terça-feira, 8 de junho de 2010

O Velha - VIII

O Amante de Catástrofes, como era conhecido o director da rádio local, correu mundos e fundos para encontrar o Velha. Assim que soube do interesse do pastor por transístores, pela primeira vez, desde que se dedica a noticiar catástrofes, deixou de dormir por um motivo diferente, para poder pensar num programa de que o Velha fizesse parte. Antes, porém, era preciso encontrá-lo e convencê-lo a participar. Depois de cinco dias de buscas infrutíferas, só conseguiu saber que estava hospitalizado por ter sido assaltado e agredido, quando regressava das aulas no ensino nocturno. Entrou no estúdio, ainda de madrugada e, antes de ir para o ar, ordenou aos repórteres de serviço «desta vez suspendam as reportagens de catástrofes; com um pouco de sorte, haverá um dia sem que ocorra alguma, e tratem de encontrar o pastor alucinado por rádios. Procurem-no no hospital. Quero entrevistá-lo, se possível, em directo.» Um dos repórteres, impensadamente, retorquiu «mas, ó chefe, olhe que isso pode ser uma catástrofe!». Sem contemplações, o Amante de Catástrofes ripostou «Deixe-se de ironias e traga-me notícias desse homem».

4 comentários:

Paulo-Roberto Andel disse...

sempre bom, poeta.

sempre.

hoje você é o terceiro seguido com texto esplêndido que leio.

viva!

braxxxxxxx

Djabal disse...

A estratégia de como desaparecer completamente. Quando mais ruído de catástrofe, mais importa o silêncio e o desaparecer. Suas palavras jorram de uma fonte que não permite água parada, jamais, pois são amantes da peste. Abraços, meu caro.

Mel de Carvalho disse...

Tenho seguido estes contos com grande interesse. Emanam deles, na sua totalidade, um espírito critico-criativo, um género escorreito de prosar, que nos mantém suspensos do enredo da primeira à linha finda.

Grata pela partilha,
Fraterno abraço
Mel

Tere Tavares disse...

Há uma defesa inofensiva quando se agita dentro de si a calma do que sabe que nem tudo é vão,e que, vá lá, alguma fatalidade passa despercebida, quando a motivação é a ternura de um pastor - mesmo arredio.
Abraços