantes descobriu que ninguém se mostra sem forma. Ninguém aparece nu perante os outros. A questão não é se usamos máscaras. A questão é se a máscara serve
para nos proteger ou para nos expor. A maioria das pessoas utiliza máscaras defensivamente. São dispositivos de adaptação social. Quixote utiliza a sua ofensivamente. A armadura não o protege do mundo, entrega-o ao mundo,
que lhe dá pancadas continuamente. A máscara do cavaleiro não reduz a vulnerabilidade de Quixote, aumenta-a. Talvez por isso pareça mais autêntico do que muitas personagens "realistas".
Na linguagem da Teoria Geral das Formas, eu diria que há formas que funcionam como cobertura e formas que funcionam como revelação. A máscara não é necessariamente ocultação. Pode ser a condição através da qual uma forma singular se manifesta. O problema não é usar uma máscara, mas desaparecer atrás dela.
E aqui regressamos àquela minha ideia da liberdade. Talvez haja pessoas que não suportam desaparecer atrás das formas coletivas. Não porque sejam mais corajosas, ou moralmente superiores, mas porque a forma singular que as trespassa exerce uma pressão demasiado forte para ser reduzida ao papel comum.
Sancho protege-se melhor. Quixote expõe-se mais. E a literatura, quase sempre, prefere os que se expõem aos que se protegem.
Na linguagem da Teoria Geral das Formas, eu diria que há formas que funcionam como cobertura e formas que funcionam como revelação. A máscara não é necessariamente ocultação. Pode ser a condição através da qual uma forma singular se manifesta. O problema não é usar uma máscara, mas desaparecer atrás dela.
E aqui regressamos àquela minha ideia da liberdade. Talvez haja pessoas que não suportam desaparecer atrás das formas coletivas. Não porque sejam mais corajosas, ou moralmente superiores, mas porque a forma singular que as trespassa exerce uma pressão demasiado forte para ser reduzida ao papel comum.
Sancho protege-se melhor. Quixote expõe-se mais. E a literatura, quase sempre, prefere os que se expõem aos que se protegem.
Carloas Ricardo Soares
Sem comentários:
Enviar um comentário