sábado, 15 de novembro de 2014
Inverno na praia
Sempre me dói a miséria
Dos mastins abandonados
Mais do que tristes
Os seus olhares envergonhados
As asas de chávenas
Da Vista Alegre
Partidas em bocados
Nas escadas à porta
Do museu dos esmoucados
O porte e o pêlo de cão
De uma disciplina fria
De prisão ao pescoço
À coada luz do dia
Desejo não lhes lembre valentia
Tristes matilhas de colecção
De joalharia
Que ninguém quer roubar
Estômago não teria
Para os inventar
Gelam-me os ossos
Fazem-me chorar
E são apenas podengos
Que temem ladrar
Melancólicos famintos
Hesitantes
Preferem ficar
Distantes
E passar por
Assaltantes
Mas lixo
São
Os seus diamantes.
terça-feira, 4 de novembro de 2014
Se não houvesse ruas
Se não houvesse ruas
haveria caminhos
senão
o mar à volta
o deserto
a noite cerrada
o chão coberto
de neve
o sol encoberto
um labirinto
se não houvesse casas
haveria grutas
bosques
florestas
senão
nem no dia
nem na noite
haveria frestas
por onde
os nossos olhos
se aventurassem
se não houvesse
braços
se não houvesse alma
se não houvesse abraços.
sábado, 1 de novembro de 2014
O que fazem mortos
Sobre o vale nada
ecoa
uma distância
os horizontes
uma luz
antiga
como a espera
um crepúsculo
de recolher
os gados derradeiros
Camões
é primavera
está a chover
uma chuva que a nós
visita do que era
eternidade que é
agora
sabemos que há mortos
por todo o lado
mais vivos
do que a própria saudade
e vivos sem liberdade
mais mortos
do que era de esperar
neste tempo
de venalidade
atroz
que rouba sonhos
como quem rouba ouro
que não derrete
e o que pode acontecer
é o que mais promete.
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