quarta-feira, 21 de junho de 2023
domingo, 18 de junho de 2023
O processo de pensamento é um processo criativo
Já o processo de pensamento como um processo interno e num espaço interior que não é partilhado, senão por algum tipo de compreensão convivencial tecida por comunicação de emoções, e outros tipos de comunicação, nomeadamente linguística, que nos faz acreditar, ou desacreditar, em algum nível de partilha daquilo que pensamos num determinado momento (que pode ser meramente o efeito que pretendemos na comunicação, ainda que não corresponda, ou seja até contrário, ao que honestamente pensamos) ou, em que nos colocamos como observadores da própria convivencialidade social e tentamos entender e compreender os processos e os fenómenos aí envolvidos, porque nos surpreendemos a nós próprios como marionetas cujos cordelinhos nos escapam ao controlo, incluindo quando pensamos e escrevemos e ordenamos, definimos ou redefinimos as ideias e os pensamentos, nestes casos, o processo de pensamento nutre-se de uma necessidade de satisfação que se vai potenciando a si mesma se os mecanismos de compensações do próprio indivíduo forem funcionando.
Compreender e entender, por si sós, podem não ser suficientemente apelativos ou aliciantes, para indivíduos em determinados contextos de “ignorância”.
Se extrapolarmos para as aprendizagens, para a Escola, teremos aqui muito material para argumentar a favor de uma educação para as aprendizagens, uma educação compreensiva dos processos físicos, psicológicos, individuais, sociais, linguísticos, da comunicação e das motivações, sem reducionismos "visgarolhos", sem prejuízo, aliás, de estes serem, eles também, processos de pensamento zarolho, que "vesgam"(visam), compreender e entender.
terça-feira, 13 de junho de 2023
Ciência e Filosofia
É importante, mas sobretudo mentalmente excitante,
perceber,
através do pensamento dedutivo,
tão característico do pensamento filosófico,
que a ciência não se funda em deduções, mas em observações e constatações impossíveis de deduzir.
sexta-feira, 9 de junho de 2023
Entre ensinar e aprender
O que acontece entre ensinar e aprender é um problema de todo o tamanho. Mas ainda bem que acontece. Não creio que esse problema possa ocorrer, por exemplo, na IA.
Esse é um problema que se vai resolvendo, mas nem o conhecemos bem, nem temos à mão a solução. O que sabemos fazer é baseado na experiência, na observação e na tradição.
O facto de querermos colocar o foco todo num problema que, paradoxal e ironicamente, estamos longe de conhecer, é uma excelente desculpa para não pensarmos que eficiência pela eficiência não faz sentido. A eficiência, pelo menos na educação, só faz o sentido que cada um lhe quiser encontrar. É quando começamos a falar de educação a todo o custo, de disciplina e adestramento humano em função de valores mais altos, que começamos a esvaziar de sentido a educação e os valores.
O enigma do que devemos fazer não se resolve com uma resposta sobre aquilo que podemos fazer. Em tempos recuados, a humanidade logrou resolver esse enigma de um modo incrivelmente sofisticado, que foi o modo de acabar com as perguntas, dando uma resposta em vez de formular outra pergunta e proibindo o questionamento.
Se não questionássemos a realidade, e tantas vezes, de vários modos, e tanto tempo, o fazemos, a simplicidade das respostas e dos veredictos seria de tal modo confortante e divertida, que aceitaríamos como um dado, por exemplo, que há humanos estúpidos e humanos inteligentes, assim como damos quase como certo que somos mais inteligentes do que as outras espécies.
Se não questionássemos a realidade, seríamos estúpidos, sem sabermos que os humanos até podem ser inteligentes.
A inteligência só falta quando interrogamos, quando perguntamos, quando duvidamos. É pois natural que o não façamos, porque assim nos sentimos totalmente esclarecidos e satisfeitos. É talvez daquelas evidências de que os humanos estão mais desprovidos mas não menos convencidos, porque ela é como um foco e uma linguagem, na justa medida do que vê, do que diz e do que induz. Não chamemos a isso cegueira. De resto, dizer a um cego que é cego não o faz ver. É fundamental que aprendamos a respeitar o cego e o surdo e o mudo, porque ver não corresponde a ter visão.
É preciso e imprescindível fazer um percurso de aprendizagem daquilo que já se sabe há muito. Não basta, relativamente a um assunto, fornecer as conclusões, ou as sínteses, do mesmo modo que, para quem não sabe escrever, não basta mostrar as palavras escritas para ela ser capaz de escrever. No conhecimento, na aprendizagem, a apropriação das trivialidades é tão fundamental como se cada aprendizagem fosse uma invenção, de novo.
Vulgarmente, quando alguém se entusiasma, por exemplo, com ideias consabidas, como se as tivesse criado, ou porque as criou, embora elas já o tenham sido por outros, logo aparecem críticos enfastiados a desmerecer novos Sócrates e Platões, como se isso já não tivesse valor. Como se o facto de alguém pensar o que outros (até filósofos importantes) já pensaram, fosse menos importante por isso.
A educação como um produto que se pode comprar é algo que se integra na tendência actual dos poderes do dinheiro, à semelhança do que acontecia com certas bulas papais. A ideia e a percepção de que o dinheiro pode comprar a virtude (em sentido amplo) andam muito próximas da ilusão de que a droga transforma um farrapo num deus.
Há uma ilusão, tavez compreensível se considerarmos o processo de pensamento, de aspiração e de adaptação dos humanos, de que podemos saber sem aprender, valorizando até alguma espécie de saber, supostamente, inato, que anda próximo do conceito de talento natural. Se há algo com que os humanos sonham, e almejam alcançar sem esforço, é prodígios. São muito facilitadores e estão em linha com a lógica da eficiência económica. Até há quem acredite que a inteligência não sabe, e que ser inteligente é fazer sem saber.
O que poucos consideram interessante e prodigioso é aprender, observar, ler, mais do que ler um livro sobre “como observar pássaros”, observá-los, de preferência com aquele livro à mão. Mais do que escrever sobre o “espaço interior”, no cárcere, sobre o cárcere, manipulando palavras, como uma IA, observar, e descrever, porque a realidade é algo que não se pode meramente deduzir, como acontece com as fantasias, ad infinitum.
É muito importante centrar a educação nas aprendizagens como processo de realização e de envolvimento pessoal nos prazeres e nos trabalhos da vida.
E isto não é utópico. Está mais próximo das necessidades naturais do que transformar a educação numa linha de formação de mecânicos, por mais necessários que estes sejam.
Utópico é considerar que ensinar “2+2=4” é liberdade de ensinar.
quinta-feira, 25 de maio de 2023
Quando o sol desponta
Quando o sol desponta
na ponta da nave
eu vejo a água a separar
a ilusão da realidade
sinto a saudade a iluminar
o mar e o céu
com a verdade das gaivotas
de todos os tempos
de todos os mares
de todos os céus
de todos os mundos
que nunca serão meus.
sábado, 13 de maio de 2023
Problemas de cariz político, económico e social
A maior parte dos problemas de cariz político, económico e social, não são problemas para toda a gente e esse começa logo por ser talvez o maior problema, porque dificulta imenso, quer a abordagem e o reconhecimento dos problemas, quer as tentativas de os resolver. Do ponto de vista de um comentador, de um filósofo, de um sociólogo, o reconhecimento desses problemas como problemas objetivos, pouco ou nada adianta se ficar por generalidades, ou ideias ainda mais gerais sobre essas generalidades.
As coisas funcionam do modo como funcionam, porque as condições para isso estão criadas. Enquanto essas condições se mantiverem continuarão a funcionar. E não é por não gostarmos, ou não estarmos de acordo com essas realidades que elas passarão a ser outras, embora os descontentamentos, as manifestações, as oposições, as revoltas, as lutas, sejam germe e efeito de mudanças, que poderão ser de ruptura.
Normalmente as sociedades realizam algum equilíbrio entre "predadores" e "presas", como acontece na selva desintervencionada pelo homem.
sábado, 6 de maio de 2023
Para sermos felizes
O pouco de que precisamos para sermos felizes depende de tanto e de tantas coisas, que preferíamos não ter de fazer, ou de enfrentar, que a felicidade acaba por ter, muitas vezes, um sabor amargo, como se fosse um presente envenenado.
Se é por isso que muitos de nós são lutadores, valentes ou valentões, mas neuróticos, essa espécie de heroísmo de si mesmos, à espera de uma taça que não existe, nem sequer alguma vez foi prometida, é um descalabro.
Quem tem coragem para reconhecer no espelho um idiota vítima da sua boa fé, ou da sua presunção de que os sonhos existem para serem realizados?
quinta-feira, 27 de abril de 2023
O que resta
Se estas ruínas
aliás belas
aliás monumentais
são o que resta
daquilo por que viveste
e por que tanto lutaste
com seriedade
que ao menos pudesses
ter tido a antevisão inefável
do que agora aos nossos olhos
é um desfecho desolador
de tantas vidas escarnecidas
hipotecadas à transcendência
daquele castelo mutilado
outrora altivo
e daquela igreja irreconhecível
outrora preservada
sem que ao menos
soubéssemos um pouco
da história de uma delas
podia ser até da mais humilde
das contingências de uma vida
vivida nestes penhascos
tão acabrunhados
podia ser até da última pessoa
a fechar os olhos à história
a toda a grandeza
de que não se ouve
sequer em memória
uma voz
sequer ilusória
a sair destas ruínas colossais
por onde agora só
alguma sombra de nuvem passa
e não deixa rasto.
sábado, 22 de abril de 2023
Não eram ilusões
Não eram ilusões
eram sonhos
necessidades bem reais
dores e angústias
frustrações de ideais
batalhas cruéis
fantasias
que podiam ser fatais
paixões que cortavam
visões carnais
que importavam tanto
por serem apostas totais
sem suspeitas de que aí
a sabedoria
não era mais.
sábado, 8 de abril de 2023
A poesia
No fim só
vi farrapos e não bandeiras
orações que agitei
a todos os deuses garantes
da minha ingenuidade
de os ter pela arreata
dos meus caprichos
foi isso que em sonhos
antegozava infantilmente
que mais dizer
daquilo que me fez sentir
a falta
do que menos tive
quanto mais desejei?
E como compreender
que gosto de ter sido o autor
desse mundo impossuído?
E como saber
(se o não sei)
porque fui banido
por tudo aquilo em que acreditei?
No fim
a poesia
é o único tecido
a adejar
minha companheira
de que faço bandeira
por o ter sido.
terça-feira, 28 de março de 2023
Amor amar e ser amado
No amor não é louco quem quer
mas quem a loucura arrasta
para um negócio em que o perder
não faz sentido nem afasta
da obsessão do prazer
que é suposto amor
ter
e nem por sombras
por amor se pensa
que entre amar
e ser
amado
existe alguma diferença
mas não ama quem quer
que amar requer
ainda mais do que ser
amado
e não é só pelo prazer
desejado
mas pela permissão
do que não nos é dado.
sábado, 18 de março de 2023
Que ecos ouviremos
I
Nem por sombras devemos
pisar
presenças indefesas
que não vemos
nem com toda a suavidade
tocar a textura
de felgas que tombam
ao menor sopro
II
não devemos morder
nenhum enigma amistoso
nem com toda a delicadeza
ralhar
às artes impossíveis
nem com a polidez surda
de tanta mágoa
cegos de tanto carpir
sobre muros de água
III
não devemos afluir
ansiosos
pela tangência das pegadas
para não pisarmos a cauda impalpável
de eternidades
adiadas
IV
não devemos macular
nem com um dedo fantasma
uma casta amorosa
sem temermos não ser entendidos
na enologia dos bagos
do afeto
das castas espontâneas
sem sermos reconhecidos
à entrada dos recintos
dos pontos cardeais
e despojados da santologia
do ouro e dos cristais
dos estandartes
de castas virtudes
de poentes de gala
a alvoradas de castiçais
V
não devemos cantar
nem conspurcar nada
nem a ferruginosa fadiga
dos que aguardam nos degraus
das alfândegas da fé
até se tornarem suspeitos
de estarem perdidos
VI
não devemos rogar
para sermos levados
para lugares ainda mais desconhecidos
que os não encontrados
VII
não devemos confiar
que tudo seja como assisadamente
sentimos o mosto
de gentilezas irrecuperáveis
da musa amiga minha
nem perguntar aos claustros
que encontraremos no caminho
das nossas tristezas
que graças libertinas
serão os nossos pulmões
no silêncio das visões
da vida interior
que ecos ouviremos
ao pensar no amor.
domingo, 12 de março de 2023
Lucidez crítica
As religiões e as igrejas e muitas organizações políticas que se lhe assemelham e que lhes copiaram os métodos (estou a pensar nos partidos comunistas e nos fascistas), na minha perspetiva, são respostas humanas adaptativas, culturais, racionais, a situações e necessidades humanas, adaptativas, culturais, racionais. Elas foram e serão a melhor resposta até que apareça outra melhor.
Mas não podemos perder de vista o seguinte: elas nunca foram uma boa resposta.
Aliás, dificilmente ou nunca, houve uma boa resposta, nem sequer científica, a um problema. Este é o drama e a tragédia da condição humana.
Todos pensamos saber o que é melhor, mas ninguém sabe o que é o bom.
Quanto a Cristo, a quem não podemos atribuir méritos, nem responsabilidades, porque não terá escrito nenhuma das palavras que lhe são atribuídas, continua a ser crucificado, como se continuasse vivo na cruz, por aqueles que mais se servem dele para fins contrários ao que ele simboliza.
Os grandes cristãos, verdadeiros cristãos, não eram religiosos e não pertenciam a nenhuma igreja, mas preconizaram a doutrina cristã que, em certo sentido, não deixa de ser ateia.
Encontramo-los no iluminismo, os mesmos pensadores que a igreja católica abomina e culpa de todos os males, que souberam interpretar a doutrina cristã da igualdade, pedra angular de todo o edifício da civilização, que nem os gregos, nem o romanos, nem os teólogos cristãos lograram perceber.
Aqueles que, dizendo-se cristãos, não foram capazes de compreender a doutrina de Cristo, foram superados por quem os desprezava nas suas contradições e que, justamente, não eram cristãos que se serviam de Cristo para fins contrários à doutrina cristã.
Para dizer, em suma, que me causa tristeza e angústia ver, por todo o lado, tantos monumentos à infâmia, de que destaco a basílica de S. Pedro no Vaticano e outras construções faraónicas, não por serem, como as vejo, monumentos à infâmia que, como tais e como obras de arte, devem ser preservados, mas como locais de peregrinação, de culto e de adoração.
sexta-feira, 3 de março de 2023
Por que escreves?
Nem quando escrevia uma carta de amor eu era capaz de confessar a mim próprio que sabia o motivo pelo qual me sentava a buscar as melhores palavras e a mais eficaz concordância entre elas.
Às vezes, mas por razões bem diferentes, perguntava “por que estudas?”, ou “por que lês?”. Estas questões pareciam ser desnecessárias, como perguntar “por que trabalhas?”, ou “por que comes?”.
Hoje, julgo perceber que há um princípio de sabedoria na indagação dos motivos que nos levam a fazer o que fazemos, mais do que na indagação do ser quem somos.
Se considerarmos que cada um de nós é uma ilha, que não há mais do que o ponto de vista de cada um, e que somos seres de linguagem, sociais, que provavelmente não conseguimos demonstrar a objetividade de nada que comunicamos, do mesmo modo que não conseguimos saber até que ponto a subjectividade é comunicada, torna-se desafiante tentar perceber por que motivos tantas pessoas, e eu sou uma delas, se sentem atraídas pela linguagem, sobretudo a escrita, que começa por ser imposta como o fiel e o garante das verdades mais sagradas e mais inquestionáveis, por uma autoridade que remete a sua própria autoridade para essa escrita, como se a escrita, em si mesma, fosse já a face, não de alguma forma de verdade, mas da verdade a que estamos sujeitos, até pelo uso.
Assim que alguém percebe que as palavras para dizer verdades não são as verdades, ou que é preciso usar falsidades para dizer verdades, que é o modo de ser da linguagem, mormente a escrita, o fascínio pela escrita instala-se, se nisso formos tendo um repetido prazer, até se tornar um vício, uma busca do prazer pelo prazer, como um reflexo condicionado de pressionar um botão gratificante.
Na prática, descobrir que é difícil, ou impossível, dizer alguma coisa sem dizer o seu contrário, é como encontrar o santo graal.
sábado, 25 de fevereiro de 2023
Homem de palavra e Homem da palavra
Há poemas que me deixam
boquiaberto sem palavras
e há também palavras como água
que nos engolem se nos detivermos
e isso sabemos da experiência
e de nada mais
o homem da palavra fez deuses
que foram sendo tão iguais a um
único Deus de palavra
pela palavra de Deus
as palavras serviram
para construir as maiores fortalezas
que nenhum exército armado
logrou derrubar
apesar de todos sitiarem
as pontes e os fossos
com palavras de acesso
e sem precisar de coragem
Deus visita cada sitiado
sem abrir brechas
e promete uma passagem
por um túnel de lamechas.
sábado, 18 de fevereiro de 2023
A alma num porta-aviões
Os sonhos eram sempre irrealizáveis
Sonho e realidade
mas como sonhos que eram
já eram bons
e chegavam a iludir
ao ponto de parecer que os estava a viver
porque eles tinham essa aptidão
de me encher de ânimo
como uma música
ou um espetáculo
e de me mover a atenção
e os músculos
havia sempre o lado agradável
dos sonhos
que me predispunha à gentileza
de olhar para as coisas e para o mundo
a partir da minha vida interior
concebendo as pessoas em cenários
de harmonia e de bondade
a culpa das desgraças
nunca era dos sonhos
os desgostos e as frustrações
não me faziam desistir de sonhar
e tornavam os sonhos ainda mais imperiosos
mas era preciso não ficar apenas a sonhar
parado a imaginar o lado bom das coisas
era preciso agir comunicar sentir
confirmar que existe uma distância
entre a fantasia e a realidade
que a fantasia promete tudo
ao desejo
mas a realidade dificilmente ou nunca
satisfaz
e ainda bem
porque quase sempre a realidade
acabava por dar mais do que prometia
e muito mais do que eu sonhava.
sábado, 11 de fevereiro de 2023
Luta por um direito
Quantos se dão conta da falta de formação e de instrução e de leitura inteligente e discutida, numa abrangência suficientemente plural e geral (universal de universidade), sem cedências a monolitismos, presunções, água benta e caprichos individuais, que deita a perder a visão para além do próprio nariz, ou do autodidatismo, por maior que seja?
Quantos militantes, por ex., comunistas, se dispõem a ler e a interpretar, sem ser através das lentes da sua perspetiva ideológica e do seu preconceito político-social, com base numa cassete, ou catecismo, simplificador e demolidor, mais ou menos adotado e intelectualmente assimilado, algum autor que não esteja catalogado “pelo partido” numa preconcebida matriz ideológica?
Quantos militantes, por ex., católicos, se dispõem a ler e a interpretar, sem ser através das lentes da sua perspetiva ideológico-religiosa e do seu preconceito político-social, com base numa cassete, ou catecismo, simplificador e demolidor, mais ou menos adotado e intelectualmente assimilado, algum autor que não esteja catalogado “pela igreja” numa preconcebida matriz ideológica, ou “índex”?
Que leitura fazem uns dos outros, se é que se leem uns aos outros?
Que predisposição de “audiência”, leitura, compreensão, interpretação, por ex. haverá num homofóbico para autores, artistas, pensadores, homossexuais? E vice-versa?
Como é que um católico pode ler, por ex., Saramago?
Como é que Saramago poderia ler, por ex., um autor católico?
Que é que, por ex., um deles pode reclamar para si como um estatuto, ou um mérito, ou um valor, que deva ser recusado ao outro?
Que obrigatoriedade, ou conveniência, pode sentir, por ex., um comunista, de ler S. Paulo, ou Stº Agostinho, ou um católico de ler um ateu militante?
O que é que está na base da atenção e do respeito que devemos uns aos outros?
O que é que está na base da atenção e do respeito que temos uns pelos outros?
É muito interessante e edificante quando assistimos a uma manifestação de cultura e de luta e de revolta que reúne muita gente, sem sabermos qual é a sua “identidade”, seja de filiação, ideológica, partidária, religiosa, étnica, nacional, clubística, regional, bairro, musical, gastronómica, seja de género, orientação, preferência, de qualquer ordem, por uma causa comum, por exemplo, de respeito por um direito, ou por uma resposta política.
sábado, 4 de fevereiro de 2023
Aprende-se a agir a pensar e a sentir
Os humanos têm uma desenvolvida aptidão para agirem, reagirem e aprenderem a agir e a reagir; para pensarem e aprenderem a pensar; para sentirem e aprenderem a sentir; para chorarem e aprenderem a chorar e a não chorar; para rirem e aprenderem a rir e a não rir...
Aprende-se a agir, aprende-se a pensar, aprende-se a sentir, mas é necessário ser bem ensinado e ser bem orientado. O contrário, pode ter efeito contrário.
Essa aptidão tem sido aproveitada, inúmeras vezes, de modo abusivo, para treinar e ensinar a ter determinados comportamentos, ou desenvolver trabalhos.
É possível, através da instrução, das letras, dos desafios, da discussão de problemas, levar o ser humano a essa capacidade de colocar problemas e tentar equacionar soluções, desenvolvendo práticas e métodos de análise e de reflexão sistemática.
Aparentemente, cada um sente o que tem de sentir, porque sente e nada mais. Mas quantos dos sentimentos são ensinados e incutidos?
É possível ensinar e treinar, por exemplo, para a tolerância, para o respeito, para o amor e para o ódio.
A função e o papel da Família, da Escola e dos meios de comunicação social, enquanto divulgadores dos atores políticos, religiosos, desportivos, policiais, artísticos, no desenvolvimento e orientação destas aptidões podem ser mais ou menos eficazes consoante o grau de coerência e o nível de satisfação que permitirem, em termos de compensações intrínsecas e extrínsecas, uma vez que toda a ação tem em vista uma satisfação.
segunda-feira, 30 de janeiro de 2023
Aprender a agir a pensar e a sentir
sexta-feira, 27 de janeiro de 2023
A talho de foice
Como já escrevi noutros espaços, e aqui a talho de foice, a incompetência dos governantes é tão gritante que corremos o
risco de desordem geral e alienada. Talvez isso ainda não tenha acontecido, mercê das estruturas institucionais que, em vez de maldizerem os ventos, fazem velas e as colocam a jeito, para disso beneficiarem.
O
que para uns é uma maldição, para outros é uma bênção. O governo não precisa de fazer acrobacias para atingir certos fins, como, por exemplo, desamparar a escola pública.
Basta-lhe fazer o que está a fazer para que as escolas privadas vejam aumentar significativamente a procura.
Mas o governo não tem o direito de provocar, seja com a sua ação, seja com a sua
inércia, determinados efeitos, contra uma vontade democrática não despicienda e, menos ainda, contra o interesse público e, sobretudo, contra a razão. Uma das posições reiteradamente
assumidas, há décadas, pelo Governo, tem sido estrangular as despesas públicas onde isso é menos problemático: na educação.
Fazer greve na Educação parece
ser tão vantajoso para os cofres do Estado que até dá a sensação de que as greves são bem-vindas. Os alunos e os pais já perceberam que o Estado tem outras prioridades. Aliás,
sempre que é preciso, não digo necessário, fazer austeridade, a receita está à mão e nem é preciso inovar: cortes na educação. A educação, a investigação,
a ciência, a cultura, em geral, parece que não lhes são imprescindíveis.
Afinal, até poderíamos dizer que durante séculos se viveu sem a educação que temos
e sem alfabetização. Mas a principal razão não é essa, é que aí podem meter a mão à vontade, que não lhes acontece nada (pensam eles, que não têm
respeito pela educação, nem a valorizam minimamente).
Onde eu queria chegar, e já me fui desviando para outros planos, era à questão da razão, indissociável da questão
do interesse público, mas este, infelizmente para os professores, não é entendido pelos governantes como algo que envolva seriamente a Educação. Este desprezo seria igual a tantas outras
formas de desprezo que se ignoram, ou de que se faz vista grossa, se não fosse ultrajante e ofensivo dos genuínos interesses dos professores, alunos e famílias e, por extensão, do interesse público
e do país. Basta pensar no caso do congelamento do tempo de serviço para constatarmos a inépcia dos sucessivos “ilusionistas” que têm passado pela pasta da Educação.
Neste
momento, em que o descongelamento ainda interessa a alguns profissionais, nomeadamente professores, o descongelamento já não aproveitaria a uma boa parte daqueles que viram a sua progressão suspensa. Por
outro lado, o que perderam com o descongelamento, ou o que deixaram de usufruir, mesmo que, agora, lhes fosse contado esse tempo, ficaria irrecuperável, ou seja, a contagem para o futuro não lhes restituiria
o que deixaram de receber todos os anos em que estiveram congelados.
De resto, e para não me alongar demasiado sobre um assunto que é muito aborrecido, sobretudo para os professores prejudicados, quando
os sucessivos governos, em vez de apresentarem argumentos atendíveis e razoáveis para a sua intransigência generalizada, tentam justificar a sua recusa em satisfazer todas as reivindicações,
em bloco, com a alegada falta de verbas orçamentais, não é crível que estejam à espera de que se lhes reconheça razão, a não ser que eles sejam mesmo ineptos.
sábado, 21 de janeiro de 2023
O cais de embarque
Oh vertigem que paira
Vista daqui a tarde é imensa
E desvaira
De tão inclinada para a rua
Agora deserta
A descer para o cais
Tão habitada de saudade
Que até o silêncio aperta
A sombra ali se adensa
E invade
O cais de embarque
Antiga porta da cidade
Foi daqui que o povo alçou o olhar
Para o esplêndido horizonte
Em barcos à descoberta
Podemos agora dizer
Como é pungente
Estar a ver que partiram
Deixando para trás este lugar
Que em memória deles
Outros tornaram
Doloroso imaginar
Como agora é não poder
Entrar
Na inconcebível catedral da noite
Com os ventos a soprar.
quarta-feira, 11 de janeiro de 2023
Falar de justiça fazer justiça
A justiça, como muito bem viu Aristóteles, é, não apenas uma função judicial do Estado, que compete aos juízes, mas está pressuposta e é indissociável tanto das funções legislativas, quanto das funções executivas, políticas ou administrativas do Estado. Digamos que o Estado, em todas as funções que exerce está obrigado a proceder com justiça.
A identificação da justiça com a observância e a aplicação da lei é muito redutora, porquanto as leis podem ser injustas e mesmo as leis justas, ao serem aplicadas de modo não uniforme, geram injustiças.
As leis são instrumentos normativos que servem, em geral, para realizar a justiça. Estou a pensar, por exemplo, que a justiça é entendida e aceite principalmente como a aplicação da lei a todos por igual, tratando as situações semelhantes de idêntico modo.
Ao longo da história, parece-me que os humanos foram discutindo e resolvendo o problema tentando que o legislador e o aplicador da lei estivessem igualmente sob a sua alçada. É relativamente fácil aceitar uma lei que a todos se aplica, incluindo quem a faz e a impõe. Mas já é extremamente difícil aceitar uma lei que, por exemplo, onera os súbditos com a obrigação do seu cumprimento e não obriga igualmente quem a faz assim se colocando fora, ou acima da lei.
Com a emergência do Estado-de-Direito-Democrático, a ideia de Direito ganhou protagonismo, não apenas no plano teórico dos princípios, como princípio normativo de toda a intenção e atividade legislativa, mormente estadual.
Se, efetivamente, a feitura das leis e a sua aplicação observarem, tanto quanto possível, a ideia de Direito, como a resposta e a solução reta, justa, ético-axiologicamente fundada, que deve ser realizada, no respeito e entendimento dos legítimos poderes para a materializarem, diria que dificilmente encontraríamos razões para nos queixarmos das leis. Neste caso, seria ainda muito importante, para evitar injustiças, que, na sua aplicação, não houvesse desvirtuamento da sua letra e do seu espírito, entendido à luz da ideia de Direito e dos princípios gerais do sistema jurídico.
Em muitas situações são os juízes a suprir as lacunas da lei e fazem a justiça, não segundo as leis, porque existe uma lacuna, mas tentando seguir aqueles princípios.
Mas deixo a pergunta: poderá haver uma lei injusta que se aplique igualmente a todos, sem exceção?
sábado, 7 de janeiro de 2023
Somos racionais e daí?
Toda a análise, comentário, interpretação, conhecimento, opinião que se faça, incluindo a crítica da (ir)racionalidade humana, ou a defesa de algum tipo de irracionalidade, ou o reconhecimento de que a racionalidade humana é uma faculdade humana que não deve, nem pode fazer-nos esquecer que o homem é um ser vivo com vastas e complexas aptidões e funções que escapam a essa racionalidade, ainda que possamos conjeturar que são processos biológicos inteligentes, que ocorrem à revelia da nossa consciência e da nossa vontade, são uma atividade racional. Ou seja, ao descobrirmos e reconhecermos que grande parte daquilo que ocorre e acontece, designadamente no ser humano, seja por efeito voluntário, consciente, ou não, estamos a ser racionais, a usar a faculdade da razão.
A educação e o ensino podem desempenhar um importante papel na preparação da atenção e dos processos de avaliação da realidade, natural, humana e social, despistagem de equívocos, de aparências ilusórias, de crenças injustificadas, mas também podem ser fomentados para reforçar e levar a aceitar acriticamente como verdades e valores, mitos, narrativas, prescrições, normas, cânones, ou situações de facto consumado, mais ou menos inelutáveis a cuja realidade não se pode deixar de dar uma resposta adaptativa, sendo que, em si mesma, essa realidade já se apresenta como uma resposta adaptativa.
domingo, 1 de janeiro de 2023
A vida
A vida tem destas coisas
2023 que está a começar
E tem-te a ti
Com esse olhar
Que me inunda os pensamentos
De luz inebriante
De campos de bem-me-queres
De beleza rara
Que respira.
sexta-feira, 23 de dezembro de 2022
A estrela no topo da árvore
E todos sabemos que a organização social, económica, política, militar, cultural, é a negação desses princípios. E é a negação intencional, procurada, fomentada a todo o custo.
Nenhum dos objetivos expressos da educação e do ensino está alinhado com a realidade política, económica, social, nomeadamente de mercado, cujos objetivos, embora tropecem naqueles e aqueles nestes, se impõem como “conditio sin qua non”.
E o que está em causa nesta realidade económica, cultural, social, não é, nem a eficiência, nem a economia, nem a educação, nem o conhecimento, nem o ensino.
Em Portugal, dois cérebros ou três acharam que podiam colocar os analfabetos portugueses a rezar o terço ou a fazer crochet para o resto da vida e que se dariam por satisfeitos.
Mas apareceram outros dois ou três que acharam viável porem-nos a correr atrás de uma bola, e isso resultou.
Faltam mais dois ou três cérebros que ponham os portugueses a resolver problemas de matemática e a ler e a escrever, mas isso só será possível se continuarem a fazer prioritariamente os jogos em pirâmide do costume.
E que no topo da árvore brilhe o sol que a todos providencia.
domingo, 18 de dezembro de 2022
Armadilhas do pensamento
O nosso cérebro não foi feito para pensar? Alguma coisa foi feita para pensar? Tudo, na vida, foi feito para sobreviver, mas não para pensar? Pensar começou por ser um acidente? Um acidente a evitar? Que não foi possível evitar, ao ponto de se ter tornado o melhor instrumento, meio, forma, recurso, para sobreviver? Quantas coisas fazemos sem pensar? Aparentemente são muitas, mas não será apenas aparentemente, porque há inúmeras rotinas em que o “acto de pensar” está automatizado, sem necessidade de passar por um controlo?
Pensar está na natureza humana como algo, função, faculdade, que tem poderosas armadilhas, ao ponto de, verdadeiramente, pensar poder ser detectar isso e detectá-las passo a passo, mas sobretudo reconhecer e identificar armadilhas que aparecem camufladas e confundidas com pseudoarmadilhas, ou armadilhas irrelevantes, tipo sexo dos anjos, que não deixam de ser cruciais numa estratégia bélica, de defesa ou de ataque, porque muitas vezes a arte dos engodos é a supina arte da guerra. Ora, cá está um exercício de pensamento doloroso e cansativo, e é inevitável que o seja porque pensar, verdadeiramente, é como remar contra a corrente.
É caso para perguntar “se assim é, como é que ainda há quem pense?”. A resposta será, naturalmente, porque nem todos se deixaram levar na corrente. Caso contrário, já ninguém pensaria. O perigo é esse: que nos vençam pelo cansaço e nos impeçam de desovar.
Uma das armadilhas do pensamento pode ser “julgar que se ganha em se perder”, “para quê lutar se a vida não se vence?”.
De qualquer modo, pensar positivo não cansa menos do que pensar negativo, até porque, muitas vezes, pensar positivo, ou negativo, é a maior ilusão que se pode ter acerca do próprio pensamento. É óbvio que quem não pensa é como se não existisse? Isso pode ser temporariamente bom, mas definitivamente?
A educação esbarra contra um obstáculo que não se compadece com sistemas de racionalidade económica de feição “piquete de intervenção”, formação intensiva, porque ela deve, sobretudo, preservar a liberdade e a dignidade da pessoa, promovendo a sua autonomia de pensamento, ou seja, tem como desiderato o bem-estar e a realização pessoal do educando, salvaguardando-o das tentativas, mais ou menos sucedidas, de o instrumentalizarem para fins, por exemplo, militares, e ensinando-lhe que, se pensar bem, o mais provável é que venha a revolucionar as teorias, mas pouco ou nada possa fazer para escapar às práticas.
Desnecessário isto, porém, porque, se pensar bem, o educando, possivelmente, não pensará assim.
quinta-feira, 15 de dezembro de 2022
Frotas de navios mercantes
Será que sabemos alguma coisa, ou tudo aquilo a que chamamos saber e conhecimento é imaginação nossa? Ou, por outra, saber e conhecimento são imaginação e não mais do que isso? Ou, ainda, se assim é, nem por isso toda a imaginação é saber e conhecimento? O que está em causa nestas interrogações é a nossa relação “cognitiva” e “intelectual” com a realidade e é essa que, justa e surpreendentemente, ocorre num domínio, a imaginação, que estamos habituados a ver relegado para fora do conhecimento.
Há as coisas, há a vida. E há o que se diz. E o que se diz sobre as coisas e sobre a vida. E sobre o que se diz. Até à vertigem. Ou exaustão.
O que se diz sobre a vida não substitui, não pode, nem deve substituir ou sobrepor-se à vida.
O que se diz sobre as coisas não substitui, não pode, nem deve substituir ou sobrepor-se às coisas.
Não tomemos a representação das coisas, a fotografia das coisas, a imagem das coisas, a explicação das coisas, o filme das coisas, o esquema, seja ele qual for, matemático, químico, pictórico, filosófico, teológico, geométrico, pelas coisas.
Muitos de nós vivemos demasiado carregados dessas imagens e demasiado iludidos para percebermos que isso não é o mundo, é estar fora do mundo o mais possível, como se tomássemos a fotografia por aquilo que ela representa e andássemos a transacionar cromos, ou notas de banco, à mesa do café, como se estivéssemos a pilotar frotas de navios mercantes.