terça-feira, 1 de junho de 2010

O Velha - VII

O Velha mexeu-se. Estava a acordar da anestesia geral. O cirurgião que o operou inclinou-se para ver-lhe os olhos. A médica anestesista perguntou-lhe «está bem? Como se chama? Qual é o seu nome?». «Fernando Pessoa», respondeu. O cirurgião arregalou os olhos e abanou negativamente a cabeça. A anestesista insistiu na pergunta «Como? Qual é o seu nome?». «Álvaro de Campos», voltou a responder. Desta vez ambos os médicos esboçaram um sorriso. E consultaram a ficha clínica. Ovelha era o nome que lá constava. «Não se levante, não se esforce. Está tudo bem, não está?».
O Dr. Pedrinho olhou para a Drª Água, tirou os óculos com uma das mãos e, com a outra, massajou suavemente os olhos cansados. «Não se esforce, deixe-se estar em repouso.»
O Velha pôs-se a falar com muita lentidão e alguma dificuldade. Os médicos ficaram à escuta. «Sobe ao pódio dos teus pés/Que o prémio te sinta /Mesmo que não sejas vencedor/Te diga que o és/Canta o hino /Que aprenderes/A olhar para longe /Do que fores/Capaz/Que o silêncio/No fim /Seja murmúrio/De paz.»

2 comentários:

Djabal disse...

Alguém comentou que a lembrança de Borges era inevitável. Concordo.
E a visão poétiva do Velha no leva a isso. BEm em cima, lá em cima.
As coisas deste mundo passam por si, sem deixar algum rastro. Ele apenas verseja, transformado no verdadeiro vate. A poesia sendo da poesia, vindo de dentro dela. Abraços.

Tere Tavares disse...

Como não se encantar com "O Velha"?
A mim parece conhecê-lo há tempos.
E também ao seu murmúrio.

Abraço