A língua é usada intensivamente como instrumento e ferramenta, como forma de integração e de pertença que se traduz na troca de palavras como se
o jogo social fosse também essa vontade e esse gozo de fazer parte da narrativa de todos e de ninguém. Por sua vez, a língua como recurso e instrumento de leitura focada e complexa, levanta problemas consideráveis
quando, pela exigência, pela duração prolongada, pelo isolamento que envolve, mesmo quando é validado e reforçado positivamente pela mentalidade e pela cultura em que se vive, faz soar o alarme
do solipsismo, da solidão que, numa economia de funcionalidade e de produtividade avaliada em unidades monetárias por cada hora que passa, até ao próprio, se pode agigantar como um luxo, ou um vício,
que não pode ter impunemente.
Não há como ignorar a tensão entre estes dois regimes, como a cultura contemporânea favorece a língua funcional, gregária, ritual e penaliza
a língua criativa, exigente, solitária. A cultura contemporânea desconfia da interioridade. A verdade é essa.
O leitor profundo, o pensador solitário, o criador de mundos interiores é visto como improdutivo, excêntrico, desligado, “metido consigo”, potencialmente
inútil, enfim, como alguém que “não participa”.
Cada vez são mais os que fazem o diagnóstico desta patologia cultural. Vai-se tornando cada vez mais evidente a incapacidade de reconhecer valor naquilo que não
é imediatamente social, útil ou mensurável em unidades monetárias.
A língua social é celebrada porque mantém o grupo unido. A língua profunda é suspeita porque retira o indivíduo do grupo. E numa cultura
que mede tudo em produtividade, o pensamento torna‑se um luxo perigoso.
A forma como a sociedade contemporânea desvaloriza a interioridade, penaliza o silêncio, teme a profundidade e idolatra a participação vazia é um
condicionamento muito difícil de contrariar para quem a prioridade é a sobrevivência, ou, de qualquer modo, ir a jogo para ganhar, nem que seja a feijões.
Carlos Ricardo Soares
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