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sábado, 2 de março de 2024

Ser ou não ser humanista

Independentemente de serem ou não serem conciliáveis dogmas ou discursos religiosos com outros discursos ou mesmo com dados da experiência, o que não vou discutir, por serem irrelevantes para a minha questão quanto ao humanismo e às publicações de um grupo de humanistas, quando penso em humanismo tenho sobretudo em mente que é o homem e apenas o homem que dá significado e atribui sentido a tudo, incluindo o próprio homem e quaisquer noções de humanismo.

Partir desta simples constatação de facto é fundamental para entendermos a autoria do ser humano em tudo o que podemos reconhecer como cultura e reconhecermos que, fora do ser humano, do indivíduo humano, há aquilo que não foi criado, nem produzido por ele e que, comummente, se designa de natureza, por oposição a cultura.

Esta constatação é fundamental ainda para definir a esfera do humano relativamente àquilo que não é humano.

Para ser humanista não basta ser contra tudo o que seja contra o homem, é ainda necessário ser a favor e promover tudo o que for favorável à sua realização. Mas é ainda necessária uma condição sem a qual aquelas duas posições colapsam: reconhecer e respeitar a igualdade de direitos e liberdades de todos os indivíduos humanos (não apenas quem nos apetece) e, no limite desta lógica, de todos os outros seres vivos e da natureza, porque a razão pela qual o ser humano deve ser respeitado e promovido é a mesma pela qual tudo o que não é humano também o deve ser.

E, quanto à liberdade de cada um agir sobre os outros seres vivos e sobre a natureza, ela só tem razão de ser na necessidade de sobrevivência à custa deles.

Basicamente, o direito dos humanos relativamente aos outros humanos, numa simples lógica de igualdade, autonomia, liberdade e reciprocidade, é o direito de não ser prejudicado por eles. Relativamente aos outros elementos da natureza, incluindo seres vivos, aplica-se o mesmo princípio.

Pensar em humanismo não pode passar ao lado destas considerações (humanas) de que o “tu” não é apenas o humano que eu reconheço como tal é também o que, reciprocamente, me reconhece a mim.

Nas relações com a outra natureza, seres vivos incluídos, não posso esperar senão que me reconheçam em função das suas aptidões e dinâmicas de interação física e bioquímica, mas não tenho um direito de disposição sobre eles para além das minhas necessidades de sobrevivência e, nas disputas humanas que sobre eles houver, todo o abuso e dano carece de justificação.

Por aqui se vê quanto estamos longe de sermos humanistas que colocam o indivíduo humano no topo dos valores e, justamente por este ser o autor, a fonte e intérprete dos mesmos, também o único responsável.

Nenhuma ideia deve ser, nem merece ser defendida contra um direito do homem, do ser humano, que o ponha em causa.

As ideias, a maior parte das vezes, prestam-se ao papel de armadilhas poderosas para capturar e neutralizar, ou anular determinados homens. Mas não devem servir para isso, até porque, se servem para capturar uns, também podem servir para capturar os outros.

Nesta ordem de ideias, mitos, deuses, religiões, filosofias, ciência, paganismo, judaísmo, cristianismo, islamismo, humanismo, enfim, toda a cultura, não são mais ou menos racionais, são racionais, o mais e o menos não são atributos da racionalidade e os atos são racionais, as manifestações de cultura são atos, são racionais.

É desta faculdade que, nos humanos, por efeito de uma necessidade de verdade (ter razão, estar certo), de direito (de acordo com a razão), moral, a que chamaria instância de dever-ser, em função da ética, decorre aquilo que, vulgarmente, se designa por progresso.

Na minha teoria o progresso é uma consequência, efeito, resultado, das escolhas ditadas em função daquele dever-ser. Mesmo que não fosse assumido como um programa e como objetivo, o progresso só poderá ser impedido, ou travado, por força das circunstâncias imprevistas, ou inelutáveis.

O mecanismo que criou deuses e demónios é o mesmo que criou o humanismo e as tecnologias.

Ao dizer que não há racionalidade mais ou menos racional não estou a significar, nem a querer dizer, que todos os indivíduos pensam sobre os mesmos termos com idêntico grau de consciência e de avaliação das possibilidades.

Cada indivíduo desenvolve mais ou menos atividade mental, intelectual, dentro de condições próprias, endógenas e exógenas, de acordo com situações e contextos, mais ou menos acidentais, mais ou menos voluntários e premeditados, dirigidos ou preparados para o trabalho de pensar.

Assim, por exemplo, o labor intelectual subjacente à elaboração e escrita deste artigo, envolve mais atos de racionalidade e de conexão entre memórias, onde a intuição opera e promove também memórias de conexões de memórias, do que se estivesse displicentemente a conversar, por exemplo, sobre o frio que faz hoje, mas a faculdade de racionalidade é a mesma. E, por outro lado, há efetivamente um conjunto de conclusões e uma sistematização de informação, a par de um processamento de conhecimento daí derivado, que é algo do mundo do pensado, inteligível, da linguagem, da codificação, mas que não deve considerar-se do mundo do sensível, da experiência. Não seria capaz e não me parece que seja possível, por exemplo, transmitir estas ideias através de sensações não codificadas.

E mesmo assim, codificadas, não posso ter certezas sobre a descodificação, por causa da subjetividade funcional e interpretativa do descodificador.

Carlos Ricardo Soares

sábado, 24 de fevereiro de 2024

Malfeitores

Os sonhos eram feitos a partir

De imagens do que víamos

E partilhávamos

Mas os nossos pensamentos

Inquietavam-nos com algo

Que não sabíamos

Quando mais tarde recordávamos

Todas aquelas imagens

Do mundo à nossa volta

Eram as imagens que depois

Abandonávamos

E esquecíamos

Embora mais tarde nos surpreendam

E façam sentir saudade

Inexplicável saudade

Mas agora sabemos

Que a vida

É esta imparável mobilização

De insatisfações

De ânimos solidários

De sonhos

E de pensamentos

A desbravar espaços

A reclamar justiça

A exigir liberdade

A condenar malfeitores

A proclamar a verdade.

              Carlos Ricardo Soares

sábado, 17 de fevereiro de 2024

Aproximações à verdade XXIV


Hilário: boas memórias?
Amiga: se tivesses que lembrar, em duas palavras, sem hesitar?
Hilário: uma inexplicável gratidão por todas as mulheres que me compreenderam
Amiga: e memórias más, ou menos boas?
Hilário: desculpa? não percebi. Ah, sim, o contrário?
Amiga: a vida também é feita de coisas desagradáveis
Hilário: nessas só penso quando algo me diz que já passei por isso e não gostei
Amiga: estávamos a falar de mulheres
Hilário: acredito num poder intuitivo para curto-circuitar mal entendidos
Amiga: como galã és um fracasso
Hilário: olhando para trás, diria um desastre
Amiga: mas houve mulheres que te compreenderam

Carlos Ricardo Soares

sábado, 10 de fevereiro de 2024

Imperativo de verdade, imperativo moral e imperativo ético-jurídico

A ética da responsabilidade é uma redundância que se justifica pela necessidade de enfatizar o dever. Eu diria que a fonte do dever é a função de verdade inerente ao inseparável binómio consciência/racionalidade. O humano é a fonte de verdade e de falsidade, de mal e de bem, além de ser produtor de causas, mas não de efeitos.

O sentido do dever e o sentido do direito são correlativos, de um ponto de vista lógico, mas não percepcionados, ou nem sempre percepcionados como tais, ou seja, quando falamos de direitos do indivíduo, afirmar um direito da pessoa humana é, implicitamente, ou correlativamente, ou consequentemente, afirmar o dever de respeitar esse direito. Mas a afirmação e prescrição de um dever, na prática, revela-se algo mais difícil de aceitar e de sustentar e de legitimar do que afirmar e prescrever um direito. Este é entendido como uma conquista natural, como algo devido, enquanto que aquele não, antes pelo contrário, por hábito e tradição, tem havido deveres a que não correspondem direitos positivos, sobretudo para quem está numa posição de sujeição ou escravatura, e situações de direitos e privilégios a que não correspondem deveres.

Normalmente, as declarações de direitos fundamentais do homem são declarações de direitos e não de deveres, como se bastasse aquela. Talvez por serem declarações originadas de revoluções político-sociais, reivindicativas, de libertação, a tónica nos direitos pareceria, à primeira vista, ser mais favorável, evidenciando a conquista desse estatuto.

Se, de um ponto de vista lógico, parece não fazer diferença entre declaração de direitos e declaração de deveres, uma vez que a um direito corresponde um dever, o meu direito à vida implica o meu dever de respeito pela vida dos outros, na prática, é muito diferente para as pessoas dizer que têm direito, ou que têm o dever. Assim, enquanto o dever é mais expressamente prescritivo de ação, por exemplo, quando diz “deves circular pela direita”, em vez de “tens o direito de circular e de ultrapassar pela esquerda”, ou, “é proibido circular pela esquerda da faixa de rodagem”, já o direito é muito menos enfático e expressamente prescritivo. Assim, o meu direito à vida significa sobretudo que todos, incluindo eu, se devem abster de desrespeitar, violar, aquele direito. No fundo, é um dever de omissão, de proibição de uma ação censurável. Ou seja, não envolve nenhum imperativo, ou ordem, de preocupação ou responsabilidade pela vida do outro. Se em vez de dizermos a um rico poderoso que ele tem direitos fundamentais, lhe disséssemos que ele tem deveres fundamentais, o sentido e eficácia dessas prescrições poderiam ser maiores.

Diria que, desta forma, os direitos são definidos pelo mínimo de quem não pode e pelo máximo de quem pode mais, sendo que o dever também é pelo mínimo. O direito à liberdade de um carenciado, sem poder, não lhe assegura as mesmas condições do direito à liberdade de um rico e poderoso. E não impõe nenhuma obrigação específica ao rico e poderoso. Ou seja, são iguais quanto aos deveres que supõem, ou implicam, mas diferentes quanto aos direitos efetivos que envolvem.

Talvez devêssemos pensar um pouco mais no caso do código da estrada, que afirma, predominantemente, deveres e proibições, em vez de direitos e faculdades.

Não vou ao ponto de defender que, por defeito, ou como regra, o ordenamento jurídico definisse deveres e só por excepção direitos, à semelhança do direito fiscal, em que o caráter unilateral do dever é muito acentuado, mas talvez se pudesse pensar numa solução em que a afirmação geral e abstrata de um direito civil não se traduzisse, na prática, numa vantagem para os favorecidos, que não têm nenhuma obrigação ativa, e numa desvantagem para os desfavorecidos, para quem o direito se revela, praticamente, vazio de efeitos.

Quanto aos direitos fundamentais constitucionais e à declaração universal dos direitos do homem, o serem estabelecidos pelos direitos e não pelos deveres parece-me bem e está em consonância com serem declarações de direitos face aos poderes, nomeadamente políticos, do Estado.

Numa perspetiva mais civilística da ordem jurídica, há sempre quem entenda que o seu direito à vida é inviolável, mas não pense que o direito à vida dos outros o é igualmente. Para quem assim pensa poderia ser mais pedagógico prescrever o dever de respeitar o direito à vida, colocando a tónica do direito no outro e o ónus no eu. Até em tribunal, poderia ser mais fácil invocar e arguir o dignificante e nobre dever de respeitar do que o “penitente” e humilhado direito de ser respeitado.

Se há um imperativo categórico, ele há-de ser categórico para ser imperativo e não o contrário. E há-de ser categórico por força da necessidade moral, resultante da lógica de identidade e de não contradição, da função de verdade que rege o processo de pensamento consciente. É no domínio da consciência e do conhecimento, da ciência, que reside a esperança, não propriamente numa responsabilidade/responsabilização, mas numa humanidade que faz boas escolhas. Também faz falta enfatizar uma ética da responsabilidade por boas escolhas, embora seja mais popular e bem aceite punir do que sancionar positivamente. A punição não é vista como discriminação, enquanto que o reconhecimento tende a ser uma forma de desvalorizar, ainda que indiretamente, os não contemplados.
Uma das dificuldades dos humanos em conhecer a realidade está no facto de termos uma percepção qualitativa da realidade. Como organismos vivos, essa percepção é fundamental e até dispensa o conhecimento. O que eu designo de imperativo de verdade, ou simplesmente função de verdade, como necessidade lógica, princípio do pensamento lógico, ou inerente ao princípio de identidade e de não contradição, por ser meramente teórico-abstrato, e resultar de uma faculdade intelectual, de exercício, em vez de uma determinante necessidade natural inelutável, mesmo quando é ativado e exercido pelo indivíduo, tende a ceder aos reflexos de sobrevivência e a toda a cultura acomodatícia do interesse, individual e de grupos, ao ponto de ser corrente que, na maioria das situações, as pessoas só considerem verdadeiro, justo, o que lhes for favorável, ou concordante, não propriamente com o que pensam, mas com os seus interesses. O imperativo de verdade opera numa instância logico-quantitativa das representações mentais, enquanto que as percepções humanas são percepções qualitativas da realidade. Estas são fundamentais para a sobrevivência e até dispensam aquela função de verdade, que é normalmente a fonte de todos os problemas sociais. É ela que coloca em confronto os egoísmos e as subjetividades e não dá tréguas.

Carlos Ricardo Soares

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

O ópio do povo

Karl Marx, talvez a pensar que estava a fazer uma crítica severa à religião, com a frase "A religião é o ópio do povo", talvez não tenha pensado que dificilmente lhe faria melhor elogio. Assim o merecesse a religião. Haver algo que, sem ter os efeitos secundários, intelectual e fisicamente devastadores, sem as náuseas, vómitos, ansiedade, tonturas e falta de ar, de uma droga como o ópio, tivesse apenas os efeitos de alívio da dor e da ansiedade, diminuição do sentimento de desconfiança, euforia, flash, sensação de bem-estar, tranquilidade, letargia, sonolência, seria uma solução provavelmente preferível à luta de classes.
Mas eu não queria ir por aí. O que faria arrepiar Dante Alighieri, duvido que mentes nadas e criadas em ambiente de vedetismo pimba e fervor futebolístico clubopartidário, que induzem ardilosamente um farrapo, passe a expressão, sem intenção depreciativa, a sentir-se e a comportar-se como um rei, passe a expressão, sem intenção apreciativa, tenham alguma possibilidade de serem resgatadas porque, infelizmente, julgo eu, se houvesse forma de o fazer, e outro mundo para oferecer, elas lutariam até à morte para ficarem no mundo que é o delas, até porque teriam que reaprender tudo.
Por outro lado, por mais que se promiscuam e se interpenetrem, os poderes alimentam-se uns dos outros e uns aos outros. O jogo nunca está ausente e as bancadas também fazem parte do jogo. Os espectadores, cada vez mais fazem parte do espectáculo, sobretudo se forem espectadores qualificados. Existe um efeito de comprometimento, por exemplo, entre políticos e agentes do futebol, que é mais um ingrediente a adensar as tensões. 
No turbilhão e na barafunda, todos credibilizam todos e ninguém credibiliza ninguém. 
É tudo ao molho e fé em Deus. 
Até Deus tem de estar lá e, se possível, em destaque, com a devida veneração.
A sensação que tenho é que ninguém escapa a este espectáculo total e não há instância onde possa apresentar queixa de o mundo ser tão triste assim. 
Assim, à semelhança do reino dos corruptos, traficantes e contrabandistas que zombam das alfândegas da lei e da fé. Assim, à semelhança dos que apostam na visibilidade e têm prejuízo nisso. Porque é preciso dar palco a toda a gente se se pretende conhecer a gente, dar liberdade para ser e se mostrar quem é para se poder agir em conformidade. 
No futebol, na religião, na guerra, na política, para só falar em áreas competitivas tradicionalmente conflituosas e devastadoras, em contraste com as ciências, a filosofia, as artes, a literatura, que podem ter a plumagem e os tiques daquelas, mas não têm as garras, nem o dinheiro, as insígnias, as bandeiras, os hinos, os espíritos (desportivo e outros) são o piloto, a razão e o princípio que todos esperam que prevaleça, contra tudo e contra todos. Todos esperam que, a cada momento, o seu rei seja rei para si como para os outros. E esta condição das massas, a necessidade de alguém, ou de algum fantoche, que exerça a autoridade, que se imponha a todos e não apenas a uns quantos, ainda é mais preocupante e triste se for uma fatalidade.
 
Carlos Ricardo Soares

domingo, 28 de janeiro de 2024

Destinos

Senti que era ali o fim

da terra

que o mar já eras tu

o sol brilhava

como eu via os teus olhos

os horizontes

destinos

sem nenhuma tempestade

anunciada.


Carlos Ricardo Soares

sábado, 20 de janeiro de 2024

O lado de fora e o lado de dentro das grades


Um fado demencial

cantado ao ritmo metalúrgico

de guitarras enlouquecidas

por lagartas de blindados

numa invasão

podia ser evasão

mas grades intangíveis

só têm um lado

o da prisão

o lado de dentro.


Carlos Ricardo Soares

sábado, 13 de janeiro de 2024

Deus não fala

Aquele é um lugar de silêncio

Deus não fala

a possíveis perguntas

todas as respostas estão dadas

em grandes abstrações

na semiobscuridade

os visitantes ajoelham

diante do crucificado

ainda antes de confessarem

a sua humilde condição de pecadores

contritos

de mostrarem arrependimento

e de pedirem perdão

sabem que estão absolvidos

pela lei do amor

antes de serem julgados

pelo supremo juiz

infinitamente bom

misericordioso e abstrato

em troca de um propósito firme

de emenda

e de penitência orando

serão redimidos

pela prática da virtude

e pela fé na adoração

e com o conforto que sentem

do dever cumprido

levantam-se e saem

para o bulício exterior

com a luz

a bater-lhes nos olhos

lembram da realidade da vida

e do que há a fazer.


Carlos Ricardo Soares

domingo, 7 de janeiro de 2024

Absolutamente

São demasiados rios

para tão poucas margens de erro

demasiadas tempestades

para tão frágeis pontes

insustentáveis pontos

de vista alegre

inconsistentes margens

na fluidez

das miragens

da solidão

qualquer coisa de

absolutamente.


Carlos Ricardo Soares

sábado, 30 de dezembro de 2023

De ti

Havia a rua

quase no fim

o aqueduto

à esquerda

pelo botânico

passo a passo

se me esperasses

no jardim

de plantas exóticas

de ultramares só meus

intermináveis enfim

sem cansaço

ao adeus

os meus olhos erguiam

árvores de respiração

da formosura que vi

tudo me lembras

e tudo me lembra

de ti.


Carlos Ricardo Soares

 

sábado, 9 de dezembro de 2023

Se não podes lutar, nem fugir, resta o SOS

Perturbador e desmoralizante é percebermos que para onde quer que fujamos, para onde quer que dirijamos as nossas queixas, lá está mais um partido, ou sindicato, ou ordem, ou exército (angariador de angustiados e perseguidos, a firmar contrato com uma máfia certificada pela democracia, ou por outra merda qualquer, para expatriados à força) a alistar-nos nas suas falanges. 
Foges de um partido, entregas-te nos braços de outro. 
Foges dos partidos entregas-te nos braços dos bancos e dos sindicatos. 
Tens de vender o que vales e há sempre uma missão de rua, caridosa, que aceita os teus despojos e a tua revolta, se a tiveres, para lhe atribuir um valor simbólico. 
Queixamo-nos de que as instituições falharam e nos traíram, e hoje sabemos que o fazem impunemente, mas na realidade nós nunca fizemos qualquer acordo com elas, caímos nas mãos delas e foram elas que prometeram, umas às outras (nem foi a nós) e ao mundo e aos melhores deuses do olimpo, fazer por nós algo que, sinceramente, nunca acreditamos que quisessem fazer. 
Mas como vinculá-las e obrigá-las a cumprir as suas promessas?

sábado, 2 de dezembro de 2023

Saia Sete-Estrelo

Se houvesse outro azul

outro mar outro céu

se as palavras dissessem por mim

e eu só as ouvisse

e logo entendesse tudo

se não fosse eu a dizer por palavras

que a mim mesmo digo

ainda assim

a tua saia de sete-estrelo

seria inconfundível ao crepúsculo

mas é muita sorte descrevermos

aquilo que ambos vemos

e pensarmos que nos entendemos

porque realmente

não se trata de um jogo.


Carlos Ricardo Soares

domingo, 26 de novembro de 2023

O presente é a única forma de estar no tempo

O presente é a única forma

de estar no futuro

e no passado

é a única forma de estar

no tempo

aqui

ou em qualquer lado

enquanto me distraio

com o diferido

sou ultrapassado

por ter vivido

numa lua cheia.


Carlos Ricardo Soares

terça-feira, 21 de novembro de 2023

Castro Laboreiro

Por Castro Laboreiro

um intruso

que caminha

milhares de anos

até chegar aqui

ao refúgio dos lobos

que me seguem

e já os pressenti

na sombra dos carvalhais

pelos bosques

tropeço em calhaus

no mato molhado almejo

por vales e corgas

ao fundo um prado

batido pelo sol

inspiro o ar almiscarado

e lá no alto azul

com asas colossais

águias dão voltas

tão suaves

que nem parecem reais

como este riacho

a cortar a passagem

e mais abaixo defronte

de bela arcada uma ponte

de pedra tão antiga

que parece segura

de sempre ter estado ali

erguida

sobre a verdura espessa

que abriga lontras e rãs

e o mesmo se diga

de árvores tombadas

no ervaçal de hortelãs

donde salta em alvoroço

natural

um corço assustado

como se fugisse

de um caçador feudal

fico arrepiado

com tal beleza

que nem penso

que outras passaram

afinal

onde está aquela ponte

outras pontes desabaram.


Carlos Ricardo Soares

terça-feira, 14 de novembro de 2023

Aproximações à verdade XXIII

Hilário: elas são tão irreprimíveis nos seus contornos
Amiga: como os sonhos não deviam acabar
Hilário: tão possíveis como os subornos
Amiga: podem escaldar
Hilário: tão soberanas nas formas
Amiga: como os instintos obedecem
Hilário: tão insondáveis no sentir
Amiga: quanto mais parecem.
Carlos Ricardo Soares

sábado, 4 de novembro de 2023

A racionalidade, de mecanismo básico de sobrevivência a faculdade de pensamento e inteligência

Darei por muito bem aplicado o meu propósito de contribuir com algumas notas relativas ao que penso sobre os temas da racionalidade e da liberdade, da racionalidade como faculdade humana de sobrevivência, de conhecimento e de inventividade, e da liberdade como exercício de racionalidade.
São temas charneira do meu pensamento sobre o que é “ser humano”. Distinto deste é o problema de saber o que é “o ser humano”.
A minha tese é que a racionalidade é um mecanismo básico de sobrevivência, que os humanos aplicam a uma vastíssima gama de situações, muitas das quais não têm a ver com a sobrevivência, mas resultam de fatores culturais.
Um indivíduo humano que não tenha a faculdade de racionalidade, dificilmente sobreviverá sem a ajuda dos outros. E, se for um indivíduo de outra espécie não conseguirá sobreviver.
A consciência da racionalidade permite aplicá-la a todo o tipo de situações, concretas ou ficcionadas, seja através de imagens, palavras, números, enfim, a racionalidade pode transformar tudo em linguagem e a linguagem, em praticamente tudo.
Pode multiplicar e desmultiplicar mundos e visões.
A racionalidade permite-nos escolher, dentro dos limites das possibilidades e estas variam muito de indivíduo para indivíduo, por fatores individuais endógenos e exógenos.
A liberdade é um exercício de racionalidade. Dizemos que não temos liberdade quando não podemos escolher. Esta falta de liberdade pode ser total, ou absoluta, quando não podemos escolher de todo, ou parcial, quando temos um leque de opções, mais ou menos extenso e variado.
Se os limites nos são impostos naturalmente, isso é um constrangimento natural, se nos forem impostos por outros indivíduos, ou pela sociedade, isso é um constrangimento social, político, cultural, ético, jurídico. Os limites morais são os que o indivíduo estabelece para si mesmo.
A questão dos limites morais coloca-se quando existe possibilidade de não respeitar os limites parciais ou relativos que são impostos pela sociedade, ou por outros indivíduos.
A racionalidade exerce-se, ou opera sobre dados, ou termos discerníveis. Podem ser sons, números, volumes, palavras, sinais, quantidades, qualidades, enfim, tudo o que conhecemos e tudo o que se possa imaginar. Esta liberdade de pensamento é ilimitada, no sentido em que só tem como limite a capacidade de estabelecer relações.
A racionalidade é pensamento e, como o pensamento, também é ilimitada quanto ao campo da sua aplicação, exercício, ou operação.
A liberdade é uma condição biológica, viva, concreta, física, que pode ser ilimitada quanto ao pensamento, mas é limitada por fatores endógenos e exógenos que podem assumir natureza física, mais ou menos inelutável, como já referi.
A faculdade de racionalidade, que permite distinguir e estabelecer relações entre coisas, ideias, enfim, tudo o que seja suscetível de ser percecionado, pensado ou ter significado, nos humanos, pode operar sobre vastíssimos domínios, ou objetos, não apenas da experiência direta dos sentidos periféricos, mas também da experiência indireta das representações mentais, das ideias, dos números, das formas, dos conceitos, das teorias, das crenças, dos interesses, dos valores, dos sentimentos, dos significados e dos sentidos que se dão.
Certamente que essa faculdade não é conhecimento, nem resolução de problemas, mas não há conhecimento, ou seja, ninguém poderá ter a experiência de conhecimento, se não tiver a aptidão, ou estiver impedido, de usar a faculdade de racionalidade.
O uso que se faz dos termos racionalidade e irracionalidade é tão amplo e, por vezes, tão contraditório, que apresenta a racionalidade como boa e a irracionalidade como nefasta, sendo esta, tantas vezes, acusada de todos os males que se poderiam imputar aos humanos.
Encontro uma justificação plausível para este entendimento. Em geral, confunde-se racionalidade com verdade, com o que está certo, com retidão, com direito, com ciência, com aquilo que resolve problemas, que tudo devia, ou deve ser. Irracional é o resto, o que está errado, que é nocivo, que é perigoso, que causa problemas, que é injustificado, independentemente de ser censurável ou não.
Este uso, tão arreigado nos nossos hábitos de comunicação e de linguagem corrente, dificulta, se é que não impede, que vejamos a racionalidade com outros olhos, ou seja, que entendamos a racionalidade como a faculdade humana que está presente em toda a ação dos indivíduos, de tal modo que muito daquilo que designamos como irracional, de facto é tão racional como aquilo que designamos propriamente de racional.
O cerne dos problemas da humanidade, resultantes dos seus comportamentos ou produzidos por estes, não está no serem estes racionais ou não, está no serem problemas.
Carlos Ricardo Soares


sexta-feira, 27 de outubro de 2023

O Direito é o limite

Partilho da tese de que o homem é um estado da natureza em que esta adquire certa consciência e a faculdade de racionalidade e a capacidade de operar na natureza, num âmbito mais sofisticado (sem deixar de ser natural, embora cultural) do que aquele em que operam os elementos físicos que, culturalmente, distinguimos de nós, humanos. 
Diria que o ser humano acrescentou à tabela periódica alguns elementos que agem e reagem com aqueles de uma forma brutal e nunca vista antes. Nada disto é mais do que a natureza a funcionar. Nem acredito que haja nada fora da natureza. 
O que acredito, e parece constatar-se, é que a natureza (o homem) criou a cultura e criou deuses, e criou Deus e criou as bombas e faz as guerras, as leis, a ética, a moral, o direito, a concordância, a ordem e o caos, a vida e a morte. Realmente, podemos acusar a natureza de tudo, mas só estaremos a acusar-nos a nós próprios; como podemos desculpar a natureza de tudo, para nos desculparmos. Qual é a parte da natureza que não é a voz da natureza? Que não é a consciência em que a natureza culminou? Que não tem responsabilidade? A natureza cindiu-se em partes distintas? Deixou de ser uma e passou a ser múltiplas? Quantas natureza existem? E o que têm de comum entre elas? O que é que na natureza, senão o homem, pode colocar estas questões, dar-lhes sentido e tentar responder-lhes?
Se a humanidade se autodestruir e destruir o mundo que criou, podemos dizer que será a natureza a fazê-lo e nem ficará natureza que possa lamentar isso ou acusar alguma natureza disso, admitindo nós que o homem é o tal expoente da natureza capaz de fazer essa avaliação.
O ser humano não tem as faculdades e as liberdades e as capacidades de outros elementos da natureza, mas tem algumas que são únicas e que são incomparáveis, como a consciência, a racionalidade e a liberdade de escolha (dentro das possibilidades). Não temos o poder de um vulcão, ou de um tornado, ou de uma estrela que explode, mas temos a capacidade de usar ou não a bomba atómica. 
O quadro de possibilidades de escolha que fomos capazes de proporcionar-nos ao longo da história, não tem paralelo com o quadro, praticamente fixo, com que se deparam os outros animais.
Se não soubermos reconhecer até que ponto está nas nossas mãos preservar, não a nossa natureza geral que, independentemente da nossa vontade, será sempre transformada numa massa natural, como já agora é quando morremos, mas a nossa natureza particular de seres vivos conscientes, racionais, livres, podemos deitar a perder aquilo que, pela própria natureza das coisas e da racionalidade, teremos o poder, mas não o direito de fazer.
O Direito é a fronteira que o homem não pode ultrapassar, que o separa da sua própria natureza, sob pena de se negar a si mesmo.

Carlos Ricardo Soares

terça-feira, 24 de outubro de 2023

A tirania do mérito e a meritocracia

Não resisto a dizer umas coisas sobre a tirania do mérito e a meritocracia.
É da máxima importância que os poderes políticos, a quem cabe a governação e a implementação de mecanismos de incentivo ao desenvolvimento, porque é incontestável que este pode e deve ser promovido pelo Estado, assumam as questões do mérito num plano em que o mérito é das variáveis em que o poder político terá mais hipóteses de contribuir para a realização dos seus objetivos de boa governação, de promoção da ciência, tecnologia e cultura para o desenvolvimento do país.
O próprio conceito de mérito é rebelde às tentativas de o reduzirmos à ideia de merecimento pelo esforço, pela dedicação, ou pelo trabalho. Nesta perspetiva, o mérito de um perdedor numa competição pode ser maior do que o do vencedor.
Nas sociedades liberais, e nas outras não será muito diferente, o resultado, o produto, a mais-valia, a virtude, e o próprio talento individual, tendem a ser critério de mérito daqueles a quem sejam devidamente imputados. Normalmente é o mercado que trata disso. E como nem todo o resultado, ou produto, ou atividade, têm o mesmo valor, num determinado momento, ter mérito não significa a mesma coisa para duas situações diferentes.
O mérito do marcador do golo não tem o mesmo valor do mérito do colega que lhe passou a bola para ele marcar. No entanto, mesmo nestes casos do desporto, o mérito de quem passou a bola pode ser reconhecido por toda a gente como muito superior ao de quem marcou. Neste exemplo, e noutros, o mercado não reconhece o mérito pelo valor funcional, pessoal, social, estético, ou mesmo ético. O mercado é cego relativamente a isso.
O mercado só tem olhos para o valor de mercado, ou seja, que se exprime em unidades monetárias. E não será porque se apele à boa vontade dos agentes económicos que estes passarão a atribuir mais valor monetário a alguém pelo mérito (não monetário) de algo que faça.
Assim, temos um desencontro, muito inconveniente para a sociedade e para a promoção dos seus pilares de sustentação e de desenvolvimento, entre aquilo que, sendo de reconhecido mérito, humano, social, cultural, científico, estético, ético, o não é efetivamente no plano do reconhecimento económico.
Por outro lado, este desencontro vai-se exacerbando à medida que contribui para reforçar os investimentos e as atenções e as expectativas, não tanto naqueles méritos, que o são reconhecidamente como vitais, mas preferencialmente nos outros.
As implicações negativas, para a economia e para o desenvolvimento social, deste fomento induzido pelo mercado, podem e devem ser contrariadas pela ação e pela intervenção do Estado, nomeadamente, através de políticas de incentivo e apoio, através do reconhecimento pessoal e patrimonial do mérito.
De preferência, passe o sarcasmo, que não se limitasse a atribuir medalhas de mérito, ou de mérito póstumo e que não fossem para quem já teve o seu mérito reconhecido.

Carlos Ricardo Soares

quinta-feira, 12 de outubro de 2023

Aproximações à verdade XXII

Hilário: amar é pelo bem que sabe, pelo gosto que dá

Amiga: e o sabor que tem

Hilário: pela vontade que há, pela ideia que se faz do que é

Amiga: que será

Hilário: pela falta que faz o bem desejado

Amiga: pela dor persistente do amor ausente

Hilário: amar é pelo próprio poder de escolher

Amiga: pela liberdade de fazer

Hilário: pelo prazer de dar prazer

Amiga: ser amado é ser escolhido

Hilário: ninguém pode escolher ser amado

Amiga: quem quer ama

Hilário: não é amado quem quer

Amiga: ninguém tem esse poder

Hilário: ninguém tem o direito de ser amado

Amiga: mas temos o dever de amar

Hilário: e, se não amares, que te pode acontecer?

Amiga: sabes a resposta ou perguntas para saber?

Hilário: sempre amei, não sei o que é não amar

Amiga: o mesmo digo eu, tenho experiência de amar e de odiar, mas não isso de não amar

Hilário: no entanto, há muitas pessoas que não amas nem odeias

Amiga: há, haverá e sempre houve, podemos amar quem não conhecemos?

Hilário: isso do conhecer é muito relativo, até que ponto se pode conhecer alguém?

Amiga: voltando ao dever de amar, em que é que consiste, se é que existe?

Hilário: nem as autoridades, nem a polícia, te perguntam se amas ou deixas de amar e não há sanções para isso

Amiga: não perguntam, nem estão autorizadas a fazê-lo, até o tribunal está inibido de se meter nesses assuntos, porque não há leis sobre o direito e o dever de amar e o tribunal trata de leis

Hilário: nunca ouviste falar na lei do amor?

Amiga: já estava à espera dessa, do dever de amar a Deus sobre todas coisas

Hilário: e ao próximo, como a si mesmo

Amiga: acreditas nessa lei? Que tens esse dever e que, se tens esse dever, então toda a gente tem ou que, se toda a gente tem esse dever, então tu também tens?

  Carlos Ricardo Soares

terça-feira, 10 de outubro de 2023

Os humanos são incorrigíveis?

É com grande amargura e desgosto que penso que as guerras têm de ser encaradas como uma fatalidade, pelo menos, depois de começarem. São como as catástrofes que não somos capazes de evitar. No caso das guerras a catástrofe é o próprio “elemento” humano. Não é uma catástrofe como as naturais, que são desencadeadas por ocorrências físicas meramente mecânico-causais. No caso das guerras, a catástrofe não é apenas uma consequência da acção humana, é um objectivo clara e expressamente assumido.
Os que se preparam para a guerra e a desencadeiam nem sequer o fazem em segredo, porque antes de acontecer ela se anuncia, de variadas formas que os especialistas não podem ignorar. Dir-se-ia que a guerra começa muito antes de acontecer, como todas as catástrofes. Quem desencadeia uma guerra, sobretudo se é uma grande potência no xadrez internacional, sabe o que lhe pode acontecer e sabe o que lhe vai acontecer, porque o que puder acontecer-lhe vai acontecer-lhe e ela sabe. As catástrofes não duram sempre. Uma catástrofe não é um triunfo sobre nada, nem ninguém. No fim da catástrofe, triunfam os que sobrevivem.
Quem desencadeia uma guerra sabe que não sobreviverá a essa catástrofe, que vai ser derrotado e aniquilado pela derrocada dos explosivos que activou. As guerras, ainda antes de começarem verdadeiramente, já o são como ameaças das consequências que virão a ter. O amor, pelo contrário, quando começa não ameaça nada. Sabendo disto, os profissionais da guerra deviam evitar, até por dever profissional, promover condições que se tornarão trágicas para os outros, para aqueles que não gostam, nem precisam de guerras, porque viver e deixar viver é melhor do que impedir de viver.
Para fazer guerra, ou melhor, para desencadear uma guerra, é preciso mais, muito mais do que animalidade, ou instinto de sobrevivência. E é preciso mais, muito mais, do que racionalidade ou sentimentos.
A hostilidade, o ódio, o medo galvanizador, o calculismo e o ressentimento promovido e alimentado por narrativas delirantes, ou pelo delírio narrado, prefiguram de tal modo as ameaças do abismo, que a dinâmica política, militar e social é contaminada e arrastada pelo desespero de causa. A serenidade e a frieza tornam-se impossíveis no momento em que mais vantagem podiam ter e mais falta fazem.
Uma guerra não começa se não houver contendores, partidos, rituais, gregarismo, armas, embriaguez, crença nas representações das hostes, do inimigo e, se não houver um desejo de vitória pela força, há certamente um furor orquestrado para infligir dor e sofrimento.
Depois de começar, uma guerra é um monstro que não precisa de mais nada que o desejo de vingança, e esse vai crescendo sempre, nos beligerantes.
A guerra é humana. Paradoxalmente, é desumana. Por ser tão temível e tão horrível é que os humanos acreditam no poder da guerra.
Os humanos têm-se revelado incorrigíveis, ao longo da história, comportando-se como se estivesse nas suas mãos fazer a guerra, mas não a paz.

Carlos Ricardo Soares

quinta-feira, 28 de setembro de 2023

Paraíso sem deuses

Olhamos o musgo no rochedo milenar
e precisamos de um silêncio suplementar
de uma imunidade profunda
que nos proteja das contabilidades
para podermos sentir
a sombra envolvente
e os murmúrios das águas resilientes
nessa ilusão de paraíso
sem deuses
a quem seja dado contemplar belezas
tão antigas
que os químicos matarão ao batizar.
Carlos Ricardo Soares

quinta-feira, 21 de setembro de 2023

A vida o sentido da vida e o sentido das questões

A questão do sentido da vida, do bem e do mal, do universo, das coisas, do sentido (do sentido do sentido) não se coloca a toda a gente, ou, por outras palavras, nem toda a gente a coloca, ou se coloca essa questão.
Como quase todas as questões, não é necessária. E as questões que não são necessárias são vistas como inúteis e ociosas. Só poetas e filósofos tentam por todos os meios fazer com que sejam questões com sentido.
A questão do sentido da vida, os filósofos. A questão da vida, do sentimento da vida, os poetas.
Mas, para que essa questão do sentido da vida seja uma questão com sentido (não uma questão com resposta ou solução), já se ocupam, cada vez mais pensadores, a questionar a vida e a história, o desenvolvimento tecnológico e, sobretudo, a vida que as pessoas fazem, o modelo económico e o estilo de vida herdados da revolução industrial e que sobreviveram às I e II guerras mundiais que, aliás, tiveram efeitos aceleradores e propulsores, com as consequências que estamos a ver. Sobre as possibilidades de sobrevivência num mundo organizado segundo o modelo actual (falacioso e inexequível) de abundância para todos, ou, teoricamente, de riqueza para todos, casa, piscina e carro para todos, nem é uma questão de sentido, mas de contabilidade. Questão de sentido já pode ser: porque é que os responsáveis políticos continuam a apostar nesse modelo e a ganhar eleições defendendo-o, na China, na Índia, no Brasil, nos EUA, na UE, na Rússia, quando todos sabem que estão a vender uma falácia, ou seja, uma verdade que é mentira.
Verdade/mentira: pode-se ser o mais rico, ninguém, teoricamente, está excluído, à partida, do acesso ao topo da pirâmide, nem que seja por génio. /Dois biliões, ou três, ou mais, de seres humanos, porque têm direito, podem esperar e confiar que terão uma casa, alimentação, educação, lazer, uma vida digna, serviços de saúde, direito ao trabalho, à justiça e à paz.
Se um indivíduo nas suas lucubrações conclui que a vida não faz sentido, o universo não faz sentido, as suas palavras não fazem sentido, nada faz sentido, quem se sente no direito de o contrariar? Se um outro indivíduo pensa que a vida faz sentido, que tudo faz sentido, mesmo aquele indivíduo para quem nada faz sentido, quem se sente no dever de o contrariar? Ambos têm um sentido.
Se, porventura, alguma instância judicativa suprema e irrecorrível, ditadora de sentido, o ditasse, nada mudaria quanto à questão do sentido da vida que cada um adopta, ou adoptar.
Na realidade, a questão do sentido da vida é apenas uma questão, como tantas outras, não obstante, a resposta que alguém der a essa questão não deixará de ter repercussões na vida e nas vidas. É como responder a um teste na escola. Embora na escola os testes sejam sobre questões das quais já se presume saber a resposta (o que é extremamente limitativo e empobrecedor), todos os que fomos estudantes sabemos que as respostas que demos tiveram repercussões na nossa vida e na dos outros.
A tónica dominante, passe a redundância, é, continua a ser, o paradigma do puzzle, a realidade recortada de uma certa forma e, para a reconhecer, há que encaixar as peças, tal e qual como fizeram os sábios e os sacerdotes, de antanho, detentores das respostas e dos sentidos.
Num passado mais próximo, com todos os defeitos inerentes às enciclopédias, deu-se um passo em frente e, em vez de termos a resposta num livro sagrado, passamos a tê-la nas enciclopédias. Nada mau.
O que é difícil de aceitar e de vulgarizar é que, qualquer que seja a resposta que encontremos, seja em pedra lapidada, ou escrita na água, ela é uma construção operada por cada um de nós, boa ou má, certa ou errada, e não temos e não há outro remédio. Quem não gostar do termo construção, que parece muito braçal e indiferenciado, pode escolher outro, que pareça mais elegante e ajanotado.
Se um amigo me dissesse que a vida dele tem sentido, embora nem sempre e, passado um tempo, reconhecesse que, afinal, tinha perdido o sentido, eu diria que tudo isso faz sentido. Há imensas coisas falsas que fazem sentido.
Qualquer mentira faz sentido.
A esse amigo, eu era capaz de propor que, se precisava de um sentido, que escolhesse, que criasse o sentido que mais lhe agradasse, como se deve fazer quando se lê poemas. Se não precisasse de um sentido, que não se preocupasse, porque uma necessidade de sentido, em termos existenciais, ou económicos, não pode ser colmatada, ou satisfeita, com qualquer sentido imaginário, hipotético, ou sem sentido, a não ser que isso fosse uma arte ou uma filosofia criativas.
 Carlos Ricardo Soares

terça-feira, 19 de setembro de 2023

Que seria o mundo sem filosofia?

Não temos forma de saber o que seria o mundo sem a filosofia, mas podemos tentar saber o que é o mundo com a filosofia, qual o seu papel e influência. 
Na minha opinião, tem um papel e uma influência decisivos, em todos os domínios, mas para termos a noção disso, é preciso muita filosofia. 
A filosofia sempre se assumiu e continua a assumir-se como fonte de conhecimento e critério de conhecimento, ou, mais em geral, fonte de sabedoria e critério de sabedoria. 
Nada lhe escapa, nada lhe é estranho, de nada é excluída. 
Não há matéria ou assunto que lhe sejam vedados. 
O único limite está na capacidade e na competência do filósofo.
                                                 Carlos Ricardo Soares

sexta-feira, 15 de setembro de 2023

Demónios, deuses, humanos e outras formas de vida

Carl Sagan explicou muito bem o problema em que estamos envolvidos: o mundo está infestado de demónios.
Vou “inspirar-me” neste excelente contributo para rir-me dos demónios e dos deuses.
Na situação atual, receio muito que os deuses já tenham perdido a guerra porque, para os deuses vencerem os demónios, é necessário algo mais do que palavras e água benta, num campo de confrontos em que tudo é feito à custa do ambiente. Nada se faz que não seja à custa do ambiente.
As vítimas são a vida, humana e das outras espécies. Os demónios não sabem trabalhar sem acabar com isso tudo. O trabalho deles parece que não é outro. Vivem disso. São como as bactérias e os vírus mas, diferentemente destes, os demónios dominam a tecnologia e usam a ciência para transformar a natureza em poder sobre a natureza, mormente a natureza humana, tão propensa a ouvir os demónios e a ser surda aos deuses, ao ponto de ser tradicional haver necessidade de fazer ouvir os deuses e nunca ter havido sequer a veleidade de querer ouvir os demónios, que esses, de resto, são a outra face da natureza humana, que é preciso abafar e calar.
Os deuses não precisam de tecnologia, nem de ciência, mas os demónios não passam sem elas, aliás, nada seriam sem elas.
Os deuses não poluem, não agridem o ambiente, não constroem, nem desvastam florestas, não queimam combustíveis, nem erguem barragens, não têm fábricas, nem rasgam campos de futebol, não esventram montanhas, nem abrem autoestradas, e não cultivam, nem criam gado. Os deuses não precisam de comer, não respiram e não morrem.
O mundo está mesmo infestado de demónios e estes acabarão por ter aquilo que querem. Pode não ser o que os deuses querem para si, mas será, certamente, o que os deuses querem para os demónios. E, na verdade, os demónios não merecem nada, nem a simpatia dos deuses, nem a sua preocupação. Têm o que merecem. Demónio é demónio. Os deuses passam tão perfeitamente sem eles, como passam sem as espécies vivas da natureza.
Mas é a “espécie” dos demónios que extermina as outras espécies vivas da natureza.
Os demónios não se contentam com o método científico, porque eles pensam que a realidade é o que é, como já era, antes do método científico. O que eles querem, e nisso são imbatíveis, é o poder de transformar as coisas noutras coisas, até onde puderem. Por isso é que são demónios. Quando deixarem de ter esse poder, estarão mortos, deixarão de ser demónios.
Essa “espécie” de feiticeiros sabe que o feitiço tem uma probabilidade enorme de se virar contra o feiticeiro. É como dizer que “a certeza absoluta nos escapará sempre”, ou seja, não sabemos que nos escapará sempre, se não há certeza absoluta.
Ou, ainda, proclamar “Não acredites na palavra”. Se os demónios acreditarem nesta forma de imperativo, não o tomam a sério; se o tomarem a sério, não acreditam nele e isso equivale a que acreditam na palavra. Não necessariamente em todas as palavras, como essas “Não acredites na palavra”, mas provavelmente naquelas que lhes interessam, pelas mais variadas razões.
Se eles não acreditarem nas palavras, inclusive nas do Carl Sagan, vão acreditar em quê? No que veem? E se forem cegos(como parece que são)?
Tudo serve aos demónios para atingir os seus objectivos, para realizar os seus interesses, os quais, normalmente, coincidem com os dos humanos, em geral. As palavras são dos instrumentos mais poderosos, como acabamos de ver. Em ditadura e em democracia, os demónios nem precisam de ser letrados, basta que usem as palavras com o sentido que mais lhes interessa e lhes convém. As palavras são mais submissas do que os cães, mas não tão fiéis, nem aliadas.
Talvez por isso os deuses sempre, e em tudo, se abstiveram de falar, para não serem traídos.
 Carlos Ricardo Soares

domingo, 3 de setembro de 2023

Aproximações à verdade XXI


Hilário: de que é que te estás a lamentar?
Amiga: de quase tudo o que acontece aos outros
Hilário: enquanto o nosso sofrimento for apenas por ver desgraças que acontecem aos outros...
Amiga: há muito sofrimento que é de revolta e de pena, de tristeza por ver os humanos a fazerem tanto mal, a ocuparem-se tão denodadamente com maldades que fazem uns aos outros
Hilário: esse sentimento impede-te de seres feliz?
Amiga: sim, mas não me impede de lamentar por ter passado ao lado da sorte e não a ter agarrado, ter estado em contacto com a sabedoria e não a ter reconhecido, ter percorrido o mundo e não ter visto senão uma parte pouco significativa, ter passado a maior parte da vida a distrair-me das coisas, a ignorar em vez de indagar e observar e explorar, a esquecer, em vez de lembrar e ter presente
Hilário: não se pode ter tudo, para termos ou fazermos umas coisas não podemos ter ou fazer outras
Amiga: concordo. Ainda agora, aquele barulho dos foguetes, impediu-me de pensar.
Hilário: as pessoas que trabalham em ambientes ruidosos dificilmente conseguem pensar
Amiga: e quem vive em ambientes agressivos e conflituosos, além de não conseguir pensar, desenvolve atitudes impacientes, agressivas e intolerantes
Hilário: o pensamento é um processo não linear e descontínuo
Amiga: e quanto mais sujeito a perturbações e interrupções, pior
Hilário: frequentemente, as conversas, em vez de proporcionarem pensamentos consequentes e aprofundados, impedem que isso aconteça, desviando constantemente o sentido do pensamento, com sucessivas e inopinadas mudanças de assunto.
Amiga: É lamentável que assim seja.
Carlos Ricardo Soares

sábado, 2 de setembro de 2023

Verdade a quanto obrigas

Há palavras

nada mais

neste papel

o resto será

o que for lido

legível

ou não

inteligível

ou só imaginação

nas palavras

há quem destile fel

que são palavrões

no papel

de vilões

que fazem explodir

corações

ou simplesmente

não fazem nada

sem segundas intenções

abelhas pequenas

anjos de papel

palavras apenas

verdade a quanto obrigas

poemas

mel.

Carlos Ricardo Soares 

 

quarta-feira, 30 de agosto de 2023

APROXIMAÇÕES À VERDADE XX

Hilário: para entenderes a importância da filosofia, procura compreender que os outros podem fazer por ti imensas coisas da maior importância como, por exemplo, alimentos, vestuário, mobiliário, computadores, telemóveis, filmes, livros, arte, ciência...
Amiga: mas ninguém pode filosofar por ti
Hilário: como ninguém pode viver por ti
Amiga: nem santo, nem pecador
Hilário: nem cientista, filósofo ou artista
Amiga: ninguém pode sentir e pensar em tua vez.
Carlos Ricardo Soares