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quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Ler e Escrever

Ler, quando não é obrigatório, é uma actividade cheia de implicações e de significados. O que me leva a ler, não qualquer coisa, mas o que leio, pode ter as respostas mais surpreendentes sobre quem eu sou através do que sei, penso, desejo, quero.
Este conhecimento pode (ou não) interessar a mais ninguém, nem à polícia, nem aos vendilhões, nem aos crocodilos, mas pode ser de suma importância para mim. Se eu reflectir sobre isto, só tenho a ganhar (dinheiro não é tudo).

Escrever...Ah, escrever, "falar sem ser interrompido". 
Explorar, sem limites senão os próprios, tudo e mais alguma coisa, ser deus...
O maior desafio intelectual, político, ético, social...
Sentir-se desafiado, mas não como o touro, que "estupidamente" se deixa cegar pela cor, sendo toureado e farpado até à exaustão, para depois ser assassinado na arena com um gesto de desprezo do matador, cobarde, mas que simboliza o gozo humano em sacrificar...
A vida é feita de sacrifícios (ao sagrado). Não há outra possibilidade. Escolher, a todo o momento, é sacrificar. Não se pode ter tudo...
Escrever é sacrificar imensas coisas, imenso tempo, imenso...Escrever é sacrificar para não ser sacrificado e, só por isso, vale todo o sacrifício.

Não no sentido de "sacrifica-te e ficas desonerado", como quando vais ao psiquiatra, ou à farmácia, ou à igreja, ou à caixa das esmolas... e largas o dinheiro ao santo em que acreditas...Ou fazes aquela viagem obrigatória... ao santuário...Como se o preço te desonerasse de tudo o mais, como se tudo fosse uma questão de preço (sacrifício) a pagar...

Mas no sentido de teres de escolher (gastar o dinheiro/tempo que tens) entre uma coisa e outra, quando ambas são importantes para ti, mas só podes comprar/ter uma delas. E teres de escolher sem teres qualquer certeza ou garantia de essa ser a melhor.

domingo, 21 de julho de 2019

Artes e Ciências


As diversas disciplinas têm uma linguagem que pode distingui-las, até certo ponto, mas todas têm em comum o serem sistemas de observação, análise, investigação, estudo e reflexão sobre determinados "objectos de estudo", com objetivos de "conhecimento".
A linguagem de cada uma delas, normalmente, já constitui um repositório decantado de conceitos e de noções que corporizam alguma forma de conhecimento. 
Assim, por exemplo, quando estudamos literatura, ou teoria da literatura, ou história da literatura, filosofia ou história da filosofia, estudamos conhecimentos corporizados em torno de obras literárias, de obras filosóficas, ou de problemas filosóficos, mas grande parte desses conhecimentos são teóricos, são teorias sobre...as obras, as ideias, os processos, os conteúdos e a forma, a contextualização, os significados, os impactos.
Outra coisa são as obras objeto de estudo. 
Ao falar da literatura, da filosofia, da história, das artes, posso fazê-lo com o mesmo rigor e exatidão com que falo do peso da lua, do volume da água do mar, da velocidade da luz, etc..
Embora este tipo de conhecimento não nos ensine a pesar a lua, nem quanta água há no mar, nem nos prepare para usar a eletricidade como força motriz, ou a perceber a velocidade da luz, ou por que razão a velocidade de um corpo não pode ultrapassar a velocidade da luz...não deixa de ser a linguagem da(s) ciência(s).
O cientista, supondo que mantém sempre a mesma preocupação e responsabilidade científica, não fala com mais rigor científico, quando fala sobre a teoria da relatividade geral de Einstein, do que quando fala sobre a autoria e o conteúdo dos Lusíadas, ou sobre a Lógica de Aristóteles, ou sobre a batalha de S. Mamede.
O rigor ou a falta de rigor não tem a ver com o rigor e o mérito científico das disciplinas propriamente ditas, mas com o rigor e o mérito científico de quem fala delas.
Neste plano, poder-se-ia dizer que todas as ciências são exactas, senão não seriam ciências, embora possamos talvez distinguir entre juízos científicos, sobre realidades (as realidades não são exactas) e "juízos" conclusões de lógica pura e abstracta, cuja referência à realidade é de ordem matemática.
A divisão entre ciências não pode ter o significado de umas serem mais ciências do que outras.
Se um cientista da área da Física acha que não deve ouvir um cientista da área da botânica, porque este não lhe merece respeito científico ou um cientista da área da história despreza um especialista de Direito Fiscal, por este não ser das ciências exactas, aí já estamos a falar de uma divisão de ordem diferente, que tem a ver com estatutos sócio-económicos-académicos das várias ciências.
De qualquer modo, as diferenças entre um cientista e um matemático e um artista, um romancista, um pintor, um poeta, no que respeita aos respetivos objectos, problemas, de trabalho, ou "estudo", elaboração, incluindo as respectivas linguagens, objectivos(resultados) e finalidades, são muitas e são notáveis.
Aqui, talvez seja comum encontrar pessoas que se ignoram umas às outras, simplesmente, porque não estão interessadas no que os outros fazem, ou porque não conseguem dedicar-se a muitas coisas ao mesmo tempo, ou porque não sabem, etc..

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Macacadas

Olhando sem deslumbramento, nem comodismo, nem paixão, para o mundo que nos rodeia e invade, sem dar tréguas, vejo macacos a fazerem macacadas, com o ar mais sério deste mundo, de colares no pescoço e penteados fabulosos emoldurando um rosto, tantas vezes velho e sisudo, para não dizer carrancudo, que não abdica da sua proeminência sobre os outros macacos, ainda que se queixem de tudo.
Não tratemos dos humanos como se fossem macacos e nós não.

Carlos Ricardo Soares