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sábado, 11 de fevereiro de 2023

Luta por um direito

Quantos se dão conta dos orgulhos e dos preconceitos que tolhem os nossos juízos e nos condicionam imenso no processo de observação, compreensão, de seleção de alvos e de análise crítica, mormente no que respeita a autores, pensadores, comentadores e atores sociais, em geral, para não dizer político-partidários e militantes partidários, em particular?
Quantos se dão conta da falta de formação e de instrução e de leitura inteligente e discutida, numa abrangência suficientemente plural e geral (universal de universidade), sem cedências a monolitismos, presunções, água benta e caprichos individuais, que deita a perder a visão para além do próprio nariz, ou do autodidatismo, por maior que seja?
Quantos militantes, por ex., comunistas, se dispõem a ler e a interpretar, sem ser através das lentes da sua perspetiva ideológica e do seu preconceito político-social, com base numa cassete, ou catecismo, simplificador e demolidor, mais ou menos adotado e intelectualmente assimilado, algum autor que não esteja catalogado “pelo partido” numa preconcebida matriz ideológica?
Quantos militantes, por ex., católicos, se dispõem a ler e a interpretar, sem ser através das lentes da sua perspetiva ideológico-religiosa e do seu preconceito político-social, com base numa cassete, ou catecismo, simplificador e demolidor, mais ou menos adotado e intelectualmente assimilado, algum autor que não esteja catalogado “pela igreja” numa preconcebida matriz ideológica, ou “índex”?
Que leitura fazem uns dos outros, se é que se leem uns aos outros?
Que predisposição de “audiência”, leitura, compreensão, interpretação, por ex. haverá num homofóbico para autores, artistas, pensadores, homossexuais? E vice-versa?
Como é que um católico pode ler, por ex., Saramago?
Como é que Saramago poderia ler, por ex., um autor católico?
Que é que, por ex., um deles pode reclamar para si como um estatuto, ou um mérito, ou um valor, que deva ser recusado ao outro?
Que obrigatoriedade, ou conveniência, pode sentir, por ex., um comunista, de ler S. Paulo, ou Stº Agostinho, ou um católico de ler um ateu militante?
O que é que está na base da atenção e do respeito que devemos uns aos outros?
O que é que está na base da atenção e do respeito que temos uns pelos outros?
É muito interessante e edificante quando assistimos a uma manifestação de cultura e de luta e de revolta que reúne muita gente, sem sabermos qual é a sua “identidade”, seja de filiação, ideológica, partidária, religiosa, étnica, nacional, clubística, regional, bairro, musical, gastronómica, seja de género, orientação, preferência, de qualquer ordem, por uma causa comum, por exemplo, de respeito por um direito, ou por uma resposta política.

sábado, 4 de fevereiro de 2023

Aprende-se a agir a pensar e a sentir

Os humanos têm uma desenvolvida aptidão para agirem, reagirem e aprenderem a agir e a reagir; para pensarem e aprenderem a pensar; para sentirem e aprenderem a sentir; para chorarem e aprenderem a chorar e a não chorar; para rirem e aprenderem a rir e a não rir...

Aprende-se a agir, aprende-se a pensar, aprende-se a sentir, mas é necessário ser bem ensinado e ser bem orientado. O contrário, pode ter efeito contrário.

Essa aptidão tem sido aproveitada, inúmeras vezes, de modo abusivo, para treinar e ensinar a ter determinados comportamentos, ou desenvolver trabalhos.

É possível, através da instrução, das letras, dos desafios, da discussão de problemas, levar o ser humano a essa capacidade de colocar problemas e tentar equacionar soluções, desenvolvendo práticas e métodos de análise e de reflexão sistemática.

Aparentemente, cada um sente o que tem de sentir, porque sente e nada mais. Mas quantos dos sentimentos são ensinados e incutidos?

É possível ensinar e treinar, por exemplo, para a tolerância, para o respeito, para o amor e para o ódio.

A função e o papel da Família, da Escola e dos meios de comunicação social, enquanto divulgadores dos atores políticos, religiosos, desportivos, policiais, artísticos, no desenvolvimento e orientação destas aptidões podem ser mais ou menos eficazes consoante o grau de coerência e o nível de satisfação que permitirem, em termos de compensações intrínsecas e extrínsecas, uma vez que toda a ação tem em vista uma satisfação.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

Aprender a agir a pensar e a sentir

Os humanos têm uma desenvolvida aptidão para agirem e aprenderem a agir.
Os humanos têm uma desenvolvida aptidão para pensarem e aprenderem a pensar.
Os humanos têm uma desenvolvida aptidão para sentirem e aprenderem a sentir.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

A talho de foice

Como já escrevi noutros espaços, e aqui a talho de foice, a incompetência dos governantes é tão gritante que corremos o risco de desordem geral e alienada. Talvez isso ainda não tenha acontecido, mercê das estruturas institucionais que, em vez de maldizerem os ventos, fazem velas e as colocam a jeito, para disso beneficiarem.
O que para uns é uma maldição, para outros é uma bênção. O governo não precisa de fazer acrobacias para atingir certos fins, como, por exemplo, desamparar a escola pública. Basta-lhe fazer o que está a fazer para que as escolas privadas vejam aumentar significativamente a procura.
Mas o governo não tem o direito de provocar, seja com a sua ação, seja com a sua inércia, determinados efeitos, contra uma vontade democrática não despicienda e, menos ainda, contra o interesse público e, sobretudo, contra a razão. Uma das posições reiteradamente assumidas, há décadas, pelo Governo, tem sido estrangular as despesas públicas onde isso é menos problemático: na educação.
Fazer greve na Educação parece ser tão vantajoso para os cofres do Estado que até dá a sensação de que as greves são bem-vindas. Os alunos e os pais já perceberam que o Estado tem outras prioridades. Aliás, sempre que é preciso, não digo necessário, fazer austeridade, a receita está à mão e nem é preciso inovar: cortes na educação. A educação, a investigação, a ciência, a cultura, em geral, parece que não lhes são imprescindíveis.
Afinal, até poderíamos dizer que durante séculos se viveu sem a educação que temos e sem alfabetização. Mas a principal razão não é essa, é que aí podem meter a mão à vontade, que não lhes acontece nada (pensam eles, que não têm respeito pela educação, nem a valorizam minimamente).
Onde eu queria chegar, e já me fui desviando para outros planos, era à questão da razão, indissociável da questão do interesse público, mas este, infelizmente para os professores, não é entendido pelos governantes como algo que envolva seriamente a Educação. Este desprezo seria igual a tantas outras formas de desprezo que se ignoram, ou de que se faz vista grossa, se não fosse ultrajante e ofensivo dos genuínos interesses dos professores, alunos e famílias e, por extensão, do interesse público e do país. Basta pensar no caso do congelamento do tempo de serviço para constatarmos a inépcia dos sucessivos “ilusionistas” que têm passado pela pasta da Educação.
Neste momento, em que o descongelamento ainda interessa a alguns profissionais, nomeadamente professores, o descongelamento já não aproveitaria a uma boa parte daqueles que viram a sua progressão suspensa. Por outro lado, o que perderam com o descongelamento, ou o que deixaram de usufruir, mesmo que, agora, lhes fosse contado esse tempo, ficaria irrecuperável, ou seja, a contagem para o futuro não lhes restituiria o que deixaram de receber todos os anos em que estiveram congelados.
De resto, e para não me alongar demasiado sobre um assunto que é muito aborrecido, sobretudo para os professores prejudicados, quando os sucessivos governos, em vez de apresentarem argumentos atendíveis e razoáveis para a sua intransigência generalizada, tentam justificar a sua recusa em satisfazer todas as reivindicações, em bloco, com a alegada falta de verbas orçamentais, não é crível que estejam à espera de que se lhes reconheça razão, a não ser que eles sejam mesmo ineptos.

sábado, 21 de janeiro de 2023

O cais de embarque

Oh vertigem que paira

Vista daqui a tarde é imensa

E desvaira

De tão inclinada para a rua

Agora deserta

A descer para o cais

Tão habitada de saudade

Que até o silêncio aperta

A sombra ali se adensa

E invade

O cais de embarque

Antiga porta da cidade

Foi daqui que o povo alçou o olhar

Para o esplêndido horizonte

Em barcos à descoberta

Podemos agora dizer

Como é pungente

Estar a ver que partiram

Deixando para trás este lugar

Que em memória deles

Outros tornaram

Doloroso imaginar

Como agora é não poder

Entrar

Na inconcebível catedral da noite

Com os ventos a soprar.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

Falar de justiça fazer justiça

A justiça, como muito bem viu Aristóteles, é, não apenas uma função judicial do Estado, que compete aos juízes, mas está pressuposta e é indissociável tanto das funções legislativas, quanto das funções executivas, políticas ou administrativas do Estado. Digamos que o Estado, em todas as funções que exerce está obrigado a proceder com justiça. 

A identificação da justiça com a observância e a aplicação da lei é muito redutora, porquanto as leis podem ser injustas e mesmo as leis justas, ao serem aplicadas de modo não uniforme, geram injustiças. 

As leis são instrumentos normativos que servem, em geral, para realizar a justiça. Estou a pensar, por exemplo, que a justiça é entendida e aceite principalmente como a aplicação da lei a todos por igual, tratando as situações semelhantes de idêntico modo. 

Ao longo da história, parece-me que os humanos foram discutindo e resolvendo o problema tentando que o legislador e o aplicador da lei estivessem igualmente sob a sua alçada. É relativamente fácil aceitar uma lei que a todos se aplica, incluindo quem a faz e a impõe. Mas já é extremamente difícil aceitar uma lei que, por exemplo, onera os súbditos com a obrigação do seu cumprimento e não obriga igualmente quem a faz assim se colocando fora, ou acima da lei.

Com a emergência do Estado-de-Direito-Democrático, a ideia de Direito ganhou protagonismo, não apenas no plano teórico dos princípios, como princípio normativo de toda a intenção e atividade legislativa, mormente estadual. 

Se, efetivamente, a feitura das leis e a sua aplicação observarem, tanto quanto possível, a ideia de Direito, como a resposta e a solução reta, justa, ético-axiologicamente fundada, que deve ser realizada, no respeito e entendimento dos legítimos poderes para a materializarem, diria que dificilmente encontraríamos razões para nos queixarmos das leis. Neste caso, seria ainda muito importante, para evitar injustiças, que, na sua aplicação, não houvesse desvirtuamento da sua letra e do seu espírito, entendido à luz da ideia de Direito e dos princípios gerais do sistema jurídico. 

Em muitas situações são os juízes a suprir as lacunas da lei e fazem a justiça, não segundo as leis, porque existe uma lacuna, mas tentando seguir aqueles princípios. 

Mas deixo a pergunta: poderá haver uma lei injusta que se aplique igualmente a todos, sem exceção?

sábado, 7 de janeiro de 2023

Somos racionais e daí?

Comecemos por dizer que no indistinto não há racionalidade e, se há alguma coisa, falta quem o saiba. Só a racionalidade pode dizer de si que é irracional, ou que existe irracionalidade, o que, racionalmente, parece uma contradição. Nem sequer podemos prescindir dela. Estamos para ela como ela está para nós, numa relação de absoluta interdependência. Ela precisa de uma cabeça pensante o suficiente.
Toda a análise, comentário, interpretação, conhecimento, opinião que se faça, incluindo a crítica da (ir)racionalidade humana, ou a defesa de algum tipo de irracionalidade, ou o reconhecimento de que a racionalidade humana é uma faculdade humana que não deve, nem pode fazer-nos esquecer que o homem é um ser vivo com vastas e complexas aptidões e funções que escapam a essa racionalidade, ainda que possamos conjeturar que são processos biológicos inteligentes, que ocorrem à revelia da nossa consciência e da nossa vontade, são uma atividade racional. Ou seja, ao descobrirmos e reconhecermos que grande parte daquilo que ocorre e acontece, designadamente no ser humano, seja por efeito voluntário, consciente, ou não, estamos a ser racionais, a usar a faculdade da razão. 
A cultura, as atividade humanas que dependem do uso da razão, os artefactos e as linguagens e as condutas (não propriamente os comportamentos involuntários e inconscientes) são o que nos permite fazer ideias acerca do mundo exterior e interior. E isto não acontece sem racionalidade. 
Não vou ao ponto de supor que a racionalidade é o modo como a própria natureza, no seu todo, incluindo a loucura, os demónios e os deuses, existem. Não vou a esse ponto de acreditar que nada escapa às leis da natureza, nem as leis humanas. 
Não vou ao ponto de acreditar que assim como é impossível violar uma lei natural, também ninguém, em última análise, pode violar uma lei humana. Mas não tenho dificuldade em ver no ser humano um ser racional que deve grande parte daquilo que faz e do modo como faz e uma parte daquilo em que se tornou e pretende tornar-se, mormente enquanto ser social, à racionalidade. 
Não me parece, de jeito nenhum, que se possa assacar à racionalidade humana as causas, ou a responsabilidade por algum problema que nos afete, quer como indivíduos, quer como sociedade. Não é por serem racionais (e penso que apenas as condutas o serão) que elas são boas ou más. É a racionalidade que permite distingui-las em boas ou más. 
Os problemas humanos não decorrem da racionalidade, bem pelo contrário. São as bitolas que servem de referência à racionalidade que, em cada momento, condicionam e determinam a relação complexa, que também é racional, entre a avaliação subjetiva, em função da social e a interiorização da social, em função da subjetiva e os exercícios das liberdades. 
Em si mesma, a racionalidade é neutra e não é correto, embora seja racional, culpá-la de não ter sido capaz de impedir os males que a humanidade inflige a si mesma como se, por isso, devesse ou pudesse ser substituída por qualquer tipo de irracionalidade.
A educação e o ensino podem desempenhar um importante papel na preparação da atenção e dos processos de avaliação da realidade, natural, humana e social, despistagem de equívocos, de aparências ilusórias, de crenças injustificadas, mas também podem ser fomentados para reforçar e levar a aceitar acriticamente como verdades e valores, mitos, narrativas, prescrições, normas, cânones, ou situações de facto consumado, mais ou menos inelutáveis a cuja realidade não se pode deixar de dar uma resposta adaptativa, sendo que, em si mesma, essa realidade já se apresenta como uma resposta adaptativa.

domingo, 1 de janeiro de 2023

A vida

A vida tem destas coisas

2023 que está a começar

E tem-te a ti

Com esse olhar

Que me inunda os pensamentos

De luz inebriante

De campos de bem-me-queres

De beleza rara

Que respira.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

A estrela no topo da árvore

A sociedade em que vivemos é altamente perversa e quem conseguir adaptar-se a isso é idolatrado e contribuirá mais ainda para legitimar a crueldade. Todos aprendemos desde cedo que o princípio da eficiência e da economia é um princípio de racionalidade a todos acessível e incontestável.
E todos sabemos que a organização social, económica, política, militar, cultural, é a negação desses princípios. E é a negação intencional, procurada, fomentada a todo o custo.
Nenhum dos objetivos expressos da educação e do ensino está alinhado com a realidade política, económica, social, nomeadamente de mercado, cujos objetivos, embora tropecem naqueles e aqueles nestes, se impõem como “conditio sin qua non”.
E o que está em causa nesta realidade económica, cultural, social, não é, nem a eficiência, nem a economia, nem a educação, nem o conhecimento, nem o ensino.
Em Portugal, dois cérebros ou três acharam que podiam colocar os analfabetos portugueses a rezar o terço ou a fazer crochet para o resto da vida e que se dariam por satisfeitos.
Mas apareceram outros dois ou três que acharam viável porem-nos a correr atrás de uma bola, e isso resultou.
Faltam mais dois ou três cérebros que ponham os portugueses a resolver problemas de matemática e a ler e a escrever, mas isso só será possível se continuarem a fazer prioritariamente os jogos em pirâmide do costume.
E que no topo da árvore brilhe o sol que a todos providencia.

domingo, 18 de dezembro de 2022

Armadilhas do pensamento

Vamos tentar agitar os elementos o menos possível para que não acabe tudo numa solução, em sentido químico.
O nosso cérebro não foi feito para pensar? Alguma coisa foi feita para pensar? Tudo, na vida, foi feito para sobreviver, mas não para pensar? Pensar começou por ser um acidente? Um acidente a evitar? Que não foi possível evitar, ao ponto de se ter tornado o melhor instrumento, meio, forma, recurso, para sobreviver? Quantas coisas fazemos sem pensar? Aparentemente são muitas, mas não será apenas aparentemente, porque há inúmeras rotinas em que o “acto de pensar” está automatizado, sem necessidade de passar por um controlo?
Pensar está na natureza humana como algo, função, faculdade, que tem poderosas armadilhas, ao ponto de, verdadeiramente, pensar poder ser detectar isso e detectá-las passo a passo, mas sobretudo reconhecer e identificar armadilhas que aparecem camufladas e confundidas com pseudoarmadilhas, ou armadilhas irrelevantes, tipo sexo dos anjos, que não deixam de ser cruciais numa estratégia bélica, de defesa ou de ataque, porque muitas vezes a arte dos engodos é a supina arte da guerra. Ora, cá está um exercício de pensamento doloroso e cansativo, e é inevitável que o seja porque pensar, verdadeiramente, é como remar contra a corrente.
É caso para perguntar “se assim é, como é que ainda há quem pense?”. A resposta será, naturalmente, porque nem todos se deixaram levar na corrente. Caso contrário, já ninguém pensaria. O perigo é esse: que nos vençam pelo cansaço e nos impeçam de desovar.
Uma das armadilhas do pensamento pode ser “julgar que se ganha em se perder”, “para quê lutar se a vida não se vence?”.
De qualquer modo, pensar positivo não cansa menos do que pensar negativo, até porque, muitas vezes, pensar positivo, ou negativo, é a maior ilusão que se pode ter acerca do próprio pensamento. É óbvio que quem não pensa é como se não existisse? Isso pode ser temporariamente bom, mas definitivamente?
A educação esbarra contra um obstáculo que não se compadece com sistemas de racionalidade económica de feição “piquete de intervenção”, formação intensiva, porque ela deve, sobretudo, preservar a liberdade e a dignidade da pessoa, promovendo a sua autonomia de pensamento, ou seja, tem como desiderato o bem-estar e a realização pessoal do educando, salvaguardando-o das tentativas, mais ou menos sucedidas, de o instrumentalizarem para fins, por exemplo, militares, e ensinando-lhe que, se pensar bem, o mais provável é que venha a revolucionar as teorias, mas pouco ou nada possa fazer para escapar às práticas.
Desnecessário isto, porém, porque, se pensar bem, o educando, possivelmente, não pensará assim.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

Frotas de navios mercantes

Será que sabemos alguma coisa, ou tudo aquilo a que chamamos saber e conhecimento é imaginação nossa? Ou, por outra, saber e conhecimento são imaginação e não mais do que isso? Ou, ainda, se assim é, nem por isso toda a imaginação é saber e conhecimento? O que está em causa nestas interrogações é a nossa relação “cognitiva” e “intelectual” com a realidade e é essa que, justa e surpreendentemente, ocorre num domínio, a imaginação, que estamos habituados a ver relegado para fora do conhecimento.

Há as coisas, há a vida. E há o que se diz. E o que se diz sobre as coisas e sobre a vida. E sobre o que se diz. Até à vertigem. Ou exaustão.

O que se diz sobre a vida não substitui, não pode, nem deve substituir ou sobrepor-se à vida.

O que se diz sobre as coisas não substitui, não pode, nem deve substituir ou sobrepor-se às coisas. 

Não tomemos a representação das coisas, a fotografia das coisas, a imagem das coisas, a explicação das coisas, o filme das coisas, o esquema, seja ele qual for, matemático, químico, pictórico, filosófico, teológico, geométrico, pelas coisas.

Muitos de nós vivemos demasiado carregados dessas imagens e demasiado iludidos para percebermos que isso não é o mundo, é estar fora do mundo o mais possível, como se tomássemos a fotografia por aquilo que ela representa e andássemos a transacionar cromos, ou notas de banco, à mesa do café, como se estivéssemos a pilotar frotas de navios mercantes.

terça-feira, 13 de dezembro de 2022

Nesse tempo

Nesse tempo até as prostitutas diziam

Que gostavam do que faziam

Havia mais sinceridade nas sombras de cortar à faca

Do que arte de viver em palcos desmontáveis

Entre as esquinas e as ruas movimentadas

Havia uma cumplicidade de anjos de bronze

Com pombos vadios

Que só era limpa nas palavras do romântico

Do tempo de as coisas serem como são

De as personagens quererem ser humanas

Sem precisarem de outra razão.


quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

Sem regresso

Depois de atravessar a nado

As águas geladas do rio neve

Ouviu os corvos a crocitar

Enquanto sobrevoavam

Em círculos

O que ao longe

Parecia uma montanha

Mas ao perto

Era um inimaginável cúmulo

De êmbolos e cambotas

Dínamos e gambiarras

Eixos e jantes de tratores

Tanques de guerra

Pedaços da fuselagem

De aviões militares

Tudo amontoado numa pilha

De ferrugem sobre a carcaça

De um porta aviões

Que ninguém sabe como foi

Ali parar

Durante dez anos não fez mais

Senão inspecionar aquele arranha-céus

De sucata onde o vento fazia música

Que o fazia arrepiar

Mas foram precisos mais dez

Para chegar ao topo desses desperdícios

E se sentar

Avistando então ao fundo o mar

E as cidades dos humanos

Que toda a vida imaginara

Mas sentiu a vertigem terrível

De ser impossível regressar

Daquela altura

Que antevia como sepultura.

sábado, 3 de dezembro de 2022

Ter a dizer

Nada ter senão a dizer

O mundo com tantas fontes

Tantas árvores de fruto

E tantas mesas de pão

Com seus comboios de música

A atravessar oásis sem estação

Os desejos suspensos

De tanta imaginação

Passeios pela abundância

Que cansa de sonhar

A privação de prazer

Mais frustração do que alegria

Com que se aprende a lidar

Nem sempre fará esquecer

Os reinos da fantasia

Em que quero acreditar.

sexta-feira, 25 de novembro de 2022

Rios e horizontes

Há rios sem margem

Para dúvidas

Horizontes de tal sorte

Que são pontes

Sobre a dificuldade da morte

Tudo o que aprendi

E não sabemos

Do tamanho das dores

Que o tempo semeia

Com tanto amor

Quanto odeia

O que dizemos

Frutos doces e amargos

As saudades

Que temos

Se fossem aves iriam pelos largos

Barcos pelas vertentes

Se fossem luz pelas janelas

Voz pelo brilho das nascentes

Se fossem água iriam pelos olhos

Sem visão

Foram apenas

E é o que são

Almas penadas

Se vissem o dia

Seriam nadas

Levados pela mão vazia.


sexta-feira, 18 de novembro de 2022

Tempo de viver

Nada há que possa levar

Nenhuma verdade no alforge

Nenhuma fantasia disfarçada

Nenhuma amargura predileta

Nenhuma vontade frustrada

Nem ódio de estimação

Ou alegria

Nada

E não é por prémio

Sorte de paixão

Por castigo ou dever

Que nada levarei

Mas também nada

Nem mulher

Que tanto adorei

Me levará

Porque não irei

Estarei ausente

Da fortaleza

Da cidade morta

Sem me render

Isso eu sei

Baixo os braços

Ao vento do planalto

Que sopra sem perceber

Os passos em sobressalto

Dos escaravelhos

No momento de ceder

Como quando velhos

Sem alternativa acaba

O tempo de viver.

sábado, 12 de novembro de 2022

A mulher dos meus sonhos

A mulher

É a mulher dos meus sonhos

Indefinida e holista

Como nenhuma outra

Existe em muitas

Inúmeras imensas

E como é bom saber isso

Apesar de doloroso

Não há como fingir

Não há como ignorar

As pérolas

O caleidoscópio dos meus olhos

A mulher dos meus sonhos

Em cada uma que passa

Diante da lente natural

Dessa realidade virtual

Como num desfile

De memórias falsas

Mas mais relevantes

Do que as verdadeiras

Não é universal

E tem tanto de sonho
que é mais real
sob as amendoeiras
em flor.



Arte de bem marear

Tudo muda quando me olhas

Pelas estrelas que aprendi

A tomar como bússola

Na solidão do mar 

Sem ti

Tudo se transfigura

E me passa pela cabeça

Poder estar de volta

A um lugar vazio

Aonde vejo chegar

Uma réstia de pássaro

Caído

Por ter parado

No ar

Sobre o paraíso

E me entregasse à justiça

De te desejar

Sem nada mais em mente

Ao ver-te à minha frente

E acreditar.

 

segunda-feira, 7 de novembro de 2022

Ficção e realidade

Ouvi dizer que a guerra é para ti

Como se fosse uma telenovela

Uma ficção muito pobre e mal feita

Que já verteste mais lágrimas a ver filmes

Que já não distingues a ficção da realidade

Que até já chegaste a ver mais realidade na ficção

Do que na realidade em direto

Que não estás preparado para entender

Senão o que alguém te explica

De um modo que não te implica.

quinta-feira, 3 de novembro de 2022

Com ódio por amor ou com amor por ódio

Que dizes

Em que língua

Com que léxico

Sabe-lo tu?

Nem eu

Será a língua dos ventos uivantes

Ou o léxico dos cavaleiros inebriados?

Parece mais lume do que água

A despenhar-se sem asas

Sem o azul das aves

Que se elevam como cinzas

Para o cume da mágoa

Que é ser assim

Ouço-te onde estiveres

Até onde estiver o significado

Do teu riso

De uma desordem que acontece

E não almejas

Nem tudo se constrói com palavras

Nem com o que desejas

Mas a destruição é uma constante

Quando olhamos para o que fizemos

Com amor ou ódio

E vemos que não resulta à letra

Que o amor ou ódio não estão lá

Vemos manifestações de ignorância

De um poder de tijolos falsos

A destruição é manifestação de poder

E a resposta é mais destruição

Desse poder.

 

quinta-feira, 27 de outubro de 2022

Se a pedra ouvisse

Esteja onde estiver

Faça o que fizer

Pense o que pensar

Diga o que disser

Tenha o que tiver

Sinta o que sentir

Está onde não estou

Estou onde não está

A pedra a ouvir

Se ao coração falasse

Diria mil poemas

À tentativa de possuir

Outros mil ao sentir

A falta

Muitos mais ao engano

Que há nisso tudo

E no que falta sentir

Que nunca é de mais

Se for beleza

Por mais que confunda

A céu aberto

Até o desejo doer

Na cava profunda

Da sombra suave

De castelos de areia

Diria mil tolices

Às flores por perto

Sem fazer ideia do tempo

Sem sepultura

Voltar para trás

Aos gritos

Para fazer a vontade

Aos versos aflitos.

terça-feira, 25 de outubro de 2022

Racionalidade e inteligência

Quando perguntamos para que serve a filosofia, já estamos a filosofar.

A filosofia é a racionalidade humana a operar num ambiente de manifestação de inteligência, da própria racionalidade. E como acredito que não existe irracionalidade, nem nos números irracionais, porque é fruto da racionalidade, distinguiria a faculdade da racionalidade da faculdade da inteligência.

A racionalidade como função biológica, diria, inerente à biologia, talvez seja dada e tão inevitável como a própria vida. Mas a inteligência é um estado de pensamento complexo, um processo que se desenvolve, agrega e transcende de cada vez que vê e se revê e reflecte e que consegue ter de si própria algum tipo de imagem. Ela instrumentaliza tudo, incluindo as memórias e as conjecturas e não é sua menor qualidade tentar evitar, senão impedir, ser instrumentalizada. Isto coloca-a numa espécie de abstracção, fora do tempo e do espaço, conquanto esteja no tempo e no lugar de um corpo.

Feitas estas considerações para estimular o pensamento, vejo a filosofia como o modo privilegiado de manifestação da inteligência, não necessariamente de inteligência, no sentido de que a inteligência é um processo e a última inteligência é que é inteligente.

Diferencio assim racionalidade de inteligência. Aquela é um mecanismo conatural e constante, diria variável independente, esta é um processo evolutivo e profundamente dinâmico, dependente de imensas variáveis, mais ou menos controláveis, inelutáveis ou acidentais, quer conjunturais, quer estruturais, que “aprende” sempre, independentemente das situações bio culturalmente favoráveis ou desfavoráveis, mas essa aprendizagem é muito variável e inconstante e pode ser mais ou menos ampla e profunda, nomeadamente, a aprendizagem com os erros.

A filosofia é a inteligência em acção. Se fosse uma máquina, começaria por se desmontar a si própria, mas não é e nunca será uma máquina, porque a inteligência não pára, não estaciona, não está em sítio nenhum embora funcione num sistema de conexões neurológicas que nunca repousam.

Ora, a inteligência em acção é a racionalidade a operar num espectro de possibilidades entre as quais, inelutavelmente, escolherá (não escolher também é escolher). Sem consciência, está arredada a possibilidade de escolha. A consciência é o que pode responsabilizar. Mas ninguém tem acesso a ela. O próprio indivíduo é colocado como juiz em causa própria. De pouco ou nada lhe adiantará ajuizar como ajuizaria o Deus absoluto que sonda e conhece as consciências melhor do que elas próprias.

«Atreve-te a pensar por ti próprio». Em reforço de Kant, diria que “pensar é próprio de ti e só podes pensar por ti próprio. A tua consciência é o último tribunal de recurso”.

Inteligência e sentido de dever aparecem-me unificados e radicados na consciência, sempre que se trata de acção. Se a este sentido de dever chamar lei moral, terei aqui mais um determinismo da acção (não estritamente determinismo natural, porque grande parte dos nossos processos biológicos escapam à nossa consciência), que deriva da faculdade da racionalidade.

Já a doutrina cristã do pecado reconhecera função chave e crucial ao reduto da consciência, conferindo-lhe a primazia nos processos de imputação de culpa.

Talvez por necessidade de coerência doutrinal e teológica, a doutrina do perdão dos pecados, mantinha Deus na competência de exclusivo e absoluto perscrutador da consciência de cada um, de omnisciente e infinitamente misericordioso e, ao mesmo tempo, exonerava-o de qualquer responsabilidade onerando a consciência do indivíduo pelos seus actos.

Estes problemas têm sido, aliás, transversais aos sistemas judiciais da cristandade, que têm lidado com a questão da culpa subjectiva, colocando-a entre parêntesis, ou simplesmente, fundando-a no dever ético-social e jurídico de conformação das condutas com a lei.

Do ponto de vista do indivíduo, todavia, o problema subsiste porque é iniludível a clivagem, ou hiato, que existe entre aquilo que é o dever-ser social, colectivo, heterónomo e aquilo que é o dever-ser pessoal, individual, autónomo, os quais, por muitas razões, podem não coincidir e até conflituar, sendo que, a última instância, como já referimos, é deste (sobreleve embora o problema do balanço que fará entre as sanções e a vantagem da obediência).

A transição do sistema teocrático milenar até à modernidade e contemporaneidade foi brutal mas nem por isso assimilada e integrada no “modus vivendi”, como soía.

A ideia de Deus é muito difícil de abandonar, ou de substituir, porque a ideia de Deus reúne tudo o que há de bom, bem, justo, misericordioso e, se não existe, devia existir. Vamos continuar a lutar para que exista Deus.

terça-feira, 18 de outubro de 2022

Banhos celestes

Sabendo nós que o íntimo é grande

E o divino é humano

O pensamento é pequeno

E o sublime é mundano

Vemos uma margem irresistível

A atravessar o rio

A erguer-se nua

A pentear-se para as águas

Como uma república na rua 

Aves fogem à passagem

Como a noite se enche de latidos

E o destino de verdades intemporais

Num regaço de falsos pruridos

A nossa sorte

É que ela

Talvez impura

Toma banhos de rosas

Nos nossos sentidos

Culpados

Da sua formosura.

sexta-feira, 14 de outubro de 2022

Falar com paixão

A paixão pelos livros existe e tentar explicá-la pode ser um desafio muito interessante, quando percebemos que é uma paixão muito secreta e estranha, até por dizermos que é paixão, em vez de lhe darmos outro nome.
Desde ser de tanta subjectividade que dificilmente se conceberá que alguém trate da paixão pelos livros sem ser apaixonado pelos livros, até à suspeita de que não haverá duas paixões iguais pelos livros, ou sequer parecidas, a paixão pelos livros é uma boa aproximação aos livros enquanto arte de tentar revelar e descrever e explicar paixões, esse reduto de subjectividade que alguns se atrevem a objectivar, acreditando e contando com alguma possibilidade da linguagem para o comunicar.
Cada paixão é única e, muitas vezes compreensível a partir, não de quem a vive, mas da interpretação que dela faz.
É problemático, para não dizer ilegítimo, falar de paixões sem aceitar entrar e falar das próprias paixões, como se pudéssemos falar, em abstracto, de paixões concretas.
Duvido que haja paixão sem uma narrativa, embora nem sempre haja uma narrativa disponível e, muitas vezes, seja até impossível uma narrativa verdadeira de uma paixão.
Teço estes pensamentos ao pensar que fui e sou apaixonado pelos livros e que, ainda hoje, ao tentar reconhecê-lo e explicá-lo a mim mesmo, me surpreendo com a dificuldade de fazer-me entender o que é isso.
Se nem todas as paixões têm o seu quê de conflituosas (conflito interior), há paixões que o são muito e colocam o indivíduo num campo de batalha em que é invariavelmente vencido. Talvez por isso, há quem tenha como lema precaver-se de paixões e quem nem tenha de o fazer, porque não sabe o que é.
Os livros entraram na minha vida não à força, como a catequese, as orações, a escola, a cana da Índia, a palmatória, a polícia, mas com a sedução de poder rejeitá-los ou pegá-los a meu bel-prazer.
Quanto à catequese, escola, polícia, não vi alternativa à coerção. Quanto aos livros, nunca desisti de pensar que, enquanto não ler um livro, não sei o que ele encerra, e porque aprendi a namorar os livros muito antes de saber o que é amá-los, percebi que os livros são inesgotáveis fontes de prazer, por mais que nos revelem a escala que é preciso ter em mente, quando lemos.
E se esse namoro era do mais estranho e engraçado, para não dizer infantil, e envergonhado, que há, o amor ainda o é mais.
Mas como passar bem sem o que se ama?
Quem quer ver-se livre do que ama?