domingo, 2 de outubro de 2022
sexta-feira, 30 de setembro de 2022
A importância dos livros
Há que enfatizar, por um lado, a inegável influência e
importância do livro na consolidação e desenvolvimento das culturas, nomeadamente a ocidental e, por outro lado, a hipótese de que o livro não tem tido a atenção e o fervor de
tantos adeptos quanto merecia.
O fenómeno da escrita, mormente da divulgação do conhecimento através do livro, tem sido visto por muitos estudiosos como um factor decisivo do desenvolvimento
da civilização e do conhecimento, ainda que o livro, como tudo o que é instrumental, sirva para quase tudo aquilo que pode ser instrumentalizado por ele e nem tudo é consensual ou pacífico.
Aqui,
não obstante, encontramos mais um motivo, ou razão, para preservarmos o livro como meio privilegiado de cultura e de diversidade, mas mais ainda de liberdade e de comunicação.
O papel activo
que o livro exige ao leitor, só por si, é um indicador de que quem o lê não o faria se não lhe encontrasse bastante interesse (independentemente de alguém considerar que esse interesse
é grande ou pequeno ou nulo).
Durante muito tempo, o fascínio pelo fenómeno da escrita foi de tal ordem que tudo passou a girar em torno dela até atingir uma estereotipação e
uma estilização que a transformou em algo valorizado por si próprio, pela sua dificuldade e poder simbólico de uma elite de especialistas, mais como uma arte e um domínio dos deuses, para
espectáculo atordoador dos leigos analfabetos.
O caso não era para menos.
O poder das palavras institucionalizadoras, imperativas, prescritivas, declarativas, que deferem ou indeferem, que ordenam e
impõem, que decidem o que as coisas são, sempre teve e continua a ter uma imensidão de devotos rendidos à sua magia transformadora das realidades que mais interessam a todos.
Curioso é
que este poder das palavras tenha sido tanto maior, e assim continua a ser, quanto mais hermético, e acessível apenas a uma elite, for o seu código. De tal modo que, por exemplo o latim, não sem
muita relutância, só recentemente vem sendo substituído, em actos oficiais e religiosos, pela língua viva.
A vulgarização do livro esteve associada à disseminação
do acesso ao poder que o livro conferia e, de vários modos, a elite “do poder do livro” reagiu contra isso. Mas, como seria de esperar, à medida que o poder do livro se disseminou também passou
a ser menor a atractividade motivada por algo que estava associado ao simbolismo do livro e não ao valor intrínseco do seu registo.
A desmistificação do saber livresco, por exemplo, é
muito recente e foi uma enorme conquista da cultura, mas só foi possível, suponho eu, pela divulgação e acesso generalizado ao livro como meio privilegiado, senão único, de acesso
a cultura e a conhecimentos relevantes, para além do senso comum.
Acontece, ainda assim, que o livro é visto, umas vezes, como meio de realização de objectivos expressivos e discursivos e narrativos
e comunicativos, inclusivé científicos, líricos, críticos, filosóficos, jurídicos, técnicos, etc., outras vezes, como fim em si mesmo, ou simplesmente como uma mercadoria, à
boleia da inquestionável reputação do livro, na sua função de “transcendência” a que temos acesso se os lermos, mais do que se alguém os ler para nós, ou por
nós.
sábado, 24 de setembro de 2022
O que é sentir
Sonhar
E só depois dizer
O que acontece
Dizer
E só depois ver
O que é difícil
Fazer
E só depois saber
As palavras que mais usas
Poder
E só depois deixar
De querer
Escrever
E só depois sentir
Que o prazer também se escreve
Com prazer
E só depois interrogar
O que é sentir
sexta-feira, 16 de setembro de 2022
INCOMPLETUDES
Se o amor
Enquanto esperavam à chuva
Fosse ministro de algum abrigo
Ou abrigo de algum ministro
A haver governo algures
Em tempo sinistro de encargos
Andaria atrás de um caderno
Perdido
De versos copiosamente amargos
Em seu labirinto construído
De perversos aliados
Tremendo dos artelhos
De medo talvez de frio
Da sua sombra nua
Procurasse o sol
De algum pavio
Quiçá da lua
Em troca de existir
Para se aquecer
Sem cair na rua.
sábado, 10 de setembro de 2022
Quase só fragilidades
Em algum recanto obscuro
Lá muito atrás no tempo
Perdemos a memória
O nosso amor e a nossa paz
Perturbados pela surpresa
De um mundo inesperado de hostilidades
Engendrado pela nossa frustração
E pelo alerta
Pela desconfiança das plantas
E animais
E restantes elementos naturais
Que no nosso âmago
Amamos
E pela decepção de sermos repelidos
E mordidos
Envenenados acossados infectados
Feridos
Esmagados afogados queimados
Em cenários de acidente
Tempestade ou guerra
Ou simplesmente
Na tragédia silenciosa
Na doença
E pela descoberta de que éramos
Quase só fragilidades
E a necessidade de nos rodearmos
Da atenção e do carinho
Uns dos outros
Para nossa protecção
E para sermos mais fortes
No desgosto de não podermos abraçar
Sem medo e precaução
Todos os seres
Vivos e os demais
Que amamos à nossa maneira
Talvez errada
Por não ser mais.
terça-feira, 30 de agosto de 2022
sexta-feira, 26 de agosto de 2022
Ensinar e educar
Educar, todos e tudo educa.
Cuidado com a educação. Quem não se queixa da educação que recebeu (o termo é muito significativo
e carregado de tradição) ainda deve estar mais de sobreaviso.
Ensinar é mais complexo, mais solidário, mais honesto, mais explícito, mais confiável, mais amigável, mais
avisado, mais avançado, mais revolucionário.
Putin educa, Hitler educou, Estaline dava isso como garantido e os religiosos sempre puseram todas as fichas na mesa das apostas da educação para
concretizarem os desígnios divinos.
Ensinar é outro negócio, é outra história, é outra narrativa. Se não é oposta a educar, pelo menos é crítica, contestatária,
muitas vezes feita à revelia da educação oficial.
Educar é perigoso, ensinar é promissor. Transmitir valores, crenças, normas de conduta é algo que se tem revelado catastrófico,
trágico, incurável, abominável, fatal. É certo que há sempre o outro lado da medalha. É o apelo aos valores que mobiliza para a guerra e para a vitória. Uma bomba lançada
sobre o inimigo é um acto sublime. Uma bomba lançada pelo inimigo é um acto cobarde e imperdoável.
Não devemos combater uma crença com outra crença? Ou seja, não
devemos combater? E temos outro remédio?
Há os que educam, por exemplo, para agradar e obter as bençãos do Sr. Abade, ou do Regedor, ou do professor, e há os que educam para se perfilarem
nas hostes políticas e dominarem o jogo dos interesses, avessos a obediências ditadas por opositores, ainda que posicionados em cargos de supremacia de facto, seja fiscal, seja política, seja administrativa.
E há os párias, que rejeitam todas as propostas e são educados para não precisarem dessas estruturas viciadas de favorecimento e de nunca vergarem, nem fingirem respeitos que não devem a
ninguém, que são educados a esperar todo o tipo de maus tratos e de desprezo e de discriminação, que só podem contar com a sua força e não deixam que lhes indiquem o personagem
sagrado que vão vestir nas procissões dos corpos dos deuses. E isto vem de longe, de muito longe. E, para tristeza e preocupação de muita gente, está a agravar-se. O nepotismo anda à
solta, a par com a corrupção e a batota na disputa de méritos e de reconhecimentos. Então o partidarismo e o favorecimento no acesso a funções públicas, vão-se instituindo
cada vez mais como procedimentos “normais”, como se o público e o Estado fossem a oportunidade dada a alguns privados que pensam e actuam como se estivessem nas suas quintas, enquanto estiverem.
Entre
os que educam para o jogo, com os trunfos na mão e os que educam para o jogo da batota, a diferença é óbvia.
O ensino é outra coisa.
quarta-feira, 24 de agosto de 2022
A atracção do abismo
Não saber se desistes da humanidade
Mas do teatro
Não saber se desistes do teatro
Mas da humanidade
Perceber que desistes
De reconhecer o fracasso
Não acreditar
Que haja quem não sabe
Que há noites perpétuas
No pomar das musas de sombra
Onde não rescende a frutos
Não há certezas de nada
Não há como desistir
De vencer os terroristas
Mas é preciso saber
Que se precipitarão
Com todas as suas forças
Os que não resistirem à atracção
Do abismo.
sexta-feira, 19 de agosto de 2022
Verdades e interesses
Espírito crítico, não é pedir muito, é esperar demasiado. Nos tempos conturbados em que vivemos, assoberbados de solicitações
e de megafones mais ou menos selectivos e privativos, numa imersão desinibida na barafunda das tragédias e no teatro dos festejos e das celebrações, quando alguém ainda sabe dizer em que
rua mora, ou para onde quer ir, isso já é um motivo de esperança, não digo na humanidade, mas no que vier a seguir.
A verdade, além de ser algo inacessível, até aos tribunais
superiores, a maior parte das vezes, é o que menos importa ao comum dos mortais. Quando muito, pode interessar aos filósofos e aos cientistas e, mesmo nestes casos, depende de que verdade se estiver a falar.
As
declarações e os manifestos políticos, sejam democratas, autocratas, plutocratas, cleptocratas, aristocratas, etc., não são verdades.
O socialismo não é verdade. O capitalismo
também não. O comunismo idem. República ou monarquia, nada disso é verdade, por mais verdades que digam. E também não são mentira, falsidade, ou erro, por mais que mintam, falseiem
ou errem.
As religiões não são verdades, por mais verdades que digam. As realidades culturais, institucionalizadas, com mais ou menos legitimidade, aceitação, passividade, adesão,
não são expressão, nem critério de verdade.
É escandaloso que tenham a pretensão de ser aquilo que não sabem ser, nem podem ser, verdade.
Uma realidade, material,
física, ou social, não é verdade. Um presidente, um clérigo, um filósofo, um cientista, um jogador, um trabalhador, um rei, uma aranha, não são verdades. Um facto não
é uma verdade. Um acto não é verdade.
O conceito de verdade, de certo ou errado, segundo critérios de verdadeiro/falso distingue-se do conceito de verdade, segundo critérios de eticidade,
de direito, de correcto/incorrecto, ou do conceito de verdade, segundo critérios de moralidade, de bem/mal.
Em todos os casos, verdade tem a ver com condutas, comportamentos, humanos, cujo escrutínio e julgamento,
por sua vez, padecem das mesmas limitações e deficiências daqueles.
Mas não há motivos para desanimar, porque os humanos têm um sentido muito desenvolvido para escolherem o que
lhes interessa.
A mentira, a falsidade, normalmente, aproveitam-se disso, como formas deliberadas, sofisticadas, de manipulação.
Quando é por erro/ignorância, já a manipulação,
até a das grandes estruturas ideológicas a que não escapamos, é desculpabilizável.
sexta-feira, 12 de agosto de 2022
Felizmente há o direito e a justiça
Que haja liberdade
Não à impostura e à censura
Não há liberdade enquanto houver
Ditadores
Enquanto houver ameaças credíveis
Dos destruidores
Enquanto houver terror
E morte
Incendiários
Bombistas
Terroristas
Que impõem aos outros a violência
Catastrófica e demolidora
Aquilo de que a humanidade menos precisa
Nestes momentos difíceis para todos
É que os oportunistas terroristas
No momento de ajudarem a salvar
De pandemias e de secas e de guerras
Tudo façam para ajudar a aniquilar
Felizmente há o direito e a justiça
Que não podem deixar de triunfar
Quanto à vida na Terra
Veremos.
segunda-feira, 25 de julho de 2022
A realidade da(s) Arte(s)
A realidade da(s) arte(s) suscita questões deveras curiosas e não há nada como questões curiosas para provocar a nossa competência, seja ela qual for. Se um cozinheiro não sabe responder à questão, mas um electricista sabe, ou se um cientista não sabe responder à questão, mas o crítico de arte, ou o leiloeiro, sabe, estamos num terreno em que ninguém gosta de ficar de fora e em que quem der parte de fraco não sai a ganhar, o que quer que isto possa significar, para além da gíria.
Não é sequer uma questão de “gostos não se discutem”, porque penso que tudo é discutível, se as pessoas quiserem.
O que constato e o que enxergo, bem ou mal, mais ou menos, é que há profissionais do gosto, como há profissionais de santidade, como há profissionais de sabedoria, de justiça, de saúde, de poesia, de romance, de pintura e, dentro de cada departamento, muitas especialidades.
Basicamente, estes profissionais estão aptos a responder a qualquer questão que se coloque, não apenas sobre a sua área de actuação, mas também a realizar/fazer algo em conformidade. A arte do discurso não é das menos “sublimes”, mas há as artes dos artefactos, ainda que o discurso não deixe de ser também, à sua maneira, um artefacto. Neste sentido, a cultura, mesmo aquela parte que não se exterioriza, que não se objectifica em nenhum suporte material, nem chega a transmitir-se porque não sai do reduto íntimo do indivíduo que a pensa, ou a sente, é artefacto, ainda que apenas representação abstracta dos neurónios.
O exemplo do quadro em branco não deixa de ser curioso, levando a reflexões inesperadas e interessantes, por exemplo, sobre a originalidade e a inimitabilidade. Não quero dizer que não tenha havido e não haja milhares, senão milhões de quadros brancos, se calhar à espera de um pincel com tinta. Mas depois de ter aparecido um numa exposição de pintores, realmente, tudo muda de figura e poder-se-ia escrever muito sobre isso, convocando cientistas e pensadores de todas as áreas, para que nenhum profissional se sentisse excluído.
O quadro em branco é de tal modo “inimitável” que alguém que se atreva a repetir a façanha pode ter de pagar direitos de autor.
Também há espectáculos em que não é possível responder à pergunta “que é que isto significa?”. Uma vez participei numa espécie de dança de varredores, ao ritmo de música, que ganhou a atenção dos espectadores e que achei divertida, em que, no fim, dois intelectuais me perguntaram que é que aquilo significava. Eu perguntei-lhes se tinham achado divertido e eles disseram que tinham adorado, mas eu não seria capaz de lhes veicular significado que eles próprios não encontrassem, porque para mim não havia ali significado. Poder-se-ia, não digo que não, criar imensas hipóteses de significado, cada uma mais rica do que a outra e isso ser deveras inspirador e criativo, mas o assunto ficou por ali e o mundo continuou.
O dar que falar pode ser muito relevante e não só do ponto de vista das teorias e aperfeiçoamento, aferição, afinação da linguagem e dos conceitos, que é um trabalho e uma arte que ocorre nos bastidores mas que não deixa, por isso, de ser importante.
Quanto ao talento para criar oportunidades ou aproveitá-las, concordo que sejam talentos diferentes, cada um melhor do que o outro, mas não vejo que haja muito como alguém dominar/controlar o efeito das obras e a qualidade das obras, ainda que levássemos em conta aspectos como públicos especializados e públicos em geral, mais ou menos semianalfabetos. Muitos dos aplausos têm a ver com a emoção primária e irreflectida, abstraída de outras considerações acerca do valor da mesma e sem levar em conta critérios comparativos. Podemos não aplaudir uma grande obra que já aplaudimos até à exaustão e aplaudir muito, pela primeira vez, uma obra menor.
Há, não obstante, experiências frustrantes, para não dizer traumatizantes, ou até esclarecedoras, que todo o criador pode fazer, seja artista ou filósofo, ou cientista, acerca da relação entre valor, qualidade da obra e efeito no público, aceitação, apreço, valorização, aplauso, reconhecimento. Se, por exemplo, perante uma assembleia que desconhece (realidade muito frequente) um grande poema clássico, ou um compositor consagrado, ou um texto notável de alguém do panteão, ou mesmo um dos evangelhos mais venerados, o fizer passar por improviso do momento, ou criação sua, logo verá o efeito. A minha experiência revela que o valor de uma obra tem subjacentes, pelo menos duas ordens de considerações, o plano crítico, que se vai consolidando pelo passar do tempo, e o plano menos crítico, individual, de contacto e de fruição subjectiva, talvez muito mais difícil de justificar.
De qualquer modo, numa primeira abordagem, ou contacto, a obra de arte, texto ou outra, tende a ficar mais em suspenso quanto mais rica e profunda e inovadora for, como se causasse uma estranheza, impenetrável ao senso comum, que pode ou não valer a pena explorar e interrogar.
sexta-feira, 22 de julho de 2022
É certo
Não vou falar do certo e do errado
Porque soubesse verdades
Que não sabeis
Mas porque falo dos meus erros
Não porque afinal tenha acertado
Em os reconhecer
(E é certo)
Mas porque tenha reconhecido
Estar errado
Não vou falar das falsas crenças
Do passado
Que me ajudaram a crer noutras
Em que não fui educado
Mas na surpresa de descobrir
Que o mais certo
É eu estar errado.
quinta-feira, 21 de julho de 2022
Ousar amar
Provavelmente ninguém é amado, ou amou, no sentido de amor que não é retribuído. O condicional não faz parte do conceito mas, nem por isso, deixa de ser a realidade do amor.
E não esqueçamos que o artifício de pensar em termos físicos, ou literários, teológicos, ou filosóficos, não reduz o problema, antes o amplia.
quinta-feira, 14 de julho de 2022
Mas as palavras do poder, senhores?!
O poder das palavras vai sempre mais longe do que as palavras do poder, por mais que isto seja contraditório, ou circular. Mas é preciso que alguém
as ouça, as entenda, as siga, ou as rejeite. Nenhum poder existe, ou leva a melhor, sobre o que resiste. Neste aspecto do problema, admiro o burro, tão mal tratado, mas sobrevivente.
O poder das palavras
é inescapável e incontornável e inarredável. Nem é viável abstrair das palavras. O que é viver sem palavras?
O poder das palavras, reside no indivíduo que as usa, como autor ou destinatário se e apenas na medida em que as usa e com elas se conforma.
Para quem teme o seu poder, o melhor não será fugir-lhes.
Para quem quer o seu poder, o melhor não será usá-las indiscriminadamente.
Mas as palavras do poder, senhores?!
As palavras que fazem da força poder, que dão poder à força?
Sem embargo de a força ditar palavras que as tornam poderosas,
o poder das palavras está para as palavras do poder como o espírito está para a matéria (metaforicamente, porque não alinho nesse dualismo).
E que diríamos sobre o valor das palavras?
terça-feira, 5 de julho de 2022
Forma e conteúdo
A relação das partes com o todo (que é sempre, por sua vez, uma parte de uma parte maior) é uma relação de umas formas com outras, cada uma contendo outras, mas sendo contida por outras.
Porém, há a questão do vácuo, que me interpela de vários modos. Não sei o que é o vácuo e acredito que ninguém, nem coisa alguma já esteve no vácuo. Não sei se o vácuo acontece ou aconteceu alguma vez, por exemplo, se algo que existe, submetido à vacuização, deixou de existir, por força da vacuização. Será esta força mais uma a acrescentar às reconhecidas forças da natureza?
No vácuo, a força da gravidade “deixou de funcionar” (não me digam “deixa de funcionar”)? O espaço e o tempo foram suprimidos? O nada foi criado? Deixou de haver movimento?
Os físicos não terão dificuldade em esclarecer uma dúvida tão básica, se calhar não mais do que uma questão de linguagem, mas poderá alguém aspirar sequer a entrar /estar num lugar vazio?
terça-feira, 28 de junho de 2022
Tudo para ser feliz
Quando escrevo só
Posso contar com o leitor
Para transpor
O limiar da minha porta
O poeta não se mete pelos olhos dentro
Como uma irresistível vénus desencadeia
Tempestades de prazer
Até a quem as não quiser
A poesia pode ser desbragada
Mas é a sedução de não ser nada
De não ter úberes
Nem ritmos de pimbalhada
Que entram pelos olhos dentro
Sem pedir licença
E sem dar licença para contento
Sentam o rabo na cara
A poesia é como a dança
Exibicionismo requintado de mais
Para os pés de chumbo
Que a desdenham e deploram
Como a trança de um cabo de cebolas
É cantar a uma janela
Sem ninguém lá dentro
Porque não está lá ninguém
Não é trabalho
É a infelicidade
De quem tem tudo para ser feliz
Uma arte
Ter tudo para ser arte
Mas não ser bela
Uma questão de gosto
Ter tudo para ser
Mas não acontecer.
sábado, 25 de junho de 2022
Fender
Ouve cantar aves que espreitam
Da fenda da floresta
O atrevido afagamento do sol
Quantos silêncios inofensivos
Estão atravessados num sorriso
Quantos enigmas são precisos
Para resgatar do esquecimento
As âncoras ofuscadas
Pela refracção dos prismas
Que à toa fendemos
Ao rasgar páginas pela fenda
Da leitura da escrita
Espigas do mundo
Seios dourados
Às transparentes mãos
Porém imperfeitas
Do dia que se faz
Adivinhar pelas fendas
Dos abismos
Que tem o luar.
sábado, 18 de junho de 2022
Poesia dos aranhões
segunda-feira, 13 de junho de 2022
A felicidade
A felicidade. O que se entende por felicidade? Bem-estar, satisfação?
O conceito de felicidade tende a ser referido a situações objectivas que, raramente, ou
nunca, serão atingidas e, se o forem logo confirmam que a felicidade não é intrínseca a situações particulares da fortuna e do mundo, como se não houvesse situações
susceptíveis de dar felicidade, porque esta não existe fora do indivíduo. O que me torna feliz, provavelmente, não tornaria felizes os outros e, hipoteticamente, até poderia torná-los
infelizes. Por outro lado, a minha felicidade não está livre de, mais tarde, ser fonte de infelicidade.
O conceito de felicidade, todavia, e por ser assim tão subjectivamente condicionado e determinado, é de inestimável utilidade para tentarmos compreender a natureza humana e encontrar em tudo o que é acto humano esse sentido da felicidade.
A tese que defendo é que tudo o que é acto humano é racional e implica uma escolha que é a melhor (todo o acto é individual). Do que sei sobre o ser biológico do homem, nomeadamente dos processos homeostáticos, não só a racionalidade é um determinismo, como a escolha é inelutável, um imperativo, diria, natural. A felicidade é o critério. Não há outro. É um fim em si mesma. Não é instrumental. Instrumental é tudo o que for susceptível de realizar a melhor escolha.
A cultura humana é determinada, em todos os seus aspectos, por um princípio que eu designo, num trabalho que tenho elaborado
sobre Ser Humano, por princípio da felicidade, como princípio normativo de todos os outros princípios.
A minha argumentação vai no sentido de que a cultura é a manifestação
de um dever-ser que é um ter-de-ser (da natureza). A inversa não é verdadeira, quero dizer, o ter-de-ser da natureza não é manifestação de um dever-ser, excepto no caso da cultura.
Qualquer
texto serve para tentarmos sustentar a tese que defendo. Qualquer situação humana também.
A esperança está no reconhecimento social e institucional dos mecanismos biológicos egoísticos (da felicidade) e na gestão e disponibilização de quadros de possibilidades de escolha que não impliquem que a melhor escolha não seja boa.
domingo, 5 de junho de 2022
Liberalismo utópico
As ideias de democratizar a sociedade, democratizar a escola, democratizar a cultura, democratizar a boa vida, democratizar a felicidade, aparecem frequentemente associadas, e não da
forma mais correta, à ideia de que a sociedade, a escola, enfim, tudo, deve seguir um modelo liberal, muito liberal, muito individualista e funcionar sem paternalismos, baseado na autonomia do indivíduo e na
utopia da liberdade total.
Associar a ideia de democracia a esta utopia de liberdade é um grande passo para ignorar o sentido e confundir ambas. Democratizar só faz sentido se significar tornar democrático,
e tornar ou ser democrático está muito longe daquela utopia liberal.
Aliás, aquela utopia liberal choca de modo irreconciliável com a democracia e os modos democráticos de gestão
e resolução de conflitos e de problemas sociopolíticos e institucionais.
Se quiséssemos ser antipáticos, sem deixarmos de ser democráticos, diríamos que, mais frequentemente
do que gostaríamos, constatamos a total incapacidade das escolas para promover aprendizagens que despertem e fomentem o espírito crítico e a hermenêutica. Isto é visto como algo estratosférico,
para não dizer exosférico.
Os elevados níveis de especialização requeridos por cada área de análise crítica e fundamentada vão sendo atingidos por um reduzido
número de especialistas que só se entendem uns aos outros e, às vezes, só a si mesmos.
Ora, a maioria das pessoas não aspira a uma vida de solilóquios ou de intermináveis
discussões consigo mesmo embora possa estar a falar para as paredes, que até têm ouvidos.
Carlos Ricardo Soares
quinta-feira, 2 de junho de 2022
Prisioneiros
Pedaços bocados
Fragmentos despojados
Retiros passados
Passos trocados
Regressos impossíveis
Veredas desconhecidas
Sendas armadilhadas
Traçados dos diabos
Remotos
Nomes de descobertas
Induzidas por pioneiros mágicos
Alucinados pela esperança
Dissoluta
Mais do que pela jazida sabedoria
Nómadas destroçados
Sem quartel
De alegrias poucas
E das loucas
Degradações
Sementes de violência
Desfazem-se
Desfazem-nos
Desfazem-te
Desfazem.
sábado, 21 de maio de 2022
Estradas de metafísica
Ao fim de umas horas a pedalar
Por estradas de metafísica
Com matilhas de cães às costas
Olhei para trás e já não conseguia lembrar
Nenhum dos problemas de dogmática ético-jurídica
Com que muitos reis não se depararam
Por possuírem grandes castelos
Como se acabasse de me reencontrar
A caminho do sol e da liberdade
E em vez de pensar no xadrez dos anjos
Que me não dava fome
Nem de comer
Nem sombra
Onde viver liricamente
Como sempre sonhei
Uma primitiva sensação
De estomacal entendimento do mundo
De todos os pensamentos confluírem
Numa harmonia marítima libidinosa
Abocanhando pedaços de lagosta frita
Adornados de algas profanas
À vista de especiosos vinhos
Em horizonte de searas saudosas
Açorda alentejana
Fumegando desejos de planície
Inimagináveis
Em alto mar
Como tudo o que o vento levou.
sábado, 14 de maio de 2022
Salvar o mundo
Pensavam que era lixo
E varreram tudo
Mas eram letras dispostas de uma certa forma
Que poderia salvar o mundo
Porque a forma pode ser importante
domingo, 8 de maio de 2022
Neutrões
Os neutrões não escapam
À carga eléctrica
E acabam fardados
A mirarem-se ao espelho
Dos protões
Tão sossegados finalmente
Por se sentirem realizados
Por satisfazerem os requisitos
Por não pertencerem a si próprios
Senão nessa alienação
De serem convertidos.
quinta-feira, 28 de abril de 2022
A memória que amamos
Como dizer o que não sabemos
Pensar o que ignoramos
Contar o que não passamos
Sem ser em romance
Do que guardamos
Que sendo saga nossa
Ou não sendo a nossa
Gostávamos que fosse
Porque nenhuma paisagem substitui
A memória que amamos
Dos sonhos
Do que acreditávamos ser
Maior que o mar
E mais belo do que se pode contar
Nos roteiros da história dos outros
Na saudade de algum momento
Do que é possível desejar
Nos mapas
Outrora para nós legíveis
E agora cada vez mais desbotados
Embora muito mais inteligíveis.
terça-feira, 26 de abril de 2022
A vida é isso
Um problema subsiste na nossa cultura que, mais ou menos tacitamente, opõe artes e humanidades a ciências, não tanto porque umas contestem as outras, mas sobretudo porque umas veem as outras numa perspectiva não suficientemente compreensiva, ou mesmo redutora, para já não falar dos pruridos de estatuto ou dos preconceitos de ambos os lados, como se o que estivesse em causa fosse um critério de validade/verdade, independentemente de qualquer perspectiva ou critério de valor.
As coisas apresentam-se, normalmente, ou tradicionalmente, como se houvesse áreas culturais, discursivas, retóricas, expressivas, representativas, performativas, estéticas, lúdicas, artísticas, linguísticas, literárias, poéticas, imagéticas, icónicas, musicais, histriónicas, audio-visuais..., éticas, morais, religiosas, jurídicas, económicas..., claramente delimitadas das áreas do pão-pão, queijo-queijo, da análise quantitativa da realidade física e química medida e mensurável e que é praticamente toda a realidade, incluindo a referida anteriormente. A aplicação do método científico, aliás, não está limitada às realidades físicas stricto sensu e as ciências sociais e humanas são exemplo disso. Ou seja, tudo o que é cultura (arte, expressão, conduta, comportamento, acção, movimento, som, conhecimento, significado, comunicação, norma, crença...) está sob a alçada da ciência, do método científico, incluindo Deus.
Mas não pode ser reduzida a isso e quem tentar fazê-lo incorre em erro crasso, até aos olhos do mais ignaro.
Em certo sentido, a ciência também não escapa à alçada de Deus e, em geral, de todas as manifestações de cultura. O problema não é simplesmente um problema de rivalidade entre a ciência e as artes, religiões, políticas, ideologias, sistemas de adaptação e de integração da realidade social e do próprio modo de hierarquização social dos valores morais e patrimoniais.
O problema é fundamentalmente de ordem existencial, ou, se quisermos, de ordem moral, do indivíduo como última e irredutível instância do valor, dos valores, mesmo quando adopta e segue e se identifica e se conforma e respeita e cultua esses valores.
Assim, o problema não está na ciência ser ciência, ou na arte ser arte, mas no cientista e no artista serem indivíduos, humanos, personalizados, únicos, com uma história e uma representação individual das experiências e um sentimento e mundivisão próprias. Nestas, a própria ciência e artes mais não são do que experiências, entre outras.
O problema existencial é o problema do que fazer com aquilo que sabemos, ou julgamos saber. E este problema, se não é insolúvel, é, pelo menos, o verdadeiro e único problema da vida de cada um, ou seja, a vida é isso.
sábado, 23 de abril de 2022
Lua sobre os destroços eternos
Aquilo a que chamamos realidade
A lua sobre os destroços eternos
Que fumegam
Arrancados das unhas sujas
De ferrugem e pólvora
Das explosões
Que incendeiam a noite
Dos imortais
É veneno que se infiltra
No coração dos inocentes
E obnubila para sempre
Como uma maldição inconcebível
A que não escapará
Nenhum dos seus pensamentos
Por mais lembranças que tenhamos
Dos bons tempos
Em que não conhecíamos os inimigos.
domingo, 17 de abril de 2022
Mediatismo e valor
É desmoralizador constatar que a popularidade e a influência e o papel de referencial de valores de inúmeros vultos, que aparecem nos meios de comunicação social, desde pimbas a políticos, passando por ícones das indústrias de lavagem de dinheiro e de fugas aos impostos, até chefes de Estado que apostam tudo na morte e na destruição do alheio, não se deve ao mérito nem à bondade do que dizem, ou do que fazem, nem do que representam, mas, pelo contrário, o que dizem, o que fazem e o que representam torna-se socialmente relevante, e é seguido por adeptos e imitadores, por serem dessas figuras mediáticas e provir delas.
O mediatismo e a visibilidade da popularidade impõe-se como critério de valor e de mérito e não o contrário, como seria de esperar.
E isto é muito preocupante.
Tem muito a ver com a propalada inversão ou crise de valores.
Não é por seguirem valores associados à prática das virtudes de pensar e de ajuizar e de agir, segundo critérios de sabedoria e de prudência e de sã e informada convivencialidade social e cultural, porque isso está fora dos rituais primitivos dos seus correligionários.
Mas o mediatismo confere à ignorância e à grosseria um estatuto social que é seguido por multidões de fanáticos e torna-se exemplo, valor sufragado por muita gente que, à falta de outros critérios ou referenciais críticos, legitima exercer e manifestar o poder de facto que o ruído, as claques e a estupidez dos rebanhos revelam. Como se ser mediático, ou ser bem pago, fosse alguma garantia de idoneidade e do que deve ser imitado e valorizado.
quinta-feira, 7 de abril de 2022
Não há causas do que não acontece
Voltaire era demasiado intelectual para a minha adolescência de índole beata e sentimental, suspeitando, mais do que acreditando, que o homem pudesse ultrapassar-se a si próprio, como se alguma coisa o possa fazer, ou isso alguma vez tivesse acontecido. Mais do que as ideias, na minha adolescência, eu trabalhava as palavras como um obstáculo real, como uma barreira que se levantava entre os olhos e o mundo visível, não como se ocultassem, mas como se, estranhamente, denunciassem a existência de mundos invisíveis, não porque fossem objectivamente invisíveis, mas porque não estavam ao alcance dos meus olhos e do meu pensamento. Mas Voltaire era demasiado lúcido para quem estava de olhos fixos na árvore e não conseguia ver a floresta. Eu lia-o e tinha a impressão de que ele falava da floresta sem falar das árvores. Nunca desisti de pensar que o defeito devia ser meu. E não esqueci algumas metáforas com que ele dizia o que pensava. Em parte, porque elas vinham em meu auxílio, sem que lhes pedisse nada, nos mais inadvertidos momentos, como se quisessem fazer-me compreender e apreciar o seu alcance. Estou a pensar no “Cândido”.
A primeira vez que o li, com o despeito e a desconfiança que me mereciam os romancistas e os poetas e os panfletários, e outros que tais, não vi mais do que um exercício de imaginação e de criatividade para impressionar, uma espécie de malabarismo de um tribuno repentista e imaginativo. Mas, curiosamente, Voltaire, a meus olhos, não pretendia e não fazia nenhum esforço, antes pelo contrário, para parecer outra coisa, como se me advertisse de que não me queria convencer do contrário.
Pois bem, Voltaire escrevia com o acerto e a desenvoltura com que escrevem os que têm uma visão lúcida daquilo sobre que escrevem. É como quando se domina um assunto e se está à vontade para falar sobre ele, qualquer que seja a questão colocada.
Uma das coisas que, frequentemente, lembro de Cândido, de Voltaire, porque sempre fiquei a pensar nisso desde a minha adolescência, é o problema do melhor dos mundos possíveis. E tenho-me deparado com a ideia de que Leibniz, que Voltaire satirizava, estava a pensar bem.
Aliás, Voltaire, ao dizer que “A História serve para provar que tudo pode ser provado com ela”, parece estar a concordar com Leibniz, embora este talvez dissesse, de outro modo, por exemplo, que tudo o que pode ser provado aconteceu e que não poderia acontecer de outro modo, ou que não há como provar que poderia ter sido diferente.
Voltaire sabia, no entanto, e nós também, que nem só o que aconteceu pode ser provado. Salvo erro, o sarcasmo dele visava esta banalidade humana de trágicas implicações.
Sem embargo, digo eu, de que não há causas do que não acontece.
quarta-feira, 6 de abril de 2022
Agressão, defesa e contra-ataque
Não conheço maior maldade nem maior perversidade, pela monstruosidade dos intentos, mas mais ainda pela determinação e escolha do poder de causar dano e destruição e morte gratuita, sobretudo desencadeando um fenómeno de violência de imensas dimensões, antecipadamente admitido como possível e desejado e promovido, tendente a abalar os alicerces da organização social e política e económica, sem sequer ter o ensejo de tirar proveito disso, dizia eu, não conheço maior nojo do que alguém iniciar uma guerra.
E é-me tão odioso, tão revoltante e insuportável que alguém o faça que, enfrentar um tal inimigo, se torna o mais nobre e glorioso dos feitos.
Mas, até por assim ser, por a guerra desencadear mecanismos sociais de reorganização e de defesa e contra-ataque, que mobilizam grupos e organizações cada vez mais alargados, devendo atingir a eficácia necessária, desencadear uma guerra é uma decisão de incomparável responsabilidade e gravidade.
De positivo, ou tolerável, não tem nada. Censurabilidade máxima. Intolerância máxima.
Quem inicia uma guerra dá causa e terá que assumir a responsabilidade, não só da guerra que faz, mas também da guerra que lhe for movida. Esta sim, é uma guerra justa, honrosa e valente para os seus militares. E será gloriosa, ainda que não totalmente vitoriosa.
Quando alguém inicia uma guerra, inicia uma guerra má, desumana, injusta, odiosa.
Quando tocam os clarins dos exércitos de defesa e contra-ataque, o que acontece é uma grande epopeia, de inesquecíveis guerreiros, por uma causa sublime e magnânima, contra soldadesca desprezível, sem sentido de honra nem brio militar, cuja coragem e valentia é despejar explosivos a esmo sobre casas e gente desarmada, sem sequer pensarem nas consequências.
Mas, também por assim ser, quem inicia uma guerra não deixa de o fazer sob os auspícios de uma propaganda que apresenta a agressão como uma defesa ou legítima defesa, ou, no mínimo, de excesso de legítima defesa, para incutir ânimo aos profissionais do tiro a eito.
E isto agrava ainda mais a culpa de quem toma a decisão e dá as ordens com a coragem de quem está à distância, talvez acreditando que, quem começa a guerra pode pará-la quando quiser, como se estivesse num filme violento, em que tudo lhe corre mal e a violência se volta contra si.
E torna muito simples o trabalho de quem tiver de o julgar e de o condenar.
Mas a parte difícil de o combater, por fases, pacientemente, dolorosamente, com frentes e retaguardas sucessivas, sem perder a cabeça, essa parte é a que dá razão à história e pode dar sentido à vida.
Como um problema que não se pode deixar de resolver.
domingo, 3 de abril de 2022
Dialogar com quem não quer ouvir
Muitas vezes o diálogo é uma chusma de provocações e de desconversas, um não diálogo, de que é possível extrair algumas conclusões, sobretudo nos casos em que os dialogantes não estão, nem querem, pensar da mesma maneira, ou estar de acordo com uma linha de argumentação, ou estilo de questionamento, mormente quando se pelam em não reconhecer nenhuma das alegações ou razões da outra parte.
Se o diálogo for um travar-se de razões no plano académico, ainda é possível alguma consensualidade em torno da ciência e de teorias científicas, desde que estas não ponham em causa os interesses relevantes de alguém com poder.
Mas o diálogo não é, nem tem de ser, um litígio ou uma confrontação entre pessoas que não querem estar de acordo em nada.
Pelo contrário, fora das arenas dos gladiadores, normalmente, é pelo diálogo que as pessoas descobrem afinidades, interesses e ideias comuns e novidades de que nem sequer suspeitavam. Pelo diálogo aprendem o que antes não sabiam, encontram o que desconheciam, trocam informações, mais ou menos codificadas, que não trocariam de outro modo. Pelo diálogo, falam, formulam, organizam ideias, pacotes de significação, para elas próprias e para os outros, e escutam, tentam decifrar, compreender os outros através dos recursos próprios, das representações próprias daquilo que é formulado pelos outros. Pelo diálogo podem ser seduzidas ou avisadas, perder a inocência ou visitar cidades invisíveis.
Pelo diálogo, poderíamos continuar a sonhar, por exemplo, com uma democracia política que não seja pervertida pelo dogma das maiorias demográficas, nem pelo controlo do poder económico-financeiro.
Há barreiras para o diálogo, ou que se levantam ao diálogo, ou então para ocorrer diálogo (como em quase tudo na vida) é preciso mais do que querer.
A esfera da vontade, ou do capricho, por exemplo, de uma criança de dois anos, estabelece uma realidade respeitável, não em relação ao que é ou não é verdade, mas em relação ao que ela quer, ou não quer, gosta, ou não, está ou não “de acordo”, entendido aqui no sentido da satisfação do seu “interesse”.
A verdade, a moral, o direito, o bem comum, podem e devem ser objecto de diálogo, como tudo o mais, mas não é como tal, como problemas académicos ou filosóficos, que tocam a maioria das pessoas.
Na prática, os indivíduos, os grupos, os clubes, as religiões, os partidos, as tribos, as confrarias, acreditam naquilo que querem e tendem a considerar verdadeiro e justo o que lhes for favorável e não o contrário.
Até eu acredito, sem que isto me seja favorável, que o Luís XIV acreditasse que era rei por instituição divina e que a maior parte dos clérigos, incluindo o papa, todos os dias invocassem isso nas suas orações.
Mas não acredito que alguém pudesse dialogar com o rei ou com o papa sobre a hipótese de tal não ser verdade e, muito menos, de ser uma retumbante falsidade e, menos ainda, de ser uma mentira e, de todo, uma fraude.
sábado, 26 de março de 2022
Acordar
O ponto a que chegou, porém, o poder e a capacidade dos humanos tranformarem e explorarem a natureza, em todos os aspectos da sua utilidade egoística e de curta visão, coloca-nos perante um cenário desolador e desmoralizante de destruição da natureza de que abusamos. E, o que é mais grave, dando-nos conta, sem tomarmos medidas colectivas adequadas a evitar mais destruição irrecuperável e a tentar recuperar ou reparar os danos causados.
As principais vítimas, feitas as contas, são os humanos e isso devia ser um motivo acrescido de especial preocupação em reverter processos de exploração económica e de comportamentos cujas externalidades negativas já foram devidamente identificadas e avaliadas.
Mas os humanos não têm um fértil historial de aceitarem restrições e limitações por causa dos outros.
As democracias aparecem como tentativas excepcionais e não muito generalizadas pelo planeta.
Ainda há quem pense que os problemas da corrida para o abismo ambiental e da destruição da biodiversidade sejam problemas dos outros e continue a espreitar aí mais uma oportunidade para fazer dinheiro.
E há quem não tenha sequer a noção daquilo que verdadeiramente está em causa, tal é o modo como tudo continua a ser vendido e propagandeado, como sempre, como se na nossa função de consumidores residisse alguma soberania individual.
Já não é suficiente invocar os direitos humanos para mover a humanidade.
Aliás, a Declaração Universal dos Direitos Humanos talvez devesse ser simplesmente Declaração Universal dos Direitos, incluindo aí os dos outros seres vivos.
Ainda assim, e pelo que vem acontecendo nos dias de hoje, a Declaração Universal dos Direitos Humanos é maior afronta e ameaça, para a Rússia ou a China e outros Estados antidemocráticos, que a temem muito mais do que a eventualidade de serem bombardeados.
E é sobretudo neste poder e nesta força dos princípios e do Direito que devemos apostar.