Tinha mudado de ideias. Precisava de rever os planos com calma. Paguei ao taxista. Não iria com o Às para as Várzeas. Estava a escurecer. Um tempo abafado de trovão. O ar começava a agitar a copa das árvores. O amarelo do sol no verde das plantas provocava um efeito de miragem e de estranha sede. Para dizer a verdade, havia mais insectos e aves no ar do que o normal. Daí a pouco poderia começar a trovejar. O meu cão estava irrequieto e desconcentrado. Trocava os latidos pelos uivos, mas parecia assustar-se com o próprio uivo.
- Sossega Às, sossega. Já percebi que se aproxima a borrasca.
Abri a mala do carro, ajudei-o a saltar para não se magoar e fomos a pé para casa, não mais de cem metros adiante. O Às precedeu-me com uma grande corrida. Fez o reconhecimento do terreno e voltou para junto de mim, tranquilizando-me de que o caminho estava livre de perigos.
O momento de regressar a casa, até há cerca de dois anos, era muito ansiado, mas desde então tem sido muito deprimente. Custa-me sempre imenso regressar. Já não tenho ninguém à espera, e temo que algum bandido ou ladrão se introduza lá dentro para me assaltar. Lúcia, minha mulher e Bertílio, nosso filho de três anos, pereceram tragicamente quando o avião em que seguiam, para visitar os meus sogros em Grenoble, explodiu. Os avós e o neto não chegaram a conhecer-se pessoalmente. Só por fotografias. A viagem foi precedida de grande entusiasmo e os avós tinham-lhes preparado uma recepção muito especial. As suspeitas de acto terrorista foram confirmadas. No inquérito, concluiu-se que a queda foi provocada pela explosão de um engenho a bordo. Às vezes penso que teria sido melhor se os tivesse acompanhado. Mas não pude, por motivos profissionais inadiáveis. Acabei por não poder fazer o trabalho na mesma, de tal modo fui atingido pela infelicidade da sua perda. Nesse mesmo ano, faleceram também, primeiro a minha mãe, de enfarte do miocárdio e, um mês depois, o meu pai de doença prolongada.
Dei duas voltas à chave e abri a porta para o Às entrar. Se tivesse farejado algo estranho já tinha dado sinal. Entrou normalmente, sem hesitações. Eu segui-o. Carreguei no interruptor, mas não havia luz.
Nesse momento tocou o telemóvel. Respondi:
- Sim, o próprio.
- Somos da PSP. O senhor está bem? Está em segurança?
- Estou.
- Onde está?
- Vão-me desculpar mas, neste momento, acho mais seguro não o dizer por telefone.
- Localizámos uma viatura que está registada em seu nome.
- Onde?
- Sobre a ponte Nova, em Fragoso. Porque é que deixou o carro aqui? Está perto?
- Não, estou bastante longe e não deixei o carro aí. Roubaram-mo hoje, ao início da tarde.
- Como? Vai ter que explicar. Vamos elaborar um auto e remover a viatura.
- Se são da PSP sabem como devem proceder, mas considerem a conveniência de recolher o máximo de indícios possíveis sobre o facto de a viatura ter sido abandonada nesse local depois de ter sido furtada.
- É o que estamos a fazer. É tudo muito estranho. Porque é que não apresentou queixa?
- Não tive tempo.
- Reze para que não apareça ninguém morto no rio.
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
O livro de todo o conhecimento (VII)
Apeteceu-me dizer ao taxista para me deixar ali mesmo. Afinal, desde que vi Teresa a partir no táxi até ao susto de ver o taxista inanimado sobre o volante, nunca deixei de pensar no desaparecimento do meu carro e, na verdade, imensas outras interrogações me passaram pela mente. Até que ponto o meu fascínio por Teresa estava a toldar-me o raciocínio? Não estaria a levar demasiado longe os meus deveres profissionais ao propor-me acompanhá-la e protegê-la sem ser solicitado, baseando-me tão só na minha suposição de que ela corria perigo? Concretamente, o que é que eu sabia e como o soube? Tudo o que sabia me tinha sido carreado pela própria queixosa, Teresa, que nunca me consultara a sós e que, por estar incapacitada de se deslocar ao meu escritório, pediu que me deslocasse à sua residência. Aí, sempre acompanhada da enfermeira Cândida, foi-me narrando alguns factos. Tive sempre em especial consideração o pormenor, eventualmente não despiciendo, de nem todos os factos me terem sido narrados pela própria Teresa, uma vez que a enfermeira, obviamente com o assentimento daquela, me transmitiu boa parte deles. À primeira vista, tê-lo-á feito por me conhecer melhor do que Teresa e por esta lhe ter confiado o que aconteceu. Mas, agora, de repente, assaltou-me a dúvida. E o que eu sei resume-se, afinal, ao seguinte: Teresa foi atirada do terceiro andar, pelo marido, enquanto dormia. Teresa tem fortes suspeitas de que o marido esteja ligado ao mundo do crime e que pretendesse matá-la para herdar uma pequena fortuna e para ver-se livre de uma testemunha fulcral das suas actividades ilícitas, nomeadamente contra a Fazenda Nacional. Por outro lado, Teresa quase apostava que o marido e a empregada doméstica, a bela Ausenda, tinham uma parceria de cujos contornos imaginava o pior. De todas estas ocorrências/denúncias eu tinha tomado devida nota no bloco de apontamentos de que me fiz acompanhar para o efeito, na tarde chuvosa em que me desloquei a casa de Teresa. À noite, desse mesmo dia, tinha-me esquecido de desligar o telemóvel e, a meio de um filme de sexo e violência, na televisão, que me preparava para desligar, porque precisava urgentemente de escrever um poema, Cândida ligou-me.
- Boa noite! Peço desculpa se incomodo, Dr..
- Boa noite, Cândida! Esteja à vontade, mas fico preocupado…
- Depois do Dr. sair estive a falar com a Drª Teresa e só então nos lembramos de que há muita coisa delicada, digamos até, escabrosa, que temos de lhe contar.
- Sim. Tipo?
- Maus tratos, violações, masoquismo, aberrações sexuais…
- Boa noite! Peço desculpa se incomodo, Dr..
- Boa noite, Cândida! Esteja à vontade, mas fico preocupado…
- Depois do Dr. sair estive a falar com a Drª Teresa e só então nos lembramos de que há muita coisa delicada, digamos até, escabrosa, que temos de lhe contar.
- Sim. Tipo?
- Maus tratos, violações, masoquismo, aberrações sexuais…
sábado, 7 de novembro de 2009
O livro de todo o conhecimento (VI)
O taxista olhava-me incrédulo, sem responder. O que se passaria na cabeça dele? É evidente que eu não entraria num táxi que transportasse cães, como não me sentaria num sofá que tivesse sido usado por um cão, ou gato. E não era só pelo cheiro. Era pelo nojo. Estaria ele a ler-me o pensamento? Acredito que já me sentei em sofás e me deitei em lençóis por onde passaram bichos talvez até pestilentos. Se fosse a pensar no assunto a vida complicar-se-ia demasiado, sem necessidade. Há outras coisas em que pensar.
- Não, não transporto cães. É proibido.
- Então leve-me à Colina Verde, se faz favor.
Foram dez minutos de viagem relaxante junto à margem do rio Tâmega. Ao sair da primeira rotunda, a cem metros de minha casa, o táxi parou, em plena faixa de rodagem, sem deixar espaço para a circulação do trânsito. Eu ia no banco traseiro a olhar pela janela. Num magnífico espelho de água rebrilhava um sol intenso. Não estava à espera desta inopinada paragem. Olhei para o taxista e vi que ele tinha a cabeça pousada no volante e parecia-me inerte, morto. Naquele ponto a estrada era plana e a viatura, apesar de destravada, estava imóvel. Verifiquei que a caixa de velocidades estava engrenada. Coitado do homem! Que é que lhe aconteceu? Morreu? Lindo serviço. – pensei preocupado.
Saí para pedir ajuda, mas naquele momento não passava ninguém. A minha casa avistava-se dali. Com um assobio, chamei o Ás, o meu cão de guarda. E não só. Discreto, de pêlo curto, preto brilhante, com patas de fogo, corajoso e incorruptível, fiel ao dono, mas treinado para brincar com o inimigo. Pelos latidos, percebi que já me tinha no seu horizonte visual. Senti algum alívio.
O taxista estava a mexer-se e ouvi-o estrebuchar como se tivesse saído de um mergulho para respirar. Acorri, não fosse o homem mergulhar novamente com a cabeça no volante. Tartamudeou qualquer coisa: que estava com tanto sono que não era capaz de conduzir e se lhe levava o carro, de volta ao palácio da justiça.
- Então o transporte do cão está fora de questão? – Insisti.
Ele deteve-se a observar o Ás, que entretanto chegara e se pôs a farejá-lo. E condescendeu:
- Para onde queria levá-lo?
- Fiquei sem o carro. Roubaram-mo hoje mesmo. Preciso urgentemente de levar o meu cão a casa de uma pessoa que vive em Várzeas.
- Não participou à polícia?
- Não tive tempo.
- Consegue meter o cão na mala?
- Concerteza.
- Acha que o cão consegue localizar a viatura, ou o ladrão?
- Não, não transporto cães. É proibido.
- Então leve-me à Colina Verde, se faz favor.
Foram dez minutos de viagem relaxante junto à margem do rio Tâmega. Ao sair da primeira rotunda, a cem metros de minha casa, o táxi parou, em plena faixa de rodagem, sem deixar espaço para a circulação do trânsito. Eu ia no banco traseiro a olhar pela janela. Num magnífico espelho de água rebrilhava um sol intenso. Não estava à espera desta inopinada paragem. Olhei para o taxista e vi que ele tinha a cabeça pousada no volante e parecia-me inerte, morto. Naquele ponto a estrada era plana e a viatura, apesar de destravada, estava imóvel. Verifiquei que a caixa de velocidades estava engrenada. Coitado do homem! Que é que lhe aconteceu? Morreu? Lindo serviço. – pensei preocupado.
Saí para pedir ajuda, mas naquele momento não passava ninguém. A minha casa avistava-se dali. Com um assobio, chamei o Ás, o meu cão de guarda. E não só. Discreto, de pêlo curto, preto brilhante, com patas de fogo, corajoso e incorruptível, fiel ao dono, mas treinado para brincar com o inimigo. Pelos latidos, percebi que já me tinha no seu horizonte visual. Senti algum alívio.
O taxista estava a mexer-se e ouvi-o estrebuchar como se tivesse saído de um mergulho para respirar. Acorri, não fosse o homem mergulhar novamente com a cabeça no volante. Tartamudeou qualquer coisa: que estava com tanto sono que não era capaz de conduzir e se lhe levava o carro, de volta ao palácio da justiça.
- Então o transporte do cão está fora de questão? – Insisti.
Ele deteve-se a observar o Ás, que entretanto chegara e se pôs a farejá-lo. E condescendeu:
- Para onde queria levá-lo?
- Fiquei sem o carro. Roubaram-mo hoje mesmo. Preciso urgentemente de levar o meu cão a casa de uma pessoa que vive em Várzeas.
- Não participou à polícia?
- Não tive tempo.
- Consegue meter o cão na mala?
- Concerteza.
- Acha que o cão consegue localizar a viatura, ou o ladrão?
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