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sábado, 3 de abril de 2021

A invenção da liberdade


Que fragilidade é essa

Que vês uma foto e desfaleces

Como se ela disparasse balas

Do tempo em que nada existia

Ouves uma canção e adoeces 

Como se a música fosse um veneno 

Só teu

Vês uma mulher e falas 

Sozinho

Como se a sombra dela

Te possuísse

Começas a escrever um verso

E antes que enlouqueças

Invocas um exército de razões

Para adormeceres

E perseguires

O rumo dos ladrões

De todo o mistério?

 

Que liberdade é essa

Que podes fazer

Mas não fazes

queres pensar

E não obedeces

Queres não ter

E tens

Dizer

E não dizes?


Carlos Ricardo Soares


sexta-feira, 2 de abril de 2021

As expectativas da democracia


A nossa democracia, apesar do foguetório com que se anuncia, e das mistificações políticas à volta de fogueiras e de bandeiras e de marcas que valem mais do que programas, tem sido do mais anémico que há. As expectativas criadas são sempre imensas. Respeita-se mais a palavra Democracia do que o Povo.
O povo, induzido pelos altifalantes e pelas girândolas, amplificados pelos telejornais sempre e cada vez mais apocalípticos, numa espiral de temporizador de contagem regressiva ao vivo com animações de feira, lá foi trocando estas e os arraiais minhotos pelos hipermercados e pelas confissões ao domicílio, entre guerras frias e cataclismos mais globalizados do que os benefícios das tecnologias, ora aliciado por algum produto milagroso, ora fascinado por promessas de liberdade, de riqueza e de justiça, no fim de contas, confirma o que sempre suspeitou, que não foi enganado ao trocar as igrejas pelas assembleias e pelos parlamentos.
O povo nem sequer pode invocar como desculpa que foi enganado.
Se há coisa que todos sabemos é que a democracia é mais uma das charneiras, mas que goza de presunção de indiscutível superioridade a qualquer religião ou igreja, através das quais os poderes se afirmam e se impõem. Devidamente avalizados, governos e oposições, passados os momentos populares e pseudofestivos das bebedeiras eleitorais, entram em modo sonâmbulo, também conhecido como hibernação, ou fantasmático, como convém à natureza da máquina dos poderes.
Mas a democracia não deixa de ser uma máquina em que as oposições nada fazem que não pudesse ser feito sem elas.
Nenhum dos grandes escândalos em democracia foi despoletado pelas oposições. Estas são sempre quem menos sabe do que andam a fazer nos bastidores do poder.
A máscara da democracia é demasiado valiosa para ser usada indiscriminadamente. Quando a democracia não é mais do que um simulacro de democracia, temos de começar a pensar em que é que a palavra corresponde à realidade e se devemos transformar a realidade ou a palavra.
A descentralização, por sua vez, não deve ser outro expediente para centralizar ainda mais o que nunca devia ter sido centralizado. Há matérias, e esta é uma delas, em que não podemos pensar acertadamente senão através de números. Tudo o mais que venha embrulhado em retórica só serve para nos distrair e desprevenir de que não poderemos queixar-nos se formos enganados.

segunda-feira, 29 de março de 2021

Mais do que o teatro


Mais do que o teatro, propriamente dito, em que o actor representa um papel previamente escrito e ensaiado e que poderá ser reproduzido e recriado e gravado, o mais desconcertante para qualquer pessoa é pensar que o seu teatro e os seus papéis, as suas falas e movimentos, gestos e pensamentos, dores e alegrias, sonhos e fantasias, amores e ódios, são tão efémeros e privados que é como se não existissem. 
Se fizeres um mapa da localização do inferno já vais ficar na história, por uma boa razão. 
Se fizeres uma viagem ao paraíso, se não caíres do avião e se fores simplesmente feliz com as tuas memórias, mesmo que o alzheimer te poupe, tu passas e as pedras ficam. Mas as tuas memórias (conhecimentos, etc.) eram a tua realidade, a realidade daquilo que tu és: nada.
A realidade humana, ainda assim, dá sentido a toda a realidade e nenhuma outra realidade dá sentido à realidade humana.

quarta-feira, 24 de março de 2021

Antes tivéssemos


Não quero pensar no dia em que

Também abandonaremos

As nossas carroças

Para não perdermos os cavalos

Prefiro pensar que a vida é feita de perdas

E não é que seja má

Porque ficamos com a memória

Para reviver sem perigo

Pelo menos enquanto a não perdermos também

E já não pudermos encontrar

Nem nos livros que escrevemos

O mínimo sinal

De termos vivido

Em nosso redor de há muito habituados

A não ver nem ouvir

De olhos fechados para ver melhor

As grandes distâncias que nos excitam

As nossas dores e prazeres são também

De pensar

No que não perdemos

Porque não tivemos

Mas antes tivéssemos

Perdido.


terça-feira, 23 de março de 2021

Ouvir o coração

Se reparares as casas

Não são um amontoado

Nas ruas

A luz e as sombras andam

De mãos dadas

Na praça

A domadora de gaivotas vadias

E o maestro de gritos

Fundem-se num abraço H2O

No chafariz

De momentos perfeitos

As cores fecundam

Os olhos da Pureza

Da cervejaria icebergue

Que serve canecas de maresia

À sede insaciável de saber

Se o vinho é mais puro do que a cerveja

E ela

Com deleite não fermentado

Diz tem graus

E eu a ver degraus

Sem palavras

Com o coração a bater.

 

sábado, 20 de março de 2021

Ainda tento explicar a beleza


Ainda tento explicar a tua beleza

E o cheiro de chuva

Que parou depois

De me encostar a ti

Como ser a árvore

Para construires os teus barcos

Sem que as aves desamorem

A tua respiração

No meu queixo

Enquanto fechava os olhos

Para desenhar janelas

Na nossa roupa

Com as mãos

No agasalho do teu corpo

Confirmava

Que não eras fantasia.


sexta-feira, 19 de março de 2021

Crentes e ateus

Há ateus que não permitem que serem ateus os incompatibilize com os crentes. Por exemplo, que sentido faria humilharmos a nossa mãe porque se sente feliz a rezar o terço pela nossa saúde? Ou pela paz do mundo? Ou pelo perdão dos pecados? Ou pela superação da nossa ignorância?

Os ateus não têm respostas, ou, pelo menos, melhores respostas do que os crentes para as questões a que aqueles respondem com a fé.

Os crentes colocam Deus no ponto de partida e os ateus não o colocam, em ponto nenhum, nem no ponto de chegada. Mas estão todos perante o desconhecido. Desconhecido, nesta matéria, significa mesmo que ninguém sabe, se bem que os crentes afirmem um tipo de conhecimento metafórico, adjectivo e analógico.

Não é como alguém dizer que não conhece a Condessa de Ségur, confessando a sua ignorância.

O problema dos crentes é que os ateus não têm razões para crer no que eles acreditam e não são capazes de lhas darem. Mas os ateus têm razões, muitas, aliás, para crerem que os crentes são pessoas de boa fé.

O problema dos ateus, no entanto, é que há falsos crentes e esses não são pessoas de boa fé.

Os crentes, por sua vez, têm muitas razões para crerem que os ateus não se dizem ateus só para os importunarem e porem à prova a sua fé, ou seja, os crentes têm razões para pensarem que os ateus o são de boa fé.

Agora, a questão é a seguinte: faz sentido que haja um ateu de má fé?


sábado, 13 de março de 2021

Bitolas, o papa e o sacristão

Novo ou velho não é nenhum certificado de valor, ou mérito, ou garantia de ser melhor, é apenas de ordem cronológica. Nem sequer é, penso eu, de ordem biológica. Os nossos esquemas mentais de classificação e ordenamento de tudo, seja no espaço, seja no tempo, seja na balança, seja na lógica, seja na causa, seja no efeito, seja na dor, seja no prazer, seja na memória, seja no esquecimento, seja no ganho, seja na perda, seja na verdade, seja na mentira, na fraqueza ou na virtude, no menos e no mais, no pequeno, ou no grande, no bom ou no mau, no bonito ou no feio, etc., conduzem-nos a avaliar tudo e mais alguma coisa tomando sempre qualquer bitola, ainda que seja a nossa bitola, em função seja do que for. Se assim é, parece que tem de ser. Mas não.

O grande mérito da ciência, que é um grande paradoxo, está em, ao tentar conhecer o ser, o que é, o que tem-de-ser, por força da objectividade e do rigor, descobrir que o ter-de-ser é um conjunto de possibilidades daquilo que é.

Enquanto a religião e os sistemas morais e éticos, já para não falar em político-militares e económicos, de subjugação do indivíduo, coarctando a sua vontade e os seus interesses, ainda, alegadamente, em nome do seu interesse, indivíduo que, na retórica da publicidade, é rei, mas sem que tenha uma palavra a dizer, desde que nasceu, ditam, sem pejo e sem respeito pelo indefeso indivíduo, numa tábua de deveres tão ampla e tão violentadora do ser, as leis, não naturais, do que eles devem ser, em nome de deuses ou divindades que antecipam, por revelação misericordiosa, a resposta que não precisa de ser questionada, nem procurada, sem contemplação do que eles são ou sejam, ou possam ser.

O verdadeiro problema do humano não são tanto as bitolas, mas quem as estabelece e quem não está sujeito a elas.

Aceitaríamos as leis mais duras, se todos, e em primeiro lugar quem as dita, estivessem sujeitos a elas. Não aceitaremos nem as leis mais sofríveis, se quem as dita não estiver igualmente obrigado por elas. Podemos por a tónica nos direitos ou nos deveres, tanto faz.

Supostamente, não conseguimos viver sem elas. Mas há quem viva.

Elas tornaram-se mais importantes do que nós. Mas não para nós. Nós não somos nada, as bitolas são tudo. Sobretudo no dia em que só vai haver bitolas.

A explicação da música vai estar em registos, assim como toda a explicação do universo, que até já pode existir, mas enquanto não passar pela minha cabeça, é como se não existisse, para mim.

Nenhuma ciência, filosofia, ou música, religião ou discurso poderão, todavia, abrir uma simples caixa de sapatos, ou limpar as lentes de uns óculos embaciados. Nem todo o saber do mundo o poderá fazer. Até o papa, que lê os evangelhos, precisa de um sacristão que lhe abra o livro. E o sacristão, provavelmente, não achará interesse em saber lê-lo.

 

segunda-feira, 8 de março de 2021

As coisas e os números

Enquanto escrevo sobre realidade e conhecimento, volto a pensar no Hilário, que disse ao seu amigo:
- O uno é o todo, que nós desconhecemos.
E o amigo acrescentou:
- No entanto, a unidade(=1) é composta de um número infinito de partes.
Hilário: cada parte, cada fracção da unidade é, por sua vez, uma unidade.
O amigo: o todo é constituído pelas partes, do mesmo jeito que a unidade é o somatório, ou o conjunto, o total das unidades.
Hilário: unidades entendidas como 1+1+1..., de tal modo que, por exemplo, 1/2= 1+1=2.
O amigo: dividida em duas partes a unidade passa a ser duas unidades.
Hilário: boa! Deste-me uma ideia: se dividir um euro em dois, posso ficar com um e dar-te o outro.
O amigo: mas não consegues dividir um euro em dois, como não consegues dividir uma maçã em duas, ou outra coisa qualquer.
Hilário: pois não, só se consegue isso com os números.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Um país sabotado

Entre as preocupações e frustrações, neste país, uma das maiores é ser um país ao contrário. Não é um país para viabilizar e facilitar e ajudar o cidadão.

É um país para derrotar, diminuir e anular o trabalhador crédulo e confiante de boa fé.

É ser uma plataforma de sabotadores.

É uma engrenagem em que se entra grande e se sai pequeno. Em que se entra optimista e se sai aniquilado.

Isto aprende-se, desde muito cedo. Só há lugar para os melhores, mas, no fim, não há lugar para ninguém. É muito preocupante a nossa cultura de sabotagem e de sabotadores. É no que dá a aprendizagem, até pela experiência diária, de que toda a gente anda a sabotar o trabalho de toda a gente.

Nós não somos um país adiado, somos um país sabotado.

E quando esta cultura se instala, não está tudo perdido, mas estamos perdidos. A parte interessante e positiva é que não está tudo perdido.

Quem mais e melhor sabota, mais e melhor faz. Não é o salve-se quem puder, é o sabote quem puder.

Nem precisava de referir a escola superior da política.

Mas, o que tem sido a política senão a sabotagem mais concertada e mais imbatível dos sonhos e das aspirações e do trabalho de quem acredita na solidariedade e na justiça, enfim, no amanhã?

Ao serviço de quem têm estado os nossos partidos e os nossos governantes, sob a capa da impunidade? Que miserável visão nos proporcionam os governantes!

Muitos dirão que é tudo uma questão na perspectiva do lado de que se está.

domingo, 21 de fevereiro de 2021

Banqueiros e cumplicidade de políticos

Os banqueiros e os políticos cúmplices são a fórmula imbatível e inexpugnável para quebrar a espinha dorsal de uma sociedade crédula e confiante.  

É o pior que se pode fazer, tudo por ganância e por desprezo total dos mais elementares valores, códigos de honra e ética social, para não falar em Códigos Civis e Penais.  

A educação para a cidadania e para a literacia financeira devem deter-se pacientemente nestas realidades, muito tristes, é certo, mas incontornáveis.  

E estamos a falar muito vagamente, de um mundo que gere as poupanças dos outros, praticamente sem controlo, e que, tantas vezes, promove investimentos em que, fraudulentamente, as perdas de uns são uma das faces da moeda dos grandes ganhos de outros. 

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

A arte não tem outro modo de ser senão ela própria

A arte não tem outro modo de ser senão ela própria. 
A um «objecto» de arte, seja poema, pintura, escultura, música, não se pode exigir nada. 
Não se pode exigir que esteja "bem escrita", "bem pintada", etc.. 
Em tempos, numa conversa de passagem pelo corredor da escola, disse a um professor de português, a propósito não sei de quê, que um poema, um conto, um romance, por mais erros de ortografia, e outros, que tenha, não pode ser considerado mal escrito. 
Ele ficou a olhar para mim sem perceber que eu estava a falar a sério e riu-se. 
O artista não está vinculado a nada. 
O autor de uma tese está vinculado a imensas coisas, não pode escrever o que lhe der na veneta. O executante de uma partitura e o professor de português, também. 
Só o artista não. 
Nem sequer está vinculado a fazer arte. 

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

A sabedoria não cai do céu


A sabedoria não cai do céu.  

A crença religiosa segundo a qual, no princípio, o homem não precisava de sabedoria, mas que passou a precisar a partir do momento em que cometeu o erro/pecado de querer saber, tem muito significado. E, se corresponde a alguma realidade, não corresponde à narração, por exemplo, do Genesis, na Bíblia. A lógica de que só a partir da interrogação se pode precisar de saber responder e que, do reconhecimento do erro da resposta, se pode precisar de responder de novo, talvez melhor, ainda que não garantido, pode dar lugar a inúmeras narrativas diferentes, com ou sem deuses, mais ou menos fantasiosas, mais ou menos fascinantes e encantadoras. Não deixam, porém, de ser ficções construídas para tentar dar verosimilhança a uma ideia acerca de factos desconhecidos, por mais que se pretenda que sejam aceites como verdadeiros. 

A crença religiosa, não se limitando ao facto de o homem ter de resolver os seus problemas, atribui significações religiosas e implicações morais à sua situação e à sua condição de dependência e de risco, onerando-o com toda a responsabilidade pelos males a que está sujeito e cobrando dele todo e qualquer benefício de estar vivo, por ser inteiramente devido à contemplação e misericórdia de Deus.  

Se algo corre mal, é falta de sabedoria, culpa sua. Se algo corre bem, é como soía, e os méritos são de Deus. Para evitar os males e ter esperança, mas nunca a certeza de que algo corra menos mal, ou corra bem, deverá o homem empenhar-se de alma e coração e inteligência, com a única certeza de que as vantagens não são conquistadas, mas sim providenciadas. 

Então, a sabedoria só podia significar viver na confiança e na fé da providência em observância dos mandamentos da religião. E esta sabedoria tornava-se tanto mais concreta (e verdadeira, no sentido de experimentada), quanto mais era institucional, imperativa e sancionada. 


domingo, 31 de janeiro de 2021

Quem quer ser sábio? VI


A resposta à questão da Sabedoria não é geral e abstracta, nem consensual, nem apenas concreta e é sempre a resposta possível. A resposta possível, não sendo a ideal, é boa, contanto que, como diz o ditado, o óptimo seja inimigo do bom. 

As culturas vão corporizando e instituindo como valores aquilo que a experiência e o saber permitiram concluir que são boas soluções. Daí o dizer-se, correntemente, que as culturas são expressão de sabedoria.  

Quer do ponto de vista individual, quer do ponto de vista das organizações e das instituições sociais, são constantes a indagação e a discussão e as decisões sobre o que, num determinado momento, para um determinado problema, é a melhor resposta. Por exemplo, a melhor resposta da religião pode não ser aceite pela filosofia e vice-versa, ou pelo positivismo, ou pela ciência. E a melhor resposta para mim, pode não coincidir com a da ordem instituída.  

A Sabedoria está sempre a ser construída e reconstruída, num processo inevitável de renovação vital. Neste ponto, o que tem de ser tem muita força e não há como fugir ou impedir que se cumpra a Sabedoria. Ela é a condição humana.  

Nem a Sabedoria nos abandona, porque não existe. Nem nós a abandonamos, porque não a temos.  

Mas, então, o que é que nos faz ter noção de Sabedoria se não a temos e se ela não existe, pelo menos nos moldes do que habitualmente designamos como existente? 

E por que ousamos dizer que o conhecimento mais difícil de alcançar, mas essencial para a nossa relação com os outros, com o mundo, é o conhecimento de si mesmo? 

Que noção temos de “conhece-te a ti mesmo” e que grau de conhecimento de si mesmo alguém, reconhecidamente, revelou, que nos autorize a preconizar o conhecimento de si mesmo? De qualquer modo, isso não é mais do que um conselho, ou preceito, que nada nos diz sobre como realizar essa tarefa, alegadamente, "tão superior". 

Um dos pontos fracos de todo o sistema normativo é prescrever a conduta (por acção ou omissão) e nada dizer sobre como fazer, quais os procedimentos que permitem cumprir. 

Outro ponto fraco é dar de barato o problema de que, para além de saber como, ainda falta fazer, ou seja, é necessário que uma pessoa admita e reconheça a importância e a possibilidade de se conhecer a si mesma, tenha a noção do que é preciso fazer e a possibilidade concreta de o conseguir e, finalmente, que o faça. 

Ora, a única coisa, que lemos e ouvimos sempre, é “conhece-te a ti mesmo”. Os outros pontos que assinalei parece que ficaram suspensos há séculos, como se não tivessem tanta ou mais importância.  

O triunfo da ciência não tem sido conseguido na investigação dos problemas e na confirmação, concretização das hipóteses? 

Quando se trata, por ex., do que se deve ensinar hoje nas escolas, é frequente dizer-se que, em vez de memorização de informação, se invista no pensamento crítico, que se ensinem as crianças e os jovens a pensarem pela sua cabeça, que a aprendizagem deve prepará-los para a mudança constante e para o stress que isso causa, etc..  

Mas isto toda a gente sabe. 

O que talvez ninguém saiba, e era preciso que dissessem, é como é que as crianças, os jovens e os adultos reconhecem a importância disso, como é que, alunos e professores, poderão operacionalizar isso e, finalmente, fazer, realizar isso.  

De certa forma, se Sabedoria significa conhecer a realidade, conhecer-se a si mesmo, identificar o erro e não agir contra a realidade, nem contra si mesmo, corrigir o erro, ou seja, adaptar-se à mudança, é importante que se torne isso. 

Ainda que, aqui, tenhamos mais questões: como vamos preparar-nos para uma mudança que não sabemos qual vai ser? E a adaptação à mudança o que é que significa? Se não me adaptar à mudança, isso não significa que me adaptei ao meu modo? Ou significa que não mudo, ou que mudo num sentido que, supostamente, não me é vantajoso? E os que se adaptarem à mudança, mudam por quererem, por lhes ser supostamente vantajoso? 

 

Teremos a Sabedoria de que formos capazes, porque não há outra.  

Carcomida a bengala de Deus e levados nas asas da inteligência artificial, sabedoria será a melhor resposta aos problemas da sobrevivência.