quarta-feira, 18 de setembro de 2024
O tempo de cada um, o nosso tempo e o tempo de ninguém - I
domingo, 15 de setembro de 2024
Aproximações à verdade XXXII
Hilário: és feliz?
Amiga: às vezes, e tu?
Hilário: eu não sei, nem sei se a felicidade existe
Amiga: queres que te diga?
Hilário: se pudesses mostar-me a felicidade, agradecia
Amiga: eu aposto que és feliz e não sabes
Hilário: e é possível alguém ser feliz sem saber?
Amiga: o ser não é da mesma ordem do saber
Hilário: não sei o que queres dizer
Amiga: e isso não impede que o diga
Hilário: mas então como é que sabes se és feliz?
Amiga: perguntei ao vento
Hilário: a sério? Ao vento?
Amiga: achas que devia ir ver na enciclopédia?
Hilário: mas se não sabes o que é a felicidade, como é que sabes se és feliz?
Amiga: sou feliz e não é por saber dizer, ou não, o que é a felicidade, nem ando atrás dela
Hilário: até podes acreditar no que estás a dizer, mas é algo contraditório
Amiga: e tu não sabes o que é a felicidade, nem sabes se és feliz?
Hilário: talvez me sentisse feliz se soubesse dizer-te o que isso significa
Amiga: mas isso é estranho, devia ser ao contrário, talvez soubesses dizer o que isso significa, se te sentisses feliz.
Carlos Ricardo Soares
sexta-feira, 13 de setembro de 2024
Aproximações à verdade XXXI
Hilário: tu e eu tocamos
Amiga: e cantamos a mesma canção
Hilário: tu pões a ênfase na letra
Amiga: tu pões na música
Hilário: a mesma canção
Amiga: canções diferentes.
Carlos Ricardo Soares
domingo, 1 de setembro de 2024
Aproximações à verdade XXX
Hilário: que livro andas a ler?
Amiga: o primeiro volume de «As coisas não têm de ser como são»
Hilário: já vi à venda aqui
Amiga: se quiseres comprar o segundo volume, depois trocamos
Hilário: cada volume tem mais de 400 páginas
Amiga: isso para leitores como nós não é nada
Hilário: não brinques, deves ter lido páginas que dão muito que pensar
Amiga: andaste a ver a amostra que está disponível no site
Hilário: aquilo que li é muito impactante, tipo terramoto de ideias feitas
Amiga: sim, mas deixa-me a pensar que vivo num mundo diferente e melhor do que julgava
Hilário: o autor está sempre a questionar a cultura e os valores
Amiga: mas não é fatalista, nem deixa lugar para a resignação e mostra a cada passo que, se te entristece e revolta que as coisas sejam como são, na verdade, esse é um passo necessário para melhorar, porque nada tem de ser como é.
Carlos Ricardo Soares
terça-feira, 27 de agosto de 2024
Valor, preço e utilidade
A própria Escola, desenhada por, e para, elites cultoras do não venal, ou espiritual, que detinham, porém, as vantagens do venal, foi sendo crescentemente crítica da venalidade, na medida em que a não venalidade ganhou ascendente e reclamou para si a primazia dos valores culturais e da sua respeitabilidade.
Então, o facto de alguém, por exemplo, ser perdulário, ou viver luxuosamente, não devia ser entendido como materialista, mas como desprendido da materialidade, sem apego ao dinheiro e aos bens materiais.
Ainda assim, não nos iludamos com a magia das palavras.
A Escola, os professores, o próprio conhecimento, não podem ficar dependentes, nem eternamente à espera de quem se enamore e se apaixone por eles, ou pelo valor deles, cada vez menos promovido, mas que não tem preço. E aí entram os tais valores venais, o preço em vez do valor, e as relações, ou casamentos (dissolúveis), por interesse. Um pouco à semelhança de «quem não tem cão caça com gato».
domingo, 25 de agosto de 2024
Tesouros e paixões
A força da paixão
Quem a conhece?
Não estou a falar de objetivos
Nem de devaneios
Ou ambição
Diz-me se tens alguma paixão
Diz-me qual é a tua paixão
E talvez te compreenda melhor
Alguém que tem uma paixão
Tende a organizar a sua vida à volta dela
E vai sacrificando tudo por ela
Paixão não é o mesmo que objetivos
As pessoas tendem a organizar a vida
Em função de objetivos convenientes
Ou planos eficientes de realização
De vantagens de sobrevivência
Mas paixão é diferente
Sobrevive-se para ela
É pessoal e pode ser impercetível
Para os outros
Pode ser desastrosa como um vício
Ou uma dependência muito forte
Muitas vidas e muitos destinos
São decididos ou sacrificados a paixões
E não há como lamentar certas paixões
De artistas e de estudiosos
De poetas e sonhadores
O amor ardente dos criadores
Que estão fascinados
Como abelhas obreiras
Com a realização de uma grandeza
Que colocam sempre em primeiro lugar
Porque dá à própria vida
O sentido que almejam dar.
Carlos Ricardo Soares
sexta-feira, 16 de agosto de 2024
A coisa e "a coisa em si"
O real é uma experiência
De outro mundo
Que faz perder o pé
Quando procuras saber
Como deve ser
O que é.
Carlos Ricardo Soares
sábado, 10 de agosto de 2024
Leis de acontecer o que aconteceu
As coisas acontecem
Por elas próprias
O tempo passa
Enquanto tento perceber
Porque é que tudo o que faça
Se puder
Só pode alterar a forma
E não a matéria
De acontecer
E chamam a isso
Leis da natureza
Do ser
Mas não acho graça
Não deve ser assim
O nada
Impopular
Vazio do homem
Carlos Ricardo Soares
segunda-feira, 5 de agosto de 2024
Aproximações à verdade XXVIII
Hilário: sortudos são os que prescindem de mercado e de público, porque se contentam a si mesmos
Amiga: e há alguém assim?
Hilário: não sei, mas parece que concordas com a minha bem-aventurança
Amiga: estás a colocar uma questão dos diabos porque, se as pessoas se contentassem a si próprias, não se esforçavam tanto para ganhar os mercados e as aprovações dos outros
Hilário: o reconhecimento daquilo que se faz nem sempre acompanha o valor e o mérito daquilo que se faz
Amiga: tu passaste a vida inteira a preparar-te para fazeres o cristo nas argolas e, agora que deixaste as competições, de que é que te serve?
Hilário: eu ainda estou para perceber por que razão investi uma vida numa habilidade que só tem valor como espetáculo, se for bastante espetacular, caso contrário...
Amiga: nunca pensaste que estavas a desenvolver uma arte para teu próprio prazer e realização pessoal, como por exemplo, a poesia, ou a música?
Hilário: em momento algum pensei que passaria o resto da vida a divertir-me com as habilidades adquiridas na alta competição
Amiga: não é coisa que uma pessoa aprenda a fazer com o objetivo de se divertir e de ocupar os tempos livres
Hilário: ao menos, tu tiraste um curso e fizeste sempre tudo pelo prazer de satisfazer a tua curiosidade e de mostrares a ti mesma que eras capaz de algo importante
Amiga: deves estar a brincar, não?
Hilário: o mais importante é a satisfação e os frutos que podes colher daquilo a que te dedicas
Amiga: infelizmente, as pessoas falam muito nesse sentido, sem porem a tónica naquilo que fazem, se gostam ou não, se se sentem realizadas, se se sentem bem, para não dizer felizes.
Hilário: o que me faria feliz, não sei. O que me faz feliz é ter a possibilidade, em cada momento, de procurar e de obter satisfação para as necessidades e para aquilo que devo pensar e fazer
Amiga: também podes encontrar isso num emprego
Hilário: dadas as circunstâncias atuais, talvez tenhas razão. Mas depende muito mais do que são as minhas necessidades do que daquilo que posso fazer para as satisfazer
Amiga: seja como for, o problema de se contentar a si mesmo sem ser através dos outros, pelos outros, é algo enigmático e redutor e apresenta-se como hostil, mesmo que a intenção seja simplesmente prescindir dos outros, como se os aliviasses de um peso que, no fundo, tomas para ti, sem que te agradeçam.
Carlos Ricardo Soares
domingo, 21 de julho de 2024
Aproximações à verdade XXVII
Amiga: já tens ideias para o que vais fazer este verão?
Hilário: um dia saberás
Amiga: eh lá, isso até parece o título de um romance
Hilário: quem sabe se já foi ou ainda será?!
Amiga: a única coisa que sempre quis e ainda não realizei
Hilário: um romance
Amiga: tu sabes: escrever um romance
Hilário: tens todas as condições para isso
Amiga: a imaginação não basta
Hilário: mas é necessária, ninguém escreve um romance do que lhe aconteceu
Amiga: é isso, comigo não acontece nada, mas imagino tantas coisas?!
Hilário: aproveita as férias
Amiga: ando com ideias para o meu romance “Um Verão a dois”
Hilário: mal posso esperar para ler
Carlos Ricardo Soares