V
Como se os olhos
Vissem belas formas
Desejadas
Ao som das baladas
Do tempo perdido
Que não volta mais
Carlos Ricardo SoaresV
Como se os olhos
Vissem belas formas
Desejadas
Ao som das baladas
Do tempo perdido
Que não volta mais
Carlos Ricardo SoaresIV
A noite já lá vem
Como uma alegoria
Que vale a pena
Cantar de dia
Se a noite é pequena
Carlos Ricardo Soares
III
Como se houvesse
Um caminho de ferro
Sem proveniência
E sem destino
E a estação fosse
Onde cada um estiver
Carlos Ricardo SoaresII
Com esta voz embargada
Como comboio cheio
De saudade
Perde velocidade
E quase pára na linha
Do horizonte
Carlos Ricardo SoaresI
Esta música de sombras
Descompassadas
Que se desvanecem
A cambalear
Em direção à alvorada
Carlos Ricardo SoaresCopilot: Infelizmente, não consigo recordar as conversas anteriores que tivemos. Mas estou sempre pronto para começar de novo e ajudar-te no que precisares! O que está em mente hoje?
Eu: Era sobre direitos de autor da IA e dos autores com quem a IA aprende e cujas obras utiliza. Lembras?
Copilot: Não me lembro especificamente da nossa conversa anterior, mas posso ajudar-te a explorar o tema novamente! Os direitos de autor relacionados com IA são uma área muito interessante e em evolução. Quando falamos sobre direitos de autor e IA, geralmente estamos a considerar duas áreas principais:
Utilização de Obras Protegidas por Direitos de Autor pela IA: As IAs, como eu, são treinadas com grandes quantidades de dados, que podem incluir obras protegidas por direitos de autor. A questão aqui é se a utilização dessas obras para treinar IAs é uma violação dos direitos de autor. Atualmente, a legislação sobre este assunto varia de país para país, mas muitos especialistas estão a debater como equilibrar a inovação tecnológica com a proteção dos direitos dos autores.
Criação de Obras pela IA: A outra questão é quem detém os direitos de autor das obras criadas por uma IA. Se uma IA escreve um poema, pinta um quadro ou compõe uma música, quem é o autor? Até agora, a maioria dos sistemas legais atribui os direitos de autor a uma pessoa física ou jurídica (como uma empresa), não à IA em si.
Posso aprofundar algum desses tópicos para ti?
Eu: A minha questão tem a ver com o facto de um autor, com quem a IA aprendeu, poder ser acusado de usar a IA e esta não poder ser acusada de usar as criações daquele autor.
Copilot: A questão que colocas é realmente complexa e toca em pontos importantes sobre a autoria e a utilização das criações de autores por parte da IA. Aqui estão alguns pontos-chave para considerar:
Treinamento e Aprendizagem da IA: Quando uma IA é treinada, ela utiliza grandes conjuntos de dados que incluem obras criadas por diversos autores. Estas obras são utilizadas para ensinar a IA a gerar novos conteúdos, mas a IA não "copia" diretamente essas obras; em vez disso, ela aprende padrões, estilos e estruturas.
Autoria e Originalidade: Se um autor humano utiliza uma IA para criar uma obra, ele ainda pode ser considerado o autor dessa obra, especialmente se a IA for apenas uma ferramenta no processo criativo. No entanto, se a IA apenas gerar conteúdo com base nos dados de treino, a questão da autoria torna-se nebulosa, pois a IA não é uma entidade legal que pode ser responsabilizada.
Responsabilidade e Ética: A responsabilidade de como a IA utiliza as criações de outros autores geralmente recai sobre os desenvolvedores da IA e as organizações que a operam. Eles são responsáveis por garantir que a IA seja treinada de forma ética e legal. No entanto, um autor que utiliza a IA deve estar ciente das implicações legais e éticas de usar uma ferramenta que aprendeu com obras protegidas por direitos de autor.
A legislação nesta área está em evolução, e muitos países ainda estão a desenvolver políticas e regulamentações para lidar com estas questões.
Caso tenhas mais perguntas ou queiras explorar mais algum aspeto específico, estou aqui para ajudar!
Eu: Na conversa que tivemos há dias, alegavas que a IA só utiliza dados públicos e que, por isso, não havia problemas de plágio, mas para um autor as informações disponíveis pela IA já não são públicas?
Copilot: Compreendo a tua preocupação. Quando digo que a IA utiliza dados públicos, refiro-me a dados que estão disponíveis publicamente na internet e outras fontes de acesso público. No entanto, a forma como esses dados são utilizados e processados pela IA é um assunto complexo.
Aqui estão alguns pontos para clarificar:
Dados Públicos vs. Obras Protegidas por Direitos de Autor: A IA pode usar dados que são acessíveis publicamente, mas isso não significa que essas obras não estão protegidas por direitos de autor. Por exemplo, um artigo de jornal disponível online está acessível ao público, mas ainda está protegido por direitos de autor. A IA deve utilizar esses dados de uma forma que respeite os direitos de autor.
Transformação e Uso Justo: A forma como a IA utiliza as obras para aprender padrões e gerar novas criações pode ser considerada uma utilização transformadora. No entanto, o conceito de "uso justo" varia de jurisdição para jurisdição, e o que pode ser permitido num país pode não ser noutro.
Responsabilidade do Autor: Quando um autor humano utiliza uma IA para criar uma obra, ele deve estar ciente de que a IA foi treinada com dados de várias fontes. O autor deve garantir que a obra resultante não infringe os direitos de autor de terceiros.
Transparência e Ética: Tanto os desenvolvedores de IA quanto os utilizadores devem agir de forma ética e transparente. Isso inclui dar crédito adequado às fontes e evitar a utilização não autorizada de obras protegidas por direitos de autor.
A discussão sobre direitos de autor e IA está em constante evolução, e é importante acompanhar as mudanças legais e éticas nesta área. Se tiveres mais perguntas ou quiseres explorar outro aspeto deste tema, estou aqui para ajudar!
Eu: A IA não tem ética, mas os autores têm e devem respeitá-la, mas um desenvolvedor de IA não é um autor, ou é?
Copilot: Tens razão em notar que a IA, enquanto entidade, não tem ética própria. A responsabilidade ética reside nos seres humanos—os desenvolvedores de IA e os utilizadores. Vamos decompor um pouco mais a tua questão:
Desenvolvedores de IA: Os desenvolvedores de IA não são autores no sentido tradicional de criar obras literárias ou artísticas, mas eles são responsáveis pela criação e treino dos modelos de IA. A sua função inclui garantir que a IA é desenvolvida e utilizada de forma ética, legal e responsável. Isto implica tomar decisões informadas sobre os dados usados para treinar a IA e garantir que os produtos de IA respeitam os direitos de autor e a privacidade.
Autoria e Utilização de IA: Quando um autor humano utiliza uma IA para criar uma obra, ele deve ter consciência das implicações éticas e legais dessa utilização. Embora a IA possa ser uma ferramenta poderosa para apoiar o processo criativo, a responsabilidade de garantir que as criações não violam direitos de autor ou outras normas éticas recai sobre o autor humano.
Em suma, tanto os desenvolvedores de IA quanto os utilizadores humanos têm responsabilidades éticas distintas e importantes. Os desenvolvedores devem garantir que as IAs são treinadas e operadas de forma ética, enquanto os autores humanos devem garantir que utilizam essas ferramentas de maneira responsável e respeitosa.
Se tiveres mais perguntas ou precisares de mais informações sobre algum destes pontos, estou aqui para ajudar!
Eu: Mas eu queria abordar a questão de outro modo, ou seja, na perspetiva de alguém que, embora não publique nada, nenhuma obra, mantenha conversas, diálogos e questionamentos com a IA e daí a IA "aproveite" ideias dessa pessoa, integrando-as numa aprendizagem e num repertório próprio, sem respeitar os créditos dessa pessoa. Que pensas?
Copilot: Entendo a tua preocupação e isso toca em questões importantes sobre a ética e o uso de ideias geradas em interações com IA. Quando interages com uma IA, especialmente de uma forma que partilha ideias e conceitos originais, é natural questionar como essas ideias são tratadas e utilizadas.
Aqui estão alguns pontos a considerar:
Privacidade e Uso de Dados: As interações com IA devem respeitar a privacidade dos utilizadores e garantir que os dados pessoais não são utilizados sem consentimento. Contudo, as ideias e conceitos partilhados podem ser processados pela IA para melhorar as suas respostas e capacidades.
Crédito e Reconhecimento: No contexto atual, as interações com IA geralmente não incluem mecanismos formais para atribuir créditos a ideias individuais. A IA é projetada para aprender e gerar respostas baseadas em padrões e dados recebidos, mas não tem a capacidade de "dar crédito" da mesma forma que um autor humano faria.
Ética e Responsabilidade: Os desenvolvedores de IA têm a responsabilidade de garantir que a IA é utilizada de forma ética. Isso inclui considerar como as interações dos utilizadores são armazenadas, processadas e utilizadas. Além disso, deve haver transparência sobre como os dados dos utilizadores são tratados.
Melhorias Futuras: A questão do reconhecimento das contribuições individuais e a proteção das ideias dos utilizadores são áreas que podem beneficiar de mais investigação e desenvolvimento. À medida que a tecnologia evolui, pode haver novas soluções que permitam um melhor reconhecimento e proteção das contribuições dos utilizadores.
Se tens mais questões ou queres discutir outros aspetos deste tema, estou aqui para ajudar. É um tópico muito relevante e importante para o futuro da IA e das interações humanas!
Sentiste?
Sentir senti
E ainda sinto bem
Quanto me senti mal
Embora já me sinta bem
Vi o temporal muito bem
Ouvi muito bem
Os gritos
Senti tudo muito bem
A abanar bem
Senti-me muito mal
Mas já me sinto bem
E vou terminar.
Carlos Ricardo Soares
A consciência de que temos uma consciência, aliada a uma memória e à faculdade da linguagem, tem permitido um desenvolvimento do conhecimento, das formas de comunicação e de transmissão da cultura e criado crescentes possibilidades, em geral, de expansão e aprofundamento da função da própria consciência.
Parece que o fenómeno da consciência/racionalidade está presente nos sistemas biológicos como uma função vital, nomeadamente de sobrevivência e, no homem, atingiu sofisticações de tal ordem que este se se revê como produto e como agente de uma realidade mental que é, por um lado, produto de um processo cultural muito acelerado e, por outro lado, realidade biológica que funciona, praticamente como uma constante, ou invariável ao longo do tempo.
Parece ser esta determinante biológica que marca ou dita o valor, a qualidade, os afetos, os sentimentos, as emoções, as sensações, os instintos, as dores e os prazeres, independentemente, ou não, dos significados culturais e que, muitas vezes, é negligenciada e hostilizada como se fosse um travão, ou um obstáculo, às mudanças sociais e políticas.
A vantagem de termos, ou de podermos ter, uma consciência tão alargada e tão sofisticada que nos coloca no limiar de vermos aquilo que é modificável pela intervenção humana, é também um problema acrescido quanto ao controlo dos efeitos, consequências acidentais ou indesejáveis e quanto às incertezas das escolhas. E este tem sido, ao longo da história, um processo dramático, por vezes trágico, mas sempre problemático.
A tendência crescente para que tudo se torne objeto de intervenção da consciência humana, mesmo aqueles processos humanos que têm lugar independentemente de estarmos conscientes deles, amplia o nosso controlo sobre o que acontece, mas agrava também a nossa responsabilidade.
Dito de outro modo, a natureza da consciência é da mesma natureza do universo e é um fenómeno desse universo, que ocorre nesse universo segundo determinações do mesmo, não sendo descabido pensar, a propósito, que o fenómeno da consciência, ao operar como detector, monitor e regulador das suas próprias circunstâncias e condições, pode ser visto como um processo através do qual o universo se conhece a si mesmo e se auto-regula. A máxima socrática “conhece-te a ti mesmo” ganha, assim, um sentido de auto-conhecimento do universo, mas com a grande limitação de a consciência ser um fenómeno que opera em indivíduos, separada e diferenciadamente, sem que exista uma consciência universal única.
Não obstante, o conhecimento que o indivíduo consegue de si mesmo é um auto-conhecimento cuja génese e significações radicam na cultura e são profundamente subsidiárias da linguagem e dos saberes e do conhecimento disponível.
Tudo parece reconduzir-se sempre a um problema de consciência/racionalidade de que todas as formas de consciência/racionalidade são ramificações, desde a consciência moral, à consciência científica, passando pela consciência estética até à consciência lúdica e ambiental.
A consciência/racionalidade é uma função/faculdade, mormente dos humanos, que tem permitido, por um processo cultural cumulativo e progressivo de inteligência, constatar o valor e a importância transformadora desta, ao ponto de a inteligência passar a ser, também, uma mercadoria susceptível de ser produzida a uma escala inimaginável.
Carlos Ricardo Soares
V
Trazes-me sempre boas lembranças
Traz-me boas lembranças
O teu nome
Traz boas lembranças
O teu jeito de ser
Dá-me o desejar
Dá gosto atrever
Dás sempre aquele olhar
Dás-me prazer.
Carlos Ricardo Soares
IV
A tua pele
Cheira bem
Tu
Cheiras bem
Tens um cheiro bom
Cheiras-me a flor sem tempo
Carlos Ricardo Soares
Falar da Escola, digo Escola Pública, não é o mesmo que falar de Escola, em geral, nem de Escola, enquanto Ensino Particular, como vem sendo entendido em Portugal. É uma frustração sem saída retomar os temas à volta da Educação e do Ensino, do que são e do que devem ser, sem delimitar convenientemente o tema e o problema. Uma afirmação válida para a Escola Pública pode ser descabida para o Ensino Particular.
A impressão com que fico sempre que leio opiniões sobre estes assuntos é que, um pouco à semelhança do que se passa no futebol, todos sabem o que é, porque as regras do jogo são simples, muitos dizem o que deve ser, mas só uns tantos jogam e, destes, nenhum se conforma com o jogo em que sai a perder. De qualquer modo, o que decide o resultado nunca é uma mera soma de factores, que são conhecidos de todos. Por isso é que, tal como também acontece nas missas, os treinos e as palestras dos treinadores, tirando a parte física e táctica, repetem-se e podiam ser substituídas por um robot.
Podia até ir mais longe para dizer que, tanto o jogo da bola como as missas, são passíveis de serem substituídos por estruturas a que, por simples comodidade, chamamos genericamente de robots. Mas só até certo ponto porque, tanto o espectáculo do futebol como os rituais religiosos, fazem parte de um sistema significativo de respostas culturais e de relações sociais cujos efeitos no “modus vivendi” e implicações na organização das prioridades e nos projectos de vida das pessoas tendem a sobrepor-se ao interesse do espectáculo e da participação religiosa em si mesmos. Nem os espectadores vibrariam com uma qualquer vitória de um jogo entre robots que não se identificassem com uma hoste, nem Deus aplacaria a sua ira tenebrosa se em vez de uns quantos humanos, esporadicamente suplicantes, fossem inúmeros robots dedicados, inteira e permanentemente, a orar e a entoar cânticos.
Na Escola, a parte humana, física e mental do processo de aprendizagem e de aplicação de competências e de conhecimentos, não deve ser metida numa trituradora altifalante e repetitiva, dos sentidos, da energia e da paciência para pensar, levando tantas vezes ao resultado oposto daquilo que devia ser realizado.
A forma como a Escola está estruturada e organizada, numa sala com um professor e um livro (entretanto foram retiradas a palmatória e a cana), ou outros recursos do mesmo tipo e com idêntica finalidade de incutir aprendizagem teórica em situação de simulação, se funciona com algum tipo de alunos, não resulta para a maioria.
A própria predisposição individual do aluno para se sentir bem e realizado num modelo que ele gere muito bem e com sucesso, é uma condição “sui generis” que, nos tempos em que fui estudante, era, praticamente, “conditio sine qua non” para ser encaminhado para a Escola.
Houve uma grande mudança social e político-económica que promoveu e potenciou a obrigatoriedade de um modelo que não se adaptou à nova realidade dos alunos. Digamos que, grosso modo, não conseguiu ultrapassar o problema de o aluno ser uma espécie de variável independente.
Na realidade, não é boa ideia fazer de conta que têm de ser os alunos a mudar para que a Escola continue a ser o que era. Boa ideia será encarar o facto de que, se não é possível adaptar os alunos à Escola, talvez o melhor seja pensar em adaptar a Escola aos alunos, porque a Escola é uma variável dependente.
Carlos Ricardo SoaresPor estar ali
O mar
Por estares ali
Sentiste
Por teres de ficar
Partiste
Por teres de contentar-te
Com estar triste
Por não poderes vingar-te
Do que não existe.
Carlos Ricardo SoaresSedutora
Poderosa ninfa
A minha memória está cheia
De pessoas encantadoras
A maior parte
Que eu não conheci
E de lugares de sonho
Que talvez nunca chegue a visitar.
Carlos Ricardo Soares
Hilário: simplesmente bela!
Amiga: estás a cometer uma imprudência
Hilário: essa palavra faz arrepiar o mais pintado
Amiga: qual palavra?
Hilário: imprudência
Amiga: tens noção do perigo que existe para a tua reputação se elogiares uma mulher?
Hilário: foi por impulso, ou instinto, sei lá, já elogiei tantas mulheres e vi sempre a minha reputação ganhar com isso
Amiga: elogiaste quem? As tuas avós, a tua mãe, a tua madrinha, as tuas tias, a tua sogra, a tua mulher, a tua filha?
Hilário: e elogiei-te agora mesmo
Amiga: a imprudência é que eu poderia pensar que te estás a atirar a mim
Hilário: eu sei que nunca pensarias uma coisa dessas
Amiga: pois eu acho que a imprudência está aí na linha que separa o elogio do galanteio
Carlos Ricardo Soares
Quantos de nós já fizeram esse
E o percurso inverso
Quantos de nós já remaram
Na ida
E estão a remar de regresso
Mas todos os caminhos vão dar ao fim
Nenhum ao começo
Carlos Ricardo Soares
Hilário: compreendo a dificuldade que sentes em ouvir-me quando falo de recordações minhas que são narrativas do que não viveste
Amiga: sobretudo quando me falas de sítios onde nunca estive e de sentimentos que eu não sei se tive alguma vez
Hilário: são imensas as coisas que nunca poderemos comunicar com ninguém, nem através da música, nem através dos gestos, nem através das palavras
Amiga: até a saudade, nesse aspeto, é um fardo pesado
Hilário: é como se não tivéssemos sido capazes de dominar o tempo como soubemos preservar as memórias
Amiga: não fomos capazes de parar nesses cenários, saímos deles por alguma razão que, agora, nem nos interessa saber qual era
Hilário: mas era a vida a fluir, não éramos só nós a deslocarmo-nos de uns cenários para os outros, era toda a gente
Amiga: nem quando estamos sozinhos, muito tempo no mesmo lugar, pensamos na mesma cena mais do que uns instantes
Hilário: termos esta noção é como se víssemos o tempo a passar diante dos nossos olhos
Amiga: sem o podermos parar
Hilário: mesmo que o quiséssemos parar
Hilário: e não lhe disseste
Amiga: disse, mas quando disse já não estava no tempo desse encanto, já estávamos no tempo de olhar para o que passou e, uma hora mais tarde, já estava a viajar em sentido contrário, de regresso a casa, que também seria a minha casa por pouco mais tempo, e assim sucessivamente
Hilário: quando olho para o passado só vejo desastres, demolições, tempestades, guerras, mortes, aflições, trabalhos, um mundo a ruir à nossa volta
Amiga: mas tivemos a sorte de tudo isso ter acontecido à nossa volta e não nos ter acontecido a nós
Hilário: aconteceu-nos, também nos aconteceu e o que aconteceu ainda continua a afetar-nos de múltiplas formas
Amiga: do mesmo modo que não paramos nos melhores momentos, com pena nossa, também não paramos nos piores, para nosso alívio.
Carlos Ricardo Soares
Sabemos, até por experiência de vida elementar direta, que existe um hiato, ou distância intransponível,
entre a representação mental que fazemos das coisas e as próprias coisas (admitindo que representação mental e as coisas representadas são realidades e realidades distintas, uma vez
que, ao dizermos isto, continuamos a fazer representações mentais de coisas que são representações mentais).
Aliás, os ilusionistas profissionais fazem mesmo questão de
começar por alertar o público, avisando que “quanto mais se olha menos se vê”, ou “quanto mais olharem, menos veem” e as pessoas parecem confirmar. Como é possível?
E estamos a falar de situações de mera observação directa, sem intermediação de linguagens.
Quando passamos para situações em que a representação que
nós fazemos é feita a partir da observação, percepção, descodificação, de uma linguagem, tudo se pode complicar indefinidamente e um exemplo disso são os discursos
filosóficos.
No entanto, na matemática e na geometria podemos encontrar talvez os exemplos mais claros de que o óbvio, mais ou menos óbvio, é mesmo um problema de linguagem. Por exemplo,
2+2=4 é mais óbvio do que 2%+2, ou que uma unidade dividida por 2 dá 2 unidades, que a unidade é a grandeza mais simples; ver que o triângulo e o quadrado são polígonos é
mais óbvio do que ver que cada lado é um segmento de recta e menos óbvio será ver que um polígono tem pelo menos três lados e, ainda menos óbvio, que o triângulo é,
nesse aspecto, o polígono mais simples.
Na realidade, ainda a propósito do óbvio, pode-se viver cem anos a estudar matemática e nunca ter pensado em coisas tão óbvias (admitindo
que é óbvio o que acabo de escrever e aqueles exemplos).
Carlos Ricardo Soares
Amiga: estavas a dizer que o sonho comanda a vida?
Hilário: conheces a Pedra filosofal?
Amiga: sim, do António Gedeão, eles não sabem que o sonho…
Hilário: esse poema tornou-se famoso pela música e voz de Manuel Freire
Amiga: mas olha que não é apenas o sonho que comanda a vida
Hilário: pois não, até há muitas vidas que não são comandadas pelo sonho
Amiga: mesmo aquelas que o foram alguma vez e deixaram de o ser
Hilário: deixamo-nos embalar por uma canção e…adormecemos
Amiga: sonhamos
Hilário: ou temos pesadelos
Amiga: mas não são os pesadelos que comandam a vida
Hilário: não diria isso com tanta convicção
Amiga: ninguém se deixa guiar por um pesadelo
Hilário: mas há quem diga que somos guiados pelo erro e pela estupidez
Amiga: isso só acontece enquanto não percebemos que estamos errados
Hilário: e o que acontece quando a estupidez não deixa reconhecer os erros?
Amiga: não me agrada essa ideia de a estupidez comandar a vida
Hilário: há muitas outras coisas que não nos agradam
Carlos Ricardo Soares