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domingo, 2 de agosto de 2020

A melancolia e a palavra melancolia

A melancolia, antes de mais, é uma palavra. Aqui, deixa de ser subjectiva. 

A linguagem tem a virtude de objectivar o subjectivo e o defeito de não comunicar o subjectivo. A dificuldade de comunicar, em grande parte das vezes, está em que, ao fazê-lo, o subjectivo deixa de o ser, porque a linguagem não é subjectiva. 

Suspeito de que um dos trunfos da comunicação científica para ter eficácia resulta do uso de uma linguagem descontínua (ou digital).
De igual modo, a eficácia que a comunicação corrente procura depende e exige o uso de uma linguagem contínua (ou analógica), que não existe, porque a linguagem é descontínua (ou digital).
Suspeito de que estas hipóteses sejam revolucionárias, como o foram os primeiros estudos e descobertas sobre a perspectiva.
A realidade observada através de um espelho com uma área de 50 cm2, pode ter uma área de muitos Km2. 

E podemos pintá-la (representá-la) num quadro a qualquer escala. 

Uma das maravilhas da linguagem (não só da matemática) é que ela permite que percorras todos os labirintos e dês muitas voltas ao mundo e fales disso, sem saberes nada do que andas a fazer.

terça-feira, 21 de julho de 2020

Ler livros e pensamento crítico

A notícia de uma professora de português que disse, numa entrevista, não ser de ler livros, primeiro inquietou-me mas, depois de pensar, concluí que não era nada que eu já não soubesse que podia acontecer. 
Não é fácil admitir que um professor é mais e muito menos do que "o modelo" de professor.
Fala-se muito em "perfil do aluno à saída da escolaridade obrigatória". 

Todos esperam que o professor seja mais habilitado e inteligente e responsável, etc., do que um aluno à saída da escolaridade.
Adquirir o estatuto de professor é um passe de mágica incrível. 

A simples mudança de papel no teatro das operações, faz toda a diferença. 
E todos acreditamos nisto, ou, pelo menos, funcionamos como se acreditássemos.
Se pusessem a chefe das funcionárias a Directora da escola, no dia seguinte, ela era a pessoa mais dotada e competente que alguma vez se viu e todos os doutores eram uma cambada de maledicentes, que tinham de ser metidos na ordem.
Mas a questão é mesmo "ler ou não ler".
É certo que quem lê tem imensa dificuldade em fazer-se entender por quem não lê.
Quem não lê cumpre os requisitos da sociedade do pré-formatado. 

Comprar tudo feito é o modelo em que vivemos. 
Não ter de aprender a fazer as coisas. 
Não ter de pensar, porque já tudo está pensado, etc..
Por que nos torturaríamos a pensar, com as nossas limitadas capacidades de iniciados, sobre aquilo que as maiores inteligências já pensaram e repensaram durante séculos e nos colocaram "gratuitamente" nas mãos?
O chamado espírito crítico é andar para trás, é perder tempo, é, no fim de contas, uma estupidez, porque a roda e a pólvora estão ali à vista, tudo o que precisamos de saber, está ali, não precisamos de inventar nada.
Aliás, ter pensamento crítico é justamente perceber o que acabo de referir. 

Sair disso é pedir uma reprovação por burrice. 
Ser questionador, perturba, ser dissonante é conflituoso, disruptivo, desagregador, desagradável, enervante, hostil, exigente e incompreensível. Quem quer isso?
Se já está tudo pensado e comprovado e simplificado e optimizado (e decidido) por que raio hás-de pensar e problematizar e dizer por outras palavras?
Não estão os problemas todos resolvidos? 

Somos nós que vamos resolvê-los?
Que é que estamos, então, a fazer na escola? 

Isto não é pensamento crítico?
Os partidos, as seitas, as religiões, os clubes, os filósofos, os cientistas, os fabricantes, os comerciantes…, não têm as respostas para as questões e os problemas?
Quem és tu/sou eu para discutirmos e pormos em causa o que quer que seja?
As bíblias e os altares não tinham todas as respostas para tudo?
Se tu fores capaz de reproduzir as crenças da tua igreja, as ideias dos principais filósofos, as teorias dos maiores cientistas, os argumentos do teu partido, já serás tido como sábio.
Se questionares tudo isso, ainda que abras brechas nos edifícios de terracota, o que te perguntarão será sempre sobre aquilo que é sabido.
Aprende de cor o catecismo da tua disciplina ou religião, ou a cassete do teu grupo ou partido e representa o respectivo papel que, para seres excelência, só não deves fazer ondas.

sábado, 18 de julho de 2020

O protagonismo dos livros

Os livros também são protagonistas de aventuras e de histórias, por alguma razão, empolgantes e inesquecíveis. 
Como o livro, se houver, serão poucas as realizações humanas que mobilizaram e mobilizam tanto o labor, a criatividade, o génio, a inteligência e a paixão do homem. 
Se não acolhe tudo o que importa exprimir e comunicar, porque nem tudo é susceptível de ser plasmado ou veiculado em livro, poder-se-á dizer que nada do que aspira a ser dito e merece deixaria de ser feito em livro, se pudesse.

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Letra morta

Há imensas coisas que não passam de letra 
e outras tantas que são letra 
morta.
Até há imensos projetos de arquitectura 

que só o arquitecto vê.
São coisas, correspondem a ideias, 

mas enquanto não saem do papel...

terça-feira, 16 de junho de 2020

Quando olho é como se já não visse


Quando olho é como se já não visse
por ser tão longe e tão profundo
o significado em que tudo o que vejo
se tornou
nesta surpresa que sempre procurei
quando acreditava que o futuro
era o tempo de realizar sonhos
que o presente então
ao meu esforço negou
 eu olhava e era como se não visse
por não ser preciso
mesmo assim eu queria ver
o significado em que tudo se tornaria
o presente me dá quase sem eu querer
quando olho como se já não visse
o que desejava ver.

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Continuidade/descontinuidade

Gostava de referir algumas questões atinentes à continuidade/descontinuidade entre empirismo/racionalismo, considerando que, no tocante ao inato, às ideias inatas, percepções inatas, emoções, as neuro-ciências têm apresentado estudos muito curiosos em recém-nascidos.
Por outro lado, parece-me que o empirismo é, pelo menos, tão racional quanto o racionalismo é empírico. A própria experiência racional é uma experiência. Experiência, neste sentido, é também a experiência estética, poética, religiosa.
Estamos imersos na experiência, mesmo quando flutuamos até à superfície e colocamos a cabeça de fora (se é que isso acontece, ou pode acontecer). A música e o prazer e a dor são experiências.
Parece-me um trocadilho afirmar, como já tenho lido em enciclopédias, que "só a experiência permitirá decidir da verdade ou falsidade de um enunciado".
Não é a experiência, mas a razão, que permitirá decidir da verdade ou falsidade de um enunciado. Mas o que é a razão sem a experiência?
Outra questão é a da objectividade/subjectividade. A comunicação processa-se no plano da objectividade. O subjectivo deixa de o ser quando se comunica. A linguagem é um domínio objectivo.
O relativismo é outro problema inerente ao conhecimento, mormente enquanto correlação empírica, e não necessidade lógica.
Agora, brincando um pouco, em inúmeras situações em que estamos cheios de razão, nem por isso temos mais do que aqueles que, não tendo razão, têm o que não temos. Quando só temos razão, ainda podemos ser acusados de não termos nada.

sexta-feira, 29 de maio de 2020

Os democratas que não construíram a democracia

Ainda nos falta um bocado de trabalho científico e filosófico, descontraído e desinteressado, isento e tranquilo, para começarmos a compreender o problema da linguagem, como parte das respostas e das perguntas sobre a realidade incluindo a dela própria.
Mas estão a fazer-se progressos notáveis. 
A linguagem, segundo uma abordagem interessante que li, parece que funciona num esquema digital, descontínuo, e a realidade, a vida, as emoções, funcionam analogicamente, sem descontinuidade. 
Esta hipótese, para mim, foi uma grande descoberta (andamos sempre a descobrir o que já foi descoberto?). 
O alcance desta conjectura, de que a linguagem comunica, ou pretende comunicar, a realidade mas que o faz representando-a digitalmente, envolve um conjunto de problemas interessantíssimos e que podem ser perigosos. 
Deixa o caminho aberto a todas as formas de comunicação e de mal-entendidos e de equívocos, voluntários ou não, sobre a realidade, que sempre será diferente da nossa representação dela e, inerentemente, da comunicação que dela se faz. 
A literatura, a poesia, o teatro e as artes...não obstante serem de algum modo jogos que "pervertem" e "subvertem" e "transgridem" a linguagem digital para tentarem ser analógicas, como a realidade, não deixam de ser linguagens... 
Não estou muito certo de estar a ser suficientemente rigoroso na linguagem e não tenho mais do que a suspeita de que estou a pensar numa questão algo revolucionária, em termos de teoria do conhecimento.
Quanto à democracia, enquanto ideia, nunca será destruída por ninguém. Se existe um problema porque a democracia nunca existiu para além da ideia e quanto mais se deseja, mais parece estar longe da sua concretização, é preciso identificá-lo e resolvê-lo, mas não me parece que seja com jogos de palavras como "os democratas que destruíram a democracia". 
 Apostaria na expressão “os democratas que não construíram a democracia”.

sábado, 16 de maio de 2020

Máscaras

As máscaras, os papéis, os palcos, os bastidores, temas fascinantes, para a psicologia e a sociologia e tudo o mais que envolve conduta humana, por acção ou omissão, mas particularmente importantes para o conhecimento de si mesmo e dos outros, daquilo que é o poder da imaginação, a aptidão do cérebro para trabalhar, ainda que à revelia do seu "dono, mas pouco", de produzir imagens, ideias, representações, palavras, falas, músicas, medos, ficções, movimentos... correlações, explicações, teorias...cenários... e cujo interesse artístico, estético, filosófico, social, clínico, político, comercial... tem uma dimensão astronómica.
Saberemos algo que não seja imaginado, que não seja representado? O que não somos capazes de imaginar ou de representar, estará acessível ao conhecimento? O nosso acesso à realidade é intermediado por máscaras, umas vezes de ferro, ou de plástico...e outras vezes de gestos, de palavras, de subentendidos, de equívocos...
A maior parte de cada um de nós, boa ou má, é máscara da humanidade que viveu e morreu.
E não há como tirar a máscara, porque debaixo de uma está outra.
Há é como colocar a máscara para salvar os outros.

quinta-feira, 7 de maio de 2020

O maior inimigo das artes

A arte, qualquer que seja, é incompatível com a pressa. 
Até a arte de relojoeiro. 
Encontrar o ritmo certo, o enleio perfeito do tempo, do corpo e da alma (sem concessões religiosas), talvez por ser um horizonte, nos apresse a chegar, mas esta resposta é contraproducente. 
Os nossos tempos elegeram o maior inimigo das artes, a velocidade, como vector determinante, de tal modo que o que quer que seja que não seja veloz, passa ao lado, passe a expressão, não merece que se "perca" tempo. 
É assim, mormente, desde que o tempo passou a significar, ou a ser considerado, e não apenas a valer, materialmente, dinheiro "Time is money".
E a velocidade, a adrenalina, a vertigem, viciaram o nosso sistema nervoso e deparamos com muitas pessoas a desabafar que não conseguem imaginar a vida sem elas, do mesmo jeito que ouvimos fumadores inveterados ou alcoólicos a queixarem-se da sua escravidão.
Até o pensamento, se não for rápido, que fosse. 
Quem espera por um pensamento ou uma ideia?
Se observarmos, daremos conta de que um número significativo de pessoas estão contaminadas por uma pressa na forma de falar e de fazer as coisas, que também pode ser observada na forma como andam, ou estão sentadas, sem disso terem consciência, como se estivessem sempre atrasadas para algum evento obrigatório e não pudessem perder o transporte que acabou de passar, como se o presente e o lugar onde estão fossem uma espécie de transitório e não de objetivo e destino. 
No fundo, receiam pensar, e mais ainda admitir, que não têm objectivos, nem destino (no sentido de lugar aonde desejam chegar).
Tantas pessoas em fuga. Sem saber para onde. A fuga é uma realidade. É um drama. E a fuga adopta imensas estratégias e variantes. Não é apenas um problema de ansiedade e de sobrevivência. É um modo de estar e de comunicar, de pensar e de sentir e, se não é um modo de viajar, quantas vezes viajar não é um modo de fuga?!
Mais do que um hábito, para muitos converteu-se numa disciplina, numa cultura de empresa e está institucionalizada no capitalismo, como se a nossa função natural fosse reciclar, como as minhocas, e o nosso papel social não passasse de uma sublimação que impede concluir facilmente que essa é uma realidade, que alguns acharão triste e outros, nem sequer pensam se é uma fatalidade, ou se o sentido da vida é esse, render-se-lhe.
Tudo tem de estar preparado e embalado. Pré-fabricado.
Com o "tempo dinheiro", também o espaço sofreu uma incrível contracção e tem o seu preço e é cada vez mais exclusivo e excludente. Até os espaços públicos, não são espaços onde se possa morar, como se fossem nossos, meu, teu...
De resto, tudo se agravou mais para as artes e as contemplações. 
É muito difícil, para não dizer impossível, ser deus, mais humano e independente e livre do que um Deus, parar no centro dos furacões, não aceitar ordens de ninguém e, soberbamente, não dar ordens a ninguém. 
Não trabalhar para quem não precisa.
As plantas, essas, que parece que não crescem e não podem voar, senão quando um vendaval as arranca e as transporta para algum chão em que voltem a criar raízes, que pensarão dos pássaros e do sol e da lua?...
Quem disse que uma vida não se mede em dias, meses ou anos, mas em quantidade de moeda equivalente ao tempo "gasto" para a sustentar, que é considerado "perdido" se não der retorno?
É assim, tanto com a vida dos bichos como com a vida das pessoas?
Criar riqueza hoje tem um significado muito retorcido. Um incendiário pode ser um criador de riqueza. E um consumidor de combustíveis também, assim como um vírus mortífero.
Mas, e o amor? De que riqueza é o amor?

               Carlos Ricardo Soares

quarta-feira, 29 de abril de 2020

A poesia das ciências

As emoções que a ciência é susceptível de despertar ou provocar ou mudar...podem ser tão intensas e complexas que nenhuma linguagem ou expressão conseguem traduzir, mas isso dever-se-á talvez à natureza das emoções humanas. 
Acontece, não obstante, que a própria linguagem da ciência tem a aptidão para desencadear emoções de espanto e de deslumbramento tão ou mais complexas do que as emoções ditas estéticas e poéticas e que, como elas, nos colocam perante territórios ou mapas de pensares e de sentires e de sonhares que nos arrebatam de pontos de referência e nos compelem a procurar compreensão e inteligência em horizontes inesperados e surpreendentes.

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Naufrágios


Porque estes tempos não animam, mas sempre deixam vislumbrar o lado das desgraças, que não pode ser negativo, porque negativo é próprio da contabilidade humana e há mais mundo para além de nós, recordo o isolamento, nas maiores dificuldades, de Luís de Camões, naquele espaço de Macau, um bocado de deserto e talvez uma gruta, com a Índia tão longe e, talvez, compadecendo-se daqueles que, sobrevivendo com Vasco da Gama, se demoraram mais de quatro meses pelo Índico, numa viagem de regresso (Calcutá-Melinde) que, à ida (Melinde-Calcutá), demorou apenas 26 dias. 
Os que não sobreviveram ao escorbuto e à loucura, tiveram uma viagem mais curta. 
Mas não é a duração, nem o espaço da viagem que dá mais razão à esperança ou à ilusão. 
O ânimo não está tanto na perspectiva da continuidade quanto na da mudança para melhor. 
E outra não era a perspectiva de que estavam animados os navegadores, com Vasco da Gama, à cabeça.
Camões tinha a noção vívida de que a história do seu tempo, por não ser uma história de desgraças e de indivíduos sobreviventes, seria a melhor forma de os exaltar.

terça-feira, 14 de abril de 2020

Christine Lagarde, à quoi pensez-vous?

Christine Lagarde nem precisava de se interrogar de um ponto de vista ético e social, bastava que se interrogasse de um ponto de vista económico e financeiro, para não cair em armadilhas de palavras. 
Quem não aprendeu ou já esqueceu de ser precavido com as palavras, em cargos de responsabilidade como o dela, representa um grande perigo em matéria de ambiente ideológico, que anda mais poluído do que o outro. 
O mais preocupante é que ela não caiu em nenhuma armadilha de palavras, ela armadilhou as palavras. 
Quando era suposto que ela tivesse ideias, valores, humanidade, visão, encontrou/usou um expediente à Trump, para fazer parecer, em deploráveis segundos, que as ideias e os valores são mais fáceis de matar do que os velhos como se, para matar aqueles, bastassem algumas palavras na boca certa.

sábado, 11 de abril de 2020

A liberdade de construir a própria prisão

A forma como vivemos, pensamos, sentimos, sofremos ou nos alegramos é do mais bizarro que há, assim como o modo (deliberado, engenhoso e pedagógico) de investimento e de sacrifício e a forma (de ingénuo e ignorante sujeito) como aprendemos tanta coisa errada, quantas vezes, com muito trabalho e esforço, de que jamais conseguiremos desembaraçar-nos, ou desfazer-nos. Algo que faz lembrar a liberdade de construir a própria prisão, como desiderato ao alcance de uns poucos privilegiados que, no entanto, não vivem o suficiente para fecharem a porta...

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Como deduzir a água?

O homem é o problema e não tem sido capaz de uma solução. A cada pergunta que é capaz de fazer (quando faz) pede respostas (quando pede) que não existem e que vai sendo capaz de construir (quando é) a partir daquilo que conhece (quando conhece) por experiência (quantas vezes enganosa, veja-se os movimentos da lua e do sol, tão semelhantes e tão indutores em erro), mas sempre fundamental (há realidades que não seríamos capazes de deduzir, por ex., se não conhecêssemos a água, mesmo que conhecêssemos o hidrogénio e o oxigénio, como deduzir a água?), por experimentação (experiência e experimentação são muito diferentes, há coisas que a experiência não permite conhecer mas a que se pode chegar por experimentação) e, sem dúvida, aquilo que conhecemos por exercícios de dedução e de indução, numa actividade permanente (e involuntária a maior parte do tempo) do nosso cérebro que, tal como o nosso coração e os nossos pulmões, não depende de nós, da nossa vontade...Ou seja, o "eu", que nos distingue uns dos outros, é uma espécie de "sistema de coordenadas" que, quando sente, ou quando se põe a sentir, sofre e não encontra sentido para o sofrimento...Se não exprimíssemos o pensamento, pareceríamos iguais e, se não exprimíssemos o sentimento, mais iguais ainda.
Em qualquer caso, os problemas são nossos, criados por nós.
Os problemas sobre a nossa identidade fazem todo o sentido, para nós, no âmbito cosmológico e metafísico.
Os problemas sobre a nossa vulnerabilidade são mais de âmbito biológico.
Todos partilhamos estes, mas nem todos partilham aqueles e, seguramente, poucos têm ou partilham as respostas e as soluções a uns e a outros.

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Um homem sem fé e sem religião

Não acredito que Deus tenha comunicado com aqueles que disseram que "sim, subimos ao monte e ele falou connosco, porque somos especiais, mais ninguém tem esse privilégio..." e que, com base nisso, falaram e/ou escreveram em nome de Deus.
As religiões que tiveram um grande sucesso, com base nisso, são uma ousadia política que funcionou, apesar de tudo, mas isso é colateral ao facto de serem falsas.
Se acredito que existe Deus, sem saber o que isso seja, é no que está por detrás, oculto, que manobra, o relojoeiro que fez o relógio.
Mas não compreendo por que é que ele não diz nada e nunca se manifesta a favor de nada, ou contra nada.
E, assim, não acredito no Deus das religiões, não acredito que a palavra que dizem ser de Deus seja a palavra de Deus.
Deus não tem palavra. E não me venham com a Arca da Aliança.
Acredito num Deus que não conheço e que não comunica com a humanidade, mas que tem todo o poder e todo o saber, ignorando nós porque não os usa da forma que nós compreenderíamos.
É estranho, tão estranho, que não acho racional crer que exista.
Sou, assim, um homem sem fé e sem religião.

sábado, 28 de março de 2020

Aquilo em que as sociedades humanas apostam em transformar as pessoas.


Se me dessem a escolher (se me fosse dado ou me tivessem dado a escolher), se houvesse verdadeiras alternativas à cultura da civilização à força, da liberdade de modelo único de organização política e económica e religiosa (todas as religiões são iguais, todos os partidos são iguais, todas as escolas são iguais...) eu teria escolhido não ter nada disso, teria escolhido ser selvagem e é a dor e a tristeza irremediável de nunca o ter podido ser, de me terem roubado a liberdade, de me terem sequestrado e raptado para as teias e para as celas e para os relógios e para os grilhões dos guardas omnipresentes, completamente domado, como um burro, ou um escravo, que ainda é acusado de ser escravo de si mesmo, obrigado a assistir ao filme interminável do seu triste filme, como se a sobrevivência fosse uma epopeia gloriosa, não sua, mas dessa tal civilização à força, que preconiza a liberdade... é a dor e a tristeza de nunca ter podido ser selvagem, dizia, que me impede de acreditar naquilo em que as sociedades humanas apostam em transformar as pessoas.


segunda-feira, 23 de março de 2020

As equações e o sinal =

A discussão sobre o conhecimento e sobre a linguagem, sobre as humanidades, as artes, as expressões, as ciências...não pode ignorar a ciência feita sobre essa mesma discussão e que é uma vasta filosofia, no melhor sentido da palavra, considerando as duas vertentes privilegiadas de produção de conhecimento, a dedução, a partir do que se conhece e a indução, partindo de hipóteses...
As equações são um bom ponto de partida para pensarmos na consistência dos nossos conhecimentos, sejam eles mais matemáticos ou menos. 
No fundo, estamos constantemente a equacionar e a procurar resolver equações. 
Neste pormenor, o que me parece distinguir mais as ciências, o conhecimento científico, das outras modalidades de conhecimento, competências, respostas, comportamentos, é sobretudo o modo e a linguagem em que equacionam os problemas e o modo e a linguagem em que resolvem, quando resolvem, as equações.
Todos nós passamos os dias a equacionar e a resolver equações e deitamo-nos com as equações, acordamos com elas e não nos livramos delas. 
Quando resolvemos umas, logo emergem outras e isto tanto acontece na música, como nas línguas, como na pintura, na moral, ou na religião...
Na matemática, as equações, tanto quanto sei, são da ordem numérica, do mais, do menos, da multiplicação, da divisão, da proporção, da progressão, regressão, finito, infinito, etc., e o significado, muitas vezes, depende de algum atributo dos números, como, por exemplo, "3000 mortos", em que mortos é decisivo no significado.

sexta-feira, 20 de março de 2020

Entrincheirados


Nas últimas semanas, à defesa do covid.19, nesta guerra de trincheiras, que muitos dariam por ultrapassada, sobretudo depois do imenso sucesso do poder militar aéreo, o inimigo é mais insidioso e diabólico do que nunca.
É um inimigo que faz parar os aviões e guardar os mísseis e todos os arsenais de torpedeiros e manda as pessoas para os abrigos, mesmo sem bombardeamentos, submissas e abatidas.
Em vez de activar a economia, numa corrida para as fábricas de armamento, tanques e equipamentos...para-a, afunda-a.
Em vez de obrigar a mobilizar tropa rija e violenta, obriga a cuidados paliativos e, tragédia das tragédias para quem é senhor da guerra, é um inimigo que escolhe o campo de batalha e as armas e move-se à vontade, ataca em qualquer lugar, a qualquer hora, invisível aos radares e sem estrondo, inexpugnável e impune.
Um inimigo cobarde. Um terrorista da pior espécie. Desconhecido. Destituído de intenções. Um facto e não actos. Ao contrário de uma guerra.
Guerra é o que vamos ter de lhe mover. Guerra é coisa de humanos.

sexta-feira, 13 de março de 2020

Ainda podes ser acusado de não teres nada

Na realidade, o problema da burocracia, da corrupção, do nepotismo, dos compadrios, dos complôs, das arbitrariedades do poder e todo o tipo de abuso, é que, apesar das queixas gritantes e embora plenas de razão, os cidadãos não são tidos em conta senão para obedecer, trabalhar, votar e respeitar a estrutura política que são obrigados a pagar, sem escolha.
E quando alguém apresenta alternativas e soluções para os problemas é visto e considerado como uma ameaça. Logo tratam de ignorar ou desdenhar para não terem de reconhecer que muito pode e deve ser feito para bem de todos (excepto daqueles que deixariam de ter as vantagens que indevidamente têm).
Não falta quem seja capaz de revolucionar com melhores leis e procedimentos e práticas. Não falta quem tenha competência para fazer melhor do que aquilo a que temos assistido (pior era difícil).
O problema, insisto, é que ter razão é pouco e pode ser nada.
Aqueles de quem nos queixamos, com razão, não têm razão mas têm e fazem o que querem.
Os outros, aqueles que têm alternativas e soluções, com razão, só têm isso, não têm o poder.
E podem até estar cansados de ter razão, ao ponto de já não terem vontade, nem determinação para a acção.
É preocupante e alarmante que o poder da razão continue a ser vilmente (para não dizer democraticamente) derrotado e suplantado pelas razões da força.
Mesmo quando tens razão, se não tiveres algo mais, ainda podes ser acusado de não teres nada.

quinta-feira, 5 de março de 2020

O que são direitos? Sentem-lhes o cheiro?

"Quando concretizamos direitos, damos um sentido à tragédia humana e à nossa própria existência!

O direito e a arte são as únicas evidências de que a odisseia terrena teve algum significado!”

                                             Não resisti a publicitar este texto da Juíza Federal Raquel Domingues do Amaral.

sábado, 29 de fevereiro de 2020

A direita é quem governa


Reparem que a direita é quem governa, mesmo quando ganham os partidos de esquerda. 
É mais simples e mais eficiente do que montar estruturas partidárias declaradamente de direita. 
De resto, os partidos de direita que temos tido são só para disfarçar e compor o painel. 
Aliás, pegam em dois ou três temas que animam toda a gente, iludindo e confundindo quem se habituou a pensar a esquerda como a luta pela justiça e...o eleitor criterioso e exigente deixa de ter em quem votar. Com a abstenção, mais uma vez, quem ganha é a direita. 
A direita ganha sempre. 
Não se iludam, se a direita quisesse assumir-se como tal e ganhar as eleições por larga maioria, só tinha que se dedicar, porque meios não lhe faltam, e a democracia também é terreno fértil da manipulação. 
Mas preferem ganhar as eleições disfarçados de esquerdas e, na realidade, parece ser a melhor estratégia. No dia em que se tornar explícito que a direita domina, porque ganha eleições, se isso chegar a acontecer, mas não creio que a direita queira, a própria direita voltará a disfarçar-se de esquerda. 
Isso de esquerdas e de direitas, na actualidade, é só para intelectuais prestarem um serviço aos mesmos: à direita.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

A ética como factor perturbador do objecto de conhecimento

Apontamos para horizontes que serão alcançados mas, por enquanto, sobrelevam lutas tribais por domínios e liberdades que são negados aos outros. É a realidade, é a biologia e o cérebro a funcionar. São os determinismos da natureza. 
Mas, então, porque continuamos a acreditar que somos capazes de perceber que os outros procederão como nós e que o egoísmo é um suicídio?
Vivemos num tempo assustador. porque é necessária, cada vez mais, atenção e desconfiança, por parte de todos, para não serem comidos e isto é um estado de guerra demolidor que esgota as energias e a paciência da maioria, que tem de jogar à defesa dos seus interesses vitais, sem ser capaz de um ataque...
A ciência seguirá para onde terá de seguir e vencerá, como não poderia deixar de ser. É sempre assim. 
O que tem de ser tem muita força.
Não será por querermos empenho que haverá empenho. Se é preciso que nos empenhemos, certamente nos empenharemos. 
A necessidade não é a mãe de todas coisas? 
Mas a necessidade de uns pode não coincidir com a dos outros e podem até ser antagónicas.
É muito ingrato e terrível enfrentar o cenário "científico" dos problemas, mas sobretudo da resolução dos problemas.
A ciência das "leis da natureza" já deu frutos preciosos e permitiu avanços notáveis no capítulo das "leis sociais e económicas".
Mas é importante considerar, cientificamente, o sentido que a estupidez humana poderá ter no "puzzle" da compreensão do mundo, uma vez que tem desempenhado a principal função.
Do ponto de vista da evolução, não há problemas, porque bate sempre tudo certo, está tudo sempre bem, etc..
Estou a pensar, não no interesse que alguém pode ter em sacrificar os outros, mas no interesse que alguém poderá ter em sacrificar-se pelos outros ou por uma coisa qualquer.
Se abstrairmos do lado ético (de que a ciência se ocupa enquanto manifestação da natureza, nomeadamente a neuro-ciência e a psicologia), a diferença entre sacrificar os outros e os outros sacrificarem-se só não é nula porque esta última alternativa é imensamente menos provável de acontecer.
Se excluirmos a ética, na natureza, está sempre tudo em equilíbrio, é sempre tudo igual ao litro.
A ética, embora não afecte o conhecimento, apresenta-se como o factor perturbador do objecto do conhecimento, da natureza.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

As coisas e a vida não precisam de ter significado, ou explicação, para serem o que são

Quantos de nós se apercebem de que, apesar de vivermos numa cultura intencional e sistematicamente "significadora", centrada na formulação e exploração de significações e de sentidos, há um predomínio daquilo que não tem significado, nem precisa, nem pode verdadeiramente ter, nem interessa que lhe atribuam?
Se tomarmos a Escola como exemplo para ilustrar o que digo, logo daremos conta de que a questão do "significado" e do "sentido" é um prévio requisito de elegibilidade, mormente se o critério geral for o da utilidade/retorno...
Todas as disciplinas se tornaram ávidas, pelo princípio de alguma forma de economia/importância/relevância, da evidência do significado e do sentido de existirem.
A ironia é que esta exigência de justificação impõe pensamento e construção racional que, ela própria, é um objecto de parca valia e menos apreço.
Atalhando, quero eu dizer que as sociedades hodiernas assistem a um recrudescer da importância dos talentos não directamente revelados como talentos de discurso do pensamento, saber pensar (filosófico, científico, político, económico, religioso...), que se revelam nas áreas do desporto, das artes, do lazer, da poesia, música, gastronomia, contemplação, ócio, vadiagem...
Se observarmos e analisarmos os dados das economias dos países, talvez nos surpreenda que mais do que os suportes tecnológicos da comunicação o que importa são os "conteúdos" comunicados e estes, da música ao futebol, passando pela dança, pela contemplação de uma paisagem, pela gastronomia, ou por uma droga...quanto mais se apresentarem como simples fruições e menos como interrogações ou respostas, maiores adesões obtêm e mais compensações/retornos dão aos seus autores e respectivos países.
Por incrível que pareça, não são os filósofos, nem os historiadores, nem os cientistas, nem os engenheiros... que obtêm ou geram mais rendimentos nas economias dos países.
As coisas e a vida não precisam de ter significado, ou explicação, para serem o que são, interessantes (como um chocolate, uma dança, um quadro do Picasso...) ou não (como a morte, um acidente...), mas o significado e questões de pensamento e de sentido poderão fazer acreditar que as coisas não têm de ser como são.