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sábado, 26 de janeiro de 2019

Valores e escolhas


Haveria considerações e reparos a fazer, por exemplo, à redução dos valores a gostos, ou que os valores estão fora do domínio do conhecimento, mas o que mais me suscita interesse é que a questão dos valores é a questão do Direito, da justiça e da sabedoria, ou mais simplesmente, do critério, da escolha, da ciência das escolhas (como alguém define a economia), da responsabilidade, da liberdade... 
Na realidade, desde o átomo à galáxia, tudo, incluindo o conhecimento (e o conhecimento científico), vale ou não vale, de acordo com algum critério de valor. 
A questão do valor intrínseco é resolvida pelos crentes num Deus que ditou a tábua de valores absolutos. Os não crentes, ou, pelo menos, os que não têm outras referências religiosas, morais ou éticas, sendo eles próprios como que o centro de todas as referências valorativas, o Eu sem o qual nada vale, tenderão a gerir os valores como uma espécie de "mercado" mais ou menos perspetivado para o curto, médio ou longo prazo mas, indissociavelmente, de uma racionalidade utilitarista tendo o "big bang" como pano de fundo e a morte como fim. 
De qualquer modo, quando falamos em valores, quando consideramos, por exemplo, que a ciência é um valor, não estamos a falar de gostos ou preferências, ou vícios, mesmo que haja pessoas viciadas em ciência, como poderá haver pessoas viciadas em virtude. 
Do que estamos a falar é de algo que, no quadro das realidades que contam "propter nos homines et propter nostram salutem", todos têm facilidade em argumentar a favor e ninguém consegue (com sucesso) argumentar contra.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

A literatura é uma arte

A literatura é uma arte, cujo limite é a imaginação e a inteligência e o conhecimento, o engenho, a loucura, de expressar por palavras o humano, o científico e o aberrante, o natural, a natureza, não apenas segundo os cânones científicos da ordem, de que seria, aliás, uma cópia ou reprodução, mas no que essa natureza, supostamente ou apenas por hipótese, "representa" para o escritor, ou este quer representar, porque sim.
Aqui, no escritor, no indivíduo, reside o factor chave, o interesse, o valor, a originalidade, a instauração de uma realidade, não de uma realidade científica da natureza física, mas de uma realidade humanamente significativa, o estado crítico (mais avançado?) da matéria.
A ciência é tão afim da literatura como outra coisa qualquer, como uma pedra ou o sol, ou um rio. A literatura é tão afim da ciência como a vontade ou o desejo de dar expressão a problemas e significados e respostas, ainda que não sejam soluções de nada.
Muitas vezes as soluções vêm com a técnica.
A literatura, não obstante, é a única forma de conhecimento de realidades sociais e humanas que a ciência sabe ou presume existirem, mas que não tem outra forma de conhecer.
A literatura é e será um grande desafio à observação, compreensão e conhecimento das realidades sociais e humanas, tanto mais quanto mais sabemos que, enquanto o conhecimento da natureza é instrumental, o conhecimento das realidades sociais e humanas é incontornável e "existencial".
Se bem que ambas, ciência e literatura, tenham a aptidão para o conhecimento (e o conhecimento não é sempre conhecimento de realidades?) a literatura não se define nem tem como função ou objetivo ou estatuto conhecer seja o que for.
A literatura, enquanto “obra de” arte, não está sujeita a critérios de verdade, de racionalidade, de interesse, de correção, de certo ou errado. Um texto literário não tem de estar certo, nem errado. Nem é bem ou mal escrito, ainda que esteja cheio de erros ortográficos. 
A literatura tem como objetivo ser conhecida, como outra coisa qualquer.
A relação entre a literatura e a ciência parece, assim, fácil de estabelecer.
A ciência, para a literatura é como outra coisa qualquer e vice-versa, mas enquanto a ciência se pauta por critérios de cientificidade e é isso que a caracteriza, a literatura não se caracteriza por obedecer a coisa alguma.

sábado, 15 de dezembro de 2018

A religião é a grande esponja


É interessante a ideia de que a ciência, o método científico, são um sistema de prevenção e de correção de erros e, tanto ou mais do que isso, de exploração do mundo, a partir da imaginação e do conhecimento estabelecido. 
Fica-se com a ilusão de que a ciência é o próprio mundo e não apenas o conhecimento de uma faceta do mundo. E, no entanto, a ciência é apenas um ingrediente muito novo, recém-nascido, nesse mundo.
A ciência deslumbra por ser ela mesma expressão daquilo que, a todo o custo, quer expressar.
Já quanto a existirem “várias actividades humanas além da ciência, por exemplo, a arte, a religião ou a ética", diria que temos um problema clássico de ordenação e classificação inerentes à condição humana de analisar, dividir, separar e juntar de novo com fronteiras, para não esquecer diferenças... Em toda a feitura humana existe algum tipo de preocupação/razão/objetivo/preferência/capricho ...estético.  
Qualquer objeto, desde um sapato à roda de uma carroça de brincar, até os mamarrachos, parecem obedecer a um qualquer gosto ou pretensão estética. A produção de objetos, de obras, de artefactos, não é alheia a algum tipo de racionalidade. 
A valoração envolvida na arte, tantas vezes coincidente com a religião e o sentimento ético do artista, sofre, não raro, com a "desilusão" demolidora introduzida pela ciência. 
Quando as artes são uma forma de reforçar a "crença" ou o gosto que se tem, a ciência pode surgir como desmancha prazeres.
Estando a arte associada ao prazer, muitas vezes resta o prazer de apreciar somente a arte e não o "conteúdo".
Relativamente à religião, ela apresenta-se como algo totalitário, que não dá meças, nem à ciência, nem à arte, nem às outras religiões.
A religião é a grande esponja.
Não concordo que a ciência se deva submeter à ética.
À ética só devem submeter-se os comportamentos, as condutas humanas.
A ciência, como se verifica em manuais da especialidade, é eticamente neutra. Não se diz "deve ser" eticamente neutra. Ser ciência ou não nada tem de ético.