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quinta-feira, 23 de agosto de 2018

No horizonte das possibilidades


Atrevo-me a dizer que, sem paixão, tudo permanece opaco ao pensamento, incluindo o pensamento e o que acontece é dentro das fronteiras do senso comum.
O filósofo coloca o problema da filosofia como uma questão de amar ou não o conhecimento, o saber, a sabedoria, sem fronteiras. E o amor é reconhecido como uma vinculação à verdade, talvez a única vinculação radical.
Quando as motivações são outras, a filosofia não funciona porque, na verdade, deixa de existir e pode ser uma emulação, uma sofística, uma técnica de manipulação de palavras.
A escola, ao aproximar o aluno do horizonte das possibilidades de aprendizagem e das dificuldades de atingir determinados desempenhos, já cumpre um importante papel.
As aprendizagens são como sementes e as que brotam mais cedo ou mais facilmente nem sempre são as mais consistentes, ou produtivas.
Às vezes a importância do banquete não está no que se come, mas no que se deixou de comer.
O que fica na mesa, e não o que vai para o estômago, pode ser o que fica na memória.

domingo, 5 de agosto de 2018

Violência dos ofensores e violência dos ofendidos


Vou ser breve e cingir-me a poucas considerações sobre um tema tão vasto e complexo.
Ao focar apenas ofensas derivadas da liberdade de expressão/pensamento, omite-se e não se aproveita para a análise, a ofensa, como denominador comum relativamente a todos os tipos de crime, públicos ou particulares.
A ofensa, na óptica do ofensor/agressor e a ofensa, na óptica do ofendido, merecem uma análise "per si". 
Se não houver ofendido, não há ofensa? Ou, por outra, se houver ofendido, há ofensa? Todo e qualquer comportamento de um indivíduo "contra" uma pedra, não é censurável de todo? Qual é o escopo da censura, o objetivo, a teleologia? O comportamento do indivíduo, a adequação da sua conduta social ou os eventuais resultados, efeitos ou consequências dessa conduta?
Mesmo que alguém admitisse, sem se queixar e sem se sentir ofendido, que o maltratassem, injuriassem, difamassem, escravizassem, o busílis da questão jurídica e ético-moral, não estaria apenas na disponibilidade dessa pessoa, como parece óbvio.
A questão das bandeiras é ilustrativa de que o problema talvez não existisse se as "ofensas" à minha bandeira fossem feitas por gente que, igualmente, "ofendia" as suas bandeiras e aceitava/concordava que outros o fizessem.
Vou constatando é que os que mais ofendem as bandeiras dos outros também são os que mais se ofendem com ataques às suas. 
Em qualquer caso, o problema das ofensas é muito mais do que um problema de sentir-se ou ser ofendido.
É sobretudo um problema de limites à liberdade.
Passa-se o mesmo com os atentados ao pudor.
Alguém que se julgue com o direito de c.... na rua, à vista, ou ir nu a empurrar um carrinho, ou f.... à canzana numa esplanada, até pode ter quem goste e quem aplauda, longe de se sentir ofendido.
Até se poderia pensar em propor às pessoas que escolhessem entre vários espaços possíveis, como se faz para fumadores e não fumadores, etc..
Agora, o direito de a pessoa se sentir ofendida não existe. 
O que há é o direito de não ser ofendido.
Não me ofende quem pensa mal de mim. 
Ofende-me quem o expressa, não no mero exercício de uma liberdade de expressão, por mero gozo ou felicidade pessoal, mas à minha custa, à custa da minha reputação, imagem, bom nome, felicidade, paz, com o intuito de me prejudicar, ainda que só me prejudique no foro íntimo.
Não faz grande sentido que sejamos contemporizadores com a violência dos ofensores como se esta tivesse o mesmo significado e valor/justificação da violência dos ofendidos.

sexta-feira, 27 de julho de 2018

Pensar o sentir/ sentir o pensar

Ai de nós se a intensidade com que pensamos fosse proporcional à intensidade com que sentimos e vice-versa! 
A nossa dor ou alegria dura algum tempo, às vezes menos do que desejaríamos, e depois funciona como memória ou lembrança em que pensamos. 
Se assim não fosse, éramos capazes de festejar um golo da nossa equipa no início do jogo e, sem parar de festejar, ainda o estarmos a fazer quando o jogo terminasse com a nossa equipa a perder. 
Ou, constantemente, chorarmos porque a todo o momento alguém sofre injustamente.

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Como esta chuva que cai

E nesse tempo distante
A que houvesse de voltar
Ninguém me peça que cante
Nem me lembre de cantar

Não me peçam que não chore
Só me apetece chorar
Nem esperem que tudo ignore
Porque me quero lembrar

Passei metade da vida
A fugir da confusão
Mas não encontro saída
Da solidão

Eu não confio em deuses
Quem confia no diabo?
Sigo só como os ateus
Mas não sei como é que acabo

Olho para os meus desertos
Como um lagarto olha o mundo
Estar com os olhos abertos
É o que há de mais profundo

Como esta chuva que cai
Como este corvo crocita
Como esta gente que trai
Princípios em que acredita.

Tutela perniciosa

Das inúmeras variáveis que é necessário sopesar e ponderar para um conhecimento do sistema de ensino/educação, que existe, mormente com alunos e professores no centro das pressões, a aguentar forças centrípetas e centrífugas, assim muito esquematicamente, refiro os decisores políticos, que se assumem, inquestionavelmente, como os senhores (donos) disto tudo.
       E nada há de mais errado no sistema de ensino/educação.
Este tem condições para estar, e deveria estar, emancipado, há muito, dessa tutela tão perniciosa quão perversa.

Carlos Ricardo Soares 

domingo, 27 de maio de 2018

Brilhantina


Um dos pedintes mais bem sucedidos do burgo costumava vestir-se como um valete, de que se arrogava o título. Abrilhantinava a cabeleira e, com pose de alteza, porém lamuriando-se da sorte, pedia na rua, não como um pobre, que não assumia ser, mas como um rico, que detestava de tal modo o dinheiro gastando-o a rodos, que acabou por cair em desgraça. Nas lojas, onde era acolhido, até com honras e mesuras, ouviam a sua triste história, quando o trato que davam aos maltrapilhos era corrê-los porta fora. E todos, até os pobres, se condoíam desse personagem, até saberem que era, simplesmente, um pobre mas hábil ator, e logo se arrependiam de ter ajudado um farsante.

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Presunções

    A presunção de inocência ou a presunção de culpa, juridicamente e, na prática, serão irrelevantes, porque não alteram o estatuto do arguido, nem alteram a realidade dos factos, nem interferem no julgamento. Aliás, como é sabido, "presunção e água benta, cada um toma a que quer". O que justificaria, talvez, não estar a ocupar espaço na letra da lei, que já é tão extensa. 
    O problema com interesse, com grande afinidade deste, é o do ónus da prova. Neste ponto, em vez de presumir inocência ou culpa, importa provar. Aliás, uma condenação judicial é uma presunção de culpa ou de imputabilidade, etc.. e uma absolvição nem sequer é uma presunção de inocência, e não é um juízo de inocência
    Com o tempo, perante novos elementos de prova, essas presunções podem ser revertidas. Ainda assim, relativamente ao ónus de prova, na minha opinião, no caso de certas entidades políticas e financeiras, pelos cargos que ocupam, pelo que representam, pela posição privilegiada em que sempre estão para apresentarem e fazerem prova, haveria toda a vantagem para a justiça que o ónus da prova recaísse sobre eles e não ao contrário, como sucede. 
    Indiciados que fossem da prática de certo tipo de crimes, caber-lhes-ia o ónus de provar o contrário. Atualmente, não têm qualquer ónus. Não precisam de provar nada para serem absolvidos, basta que se frustrem as acusações.