Blogs Portugal

quarta-feira, 21 de junho de 2023

Malditos

Um rio como este

não retomará o bom caminho

que nunca teve

não vai ficar na foto

não sei como vai ficar

se ficar

na minha memória

e até quando

inequívoco

sem olhos na cara

e sem ambição

eterno liquefeito

paraíso entornado

num leito

caldo de peixe cozinhado

no caleidoscópio mágico

de barcos infantis

que nunca foram resgatados

dos grandes delírios

nem arrebatados da corrente

insustentável

de um rio como este

sem dificuldades

de nunca ter havido

original

mas tão doente

que abraça os choupos

aninhados no lixo

como se ouvisse o mar

dos náufragos

e os confundisse com as brumas

da incontável memória

de vir ao mundo

dos malditos.

domingo, 18 de junho de 2023

O processo de pensamento é um processo criativo

Compreender, entender. À medida que vamos escrevendo as ideias vão-se definindo e redefinindo. 
O processo de pensamento é um processo criativo, de busca de satisfação. Pode ser doloroso e ser tormentoso se não for dirigido, focado, ordenado, proveitoso. 
Se escrevermos sobre ideias feitas, para reproduzir ideias feitas e lugares comuns, através de um discurso corrente e vulgar, estereotipado, o processo de pensamento pode ser muito reduzido e quase inexistente, dada a automatização da linguagem. Mas é muito importante para a nossa integração social e saúde mental. 
Essa comunicação superficial, que pode ser divertida, irónica, humorística, provocadora, irritante, ou simpática, está ligada a competências sociais da maior importância. 
Sobretudo entre os jovens adolescentes adquire uma dimensão que nunca é de mais realçar e deve ser promovida.
Já o processo de pensamento como um processo interno e num espaço interior que não é partilhado, senão por algum tipo de compreensão convivencial tecida por comunicação de emoções, e outros tipos de comunicação, nomeadamente linguística, que nos faz acreditar, ou desacreditar, em algum nível de partilha daquilo que pensamos num determinado momento (que pode ser meramente o efeito que pretendemos na comunicação, ainda que não corresponda, ou seja até contrário, ao que honestamente pensamos) ou, em que nos colocamos como observadores da própria convivencialidade social e tentamos entender e compreender os processos e os fenómenos aí envolvidos, porque nos surpreendemos a nós próprios como marionetas cujos cordelinhos nos escapam ao controlo, incluindo quando pensamos e escrevemos e ordenamos, definimos ou redefinimos as ideias e os pensamentos, nestes casos, o processo de pensamento nutre-se de uma necessidade de satisfação que se vai potenciando a si mesma se os mecanismos de compensações do próprio indivíduo forem funcionando.
Compreender e entender, por si sós, podem não ser suficientemente apelativos ou aliciantes, para indivíduos em determinados contextos de “ignorância”. 
Há na necessidade de compreender e de entender algum nível ou génese de conhecimento e de interesse que podem ser já um patamar avançado de entendimento e de compreensão.
Se extrapolarmos para as aprendizagens, para a Escola, teremos aqui muito material para argumentar a favor de uma educação para as aprendizagens, uma educação compreensiva dos processos físicos, psicológicos, individuais, sociais, linguísticos, da comunicação e das motivações, sem reducionismos "visgarolhos", sem prejuízo, aliás, de estes serem, eles também, processos de pensamento zarolho, que "vesgam"(visam),  compreender e entender.

terça-feira, 13 de junho de 2023

Ciência e Filosofia

É importante, mas sobretudo mentalmente excitante, 

perceber, 

através do pensamento dedutivo, 

tão característico do pensamento filosófico, 

que a ciência não se funda em deduções, mas em observações e constatações impossíveis de deduzir.

 

sexta-feira, 9 de junho de 2023

Entre ensinar e aprender

O que acontece entre ensinar e aprender é um problema de todo o tamanho. Mas ainda bem que acontece. Não creio que esse problema possa ocorrer, por exemplo, na IA.

Esse é um problema que se vai resolvendo, mas nem o conhecemos bem, nem temos à mão a solução. O que sabemos fazer é baseado na experiência, na observação e na tradição.

O facto de querermos colocar o foco todo num problema que, paradoxal e ironicamente, estamos longe de conhecer, é uma excelente desculpa para não pensarmos que eficiência pela eficiência não faz sentido. A eficiência, pelo menos na educação, só faz o sentido que cada um lhe quiser encontrar. É quando começamos a falar de educação a todo o custo, de disciplina e adestramento humano em função de valores mais altos, que começamos a esvaziar de sentido a educação e os valores.

O enigma do que devemos fazer não se resolve com uma resposta sobre aquilo que podemos fazer. Em tempos recuados, a humanidade logrou resolver esse enigma de um modo incrivelmente sofisticado, que foi o modo de acabar com as perguntas, dando uma resposta em vez de formular outra pergunta e proibindo o questionamento.

Se não questionássemos a realidade, e tantas vezes, de vários modos, e tanto tempo, o fazemos, a simplicidade das respostas e dos veredictos seria de tal modo confortante e divertida, que aceitaríamos como um dado, por exemplo, que há humanos estúpidos e humanos inteligentes, assim como damos quase como certo que somos mais inteligentes do que as outras espécies.

Se não questionássemos a realidade, seríamos estúpidos, sem sabermos que os humanos até podem ser inteligentes.

A inteligência só falta quando interrogamos, quando perguntamos, quando duvidamos. É pois natural que o não façamos, porque assim nos sentimos totalmente esclarecidos e satisfeitos. É talvez daquelas evidências de que os humanos estão mais desprovidos mas não menos convencidos, porque ela é como um foco e uma linguagem, na justa medida do que vê, do que diz e do que induz. Não chamemos a isso cegueira. De resto, dizer a um cego que é cego não o faz ver. É fundamental que aprendamos a respeitar o cego e o surdo e o mudo, porque ver não corresponde a ter visão.

É preciso e imprescindível fazer um percurso de aprendizagem daquilo que já se sabe há muito. Não basta, relativamente a um assunto, fornecer as conclusões, ou as sínteses, do mesmo modo que, para quem não sabe escrever, não basta mostrar as palavras escritas para ela ser capaz de escrever. No conhecimento, na aprendizagem, a apropriação das trivialidades é tão fundamental como se cada aprendizagem fosse uma invenção, de novo.

Vulgarmente, quando alguém se entusiasma, por exemplo, com ideias consabidas, como se as tivesse criado, ou porque as criou, embora elas já o tenham sido por outros, logo aparecem críticos enfastiados a desmerecer novos Sócrates e Platões, como se isso já não tivesse valor. Como se o facto de alguém pensar o que outros (até filósofos importantes) já pensaram, fosse menos importante por isso.

A educação como um produto que se pode comprar é algo que se integra na tendência actual dos poderes do dinheiro, à semelhança do que acontecia com certas bulas papais. A ideia e a percepção de que o dinheiro pode comprar a virtude (em sentido amplo) andam muito próximas da ilusão de que a droga transforma um farrapo num deus.

Há uma ilusão, tavez compreensível se considerarmos o processo de pensamento, de aspiração e de adaptação dos humanos, de que podemos saber sem aprender, valorizando até alguma espécie de saber, supostamente, inato, que anda próximo do conceito de talento natural. Se há algo com que os humanos sonham, e almejam alcançar sem esforço, é prodígios. São muito facilitadores e estão em linha com a lógica da eficiência económica. Até há quem acredite que a inteligência não sabe, e que ser inteligente é fazer sem saber.

O que poucos consideram interessante e prodigioso é aprender, observar, ler, mais do que ler um livro sobre “como observar pássaros”, observá-los, de preferência com aquele livro à mão. Mais do que escrever sobre o “espaço interior”, no cárcere, sobre o cárcere, manipulando palavras, como uma IA, observar, e descrever, porque a realidade é algo que não se pode meramente deduzir, como acontece com as fantasias, ad infinitum.

É muito importante centrar a educação nas aprendizagens como processo de realização e de envolvimento pessoal nos prazeres e nos trabalhos da vida.

E isto não é utópico. Está mais próximo das necessidades naturais do que transformar a educação numa linha de formação de mecânicos, por mais necessários que estes sejam.

Utópico é considerar que ensinar “2+2=4” é liberdade de ensinar.

quinta-feira, 25 de maio de 2023

Quando o sol desponta

Quando o sol desponta

na ponta da nave

eu vejo a água a separar

a ilusão da realidade

sinto a saudade a iluminar

o mar e o céu

com a verdade das gaivotas

de todos os tempos

de todos os mares

de todos os céus

de todos os mundos

que nunca serão meus.

sábado, 13 de maio de 2023

Problemas de cariz político, económico e social

Não reconheço qualquer vantagem no tipo de discurso alarmista, vago, pistoleiro, a disparar para todos os lados, pessimista, sem esperança, de impotência e catastrofista, apesar de se acomodar e de se prevenir com as cautelas e caldos de galinha do bom senso pedagógico e pacificador, que é sempre recomendável e, se bem não faz, mal também não.
A maior parte dos problemas de cariz político, económico e social, não são problemas para toda a gente e esse começa logo por ser talvez o maior problema, porque dificulta imenso, quer a abordagem e o reconhecimento dos problemas, quer as tentativas de os resolver. Do ponto de vista de um comentador, de um filósofo, de um sociólogo, o reconhecimento desses problemas como problemas objetivos, pouco ou nada adianta se ficar por generalidades, ou ideias ainda mais gerais sobre essas generalidades.
As coisas funcionam do modo como funcionam, porque as condições para isso estão criadas. Enquanto essas condições se mantiverem continuarão a funcionar. E não é por não gostarmos, ou não estarmos de acordo com essas realidades que elas passarão a ser outras, embora os descontentamentos, as manifestações, as oposições, as revoltas, as lutas, sejam germe e efeito de mudanças, que poderão ser de ruptura.
Normalmente as sociedades realizam algum equilíbrio entre "predadores" e "presas", como acontece na selva desintervencionada pelo homem. 
A nossa cultura é um desenvolvimento e aprofundamento desta relação "comercial" relativamente a mercadorias, sendo que o outro também entra nesta categoria de valores mercantis. Tudo estaria bem, em meu entender, como na selva, se todos pudessem ser predadores, tirar proveito, vigarizar, extorquir, ganhar, como o fazem as empresas que, nitidamente, nos sacam o dinheiro através dos mais sofisticados esquemas. Eu concordaria com esta alta e refinada cultura, em que as maiores inteligências investem desde sempre, se estivesse em situação ou posição de lhes fazer o mesmo. Isso seria a selva e seria bom. Mas estamos nos antípodas da selva e do mérito. 
O problema não é a sociedade baseada no mérito, é a sociedade não ter interesse no mérito, porque só interessa o resultado. Para se alcançar este também é preciso mérito, mas é um tipo de mérito de que ninguém tem coragem de se vangloriar, apesar de quase todos nós invejarem quem o tem: não é fazer batota, é fazer batota por algo que valha a pena sem ser apanhado. Existe uma ética clara em toda esta situação, só que imensa gente é doutrinada e educada para aqueles méritos que, na realidade, não lhes interessam, embora sejam preciosos para sustentarem o mérito dos que atingem os resultados. 
Posso ter o mérito de me preocupar com as questões éticas, de justiça social, de democracia, igualdade, mas não tenho o mérito de ser banqueiro que arrecada vantagens das suas habilidades, e muito trabalho, de estar em situação de deixar as questões éticas para o poder político e judicial, porque a ele talvez importe apenas gerir a realidade como ela se lhe apresenta: o dinheiro permite obter (não confundir com fazer) mais coisas do que qualquer outra coisa. 
Talvez um dia o dinheiro acabe e acabe a economia baseada no dinheiro. 
Admito que muitas das distorções da sociedade desapareceriam como por magia.

sábado, 6 de maio de 2023

Para sermos felizes


O pouco de que precisamos para sermos felizes depende de tanto e de tantas coisas, que preferíamos não ter de fazer, ou de enfrentar, que a felicidade acaba por ter, muitas vezes, um sabor amargo, como se fosse um presente envenenado.
Se é por isso que muitos de nós são lutadores, valentes ou valentões, mas neuróticos, essa espécie de heroísmo de si mesmos, à espera de uma taça que não existe, nem sequer alguma vez foi prometida, é um descalabro.
Quem tem coragem para reconhecer no espelho um idiota vítima da sua boa fé, ou da sua presunção de que os sonhos existem para serem realizados?

quinta-feira, 27 de abril de 2023

O que resta

Se estas ruínas

aliás belas

aliás monumentais

são o que resta

daquilo por que viveste

e por que tanto lutaste

com seriedade

que ao menos pudesses

ter tido a antevisão inefável

do que agora aos nossos olhos

é um desfecho desolador

de tantas vidas escarnecidas

hipotecadas à transcendência

daquele castelo mutilado

outrora altivo

e daquela igreja irreconhecível

outrora preservada

sem que ao menos

soubéssemos um pouco

da história de uma delas

podia ser até da mais humilde

das contingências de uma vida

vivida nestes penhascos

tão acabrunhados

podia ser até da última pessoa

a fechar os olhos à história

a toda a grandeza

de que não se ouve

sequer em memória

uma voz

sequer ilusória

a sair destas ruínas colossais

por onde agora só

alguma sombra de nuvem passa

e não deixa rasto.

 

sábado, 22 de abril de 2023

Não eram ilusões


Não eram ilusões

eram sonhos

necessidades bem reais

dores e angústias

frustrações de ideais

batalhas cruéis

fantasias

que podiam ser fatais

paixões que cortavam

visões carnais

que importavam tanto

por serem apostas totais

sem suspeitas de que aí

a sabedoria

não era mais.


sábado, 8 de abril de 2023

A poesia


No fim só

vi farrapos e não bandeiras

 

orações que agitei

a todos os deuses garantes

da minha ingenuidade

de os ter pela arreata

dos meus caprichos

 

foi isso que em sonhos

antegozava infantilmente

 

que mais dizer

daquilo que me fez sentir

a falta

do que menos tive

quanto mais desejei?

 

E como compreender

que gosto de ter sido o autor

desse mundo impossuído?

 

E como saber

(se o não sei)

porque fui banido

por tudo aquilo em que acreditei?

 

No fim

a poesia

é o único tecido

a adejar

minha companheira

de que faço bandeira

por o ter sido.


terça-feira, 28 de março de 2023

Amor amar e ser amado

No amor não é louco quem quer

mas quem a loucura arrasta

para um negócio em que o perder

não faz sentido nem afasta

da obsessão do prazer

que é suposto amor

ter

e nem por sombras

por amor se pensa

que entre amar

e ser

amado

existe alguma diferença

mas não ama quem quer

que amar requer

ainda mais do que ser

amado

e não é só pelo prazer

desejado

mas pela permissão

do que não nos é dado.

sábado, 18 de março de 2023

Que ecos ouviremos

I

Nem por sombras devemos 

pisar

presenças indefesas

que não vemos

nem com toda a suavidade

tocar a textura

de felgas que tombam

ao menor sopro

II

não devemos morder

nenhum enigma amistoso

nem com toda a delicadeza

ralhar 

às artes impossíveis

nem com a polidez surda

de tanta mágoa

cegos de tanto carpir

sobre muros de água

III

não devemos afluir

ansiosos 

pela tangência das pegadas

para não pisarmos a cauda impalpável

de eternidades 

adiadas

IV

não devemos macular

nem com um dedo fantasma

uma casta amorosa

sem temermos não ser entendidos

na enologia dos bagos

do afeto

das castas espontâneas

sem sermos reconhecidos

à entrada dos recintos

dos pontos cardeais

e despojados da santologia

do ouro e dos cristais

dos estandartes

de castas virtudes

de poentes de gala

a alvoradas de castiçais

V

não devemos cantar

de galo

nem conspurcar nada

nem a ferruginosa fadiga

dos que aguardam nos degraus

das alfândegas da fé

até se tornarem suspeitos

de estarem perdidos

VI

não devemos rogar

para sermos levados

para lugares ainda mais desconhecidos

que os não encontrados

VII

não devemos confiar

que tudo seja como assisadamente

sentimos o mosto

de gentilezas irrecuperáveis

da musa amiga minha

nem perguntar aos claustros

que encontraremos no caminho

das nossas tristezas

que graças libertinas

serão os nossos pulmões

e as nossas tibiezas

no silêncio das visões

da vida interior

que ecos ouviremos

ao pensar no amor.

 

domingo, 12 de março de 2023

Lucidez crítica

Louvo a lucidez e a acutilância crítica, que não cede a ambiguidades.
As religiões e as igrejas e muitas organizações políticas que se lhe assemelham e que lhes copiaram os métodos (estou a pensar nos partidos comunistas e nos fascistas), na minha perspetiva, são respostas humanas adaptativas, culturais, racionais, a situações e necessidades humanas, adaptativas, culturais, racionais. Elas foram e serão a melhor resposta até que apareça outra melhor.
Mas não podemos perder de vista o seguinte: elas nunca foram uma boa resposta.
Aliás, dificilmente ou nunca, houve uma boa resposta, nem sequer científica, a um problema. Este é o drama e a tragédia da condição humana.
Todos pensamos saber o que é melhor, mas ninguém sabe o que é o bom.
Quanto a Cristo, a quem não podemos atribuir méritos, nem responsabilidades, porque não terá escrito nenhuma das palavras que lhe são atribuídas, continua a ser crucificado, como se continuasse vivo na cruz, por aqueles que mais se servem dele para fins contrários ao que ele simboliza.
Os grandes cristãos, verdadeiros cristãos, não eram religiosos e não pertenciam a nenhuma igreja, mas preconizaram a doutrina cristã que, em certo sentido, não deixa de ser ateia.
Encontramo-los no iluminismo, os mesmos pensadores que a igreja católica abomina e culpa de todos os males, que souberam interpretar a doutrina cristã da igualdade, pedra angular de todo o edifício da civilização, que nem os gregos, nem o romanos, nem os teólogos cristãos lograram perceber.
Aqueles que, dizendo-se cristãos, não foram capazes de compreender a doutrina de Cristo, foram superados por quem os desprezava nas suas contradições e que, justamente, não eram cristãos que se serviam de Cristo para fins contrários à doutrina cristã.
Para dizer, em suma, que me causa tristeza e angústia ver, por todo o lado, tantos monumentos à infâmia, de que destaco a basílica de S. Pedro no Vaticano e outras construções faraónicas, não por serem, como as vejo, monumentos à infâmia que, como tais e como obras de arte, devem ser preservados, mas como locais de peregrinação, de culto e de adoração.

sexta-feira, 3 de março de 2023

Por que escreves?

Lembro-me de inúmeras vezes, fora as mais de que me esqueci, em que, à míngua de “inspiração” para escrever e porque não houvesse algo melhor para fazer, em vez de tentar responder à pergunta “por que não tenho algo melhor para fazer?”, ficava a magicar razões para escrever, que acabavam por ser o objeto da minha escrita. Mais do que o clássico “conhece-te”, deparava-se-me o irrespondível “por que escreves?”.
Nem quando escrevia uma carta de amor eu era capaz de confessar a mim próprio que sabia o motivo pelo qual me sentava a buscar as melhores palavras e a mais eficaz concordância entre elas.
Às vezes, mas por razões bem diferentes, perguntava “por que estudas?”, ou “por que lês?”. Estas questões pareciam ser desnecessárias, como perguntar “por que trabalhas?”, ou “por que comes?”.
Hoje, julgo perceber que há um princípio de sabedoria na indagação dos motivos que nos levam a fazer o que fazemos, mais do que na indagação do ser quem somos.
Se considerarmos que cada um de nós é uma ilha, que não há mais do que o ponto de vista de cada um, e que somos seres de linguagem, sociais, que provavelmente não conseguimos demonstrar a objetividade de nada que comunicamos, do mesmo modo que não conseguimos saber até que ponto a subjectividade é comunicada, torna-se desafiante tentar perceber por que motivos tantas pessoas, e eu sou uma delas, se sentem atraídas pela linguagem, sobretudo a escrita, que começa por ser imposta como o fiel e o garante das verdades mais sagradas e mais inquestionáveis, por uma autoridade que remete a sua própria autoridade para essa escrita, como se a escrita, em si mesma, fosse já a face, não de alguma forma de verdade, mas da verdade a que estamos sujeitos, até pelo uso.
Assim que alguém percebe que as palavras para dizer verdades não são as verdades, ou que é preciso usar falsidades para dizer verdades, que é o modo de ser da linguagem, mormente a escrita, o fascínio pela escrita instala-se, se nisso formos tendo um repetido prazer, até se tornar um vício, uma busca do prazer pelo prazer, como um reflexo condicionado de pressionar um botão gratificante.
Na prática, descobrir que é difícil, ou impossível, dizer alguma coisa sem dizer o seu contrário, é como encontrar o santo graal.

sábado, 25 de fevereiro de 2023

Homem de palavra e Homem da palavra

Há poemas que me deixam

boquiaberto sem palavras

e há também palavras como água

que nos engolem se nos detivermos

e isso sabemos da experiência

e de nada mais

o homem da palavra fez deuses

que foram sendo tão iguais a um

único Deus de palavra

pela palavra de Deus

as palavras serviram

para construir as maiores fortalezas

que nenhum exército armado

logrou derrubar

apesar de todos sitiarem

as pontes e os fossos

com palavras de acesso

e sem precisar de coragem

Deus visita cada sitiado

sem abrir brechas

e promete uma passagem

por um túnel de lamechas.


sábado, 18 de fevereiro de 2023

A alma num porta-aviões

Os sonhos eram sempre irrealizáveis

Sonho e realidade 

mas como sonhos que eram

já eram bons

e chegavam a iludir

ao ponto de parecer que os estava a viver

porque eles tinham essa aptidão

de me encher de ânimo

como uma música

ou um espetáculo

e de me mover a atenção

e os músculos

havia sempre o lado agradável

dos sonhos

que me predispunha à gentileza

de olhar para as coisas e para o mundo

a partir da minha vida interior

concebendo as pessoas em cenários

de harmonia e de bondade

a culpa das desgraças

nunca era dos sonhos

os desgostos e as frustrações

não me faziam desistir de sonhar

e tornavam os sonhos ainda mais imperiosos

mas era preciso não ficar apenas a sonhar

parado a imaginar o lado bom das coisas

era preciso agir comunicar sentir

confirmar que existe uma distância

entre a fantasia e a realidade

que a fantasia promete tudo

ao desejo

mas a realidade dificilmente ou nunca

satisfaz

e ainda bem

porque quase sempre a realidade

acabava por dar mais do que prometia

e muito mais do que eu sonhava.


sábado, 11 de fevereiro de 2023

Luta por um direito

Quantos se dão conta dos orgulhos e dos preconceitos que tolhem os nossos juízos e nos condicionam imenso no processo de observação, compreensão, de seleção de alvos e de análise crítica, mormente no que respeita a autores, pensadores, comentadores e atores sociais, em geral, para não dizer político-partidários e militantes partidários, em particular?
Quantos se dão conta da falta de formação e de instrução e de leitura inteligente e discutida, numa abrangência suficientemente plural e geral (universal de universidade), sem cedências a monolitismos, presunções, água benta e caprichos individuais, que deita a perder a visão para além do próprio nariz, ou do autodidatismo, por maior que seja?
Quantos militantes, por ex., comunistas, se dispõem a ler e a interpretar, sem ser através das lentes da sua perspetiva ideológica e do seu preconceito político-social, com base numa cassete, ou catecismo, simplificador e demolidor, mais ou menos adotado e intelectualmente assimilado, algum autor que não esteja catalogado “pelo partido” numa preconcebida matriz ideológica?
Quantos militantes, por ex., católicos, se dispõem a ler e a interpretar, sem ser através das lentes da sua perspetiva ideológico-religiosa e do seu preconceito político-social, com base numa cassete, ou catecismo, simplificador e demolidor, mais ou menos adotado e intelectualmente assimilado, algum autor que não esteja catalogado “pela igreja” numa preconcebida matriz ideológica, ou “índex”?
Que leitura fazem uns dos outros, se é que se leem uns aos outros?
Que predisposição de “audiência”, leitura, compreensão, interpretação, por ex. haverá num homofóbico para autores, artistas, pensadores, homossexuais? E vice-versa?
Como é que um católico pode ler, por ex., Saramago?
Como é que Saramago poderia ler, por ex., um autor católico?
Que é que, por ex., um deles pode reclamar para si como um estatuto, ou um mérito, ou um valor, que deva ser recusado ao outro?
Que obrigatoriedade, ou conveniência, pode sentir, por ex., um comunista, de ler S. Paulo, ou Stº Agostinho, ou um católico de ler um ateu militante?
O que é que está na base da atenção e do respeito que devemos uns aos outros?
O que é que está na base da atenção e do respeito que temos uns pelos outros?
É muito interessante e edificante quando assistimos a uma manifestação de cultura e de luta e de revolta que reúne muita gente, sem sabermos qual é a sua “identidade”, seja de filiação, ideológica, partidária, religiosa, étnica, nacional, clubística, regional, bairro, musical, gastronómica, seja de género, orientação, preferência, de qualquer ordem, por uma causa comum, por exemplo, de respeito por um direito, ou por uma resposta política.

sábado, 4 de fevereiro de 2023

Aprende-se a agir a pensar e a sentir

Os humanos têm uma desenvolvida aptidão para agirem, reagirem e aprenderem a agir e a reagir; para pensarem e aprenderem a pensar; para sentirem e aprenderem a sentir; para chorarem e aprenderem a chorar e a não chorar; para rirem e aprenderem a rir e a não rir...

Aprende-se a agir, aprende-se a pensar, aprende-se a sentir, mas é necessário ser bem ensinado e ser bem orientado. O contrário, pode ter efeito contrário.

Essa aptidão tem sido aproveitada, inúmeras vezes, de modo abusivo, para treinar e ensinar a ter determinados comportamentos, ou desenvolver trabalhos.

É possível, através da instrução, das letras, dos desafios, da discussão de problemas, levar o ser humano a essa capacidade de colocar problemas e tentar equacionar soluções, desenvolvendo práticas e métodos de análise e de reflexão sistemática.

Aparentemente, cada um sente o que tem de sentir, porque sente e nada mais. Mas quantos dos sentimentos são ensinados e incutidos?

É possível ensinar e treinar, por exemplo, para a tolerância, para o respeito, para o amor e para o ódio.

A função e o papel da Família, da Escola e dos meios de comunicação social, enquanto divulgadores dos atores políticos, religiosos, desportivos, policiais, artísticos, no desenvolvimento e orientação destas aptidões podem ser mais ou menos eficazes consoante o grau de coerência e o nível de satisfação que permitirem, em termos de compensações intrínsecas e extrínsecas, uma vez que toda a ação tem em vista uma satisfação.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

Aprender a agir a pensar e a sentir

Os humanos têm uma desenvolvida aptidão para agirem e aprenderem a agir.
Os humanos têm uma desenvolvida aptidão para pensarem e aprenderem a pensar.
Os humanos têm uma desenvolvida aptidão para sentirem e aprenderem a sentir.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

A talho de foice

Como já escrevi noutros espaços, e aqui a talho de foice, a incompetência dos governantes é tão gritante que corremos o risco de desordem geral e alienada. Talvez isso ainda não tenha acontecido, mercê das estruturas institucionais que, em vez de maldizerem os ventos, fazem velas e as colocam a jeito, para disso beneficiarem.
O que para uns é uma maldição, para outros é uma bênção. O governo não precisa de fazer acrobacias para atingir certos fins, como, por exemplo, desamparar a escola pública. Basta-lhe fazer o que está a fazer para que as escolas privadas vejam aumentar significativamente a procura.
Mas o governo não tem o direito de provocar, seja com a sua ação, seja com a sua inércia, determinados efeitos, contra uma vontade democrática não despicienda e, menos ainda, contra o interesse público e, sobretudo, contra a razão. Uma das posições reiteradamente assumidas, há décadas, pelo Governo, tem sido estrangular as despesas públicas onde isso é menos problemático: na educação.
Fazer greve na Educação parece ser tão vantajoso para os cofres do Estado que até dá a sensação de que as greves são bem-vindas. Os alunos e os pais já perceberam que o Estado tem outras prioridades. Aliás, sempre que é preciso, não digo necessário, fazer austeridade, a receita está à mão e nem é preciso inovar: cortes na educação. A educação, a investigação, a ciência, a cultura, em geral, parece que não lhes são imprescindíveis.
Afinal, até poderíamos dizer que durante séculos se viveu sem a educação que temos e sem alfabetização. Mas a principal razão não é essa, é que aí podem meter a mão à vontade, que não lhes acontece nada (pensam eles, que não têm respeito pela educação, nem a valorizam minimamente).
Onde eu queria chegar, e já me fui desviando para outros planos, era à questão da razão, indissociável da questão do interesse público, mas este, infelizmente para os professores, não é entendido pelos governantes como algo que envolva seriamente a Educação. Este desprezo seria igual a tantas outras formas de desprezo que se ignoram, ou de que se faz vista grossa, se não fosse ultrajante e ofensivo dos genuínos interesses dos professores, alunos e famílias e, por extensão, do interesse público e do país. Basta pensar no caso do congelamento do tempo de serviço para constatarmos a inépcia dos sucessivos “ilusionistas” que têm passado pela pasta da Educação.
Neste momento, em que o descongelamento ainda interessa a alguns profissionais, nomeadamente professores, o descongelamento já não aproveitaria a uma boa parte daqueles que viram a sua progressão suspensa. Por outro lado, o que perderam com o descongelamento, ou o que deixaram de usufruir, mesmo que, agora, lhes fosse contado esse tempo, ficaria irrecuperável, ou seja, a contagem para o futuro não lhes restituiria o que deixaram de receber todos os anos em que estiveram congelados.
De resto, e para não me alongar demasiado sobre um assunto que é muito aborrecido, sobretudo para os professores prejudicados, quando os sucessivos governos, em vez de apresentarem argumentos atendíveis e razoáveis para a sua intransigência generalizada, tentam justificar a sua recusa em satisfazer todas as reivindicações, em bloco, com a alegada falta de verbas orçamentais, não é crível que estejam à espera de que se lhes reconheça razão, a não ser que eles sejam mesmo ineptos.

sábado, 21 de janeiro de 2023

O cais de embarque

Oh vertigem que paira

Vista daqui a tarde é imensa

E desvaira

De tão inclinada para a rua

Agora deserta

A descer para o cais

Tão habitada de saudade

Que até o silêncio aperta

A sombra ali se adensa

E invade

O cais de embarque

Antiga porta da cidade

Foi daqui que o povo alçou o olhar

Para o esplêndido horizonte

Em barcos à descoberta

Podemos agora dizer

Como é pungente

Estar a ver que partiram

Deixando para trás este lugar

Que em memória deles

Outros tornaram

Doloroso imaginar

Como agora é não poder

Entrar

Na inconcebível catedral da noite

Com os ventos a soprar.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

Falar de justiça fazer justiça

A justiça, como muito bem viu Aristóteles, é, não apenas uma função judicial do Estado, que compete aos juízes, mas está pressuposta e é indissociável tanto das funções legislativas, quanto das funções executivas, políticas ou administrativas do Estado. Digamos que o Estado, em todas as funções que exerce está obrigado a proceder com justiça. 

A identificação da justiça com a observância e a aplicação da lei é muito redutora, porquanto as leis podem ser injustas e mesmo as leis justas, ao serem aplicadas de modo não uniforme, geram injustiças. 

As leis são instrumentos normativos que servem, em geral, para realizar a justiça. Estou a pensar, por exemplo, que a justiça é entendida e aceite principalmente como a aplicação da lei a todos por igual, tratando as situações semelhantes de idêntico modo. 

Ao longo da história, parece-me que os humanos foram discutindo e resolvendo o problema tentando que o legislador e o aplicador da lei estivessem igualmente sob a sua alçada. É relativamente fácil aceitar uma lei que a todos se aplica, incluindo quem a faz e a impõe. Mas já é extremamente difícil aceitar uma lei que, por exemplo, onera os súbditos com a obrigação do seu cumprimento e não obriga igualmente quem a faz assim se colocando fora, ou acima da lei.

Com a emergência do Estado-de-Direito-Democrático, a ideia de Direito ganhou protagonismo, não apenas no plano teórico dos princípios, como princípio normativo de toda a intenção e atividade legislativa, mormente estadual. 

Se, efetivamente, a feitura das leis e a sua aplicação observarem, tanto quanto possível, a ideia de Direito, como a resposta e a solução reta, justa, ético-axiologicamente fundada, que deve ser realizada, no respeito e entendimento dos legítimos poderes para a materializarem, diria que dificilmente encontraríamos razões para nos queixarmos das leis. Neste caso, seria ainda muito importante, para evitar injustiças, que, na sua aplicação, não houvesse desvirtuamento da sua letra e do seu espírito, entendido à luz da ideia de Direito e dos princípios gerais do sistema jurídico. 

Em muitas situações são os juízes a suprir as lacunas da lei e fazem a justiça, não segundo as leis, porque existe uma lacuna, mas tentando seguir aqueles princípios. 

Mas deixo a pergunta: poderá haver uma lei injusta que se aplique igualmente a todos, sem exceção?

sábado, 7 de janeiro de 2023

Somos racionais e daí?

Comecemos por dizer que no indistinto não há racionalidade e, se há alguma coisa, falta quem o saiba. Só a racionalidade pode dizer de si que é irracional, ou que existe irracionalidade, o que, racionalmente, parece uma contradição. Nem sequer podemos prescindir dela. Estamos para ela como ela está para nós, numa relação de absoluta interdependência. Ela precisa de uma cabeça pensante o suficiente.
Toda a análise, comentário, interpretação, conhecimento, opinião que se faça, incluindo a crítica da (ir)racionalidade humana, ou a defesa de algum tipo de irracionalidade, ou o reconhecimento de que a racionalidade humana é uma faculdade humana que não deve, nem pode fazer-nos esquecer que o homem é um ser vivo com vastas e complexas aptidões e funções que escapam a essa racionalidade, ainda que possamos conjeturar que são processos biológicos inteligentes, que ocorrem à revelia da nossa consciência e da nossa vontade, são uma atividade racional. Ou seja, ao descobrirmos e reconhecermos que grande parte daquilo que ocorre e acontece, designadamente no ser humano, seja por efeito voluntário, consciente, ou não, estamos a ser racionais, a usar a faculdade da razão. 
A cultura, as atividade humanas que dependem do uso da razão, os artefactos e as linguagens e as condutas (não propriamente os comportamentos involuntários e inconscientes) são o que nos permite fazer ideias acerca do mundo exterior e interior. E isto não acontece sem racionalidade. 
Não vou ao ponto de supor que a racionalidade é o modo como a própria natureza, no seu todo, incluindo a loucura, os demónios e os deuses, existem. Não vou a esse ponto de acreditar que nada escapa às leis da natureza, nem as leis humanas. 
Não vou ao ponto de acreditar que assim como é impossível violar uma lei natural, também ninguém, em última análise, pode violar uma lei humana. Mas não tenho dificuldade em ver no ser humano um ser racional que deve grande parte daquilo que faz e do modo como faz e uma parte daquilo em que se tornou e pretende tornar-se, mormente enquanto ser social, à racionalidade. 
Não me parece, de jeito nenhum, que se possa assacar à racionalidade humana as causas, ou a responsabilidade por algum problema que nos afete, quer como indivíduos, quer como sociedade. Não é por serem racionais (e penso que apenas as condutas o serão) que elas são boas ou más. É a racionalidade que permite distingui-las em boas ou más. 
Os problemas humanos não decorrem da racionalidade, bem pelo contrário. São as bitolas que servem de referência à racionalidade que, em cada momento, condicionam e determinam a relação complexa, que também é racional, entre a avaliação subjetiva, em função da social e a interiorização da social, em função da subjetiva e os exercícios das liberdades. 
Em si mesma, a racionalidade é neutra e não é correto, embora seja racional, culpá-la de não ter sido capaz de impedir os males que a humanidade inflige a si mesma como se, por isso, devesse ou pudesse ser substituída por qualquer tipo de irracionalidade.
A educação e o ensino podem desempenhar um importante papel na preparação da atenção e dos processos de avaliação da realidade, natural, humana e social, despistagem de equívocos, de aparências ilusórias, de crenças injustificadas, mas também podem ser fomentados para reforçar e levar a aceitar acriticamente como verdades e valores, mitos, narrativas, prescrições, normas, cânones, ou situações de facto consumado, mais ou menos inelutáveis a cuja realidade não se pode deixar de dar uma resposta adaptativa, sendo que, em si mesma, essa realidade já se apresenta como uma resposta adaptativa.

domingo, 1 de janeiro de 2023

A vida

A vida tem destas coisas

2023 que está a começar

E tem-te a ti

Com esse olhar

Que me inunda os pensamentos

De luz inebriante

De campos de bem-me-queres

De beleza rara

Que respira.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

A estrela no topo da árvore

A sociedade em que vivemos é altamente perversa e quem conseguir adaptar-se a isso é idolatrado e contribuirá mais ainda para legitimar a crueldade. Todos aprendemos desde cedo que o princípio da eficiência e da economia é um princípio de racionalidade a todos acessível e incontestável.
E todos sabemos que a organização social, económica, política, militar, cultural, é a negação desses princípios. E é a negação intencional, procurada, fomentada a todo o custo.
Nenhum dos objetivos expressos da educação e do ensino está alinhado com a realidade política, económica, social, nomeadamente de mercado, cujos objetivos, embora tropecem naqueles e aqueles nestes, se impõem como “conditio sin qua non”.
E o que está em causa nesta realidade económica, cultural, social, não é, nem a eficiência, nem a economia, nem a educação, nem o conhecimento, nem o ensino.
Em Portugal, dois cérebros ou três acharam que podiam colocar os analfabetos portugueses a rezar o terço ou a fazer crochet para o resto da vida e que se dariam por satisfeitos.
Mas apareceram outros dois ou três que acharam viável porem-nos a correr atrás de uma bola, e isso resultou.
Faltam mais dois ou três cérebros que ponham os portugueses a resolver problemas de matemática e a ler e a escrever, mas isso só será possível se continuarem a fazer prioritariamente os jogos em pirâmide do costume.
E que no topo da árvore brilhe o sol que a todos providencia.

domingo, 18 de dezembro de 2022

Armadilhas do pensamento

Vamos tentar agitar os elementos o menos possível para que não acabe tudo numa solução, em sentido químico.
O nosso cérebro não foi feito para pensar? Alguma coisa foi feita para pensar? Tudo, na vida, foi feito para sobreviver, mas não para pensar? Pensar começou por ser um acidente? Um acidente a evitar? Que não foi possível evitar, ao ponto de se ter tornado o melhor instrumento, meio, forma, recurso, para sobreviver? Quantas coisas fazemos sem pensar? Aparentemente são muitas, mas não será apenas aparentemente, porque há inúmeras rotinas em que o “acto de pensar” está automatizado, sem necessidade de passar por um controlo?
Pensar está na natureza humana como algo, função, faculdade, que tem poderosas armadilhas, ao ponto de, verdadeiramente, pensar poder ser detectar isso e detectá-las passo a passo, mas sobretudo reconhecer e identificar armadilhas que aparecem camufladas e confundidas com pseudoarmadilhas, ou armadilhas irrelevantes, tipo sexo dos anjos, que não deixam de ser cruciais numa estratégia bélica, de defesa ou de ataque, porque muitas vezes a arte dos engodos é a supina arte da guerra. Ora, cá está um exercício de pensamento doloroso e cansativo, e é inevitável que o seja porque pensar, verdadeiramente, é como remar contra a corrente.
É caso para perguntar “se assim é, como é que ainda há quem pense?”. A resposta será, naturalmente, porque nem todos se deixaram levar na corrente. Caso contrário, já ninguém pensaria. O perigo é esse: que nos vençam pelo cansaço e nos impeçam de desovar.
Uma das armadilhas do pensamento pode ser “julgar que se ganha em se perder”, “para quê lutar se a vida não se vence?”.
De qualquer modo, pensar positivo não cansa menos do que pensar negativo, até porque, muitas vezes, pensar positivo, ou negativo, é a maior ilusão que se pode ter acerca do próprio pensamento. É óbvio que quem não pensa é como se não existisse? Isso pode ser temporariamente bom, mas definitivamente?
A educação esbarra contra um obstáculo que não se compadece com sistemas de racionalidade económica de feição “piquete de intervenção”, formação intensiva, porque ela deve, sobretudo, preservar a liberdade e a dignidade da pessoa, promovendo a sua autonomia de pensamento, ou seja, tem como desiderato o bem-estar e a realização pessoal do educando, salvaguardando-o das tentativas, mais ou menos sucedidas, de o instrumentalizarem para fins, por exemplo, militares, e ensinando-lhe que, se pensar bem, o mais provável é que venha a revolucionar as teorias, mas pouco ou nada possa fazer para escapar às práticas.
Desnecessário isto, porém, porque, se pensar bem, o educando, possivelmente, não pensará assim.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

Frotas de navios mercantes

Será que sabemos alguma coisa, ou tudo aquilo a que chamamos saber e conhecimento é imaginação nossa? Ou, por outra, saber e conhecimento são imaginação e não mais do que isso? Ou, ainda, se assim é, nem por isso toda a imaginação é saber e conhecimento? O que está em causa nestas interrogações é a nossa relação “cognitiva” e “intelectual” com a realidade e é essa que, justa e surpreendentemente, ocorre num domínio, a imaginação, que estamos habituados a ver relegado para fora do conhecimento.

Há as coisas, há a vida. E há o que se diz. E o que se diz sobre as coisas e sobre a vida. E sobre o que se diz. Até à vertigem. Ou exaustão.

O que se diz sobre a vida não substitui, não pode, nem deve substituir ou sobrepor-se à vida.

O que se diz sobre as coisas não substitui, não pode, nem deve substituir ou sobrepor-se às coisas. 

Não tomemos a representação das coisas, a fotografia das coisas, a imagem das coisas, a explicação das coisas, o filme das coisas, o esquema, seja ele qual for, matemático, químico, pictórico, filosófico, teológico, geométrico, pelas coisas.

Muitos de nós vivemos demasiado carregados dessas imagens e demasiado iludidos para percebermos que isso não é o mundo, é estar fora do mundo o mais possível, como se tomássemos a fotografia por aquilo que ela representa e andássemos a transacionar cromos, ou notas de banco, à mesa do café, como se estivéssemos a pilotar frotas de navios mercantes.