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domingo, 2 de outubro de 2022

Metáforas

Os que fecharam as portas

Deixaram o silêncio de fora

A vadiar penitente

Até encontrar a chave das fechaduras

E tomar conta de tudo

Antes que as portas se abrissem com o vento

O silêncio saiu

De fora para dentro

A vadiar como um rio novo

A que não se chamaria rio ainda

E talvez não venha a ser

Senão metáfora de deus.

sexta-feira, 30 de setembro de 2022

A importância dos livros

Há que enfatizar, por um lado, a inegável influência e importância do livro na consolidação e desenvolvimento das culturas, nomeadamente a ocidental e, por outro lado, a hipótese de que o livro não tem tido a atenção e o fervor de tantos adeptos quanto merecia.
O fenómeno da escrita, mormente da divulgação do conhecimento através do livro, tem sido visto por muitos estudiosos como um factor decisivo do desenvolvimento da civilização e do conhecimento, ainda que o livro, como tudo o que é instrumental, sirva para quase tudo aquilo que pode ser instrumentalizado por ele e nem tudo é consensual ou pacífico.
Aqui, não obstante, encontramos mais um motivo, ou razão, para preservarmos o livro como meio privilegiado de cultura e de diversidade, mas mais ainda de liberdade e de comunicação.
O papel activo que o livro exige ao leitor, só por si, é um indicador de que quem o lê não o faria se não lhe encontrasse bastante interesse (independentemente de alguém considerar que esse interesse é grande ou pequeno ou nulo).
Durante muito tempo, o fascínio pelo fenómeno da escrita foi de tal ordem que tudo passou a girar em torno dela até atingir uma estereotipação e uma estilização que a transformou em algo valorizado por si próprio, pela sua dificuldade e poder simbólico de uma elite de especialistas, mais como uma arte e um domínio dos deuses, para espectáculo atordoador dos leigos analfabetos.
O caso não era para menos.
O poder das palavras institucionalizadoras, imperativas, prescritivas, declarativas, que deferem ou indeferem, que ordenam e impõem, que decidem o que as coisas são, sempre teve e continua a ter uma imensidão de devotos rendidos à sua magia transformadora das realidades que mais interessam a todos.
Curioso é que este poder das palavras tenha sido tanto maior, e assim continua a ser, quanto mais hermético, e acessível apenas a uma elite, for o seu código. De tal modo que, por exemplo o latim, não sem muita relutância, só recentemente vem sendo substituído, em actos oficiais e religiosos, pela língua viva.
A vulgarização do livro esteve associada à disseminação do acesso ao poder que o livro conferia e, de vários modos, a elite “do poder do livro” reagiu contra isso. Mas, como seria de esperar, à medida que o poder do livro se disseminou também passou a ser menor a atractividade motivada por algo que estava associado ao simbolismo do livro e não ao valor intrínseco do seu registo.
A desmistificação do saber livresco, por exemplo, é muito recente e foi uma enorme conquista da cultura, mas só foi possível, suponho eu, pela divulgação e acesso generalizado ao livro como meio privilegiado, senão único, de acesso a cultura e a conhecimentos relevantes, para além do senso comum.
Acontece, ainda assim, que o livro é visto, umas vezes, como meio de realização de objectivos expressivos e discursivos e narrativos e comunicativos, inclusivé científicos, líricos, críticos, filosóficos, jurídicos, técnicos, etc., outras vezes, como fim em si mesmo, ou simplesmente como uma mercadoria, à boleia da inquestionável reputação do livro, na sua função de “transcendência” a que temos acesso se os lermos, mais do que se alguém os ler para nós, ou por nós.

sábado, 24 de setembro de 2022

O que é sentir

Sonhar

E só depois dizer

O que acontece

Dizer

E só depois ver

O que é difícil

Fazer

E só depois saber

As palavras que mais usas

Poder

E só depois deixar

De querer

Escrever

E só depois sentir

Que o prazer também se escreve

Com prazer

E só depois interrogar

O que é sentir

sem doer.

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

INCOMPLETUDES

Se o amor

Enquanto esperavam à chuva

Fosse ministro de algum abrigo

Ou abrigo de algum ministro

A haver governo algures

Em tempo sinistro de encargos

Andaria atrás de um caderno

Perdido

De versos copiosamente amargos

Em seu labirinto construído

De perversos aliados

Tremendo dos artelhos

De medo talvez de frio

Da sua sombra nua

Procurasse o sol

De algum pavio

Quiçá da lua

Em troca de existir

Para se aquecer

Sem cair na rua.

 

sábado, 10 de setembro de 2022

Quase só fragilidades

Em algum recanto obscuro

Lá muito atrás no tempo

Perdemos a memória

O nosso amor e a nossa paz

Perturbados pela surpresa

De um mundo inesperado de hostilidades

Engendrado pela nossa frustração

E pelo alerta

Pela desconfiança das plantas

E animais 

E restantes elementos naturais

Que no nosso âmago

Amamos

E pela decepção de sermos repelidos

E mordidos

Envenenados acossados infectados

Feridos

Esmagados afogados queimados

Em cenários de acidente

Tempestade ou guerra

Ou simplesmente

Na tragédia silenciosa

Na doença

E pela descoberta de que éramos

Quase só fragilidades

E a necessidade de nos rodearmos

Da atenção e do carinho

Uns dos outros

Para nossa protecção

E para sermos mais fortes

No desgosto de não podermos abraçar

Sem medo e precaução

Todos os seres 

Vivos e os demais

Que amamos à nossa maneira

Talvez errada 

Por não ser mais.


terça-feira, 30 de agosto de 2022

sexta-feira, 26 de agosto de 2022

Ensinar e educar

Educar, todos e tudo educa.
Cuidado com a educação. Quem não se queixa da educação que recebeu (o termo é muito significativo e carregado de tradição) ainda deve estar mais de sobreaviso.
Ensinar é mais complexo, mais solidário, mais honesto, mais explícito, mais confiável, mais amigável, mais avisado, mais avançado, mais revolucionário.
Putin educa, Hitler educou, Estaline dava isso como garantido e os religiosos sempre puseram todas as fichas na mesa das apostas da educação para concretizarem os desígnios divinos.
Ensinar é outro negócio, é outra história, é outra narrativa. Se não é oposta a educar, pelo menos é crítica, contestatária, muitas vezes feita à revelia da educação oficial.
Educar é perigoso, ensinar é promissor. Transmitir valores, crenças, normas de conduta é algo que se tem revelado catastrófico, trágico, incurável, abominável, fatal. É certo que há sempre o outro lado da medalha. É o apelo aos valores que mobiliza para a guerra e para a vitória. Uma bomba lançada sobre o inimigo é um acto sublime. Uma bomba lançada pelo inimigo é um acto cobarde e imperdoável.
Não devemos combater uma crença com outra crença? Ou seja, não devemos combater? E temos outro remédio?
Há os que educam, por exemplo, para agradar e obter as bençãos do Sr. Abade, ou do Regedor, ou do professor, e há os que educam para se perfilarem nas hostes políticas e dominarem o jogo dos interesses, avessos a obediências ditadas por opositores, ainda que posicionados em cargos de supremacia de facto, seja fiscal, seja política, seja administrativa. E há os párias, que rejeitam todas as propostas e são educados para não precisarem dessas estruturas viciadas de favorecimento e de nunca vergarem, nem fingirem respeitos que não devem a ninguém, que são educados a esperar todo o tipo de maus tratos e de desprezo e de discriminação, que só podem contar com a sua força e não deixam que lhes indiquem o personagem sagrado que vão vestir nas procissões dos corpos dos deuses. E isto vem de longe, de muito longe. E, para tristeza e preocupação de muita gente, está a agravar-se. O nepotismo anda à solta, a par com a corrupção e a batota na disputa de méritos e de reconhecimentos. Então o partidarismo e o favorecimento no acesso a funções públicas, vão-se instituindo cada vez mais como procedimentos “normais”, como se o público e o Estado fossem a oportunidade dada a alguns privados que pensam e actuam como se estivessem nas suas quintas, enquanto estiverem.
Entre os que educam para o jogo, com os trunfos na mão e os que educam para o jogo da batota, a diferença é óbvia.
O ensino é outra coisa.

 

quarta-feira, 24 de agosto de 2022

A atracção do abismo

Não saber se desistes da humanidade

Mas do teatro

Não saber se desistes do teatro

Mas da humanidade

Perceber que desistes

De reconhecer o fracasso

Não acreditar

Que haja quem não sabe

Que há noites perpétuas

No pomar das musas de sombra

Onde não rescende a frutos

Não há certezas de nada

Não há como desistir

De vencer os terroristas

Mas é preciso saber

Que se precipitarão

Com todas as suas forças

Os que não resistirem à atracção

Do abismo.

sexta-feira, 19 de agosto de 2022

Verdades e interesses

Espírito crítico, não é pedir muito, é esperar demasiado. Nos tempos conturbados em que vivemos, assoberbados de solicitações e de megafones mais ou menos selectivos e privativos, numa imersão desinibida na barafunda das tragédias e no teatro dos festejos e das celebrações, quando alguém ainda sabe dizer em que rua mora, ou para onde quer ir, isso já é um motivo de esperança, não digo na humanidade, mas no que vier a seguir.
A verdade, além de ser algo inacessível, até aos tribunais superiores, a maior parte das vezes, é o que menos importa ao comum dos mortais. Quando muito, pode interessar aos filósofos e aos cientistas e, mesmo nestes casos, depende de que verdade se estiver a falar.
As declarações e os manifestos políticos, sejam democratas, autocratas, plutocratas, cleptocratas, aristocratas, etc., não são verdades.
O socialismo não é verdade. O capitalismo também não. O comunismo idem. República ou monarquia, nada disso é verdade, por mais verdades que digam. E também não são mentira, falsidade, ou erro, por mais que mintam, falseiem ou errem.
As religiões não são verdades, por mais verdades que digam. As realidades culturais, institucionalizadas, com mais ou menos legitimidade, aceitação, passividade, adesão, não são expressão, nem critério de verdade.
É escandaloso que tenham a pretensão de ser aquilo que não sabem ser, nem podem ser, verdade.
Uma realidade, material, física, ou social, não é verdade. Um presidente, um clérigo, um filósofo, um cientista, um jogador, um trabalhador, um rei, uma aranha, não são verdades. Um facto não é uma verdade. Um acto não é verdade.
O conceito de verdade, de certo ou errado, segundo critérios de verdadeiro/falso distingue-se do conceito de verdade, segundo critérios de eticidade, de direito, de correcto/incorrecto, ou do conceito de verdade, segundo critérios de moralidade, de bem/mal.
Em todos os casos, verdade tem a ver com condutas, comportamentos, humanos, cujo escrutínio e julgamento, por sua vez, padecem das mesmas limitações e deficiências daqueles.
Mas não há motivos para desanimar, porque os humanos têm um sentido muito desenvolvido para escolherem o que lhes interessa.
A mentira, a falsidade, normalmente, aproveitam-se disso, como formas deliberadas, sofisticadas, de manipulação.
Quando é por erro/ignorância, já a manipulação, até a das grandes estruturas ideológicas a que não escapamos, é desculpabilizável.

sexta-feira, 12 de agosto de 2022

Felizmente há o direito e a justiça

Que haja liberdade

Não à impostura e à censura

Não há liberdade enquanto houver

Ditadores

Enquanto houver ameaças credíveis

Dos destruidores

Enquanto houver terror

E morte

Incendiários

Bombistas

Terroristas

Que impõem aos outros a violência

Catastrófica e demolidora

Aquilo de que a humanidade menos precisa

Nestes momentos difíceis para todos

É que os oportunistas terroristas

No momento de ajudarem a salvar

De pandemias e de secas e de guerras

Tudo façam para ajudar a aniquilar

Felizmente há o direito e a justiça

Que não podem deixar de triunfar

Quanto à vida na Terra

Veremos.

 

segunda-feira, 25 de julho de 2022

A realidade da(s) Arte(s)

A realidade da(s) arte(s) suscita questões deveras curiosas e não há nada como questões curiosas para provocar a nossa competência, seja ela qual for. Se um cozinheiro não sabe responder à questão, mas um electricista sabe, ou se um cientista não sabe responder à questão, mas o crítico de arte, ou o leiloeiro, sabe, estamos num terreno em que ninguém gosta de ficar de fora e em que quem der parte de fraco não sai a ganhar, o que quer que isto possa significar, para além da gíria.

Não é sequer uma questão de “gostos não se discutem”, porque penso que tudo é discutível, se as pessoas quiserem.

O que constato e o que enxergo, bem ou mal, mais ou menos, é que há profissionais do gosto, como há profissionais de santidade, como há profissionais de sabedoria, de justiça, de saúde, de poesia, de romance, de pintura e, dentro de cada departamento, muitas especialidades.

Basicamente, estes profissionais estão aptos a responder a qualquer questão que se coloque, não apenas sobre a sua área de actuação, mas também a realizar/fazer algo em conformidade. A arte do discurso não é das menos “sublimes”, mas há as artes dos artefactos, ainda que o discurso não deixe de ser também, à sua maneira, um artefacto. Neste sentido, a cultura, mesmo aquela parte que não se exterioriza, que não se objectifica em nenhum suporte material, nem chega a transmitir-se porque não sai do reduto íntimo do indivíduo que a pensa, ou a sente, é artefacto, ainda que apenas representação abstracta dos neurónios.

O exemplo do quadro em branco não deixa de ser curioso, levando a reflexões inesperadas e interessantes, por exemplo, sobre a originalidade e a inimitabilidade. Não quero dizer que não tenha havido e não haja milhares, senão milhões de quadros brancos, se calhar à espera de um pincel com tinta. Mas depois de ter aparecido um numa exposição de pintores, realmente, tudo muda de figura e poder-se-ia escrever muito sobre isso, convocando cientistas e pensadores de todas as áreas, para que nenhum profissional se sentisse excluído.

O quadro em branco é de tal modo “inimitável” que alguém que se atreva a repetir a façanha pode ter de pagar direitos de autor.

Também há espectáculos em que não é possível responder à pergunta “que é que isto significa?”. Uma vez participei numa espécie de dança de varredores, ao ritmo de música, que ganhou a atenção dos espectadores e que achei divertida, em que, no fim, dois intelectuais me perguntaram que é que aquilo significava. Eu perguntei-lhes se tinham achado divertido e eles disseram que tinham adorado, mas eu não seria capaz de lhes veicular significado que eles próprios não encontrassem, porque para mim não havia ali significado. Poder-se-ia, não digo que não, criar imensas hipóteses de significado, cada uma mais rica do que a outra e isso ser deveras inspirador e criativo, mas o assunto ficou por ali e o mundo continuou.

O dar que falar pode ser muito relevante e não só do ponto de vista das teorias e aperfeiçoamento, aferição, afinação da linguagem e dos conceitos, que é um trabalho e uma arte que ocorre nos bastidores mas que não deixa, por isso, de ser importante.

Quanto ao talento para criar oportunidades ou aproveitá-las, concordo que sejam talentos diferentes, cada um melhor do que o outro, mas não vejo que haja muito como alguém dominar/controlar o efeito das obras e a qualidade das obras, ainda que levássemos em conta aspectos como públicos especializados e públicos em geral, mais ou menos semianalfabetos. Muitos dos aplausos têm a ver com a emoção primária e irreflectida, abstraída de outras considerações acerca do valor da mesma e sem levar em conta critérios comparativos. Podemos não aplaudir uma grande obra que já aplaudimos até à exaustão e aplaudir muito, pela primeira vez, uma obra menor.

Há, não obstante, experiências frustrantes, para não dizer traumatizantes, ou até esclarecedoras, que todo o criador pode fazer, seja artista ou filósofo, ou cientista, acerca da relação entre valor, qualidade da obra e efeito no público, aceitação, apreço, valorização, aplauso, reconhecimento. Se, por exemplo, perante uma assembleia que desconhece (realidade muito frequente) um grande poema clássico, ou um compositor consagrado, ou um texto notável de alguém do panteão, ou mesmo um dos evangelhos mais venerados, o fizer passar por improviso do momento, ou criação sua, logo verá o efeito. A minha experiência revela que o valor de uma obra tem subjacentes, pelo menos duas ordens de considerações, o plano crítico, que se vai consolidando pelo passar do tempo, e o plano menos crítico, individual, de contacto e de fruição subjectiva, talvez muito mais difícil de justificar.

De qualquer modo, numa primeira abordagem, ou contacto, a obra de arte, texto ou outra, tende a ficar mais em suspenso quanto mais rica e profunda e inovadora for, como se causasse uma estranheza, impenetrável ao senso comum, que pode ou não valer a pena explorar e interrogar.

sexta-feira, 22 de julho de 2022

É certo

Não vou falar do certo e do errado

Porque soubesse verdades

Que não sabeis

Mas porque falo dos meus erros

Não porque afinal tenha acertado

Em os reconhecer

(E é certo)

Mas porque tenha reconhecido

Estar errado

Não vou falar das falsas crenças

Do passado

Que me ajudaram a crer noutras

Em que não fui educado

Mas na surpresa de descobrir

Que o mais certo

É eu estar errado.

quinta-feira, 21 de julho de 2022

Ousar amar

Ouso dizer que o amor ainda precisa de ser autopsiado, ou levado ao laboratório dos alquimistas, para nos convencermos de que o amor é puro egoísmo. No laboratório dos químicos chamar-lhe-iam outra coisa que não sei, talvez tropismo.
Provavelmente ninguém é amado, ou amou, no sentido de amor que não é retribuído. O condicional não faz parte do conceito mas, nem por isso, deixa de ser a realidade do amor.
E não esqueçamos que o artifício de pensar em termos físicos, ou literários, teológicos, ou filosóficos, não reduz o problema, antes o amplia.

quinta-feira, 14 de julho de 2022

Mas as palavras do poder, senhores?!

O poder das palavras vai sempre mais longe do que as palavras do poder, por mais que isto seja contraditório, ou circular. Mas é preciso que alguém as ouça, as entenda, as siga, ou as rejeite. Nenhum poder existe, ou leva a melhor, sobre o que resiste. Neste aspecto do problema, admiro o burro, tão mal tratado, mas sobrevivente.
O poder das palavras é inescapável e incontornável e inarredável. Nem é viável abstrair das palavras. O que é viver sem palavras?

O poder das palavras, reside no indivíduo que as usa, como autor ou destinatário se e apenas na medida em que as usa e com elas se conforma.

Para quem teme o seu poder, o melhor não será fugir-lhes.

Para quem quer o seu poder, o melhor não será usá-las indiscriminadamente.

Mas as palavras do poder, senhores?!

As palavras que fazem da força poder, que dão poder à força?
Sem embargo de a força ditar palavras que as tornam poderosas, o poder das palavras está para as palavras do poder como o espírito está para a matéria (metaforicamente, porque não alinho nesse dualismo).

E que diríamos sobre o valor das palavras?

terça-feira, 5 de julho de 2022

Forma e conteúdo

A relação das partes com o todo (que é sempre, por sua vez, uma parte de uma parte maior) é uma relação de umas formas com outras, cada uma contendo outras, mas sendo contida por outras.

Porém, há a questão do vácuo, que me interpela de vários modos. Não sei o que é o vácuo e acredito que ninguém, nem coisa alguma já esteve no vácuo. Não sei se o vácuo acontece ou aconteceu alguma vez, por exemplo, se algo que existe, submetido à vacuização, deixou de existir, por força da vacuização. Será esta força mais uma a acrescentar às reconhecidas forças da natureza?

No vácuo, a força da gravidade “deixou de funcionar” (não me digam “deixa de funcionar”)? O espaço e o tempo foram suprimidos? O nada foi criado? Deixou de haver movimento?

Os físicos não terão dificuldade em esclarecer uma dúvida tão básica, se calhar não mais do que uma questão de linguagem, mas poderá alguém aspirar sequer a entrar /estar num lugar vazio?

terça-feira, 28 de junho de 2022

Tudo para ser feliz

Quando escrevo só 

Posso contar com o leitor

Para transpor

O limiar da minha porta

O poeta não se mete pelos olhos dentro

Como uma irresistível vénus desencadeia

Tempestades de prazer

Até a quem as não quiser

A poesia pode ser desbragada

Mas é a sedução de não ser nada

De não ter úberes

Nem ritmos de pimbalhada

Que entram pelos olhos dentro

Sem pedir licença

E sem dar licença para contento

Sentam o rabo na cara

A poesia é como a dança

Exibicionismo requintado de mais

Para os pés de chumbo

Que a desdenham e deploram

Como a trança de um cabo de cebolas

É cantar a uma janela

Sem ninguém lá dentro

Porque não está lá ninguém

Não é trabalho

É a infelicidade

De quem tem tudo para ser feliz

Uma arte

Ter tudo para ser arte

Mas não ser bela

Uma questão de gosto

Ter tudo para ser

Mas não acontecer.

sábado, 25 de junho de 2022

Fender

 

Ouve cantar aves que espreitam

Da fenda da floresta

O atrevido afagamento do sol

Quantos silêncios inofensivos

Estão atravessados num sorriso

Quantos enigmas são precisos

Para resgatar do esquecimento

As âncoras ofuscadas

Pela refracção dos prismas

Que à toa fendemos

Ao rasgar páginas pela fenda

Da leitura da escrita

Espigas do mundo

Seios dourados

Às transparentes mãos

Porém imperfeitas

Do dia que se faz

Adivinhar pelas fendas

Dos abismos

Que tem o luar.

sábado, 18 de junho de 2022

Poesia dos aranhões

Às vezes o tempo mal dá
Para perceberes que andas à procura
Empenhado em desbravar enigmas simples
E em deixar os mais complexos
Para quem os achar
Não por tua vontade
Mas por ser assim
Que Deus vence e vencerá
Pois foi inventado para isso
E continua a ser remodelado
Como todos os modelos
Que são inimigos
Da diferença
E da autenticidade
E talvez existam
Para exasperar a diferença
Não precisas de entrar numa catedral
Para perceberes
Na vida tudo é feito à semelhança
Da diferença
Mas é bom que entendas
Até que ponto estás impedido
De rejeitar essa poesia dos aranhões
E de sobreviver
A toda ela.


segunda-feira, 13 de junho de 2022

A felicidade

A felicidade. O que se entende por felicidade? Bem-estar, satisfação?
O conceito de felicidade tende a ser referido a situações objectivas que, raramente, ou nunca, serão atingidas e, se o forem logo confirmam que a felicidade não é intrínseca a situações particulares da fortuna e do mundo, como se não houvesse situações susceptíveis de dar felicidade, porque esta não existe fora do indivíduo. O que me torna feliz, provavelmente, não tornaria felizes os outros e, hipoteticamente, até poderia torná-los infelizes. Por outro lado, a minha felicidade não está livre de, mais tarde, ser fonte de infelicidade. 

O conceito de felicidade, todavia, e por ser assim tão subjectivamente condicionado e determinado, é de inestimável utilidade para tentarmos compreender a natureza humana e encontrar em tudo o que é acto humano esse sentido da felicidade. 

A tese que defendo é que tudo o que é acto humano é racional e implica uma escolha que é a melhor (todo o acto é individual). Do que sei sobre o ser biológico do homem, nomeadamente dos processos homeostáticos, não só a racionalidade é um determinismo, como a escolha é inelutável, um imperativo, diria, natural. A felicidade é o critério. Não há outro. É um fim em si mesma. Não é instrumental. Instrumental é tudo o que for susceptível de realizar a melhor escolha. 

A cultura humana é determinada, em todos os seus aspectos, por um princípio que eu designo, num trabalho que tenho elaborado sobre Ser Humano, por princípio da felicidade, como princípio normativo de todos os outros princípios.
A minha argumentação vai no sentido de que a cultura é a manifestação de um dever-ser que é um ter-de-ser (da natureza). A inversa não é verdadeira, quero dizer, o ter-de-ser da natureza não é manifestação de um dever-ser, excepto no caso da cultura.
Qualquer texto serve para tentarmos sustentar a tese que defendo. Qualquer situação humana também. 

A esperança está no reconhecimento social e institucional dos mecanismos biológicos egoísticos (da felicidade) e na gestão e disponibilização de quadros de possibilidades de escolha que não impliquem que a melhor escolha não seja boa.


domingo, 5 de junho de 2022

Liberalismo utópico

As ideias de democratizar a sociedade, democratizar a escola, democratizar a cultura, democratizar a boa vida, democratizar a felicidade, aparecem frequentemente associadas, e não da forma mais correta, à ideia de que a sociedade, a escola, enfim, tudo, deve seguir um modelo liberal, muito liberal, muito individualista e funcionar sem paternalismos, baseado na autonomia do indivíduo e na utopia da liberdade total.
Associar a ideia de democracia a esta utopia de liberdade é um grande passo para ignorar o sentido e confundir ambas. Democratizar só faz sentido se significar tornar democrático, e tornar ou ser democrático está muito longe daquela utopia liberal.
Aliás, aquela utopia liberal choca de modo irreconciliável com a democracia e os modos democráticos de gestão e resolução de conflitos e de problemas sociopolíticos e institucionais.
Se quiséssemos ser antipáticos, sem deixarmos de ser democráticos, diríamos que, mais frequentemente do que gostaríamos, constatamos a total incapacidade das escolas para promover aprendizagens que despertem e fomentem o espírito crítico e a hermenêutica. Isto é visto como algo estratosférico, para não dizer exosférico.
Os elevados níveis de especialização requeridos por cada área de análise crítica e fundamentada vão sendo atingidos por um reduzido número de especialistas que só se entendem uns aos outros e, às vezes, só a si mesmos.
Ora, a maioria das pessoas não aspira a uma vida de solilóquios ou de intermináveis discussões consigo mesmo embora possa estar a falar para as paredes, que até têm ouvidos.

 Carlos Ricardo Soares

quinta-feira, 2 de junho de 2022

Prisioneiros

Pedaços bocados

Fragmentos despojados

Retiros passados

Passos trocados

Regressos impossíveis

Veredas desconhecidas

Sendas armadilhadas

Traçados dos diabos

Remotos

Nomes de descobertas

Induzidas por pioneiros mágicos

Alucinados pela esperança

Dissoluta

Mais do que pela jazida sabedoria

Nómadas destroçados

Sem quartel

Prisioneiros

De alegrias poucas

E das loucas

Degradações

Sementes de violência

Desfazem-se

Desfazem-nos

Desfazem-te

Desfazem.

sábado, 21 de maio de 2022

Estradas de metafísica

Ao fim de umas horas a pedalar

Por estradas de metafísica

Com matilhas de cães às costas

Olhei para trás e já não conseguia lembrar

Nenhum dos problemas de dogmática ético-jurídica

Com que muitos reis não se depararam

Por possuírem grandes castelos

 

Como se acabasse de me reencontrar

A caminho do sol e da liberdade

E em vez de pensar no xadrez dos anjos

Que me não dava fome

Nem de comer

Nem sombra

Onde viver liricamente

Como sempre sonhei

Uma primitiva sensação

De estomacal entendimento do mundo

De todos os pensamentos confluírem

Numa harmonia marítima libidinosa

Abocanhando pedaços de lagosta frita

Adornados de algas profanas

À vista de especiosos vinhos

Em horizonte de searas saudosas

Açorda alentejana

Fumegando desejos de planície

Inimagináveis

Em alto mar

Como tudo o que o vento levou.


sábado, 14 de maio de 2022

Salvar o mundo

Pensavam que era lixo

E varreram tudo

Mas eram letras dispostas de uma certa forma

Que poderia salvar o mundo

Porque a forma pode ser importante


domingo, 8 de maio de 2022

Neutrões

Os neutrões não escapam

À carga eléctrica

E acabam fardados

A mirarem-se ao espelho

Dos protões

Tão sossegados finalmente

Por se sentirem realizados

Por satisfazerem os requisitos

Por não pertencerem a si próprios

Senão nessa alienação

De serem convertidos.


quinta-feira, 28 de abril de 2022

A memória que amamos

Como dizer o que não sabemos

Pensar o que ignoramos

Contar o que não passamos

Sem ser em romance

Do que guardamos

Que sendo saga nossa

Ou não sendo a nossa

Gostávamos que fosse

Porque nenhuma paisagem substitui

A memória que amamos

Dos sonhos

Do que acreditávamos ser

Maior que o mar

E mais belo do que se pode contar

Nos roteiros da história dos outros

Na saudade de algum momento

Do que é possível desejar

Nos mapas

Outrora para nós legíveis

E agora cada vez mais desbotados

Embora muito mais inteligíveis.

 

terça-feira, 26 de abril de 2022

A vida é isso

Um problema subsiste na nossa cultura que, mais ou menos tacitamente, opõe artes e humanidades a ciências, não tanto porque umas contestem as outras, mas sobretudo porque umas veem as outras numa perspectiva não suficientemente compreensiva, ou mesmo redutora, para já não falar dos pruridos de estatuto ou dos preconceitos de ambos os lados, como se o que estivesse em causa fosse um critério de validade/verdade, independentemente de qualquer perspectiva ou critério de valor.

As coisas apresentam-se, normalmente, ou tradicionalmente, como se houvesse áreas culturais, discursivas, retóricas, expressivas, representativas, performativas, estéticas, lúdicas, artísticas, linguísticas, literárias, poéticas, imagéticas, icónicas, musicais, histriónicas, audio-visuais..., éticas, morais, religiosas, jurídicas, económicas..., claramente delimitadas das áreas do pão-pão, queijo-queijo, da análise quantitativa da realidade física e química medida e mensurável e que é praticamente toda a realidade, incluindo a referida anteriormente. A aplicação do método científico, aliás, não está limitada às realidades físicas stricto sensu e as ciências sociais e humanas são exemplo disso. Ou seja, tudo o que é cultura (arte, expressão, conduta, comportamento, acção, movimento, som, conhecimento, significado, comunicação, norma, crença...) está sob a alçada da ciência, do método científico, incluindo Deus.

Mas não pode ser reduzida a isso e quem tentar fazê-lo incorre em erro crasso, até aos olhos do mais ignaro.

Em certo sentido, a ciência também não escapa à alçada de Deus e, em geral, de todas as manifestações de cultura. O problema não é simplesmente um problema de rivalidade entre a ciência e as artes, religiões, políticas, ideologias, sistemas de adaptação e de integração da realidade social e do próprio modo de hierarquização social dos valores morais e patrimoniais.

O problema é fundamentalmente de ordem existencial, ou, se quisermos, de ordem moral, do indivíduo como última e irredutível instância do valor, dos valores, mesmo quando adopta e segue e se identifica e se conforma e respeita e cultua esses valores.

Assim, o problema não está na ciência ser ciência, ou na arte ser arte, mas no cientista e no artista serem indivíduos, humanos, personalizados, únicos, com uma história e uma representação individual das experiências e um sentimento e mundivisão próprias. Nestas, a própria ciência e artes mais não são do que experiências, entre outras.

O problema existencial é o problema do que fazer com aquilo que sabemos, ou julgamos saber. E este problema, se não é insolúvel, é, pelo menos, o verdadeiro e único problema da vida de cada um, ou seja, a vida é isso.

 

sábado, 23 de abril de 2022

Lua sobre os destroços eternos

Aquilo a que chamamos realidade

A lua sobre os destroços eternos

Que fumegam

Arrancados das unhas sujas

De ferrugem e pólvora

Das explosões

Que incendeiam a noite

Dos imortais

É veneno que se infiltra

No coração dos inocentes

E obnubila para sempre

Como uma maldição inconcebível

A que não escapará

Nenhum dos seus pensamentos

Por mais lembranças que tenhamos

Dos bons tempos

Em que não conhecíamos os inimigos.


domingo, 17 de abril de 2022

Mediatismo e valor

É desmoralizador constatar que a popularidade e a influência e o papel de referencial de valores de inúmeros vultos, que aparecem nos meios de comunicação social, desde pimbas a políticos, passando por ícones das indústrias de lavagem de dinheiro e de fugas aos impostos, até chefes de Estado que apostam tudo na morte e na destruição do alheio, não se deve ao mérito nem à bondade do que dizem, ou do que fazem, nem do que representam, mas, pelo contrário, o que dizem, o que fazem e o que representam torna-se socialmente relevante, e é seguido por adeptos e imitadores, por serem dessas figuras mediáticas e provir delas.

O mediatismo e a visibilidade da popularidade impõe-se como critério de valor e de mérito e não o contrário, como seria de esperar.

E isto é muito preocupante.

Tem muito a ver com a propalada inversão ou crise de valores.

Não é por seguirem valores associados à prática das virtudes de pensar e de ajuizar e de agir, segundo critérios de sabedoria e de prudência e de sã e informada convivencialidade social e cultural, porque isso está fora dos rituais primitivos dos seus correligionários.

Mas o mediatismo confere à ignorância e à grosseria um estatuto social que é seguido por multidões de fanáticos e torna-se exemplo, valor sufragado por muita gente que, à falta de outros critérios ou referenciais críticos, legitima exercer e manifestar o poder de facto que o ruído, as claques e a estupidez dos rebanhos revelam. Como se ser mediático, ou ser bem pago, fosse alguma garantia de idoneidade e do que deve ser imitado e valorizado.

 

quinta-feira, 7 de abril de 2022

Não há causas do que não acontece

Voltaire era demasiado intelectual para a minha adolescência de índole beata e sentimental, suspeitando, mais do que acreditando, que o homem pudesse ultrapassar-se a si próprio, como se alguma coisa o possa fazer, ou isso alguma vez tivesse acontecido. Mais do que as ideias, na minha adolescência, eu trabalhava as palavras como um obstáculo real, como uma barreira que se levantava entre os olhos e o mundo visível, não como se ocultassem, mas como se, estranhamente, denunciassem a existência de mundos invisíveis, não porque fossem objectivamente invisíveis, mas porque não estavam ao alcance dos meus olhos e do meu pensamento. Mas Voltaire era demasiado lúcido para quem estava de olhos fixos na árvore e não conseguia ver a floresta. Eu lia-o e tinha a impressão de que ele falava da floresta sem falar das árvores. Nunca desisti de pensar que o defeito devia ser meu. E não esqueci algumas metáforas com que ele dizia o que pensava. Em parte, porque elas vinham em meu auxílio, sem que lhes pedisse nada, nos mais inadvertidos momentos, como se quisessem fazer-me compreender e apreciar o seu alcance. Estou a pensar no “Cândido”.

A primeira vez que o li, com o despeito e a desconfiança que me mereciam os romancistas e os poetas e os panfletários, e outros que tais, não vi mais do que um exercício de imaginação e de criatividade para impressionar, uma espécie de malabarismo de um tribuno repentista e imaginativo. Mas, curiosamente, Voltaire, a meus olhos, não pretendia e não fazia nenhum esforço, antes pelo contrário, para parecer outra coisa, como se me advertisse de que não me queria convencer do contrário.

Pois bem, Voltaire escrevia com o acerto e a desenvoltura com que escrevem os que têm uma visão lúcida daquilo sobre que escrevem. É como quando se domina um assunto e se está à vontade para falar sobre ele, qualquer que seja a questão colocada.

Uma das coisas que, frequentemente, lembro de Cândido, de Voltaire, porque sempre fiquei a pensar nisso desde a minha adolescência, é o problema do melhor dos mundos possíveis. E tenho-me deparado com a ideia de que Leibniz, que Voltaire satirizava, estava a pensar bem.

Aliás, Voltaire, ao dizer que “A História serve para provar que tudo pode ser provado com ela”, parece estar a concordar com Leibniz, embora este talvez dissesse, de outro modo, por exemplo, que tudo o que pode ser provado aconteceu e que não poderia acontecer de outro modo, ou que não há como provar que poderia ter sido diferente.

Voltaire sabia, no entanto, e nós também, que nem só o que aconteceu pode ser provado. Salvo erro, o sarcasmo dele visava esta banalidade humana de trágicas implicações.

Sem embargo, digo eu, de que não há causas do que não acontece.

quarta-feira, 6 de abril de 2022

Agressão, defesa e contra-ataque

Não conheço maior maldade nem maior perversidade, pela monstruosidade dos intentos, mas mais ainda pela determinação e escolha do poder de causar dano e destruição e morte gratuita, sobretudo desencadeando um fenómeno de violência de imensas dimensões, antecipadamente admitido como possível e desejado e promovido, tendente a abalar os alicerces da organização social e política e económica, sem sequer ter o ensejo de tirar proveito disso, dizia eu, não conheço maior nojo do que alguém iniciar uma guerra.

E é-me tão odioso, tão revoltante e insuportável que alguém o faça que, enfrentar um tal inimigo, se torna o mais nobre e glorioso dos feitos.

Mas, até por assim ser, por a guerra desencadear mecanismos sociais de reorganização e de defesa e contra-ataque, que mobilizam grupos e organizações cada vez mais alargados, devendo atingir a eficácia necessária, desencadear uma guerra é uma decisão de incomparável responsabilidade e gravidade.

De positivo, ou tolerável, não tem nada. Censurabilidade máxima. Intolerância máxima.

Quem inicia uma guerra dá causa e terá que assumir a responsabilidade, não só da guerra que faz, mas também da guerra que lhe for movida. Esta sim, é uma guerra justa, honrosa e valente para os seus militares. E será gloriosa, ainda que não totalmente vitoriosa. 

Quando alguém inicia uma guerra, inicia uma guerra má, desumana, injusta, odiosa. 

Quando tocam os clarins dos exércitos de defesa e contra-ataque, o que acontece é uma grande epopeia, de inesquecíveis guerreiros, por uma causa sublime e magnânima, contra soldadesca desprezível, sem sentido de honra nem brio militar, cuja coragem e valentia é despejar explosivos a esmo sobre casas e gente desarmada, sem sequer pensarem nas consequências.

Mas, também por assim ser, quem inicia uma guerra não deixa de o fazer sob os auspícios de uma propaganda que apresenta a agressão como uma defesa ou legítima defesa, ou, no mínimo, de excesso de legítima defesa, para incutir ânimo aos profissionais do tiro a eito.

E isto agrava ainda mais a culpa de quem toma a decisão e dá as ordens com a coragem de quem está à distância, talvez acreditando que, quem começa a guerra pode pará-la quando quiser, como se estivesse num filme violento, em que tudo lhe corre mal e a violência se volta contra si.

E torna muito simples o trabalho de quem tiver de o julgar e de o condenar.

Mas a parte difícil de o combater, por fases, pacientemente, dolorosamente, com frentes e retaguardas sucessivas, sem perder a cabeça, essa parte é a que dá razão à história e pode dar sentido à vida.

Como um problema que não se pode deixar de resolver.

 

domingo, 3 de abril de 2022

Dialogar com quem não quer ouvir

Falar em dialogar já é colocar o problema num plano muito elevado de cultura e de civilização. Há coisas, ou temas, ou áreas culturais, afiliações, bandeiras, acerca das quais o diálogo é praticamente impossível, não por causa dos assuntos, mas por causa das pessoas. Em princípio, poderíamos dialogar sobre qualquer tema ou problema, diferendo, conflito de interesses, ou litígio. Mas isto requer uma preparação e uma cultura de convivencialidade e de aceitação de convenções e de mecanismos heterocompositivos das disputas que, parece-me, nenhum indivíduo está em condições de exercer, senão através de estruturas tutelares, institucionalizadas para esse fim e às quais essa competência seja reconhecida positivamente, normativamente e, ainda assim, sem prejuízo da moral individual, quando funciona como última instância.
Muitas vezes o diálogo é uma chusma de provocações e de desconversas, um não diálogo, de que é possível extrair algumas conclusões, sobretudo nos casos em que os dialogantes não estão, nem querem, pensar da mesma maneira, ou estar de acordo com uma linha de argumentação, ou estilo de questionamento, mormente quando se pelam em não reconhecer nenhuma das alegações ou razões da outra parte.
Se o diálogo for um travar-se de razões no plano académico, ainda é possível alguma consensualidade em torno da ciência e de teorias científicas, desde que estas não ponham em causa os interesses relevantes de alguém com poder.
Mas o diálogo não é, nem tem de ser, um litígio ou uma confrontação entre pessoas que não querem estar de acordo em nada.
Pelo contrário, fora das arenas dos gladiadores, normalmente, é pelo diálogo que as pessoas descobrem afinidades, interesses e ideias comuns e novidades de que nem sequer suspeitavam. Pelo diálogo aprendem o que antes não sabiam, encontram o que desconheciam, trocam informações, mais ou menos codificadas, que não trocariam de outro modo. Pelo diálogo, falam, formulam, organizam ideias, pacotes de significação, para elas próprias e para os outros, e escutam, tentam decifrar, compreender os outros através dos recursos próprios, das representações próprias daquilo que é formulado pelos outros. Pelo diálogo podem ser seduzidas ou avisadas, perder a inocência ou visitar cidades invisíveis.
Pelo diálogo, poderíamos continuar a sonhar, por exemplo, com uma democracia política que não seja pervertida pelo dogma das maiorias demográficas, nem pelo controlo do poder económico-financeiro.
Há barreiras para o diálogo, ou que se levantam ao diálogo, ou então para ocorrer diálogo (como em quase tudo na vida) é preciso mais do que querer.
A esfera da vontade, ou do capricho, por exemplo, de uma criança de dois anos, estabelece uma realidade respeitável, não em relação ao que é ou não é verdade, mas em relação ao que ela quer, ou não quer, gosta, ou não, está ou não “de acordo”, entendido aqui no sentido da satisfação do seu “interesse”.
A verdade, a moral, o direito, o bem comum, podem e devem ser objecto de diálogo, como tudo o mais, mas não é como tal, como problemas académicos ou filosóficos, que tocam a maioria das pessoas.
Na prática, os indivíduos, os grupos, os clubes, as religiões, os partidos, as tribos, as confrarias, acreditam naquilo que querem e tendem a considerar verdadeiro e justo o que lhes for favorável e não o contrário.
Até eu acredito, sem que isto me seja favorável, que o Luís XIV acreditasse que era rei por instituição divina e que a maior parte dos clérigos, incluindo o papa, todos os dias invocassem isso nas suas orações.
Mas não acredito que alguém pudesse dialogar com o rei ou com o papa sobre a hipótese de tal não ser verdade e, muito menos, de ser uma retumbante falsidade e, menos ainda, de ser uma mentira e, de todo, uma fraude.

sábado, 26 de março de 2022

Acordar

Acordar, tanto no sentido de sair do sono, como no sentido de chegar a acordo. Este acordar, porém, não é viável sem que, previamente, saiamos do sono ou do sonambulismo. O estado de vigília e de consciência parece estar a atingir um estado de alerta e de alarme. Já não nos é possível viver na ignorância dos efeitos, consequências, resultados, que os nossos actos têm nos ecossistemas de que dependemos, porque são efeitos desastrosos e insustentáveis. A nossa relação com a natureza (não humana) que nos rodeia é mais estreita, imprescindível e simbiótica do que a nossa relação com a natureza humana. A natureza, entendida como mãe natureza, mantém com cada um de nós uma relação íntima tão forte e inseparável que se diria sermos um só corpo, não fosse o facto de cada um de nós depender absolutamente da natureza, ao passo que a natureza prescinde absolutamente de nós. E tudo isto tem a ver com o facto natural de, para vivermos, termos de, por diversos modos, tirar da natureza, agredir a natureza, interagir com a natureza, transformar a natureza, utilizar a natureza, mesmo sem darmos muita importância ao facto de estarmos, assim, a ser transformados por ela.
O ponto a que chegou, porém, o poder e a capacidade dos humanos tranformarem e explorarem a natureza, em todos os aspectos da sua utilidade egoística e de curta visão, coloca-nos perante um cenário desolador e desmoralizante de destruição da natureza de que abusamos. E, o que é mais grave, dando-nos conta, sem tomarmos medidas colectivas adequadas a evitar mais destruição irrecuperável e a tentar recuperar ou reparar os danos causados.
As principais vítimas, feitas as contas, são os humanos e isso devia ser um motivo acrescido de especial preocupação em reverter processos de exploração económica e de comportamentos cujas externalidades negativas já foram devidamente identificadas e avaliadas.
Mas os humanos não têm um fértil historial de aceitarem restrições e limitações por causa dos outros.
As democracias aparecem como tentativas excepcionais e não muito generalizadas pelo planeta.
Ainda há quem pense que os problemas da corrida para o abismo ambiental e da destruição da biodiversidade sejam problemas dos outros e continue a espreitar aí mais uma oportunidade para fazer dinheiro.
E há quem não tenha sequer a noção daquilo que verdadeiramente está em causa, tal é o modo como tudo continua a ser vendido e propagandeado, como sempre, como se na nossa função de consumidores residisse alguma soberania individual.
Já não é suficiente invocar os direitos humanos para mover a humanidade.
Aliás, a Declaração Universal dos Direitos Humanos talvez devesse ser simplesmente Declaração Universal dos Direitos, incluindo aí os dos outros seres vivos.
Ainda assim, e pelo que vem acontecendo nos dias de hoje, a Declaração Universal dos Direitos Humanos é maior afronta e ameaça, para a Rússia ou a China e outros Estados antidemocráticos, que a temem muito mais do que a eventualidade de serem bombardeados.
E é sobretudo neste poder e nesta força dos princípios e do Direito que devemos apostar.