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sábado, 2 de novembro de 2019

Fugir ao destino - Big bang

Será que podemos fugir ao destino? O destino, por natureza, é triste e, muitas vezes, trágico. Não precisamos de ser muito sábios para constatarmos a realidade do destino. Tudo isto é fado, tudo isto é triste, ou, tudo isto é triste, tudo isto é fado. Não se trata de optimismo ou de pessimismo. Optimismo ou pessimismo, cada um toma o que quer.
Talvez nenhuma espécie, como a humana, viva o dilema e o problema de as coisas não terem de ser como são, mas serem como são, apesar de não deverem ser como são.
Volto ao princípio: será que podemos fugir ao destino?
Tudo indica que sim e tudo indica que não. O big bang pode ser entendido como uma fuga ao destino. No entanto, cumpriu o destino. E, assim, tem sido ao longo de milhões e milhões de anos. Nos últimos séculos, os registos históricos revelam que a humanidade tem estado tão obcecada a fugir ao destino, que quase não tem tempo nem disponibilidade para mais nada. E, assim, cumpre o seu destino de fugir ao destino.
Inventa-se tudo, pensa-se em tudo, sacrifica-se tudo, faz-se tudo, para escapar ao destino. Mas o destino é cada vez mais destino.
Sem querer ser "totalitário", diria que todas as revoluções, toda a discussão e dialéctica entre o bem e o mal, toda a cultura e todas as guerras, quiseram moldar o destino e conseguiram-no.

sábado, 26 de outubro de 2019

Pão pão, queijo queijo

Um discurso no qual cabe tudo e mais alguma coisa é um discurso vazio, opressivo, violentador da atenção e das expectativas de coerência.
Se o pensamento tivesse tímpanos, rebentariam.
Receio bem que a Escola esteja demasiado inundada por esta onda devastadora de palavreado psicadélico.
Ainda não compreendi por que razão a maioria das pessoas não prefere o "pão pão, queijo queijo" das ciências, nomeadamente da natureza, em que cada coisa tem um nome e uma função e uma composição.
Só por isto, por a escola não ser capaz de mobilizar as aprendizagens para o "pão pão, queijo queijo", inclino-me a pensar que tem muitas ineficiências.

domingo, 13 de outubro de 2019

Mais perigosa do que o buraco do ozono

A ciência e a técnica e as tecnologias vieram estabelecer (fazer com que se estabelecesse) um sistema de prioridades e de valores que tende, senão a desprezar, pelo menos a relegar para plano secundário, ou irrelevante, a história, o sentido e o conhecimento do passado.
O capitalismo financeiro e o capitalismo industrial formaram a dupla perfeita e são a dupla perfeita para a promoção da ciência, da tecnologia e de tudo o que possa dar retorno (estou a falar de dinheiro).
Infelizmente, os critérios do retorno (capital financeiro) não são sustentáveis, e nem questiono se são desejáveis ou se são eticamente admissíveis.
Também foi uma pena imensa não ter havido da parte de ninguém uma previsão (visão) da furibunda barbaridade que se estava (e está) a cometer contra o planeta (em troca de mais dinheiro, para cometer mais barbaridades, em troca de mais dinheiro...).
O melhor dos mundos possíveis instalou-se e o dinheiro, que avançava na forma de tanques de guerra, passou a chover sob a forma de bombas em cima de cidades incrivelmente belas, com uma história incrível. Mas que ficaram reduzidas a cinzas (as cidades e as pessoas). As cinzas não fazem história.
Hoje interrogo-me se posso dizer que não participo ou participei
(conscientemente) em alguma guerra (do dinheiro e seus servidores).
As guerras tendem a ser vendidas como amor, mas as suas consequências são desastrosas.
E, se calhar, não merecemos mais do que isso. Mas aqui acabam os direitos do homem. Se é que alguma vez existiram verdadeiramente.
A ciência e a tecnologia e os poderes políticos colocam-se de tal modo ao serviço da ignorância e da estupidez, que é preciso criar um super poder que o impeça, que impeça a vaga (espiral) de destruição bélica e punitiva, quando não são apenas comportamentos chauvinistas e xenófobos, aberrantes (e cá vem a palavra proibida "odiosos").
A cultura não tem chegado a todos.
Muitos episódios, de que temos conhecimento através dos noticiários (os meios de difusão e de comunicação também servem para isto), revelam um desconhecimento preocupante, por parte de populações urbanas de países desenvolvidos, do significado de igualdade, liberdade, direito e, pior do que isso, uma ausência de percepção ou sentimento de reciprocidade, negando a lógica inerente ao "meum et tuum", que sustenta o entendimento do respeito do indivíduo.
Esta lacuna é mais perigosa do que o buraco do ozono, mas não vi nenhuma comunidade científica a vaticinar tragédias.

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Democracia e boa governação

O estado crítico da matéria é um dos mais avançados estados que a matéria pode atingir.
No momento atual, quando me perguntam em quem vou votar, sinto um nó na garganta, porque penso que está instituída uma cultura de perseguição pelo voto.
Um pouco mais de "propaganda" e essa cultura deixaria cair a máscara e mostraria, com orgulho, o rosto de alguma máfia. Se eu estivesse metido no aparelho político não falaria assim, sob pena de me considerarem louco.
Mas a sacrossanta democracia paira, com a sua auréola, apesar da inaptidão dos partidos, que têm provado não ser dignos dela.
Todos a invocam, mas fazem-no porque transferem as suas incompetências e falta de ideias para governar, para o inequívoco potencial da democracia para proporcionar as condições para o melhor dos governos. Como se a democracia, por si só, resolvesse os problemas, ei-los à cata de votos. Mas isto é enganoso, é querer que as pessoas pensem que votar resolve os problemas. Mas os problemas que a democracia resolve, ou previne, não se confundem com os problemas que os partidos são chamados, mandatados, para resolver. Democracia não é garantia de boa governação. A boa governação não é possível com os partidos que têm governado. Lançaram o país num pântano e não têm ideias de como sair dele. Eles mesmos estão atolados, atados, acusados, descredibilizados, a precisar que os salvem através do voto. O voto, para eles continua a ter um valor inestimável. Para eles, porque, para o cidadão, só tem valor na medida em que tem valor para os partidos. O que era importante, que o voto tivesse valor porque podia resolver problemas, ainda não está ao alcance do voto. A democracia não tem culpa de não termos partidos com as soluções de que tanto precisamos. Não basta ficarmos a saber de que lado está a maioria. Falta concretizar políticas que sejam as melhores.

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Por um mundo melhor

Apetece perguntar "quem pode dar-se ao luxo de estudar Humanidades?".
Ninguém melhor do que os estudiosos e versados em Humanidades para explicar porquê, como e quem, ao longo da história, se dedicou às Humanidades.
Mas há cientistas que, inevitavelmente, mergulham nesse imenso passado de estudo e investigação, para nos contarem histórias de escolas e de indivíduos, sábios do seu tempo, que estudavam e investigavam sem outro objectivo que não fosse o de conhecer, o de responder a perguntas, a maior parte das vezes, de meros problemas sem repercussões económicas.
O passado exerce sobre a nossa curiosidade um poder "gravitacional" tão intenso e tão forte que nem precisamos de ser convencidos da sua importância. Se o passado está prenhe de futuros que não aconteceram, também esteve prenhe de futuros que aconteceram e continua prenhe de futuros.
Vivemos uma era de inseminação artificial.
Os lunáticos que viviam obcecados com a observação e a explicação do espaço sideral não conseguiam trocar noites a fio, a localizar estrelas e constelações, por um saco de batatas. Acreditariam eles que estavam no caminho das importantes descobertas científicas que se concretizaram nos últimos séculos da nossa era?
Mas estavam a inseminar e, de algum modo, apostavam nisso, em vez de apostarem noutra coisa.
Comparativamente, os progressos do conhecimento das últimas décadas, ou séculos, foram uma explosão de "nascimentos", após uma inseminação, gestação de milénios.
Para explicar o mundo, um cientista ocupa mais de 2/3 do seu trabalho a descrever o objecto das atenções dos antigos e as dificuldades que encontraram e que não conseguiram resolver.
Não obstante, explicar o mundo, numa perspectiva da evolução da ciência, exige e impõe que se explique a parte não menos importante do mundo, que é o mundo propriamente dito, a humanidade, os fenómenos sociais, os factos sociais, a realidade social.
Em boa hora, Augusto Comte, Karl Marx, Herbert Spencer, Durkheim, Max Weber, entre outros, procuraram aplicar o método científico à investigação e exploração da realidade social.
Os governos de hoje, os parlamentos de hoje, os partidos de hoje, a visão do mundo de hoje, os programas e as agendas políticas, culturais, económicas e científicas, devem tanto ou mais aos revolucionários da análise e do pensamento sociológico dos dois últimos séculos, como a todos os seus predecessores juntos.
E estou convicto de que as Economias de hoje assentam maioritariamente na riqueza gerada pelas Humanidades, Artes, Espectáculo, Desporto, Comunicação, Entretenimento, Jogos, Lazer, Cultura, Saúde, Direito(s)...
Nenhum governo, em países democráticos, escapa ao poder e à pressão crítica de um mundo que quer moldar os governos e não aceita ser moldado.
Tudo, em princípio, está na disponibilidade do homem, excepto o próprio homem, que não é disponível por nada, nem por ninguém.
Esta condição humana é a fonte, diria, de toda a conflitualidade e da esperança num mundo, não apenas mais conhecido, mas melhor.

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Ficar no poema

Dói não poder
ficar no poema
como se fica num tempo
inexplicável
como uma paisagem
com que se depara
nos prende
como numa viagem
que ainda não é de regresso
como uma janela se abre
ou como a chave
de que não vemos a porta
ou como a porta
de que não vemos a prisão.

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Livros e bibliotecas

Esta sensação de que, embora haja imensos livros e bibliotecas, o mais importante ainda está por ler ou escrever... 
Uma parte da sabedoria estará em resistir à tentação de pretender ler tudo ou escrever tudo. 
Cada vez mais me contento com ler e ouvir, em cada momento, aquilo que faz sentido, dentro do quadro de sentidos que a vida permite.
Sem dúvida, a literatura é o caminho, apesar de ser o caminho mais desamparado e mais solitário. 
Mas é o caminho por onde todos podem seguir, se quiserem, basta saber escrever, nem é preciso saber escrever de certo modo, porque a literatura é aquilo que cada um quiser escrever. 
Este direito e esta liberdade, que eu saiba, só existe na literatura. 
Até os cientistas e os filósofos e os engenheiros e os médicos, e os artistas, em geral, incluindo os políticos, deviam perceber (muitos percebem e sabem muito bem) que a literatura é o reino em que cada um pode ser rei, o paraíso em que cada um pode ser deus, o inferno em que cada um pode ser demónio, o mundo em que cada um pode ser sábio. 
É o maior desafio intelectual, e não só, porque os seus domínios não conhecem limites que não sejam os da criatividade, conhecimento, sabedoria, arte, de cada um.

Carlos Ricardo Soares

domingo, 11 de agosto de 2019

A poesia está para além das estrelas e leva-as

A poesia está para além das estrelas e leva-as para lugares onde elas não podem estar, mas fazem falta. 
A poesia está para aquém das estrelas e trá-las para lugares e momentos em que não seriam poéticas, se não fosse a distância. 
A poesia das estrelas e a ciência das estrelas não se prejudicam, mas se quiseres fazer um poema sobre o sol é inútil reproduzir o que a ciência diz no respectivo manual. 
E, se quiseres explicar o que é o sol, podes precisar de citar/escrever apenas um poema... 
As estrelas e o astro... sol... não são poemas, nem são ciência, mas as estrelas da minha noite e o sol do meu paraíso, ou inferno, podem ser mil poemas...