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segunda-feira, 22 de junho de 2026

Alfobre de formas e de interpretações, de equívocos e de equivocação

A cultura é como um alfobre de formas e de interpretações, mas sobretudo de equívocos e de equivocação. Por um lado andamos a pregar a desambiguação, clarificação, assepsia, transparência e a preconizar a não promiscuidade, a ritualização dos significados sociais dos contactos, tentando reduzir ao mínimo as zonas das intenções que não se manifestem, ou seja, por um lado, não queremos laborar, nem incorrer, em equívocos sobre aquilo que os outros pensam, ou pretendem, de nós e, por outro lado, há zonas do foro individual, imperscrutáveis, até para o próprio indivíduo, que nunca saberemos, se elas não tiverem expressão manifesta inequívoca.
O problema da interpretação das formas, sexualizadas pela cultura, salvo melhor opinião, não pode deixar de ser visto segundo os códigos, mais ou menos implícitos, de interpretação dessas formas, uma vez que elas existem por isso e para isso. 
A cultura nunca é apanhada de surpresa quando se trata de formas culturais, culturalmente construídas. Elas têm a sua função. Mas o que há mais é quem se equivoque e equivoque e não queira saber de equívocos, porque, por exemplo, se está nas tintas e decide interpretar como lhe der na veneta. 
Qual a origem do equívoco quando pensamos que o que nós fazemos "deve" ser interpretado como nós queremos, ou gostamos, e não como os outros podem interpretar? 
Existe um modo culturalmente adequado, eticamente correto, de interpretar aparências de pessoas, nomeadamente em função dos contextos?
E nós, de que estamos à espera? Somos cúmplices da tirania cultural, ou oferecemos-lhe resistência?

           Carlos Ricardo Soares