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terça-feira, 1 de junho de 2010

O Velha - VII

O Velha mexeu-se. Estava a acordar da anestesia geral. O cirurgião que o operou inclinou-se para ver-lhe os olhos. A médica anestesista perguntou-lhe «está bem? Como se chama? Qual é o seu nome?». «Fernando Pessoa», respondeu. O cirurgião arregalou os olhos e abanou negativamente a cabeça. A anestesista insistiu na pergunta «Como? Qual é o seu nome?». «Álvaro de Campos», voltou a responder. Desta vez ambos os médicos esboçaram um sorriso. E consultaram a ficha clínica. Ovelha era o nome que lá constava. «Não se levante, não se esforce. Está tudo bem, não está?».
O Dr. Pedrinho olhou para a Drª Água, tirou os óculos com uma das mãos e, com a outra, massajou suavemente os olhos cansados. «Não se esforce, deixe-se estar em repouso.»
O Velha pôs-se a falar com muita lentidão e alguma dificuldade. Os médicos ficaram à escuta. «Sobe ao pódio dos teus pés/Que o prémio te sinta /Mesmo que não sejas vencedor/Te diga que o és/Canta o hino /Que aprenderes/A olhar para longe /Do que fores/Capaz/Que o silêncio/No fim /Seja murmúrio/De paz.»

quinta-feira, 27 de maio de 2010

O Velha - VI

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Depois das aulas, no regresso a casa, perdeu-se. Estava habituado a orientar-se pelas estrelas e, nessa noite, não havia estrelas. Os candeeiros da iluminação pública desorientaram-no. Deu voltas e voltas sem saber por onde e ao passar pela terceira vez na mesma ponte sobre um riacho convenceu-se de que devia seguir em frente, na direcção do pio dos mochos.  Quando parou de andar, vencido pelo cansaço, ao primeiro sol da manhã, viu que o lugar desconhecido em que se encontrava era o fim do mundo.
Incrível! – exclamou.
Uma regra de oiro dos montes penhascosos em que foi pastor durante vinte anos iluminou-lhe a mente «diante de um precipício, andar para trás é a única forma de andar para a frente». Mas não sentia vontade de retroceder.
Esses momentos ficariam na sua memória como os do primeiro encontro com aquela que viria a ser sua companheira inseparável até ao último dia de vida: a Insónia.
A sombra de uma árvore enorme que tinha sido arrancada pela mão de um gigante poderoso era um convite a que se abrigasse do sol para dormir.
Deteve-se diante daquele raizeiro ao ar, maior do que a casa dos sete anões.  Ao peso das pálpebras, fechou os olhos sem resistência, escutando rugidos rotundos que lhe lembravam trovões, mas eram as vagas do mar. Do mar que ele não via e nunca vira. A insónia não o largava. Quem dera rebanhos para contar.



terça-feira, 25 de maio de 2010

O Velha - V


O primeiro texto que subscreveu como Alberto Caeiro levantou um problema ao professor Ruga. O Velha não compreendia onde estava o problema. Não estava a plagiar. Também não estava a usurpar a identidade de ninguém. Mas o professor não aceitou que ele se fizesse passar por um autor consagrado. Como é que alguém ousava atribuir os seus escritos a uma celebridade das letras?
Para o Velha não havia problema, porque as coisas não eram assim. Ele não atribuía a autoria dos seus escritos ao Alberto Caeiro que, aliás, nunca escreveu nada. Ele atribuía a autoria dos seus escritos a si próprio, verdadeiro Alberto Caeiro. De carne e osso, com larga experiência de pastoreio.
Cão tomara partido pelo Velha e dizia de cor os seguintes versos do poema “Observo”:
               A terra treme a água salta o vento arranca
               A bata branca
               A rã enxuta
               A bruxa manca
               A puta ama a ama puta.