É plausível, rigoroso e filosoficamente defensável afirmar que existe escrita séria e escrita não séria, escrita honesta e escrita desonesta, desde que não confundamos isto com valor estético, qualidade literária ou gosto.
A honestidade da escrita é medida pela relação entre o autor e a sua própria forma. Não é fácil ser impostor de si mesmo para si mesmo.
A escrita séria é sempre a escrita que se escreve para si, antes de ser escrita para os outros. A escrita séria começa por ser instrumento do próprio trabalho, ou instrumento desenvolvido pelo escritor para realizar melhor o seu trabalho e, só depois, se também fizer sentido para os outros, será ou não partilhada.
A seriedade da escrita não coincide com verdade, nem com sinceridade psicológica, nem com valor estético, nem com veracidade factual. Coincide com a origem da escrita, com a sua função vital, com a sua necessidade formal. A escrita desonesta não é a que mente, é a que finge necessidade. Só é desonesta se pretende fazer-se passar por séria. Não é uma questão de ser, ou não ser, ficção, invenção, imaginação, fantasia, mentira literária. Tudo isso pode ser profundamente honesto.
A escrita desonesta é a que simula necessidade interior, imita profundidade, finge trabalho da forma, usa recursos retóricos para parecer séria, encena uma origem vital que não tem. É para ser vista, mas quer parecer escrita sem esse fito. A escrita séria é anterior ao estilo e anterior à escolha dos recursos linguísticos.
Este é um bom ponto de partida para clarificar a confusão, que grassa por aí, sobre a escrita com IA, porque a distinção entre escrita séria e escrita desonesta não depende do instrumento, mas da origem formal da escrita. A escrita séria é sempre uma escrita que se escreve para ver e pensar melhor. A escrita desonesta não obedece, nem é resposta a uma pressão vital, mas tem intenção social. A escrita com IA é desonesta quando é usada para simular profundidade que o autor não tem, para parecer que se trabalhou quando não se trabalhou, para ocupar espaço simbólico sem forma vital, para produzir texto sem pensamento. Ou seja, a IA não cria desonestidade, apenas amplifica a origem formal da escrita. Diferente de a escrita ser originada pela necessidade do autor e a IA ser uma ferramenta, é a escrita nascer da intenção social de ocupar espaço simbólico, fazendo-se passar por honesta, e a IA funcionar como máscara.
Arriscaria a tomar como lema que a única escrita séria, autêntica, honesta, de boa fé, sem pretensiosismos, nem exibicionismos, ainda que utilitária para o próprio e que, por via do reconhecimento, do próprio, da utilidade ou interesse, que também pode ter para os outros, ele a partilha, talvez seja, dizia, aquela que começa por ser um instrumento de trabalho, um guia, roteiro, uma concepção, uma arquitectura, uma visão que se escreve para melhor ficar desenhada, descrita, articulada, estabilizada, fixada num suporte tangível.
Não é fácil ser impostor de si mesmo para si mesmo, por mais ilusões que se tenha, ou erros que se cometam.
Sou mais a favor de uma escrita que começa por ser para o próprio autor, que descobre o interesse e o valor de o fazer livremente sem outros motivos, ainda que se sinta tentado a ganhar com isso, sabendo embora que o mercado, não apenas em sentido restrito de mercado editorial, mas de reputações e de vaidades, esteja em ruína, a caminho do colapso, talvez porque a escrita deixou, em grande parte, de ter a autenticação da honestidade de começar por ser a resposta a uma necessidade, ou interesse, de escrever para si próprio, na qual só conta o valor que se lhe reconhece, e passou a ser uma forma de busca de reconhecimento social que depende de muitos fatores e variáveis, nem sempre, ou quase nunca, relacionados com aquilo que se escreve.
Por outro lado, enquanto a facilidade com que se publica se foi tornando cada vez maior, mesmo a expensas do próprio escritor, a dificuldade em encontrar leitores cresceu exponencialmente. Isto foi-se tornando sensível à medida que proliferaram portais de literatura, blogues, redes sociais, que levaram ao paroxismo, o mercado da atenção e as disputas por uns segundos de visibilidade, num mundo já saturado de marketing e de publicidade de produtos de consumo passivo.
Ao contrário destes consumos passivos, a fruição da escrita e da literatura exige e depende do leitor, mesmo que seja um leitor pouco competente, que fica com o ónus de comprar o livro e de gastar umas boas horas a lê-lo, que poderia gastar noutras atividades, talvez menos exigentes, talvez mais interessantes e divertidas, talvez mais compensatórias. Neste cenário, notório para mim desde há uns anos, em que todos querem ser lidos e poucos leem e em que, não poucos, nem sequer leem o que escrevem, abundam bibliotecas sem leitores, como templos sem fiéis, cuja função turística, também cada vez mais, parecem estar a perder.
Haverá volta a dar?
De resto, quem passou pelos sistemas de ensino, e de educação, depressa percebeu, à saída, que os mecanismos de incentivo e de confiança necessários ao funcionamento da fábrica, não passavam disso mesmo, de mecanismos necessários para manter a fábrica a produzir. Esse sistema, altamente corporativista, que tanto valoriza conhecimento, arte e talento, dentro da corporação, tende a tratar como irrelevante, ou mesmo como ameaça, e ignora seletivamente, tudo o que se produz fora, porque, na realidade, o conhecimento, a arte e o talento, são administrados e geridos como produtos e como mercadorias. O trsunami ainda não chegou, mas devemos preparar-nos.
Carlos Ricardo Soares
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