sábado, 1 de novembro de 2014
O que fazem mortos
Sobre o vale nada
ecoa
uma distância
os horizontes
uma luz
antiga
como a espera
um crepúsculo
de recolher
os gados derradeiros
Camões
é primavera
está a chover
uma chuva que a nós
visita do que era
eternidade que é
agora
sabemos que há mortos
por todo o lado
mais vivos
do que a própria saudade
e vivos sem liberdade
mais mortos
do que era de esperar
neste tempo
de venalidade
atroz
que rouba sonhos
como quem rouba ouro
que não derrete
e o que pode acontecer
é o que mais promete.
Vi ou vi ora viu ou viu
O privilégio que deve a Deus
recordar o bom que viveu e imaginou
enquanto desce ao poço do inferno
da restrita visão
da lanterna que treme
luz
na escuridão
é privilégio
e dom
ouvir um rio que não
se vê
e muito bem conheço
sentir um frio
que eu próprio arrefeço
pensar que não mudei
o mundo
para melhor
do que mereço
se fez de mim o que sou
não me conheço.
sábado, 25 de outubro de 2014
Ave da alegria
Essa ave será
rara
um dia
que ninguém diz
nas estórias
que a fantasia
à mesa da taberna
ou bar
ou como lhe chamam
ave da alegria
de todos os caçadores
da morte
nos sorrirá
e nós
morcões continuaremos.
sábado, 18 de outubro de 2014
A minha guitarra
A minha guitarra vai sempre
comigo
não se faz rogadacomigo
toco-lhe o umbigo
e ela me agarra
transfigurada
de esperança
é feita
de dor
cantada
cantada
A minha guitarra leva-me
pela mão
com que lhe toco
pela mão
com que lhe toco
no coração
se quero farra
se quero farra
se a provoco
ela é perfeita
na reacção
ela é perfeita
na reacção
Mas se estou triste
ela me solta
e me canta
e me escolta
e resiste
e pinta a manta
de tons profundos
nunca está cansada
a minha guitarra.
ela me solta
e me canta
e me escolta
e resiste
e pinta a manta
de tons profundos
nunca está cansada
a minha guitarra.
segunda-feira, 6 de outubro de 2014
O poeta declara por sua honra
O poeta declara por sua honra
Que não sabe
Onde ouvirás sinos de palavra
Se nos sulcos de mãos limpas
Ou se é pouco ou nada estares
Disponível para azares
Se não os procurares
Que por envergares traje
E barrete napoleónicos
Ainda menos figura fazes
Do que uma cavalgadura
Que quem espera ser servido
Só conhecerá os manjares
Do que é requerido
Se o esperar é muito mais
Que o desdenhar
Incomparável é procurar
Que ao sábio se consinta
Invocar cepticismo
E que aos demais
A ignorância
Seja tolerada…
… … … … …
sábado, 27 de setembro de 2014
sábado, 20 de setembro de 2014
Não sei se me compreendes
Se compreendesses o que eu sinto
Quando a imperatriz despe o único manto
Que a resguardava da história de amor
Que veio a acontecer
No maior dos segredos
Apenas partilhada com imenso prazer
Com os pássaros dos jardins
Que a imitavam
E propalavam alegremente
Em deslumbrantes gorjeios…
Se não me compreendes
Não me compreendas
Não sei se me compreendes.
domingo, 7 de setembro de 2014
Poema adiado
A minha vida
tem sido uma
tentativa
de poema
que dissipe o que
houver
entre o olhar
e a cegueira
não transforme
ao ser
poema seja
inteligência
de quem não sabe
e não mente
seja
audível
para surdos
ao que gera silêncios
por onde o pensamento
se evade
o corpo
alguma vez
triunfe
do inenarrável
das prisões
de palavras
como a aurora
se erga
e ilumine
este vasto cemitério.
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