sexta-feira, 13 de junho de 2014
Vida
O esquecimento foi-se apoderando
Da vida como um rosto bom
Que a tornava mais leve
E mais tranquila
Como uma água que lava as mãos
Ou uma nuvem que protege do sol
Dia após dia ano após ano
Desligou-me de muitas coisas
Enquanto me ligava a outras
Foi-me tornando diferente
Em parte com o meu consentimento
Foi-me despojando de uma narrativa
Que era uma sucessão de partidas
Com abandonos e despedidas
Algumas por minha vontade
Outras sem nada poder fazer
Sempre preso por algum dever
E muito por necessidade
Andei de terra em terra
A esquecer
E a matar saudades
De outro tanto
Que o esquecimento não varreu
E que o passar dos anos avivou
Dando à minha vida
Algum encanto
Até aos momentos mais caóticos
Algum sentido
Que parecia não ter
Esqueci e fui esquecido
Num percurso em que
Muitas vezes não estive acompanhado
Imaginei o bom que é amar
E ser amado
Desejei imensas coisas
Que não tive
E temi muitas outras
Que não aconteceram
Amei com ímpetos de mar
Rompendo diques
Movendo montanhas
Com fervor
Esqueci os ódios
Mas não esqueci o amor.
domingo, 8 de junho de 2014
Arcaz do adro
Se deparares com o arcaz granítico do adro
Sem decoração nos laterais mas com epígrafe
Numa das quatro águas da tampa lisa hexagonal
E abrires as gavetas pesadas do pensamento
Ao espaço profundamente sombrio
De quinhentos ou mais invernos de vazio
E aí encontrares sentimentais estranhezas
Resguardadas de olhares superficiais
Pedras manuscritas por pedreiros profetas
Com delicadezas de cartas de amor
A tantas Ineses como a do Pedro Justiceiro
Rainhas do amor
Mortas primeiro...
Isso é um sarcófago.
sexta-feira, 6 de junho de 2014
A ampulheta e o burro
Asinino tem coisas mirabolantes
De deixar o diabo sem esperança
De o fazer chegar aonde ele quer
Asinino não se faz desentendido
Ele não entende porque não quer
Mas deixa-se fascinar
Da forma mais imprevisível
E sem perceber
Anula todos os efeitos
Do que observa
Deixando o diabo a pensar
«Que é que o faz então observar?»
O diabo não tira o olho da ampulheta
E espera que a areia acabe numa âmbula
Para a virar ao contrário
E assim continuar a confirmar
A sua crença na medição do tempo
Asinino vê a areia a passar
E não espera nada
Fica a olhar
Quando a areia acaba
É ele que se vira ao contrário
E como a areia continua parada
Pára o calendário.
segunda-feira, 2 de junho de 2014
Dá-se o caso
Pequeno almoço com janelas
Para um quadro
Com milhares de anos
É assim que pensas
É assim que dizes
O momento
A mulher ao lado
Está doente
E o homem ao fundo
Está a escrever no guardanapo
Para o outro mundo
Já se faz tarde
E temos pela frente
Um dia para visitar museus
Dormimos pouco
Mas estou contente
Tu fazes-me sentir vivo
Num mundo de memórias
De imensas coisas mortas
Fazes-me sonhar
E não devia ficar triste…
Carlos Ricardo Soares
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