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sábado, 8 de outubro de 2022

Completa escuridão

Ao trovão poderoso

Na floresta desconhecida

Encontraram refúgio numa gruta

Esbaforidos pelo tumulto da fuga

Na completa escuridão

Tatearam sem se verem

Algo descomunal

Que respirava como dois animais

E tremia como se fosse dar um salto

Estavam a cair dentro

De um poço mais

Tudo o que ficava para trás

Não os preocupava nada

E as consequências reais

Andavam longe do seu pensamento

Até que sucumbiram ao sono

E tiveram sonhos iguais.

quarta-feira, 5 de outubro de 2022

Amantes

Para junto dela

Corre ao encontro

E todos os caminhos vão dar

Ao acampamento

Por onde passa

Todos os sinais indicam

A barraca onde não cabe altivez

E é recebido com honras

De amante

Que enfrentou desventuras

Para estar junto dela

No seu leito macio

Munido desse triunfo

De não se submeter

À triste velhice.


domingo, 2 de outubro de 2022

Metáforas

Os que fecharam as portas

Deixaram o silêncio de fora

A vadiar penitente

Até encontrar a chave das fechaduras

E tomar conta de tudo

Antes que as portas se abrissem com o vento

O silêncio saiu

De fora para dentro

A vadiar como um rio novo

A que não se chamaria rio ainda

E talvez não venha a ser

Senão metáfora de deus.

sexta-feira, 30 de setembro de 2022

A importância dos livros

Há que enfatizar, por um lado, a inegável influência e importância do livro na consolidação e desenvolvimento das culturas, nomeadamente a ocidental e, por outro lado, a hipótese de que o livro não tem tido a atenção e o fervor de tantos adeptos quanto merecia.
O fenómeno da escrita, mormente da divulgação do conhecimento através do livro, tem sido visto por muitos estudiosos como um factor decisivo do desenvolvimento da civilização e do conhecimento, ainda que o livro, como tudo o que é instrumental, sirva para quase tudo aquilo que pode ser instrumentalizado por ele e nem tudo é consensual ou pacífico.
Aqui, não obstante, encontramos mais um motivo, ou razão, para preservarmos o livro como meio privilegiado de cultura e de diversidade, mas mais ainda de liberdade e de comunicação.
O papel activo que o livro exige ao leitor, só por si, é um indicador de que quem o lê não o faria se não lhe encontrasse bastante interesse (independentemente de alguém considerar que esse interesse é grande ou pequeno ou nulo).
Durante muito tempo, o fascínio pelo fenómeno da escrita foi de tal ordem que tudo passou a girar em torno dela até atingir uma estereotipação e uma estilização que a transformou em algo valorizado por si próprio, pela sua dificuldade e poder simbólico de uma elite de especialistas, mais como uma arte e um domínio dos deuses, para espectáculo atordoador dos leigos analfabetos.
O caso não era para menos.
O poder das palavras institucionalizadoras, imperativas, prescritivas, declarativas, que deferem ou indeferem, que ordenam e impõem, que decidem o que as coisas são, sempre teve e continua a ter uma imensidão de devotos rendidos à sua magia transformadora das realidades que mais interessam a todos.
Curioso é que este poder das palavras tenha sido tanto maior, e assim continua a ser, quanto mais hermético, e acessível apenas a uma elite, for o seu código. De tal modo que, por exemplo o latim, não sem muita relutância, só recentemente vem sendo substituído, em actos oficiais e religiosos, pela língua viva.
A vulgarização do livro esteve associada à disseminação do acesso ao poder que o livro conferia e, de vários modos, a elite “do poder do livro” reagiu contra isso. Mas, como seria de esperar, à medida que o poder do livro se disseminou também passou a ser menor a atractividade motivada por algo que estava associado ao simbolismo do livro e não ao valor intrínseco do seu registo.
A desmistificação do saber livresco, por exemplo, é muito recente e foi uma enorme conquista da cultura, mas só foi possível, suponho eu, pela divulgação e acesso generalizado ao livro como meio privilegiado, senão único, de acesso a cultura e a conhecimentos relevantes, para além do senso comum.
Acontece, ainda assim, que o livro é visto, umas vezes, como meio de realização de objectivos expressivos e discursivos e narrativos e comunicativos, inclusivé científicos, líricos, críticos, filosóficos, jurídicos, técnicos, etc., outras vezes, como fim em si mesmo, ou simplesmente como uma mercadoria, à boleia da inquestionável reputação do livro, na sua função de “transcendência” a que temos acesso se os lermos, mais do que se alguém os ler para nós, ou por nós.

sábado, 24 de setembro de 2022

O que é sentir

Sonhar

E só depois dizer

O que acontece

Dizer

E só depois ver

O que é difícil

Fazer

E só depois saber

As palavras que mais usas

Poder

E só depois deixar

De querer

Escrever

E só depois sentir

Que o prazer também se escreve

Com prazer

E só depois interrogar

O que é sentir

sem doer.

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

INCOMPLETUDES

Se o amor

Enquanto esperavam à chuva

Fosse ministro de algum abrigo

Ou abrigo de algum ministro

A haver governo algures

Em tempo sinistro de encargos

Andaria atrás de um caderno

Perdido

De versos copiosamente amargos

Em seu labirinto construído

De perversos aliados

Tremendo dos artelhos

De medo talvez de frio

Da sua sombra nua

Procurasse o sol

De algum pavio

Quiçá da lua

Em troca de existir

Para se aquecer

Sem cair na rua.

 

sábado, 10 de setembro de 2022

Quase só fragilidades

Em algum recanto obscuro

Lá muito atrás no tempo

Perdemos a memória

O nosso amor e a nossa paz

Perturbados pela surpresa

De um mundo inesperado de hostilidades

Engendrado pela nossa frustração

E pelo alerta

Pela desconfiança das plantas

E animais 

E restantes elementos naturais

Que no nosso âmago

Amamos

E pela decepção de sermos repelidos

E mordidos

Envenenados acossados infectados

Feridos

Esmagados afogados queimados

Em cenários de acidente

Tempestade ou guerra

Ou simplesmente

Na tragédia silenciosa

Na doença

E pela descoberta de que éramos

Quase só fragilidades

E a necessidade de nos rodearmos

Da atenção e do carinho

Uns dos outros

Para nossa protecção

E para sermos mais fortes

No desgosto de não podermos abraçar

Sem medo e precaução

Todos os seres 

Vivos e os demais

Que amamos à nossa maneira

Talvez errada 

Por não ser mais.


terça-feira, 30 de agosto de 2022

sexta-feira, 26 de agosto de 2022

Ensinar e educar

Educar, todos e tudo educa.
Cuidado com a educação. Quem não se queixa da educação que recebeu (o termo é muito significativo e carregado de tradição) ainda deve estar mais de sobreaviso.
Ensinar é mais complexo, mais solidário, mais honesto, mais explícito, mais confiável, mais amigável, mais avisado, mais avançado, mais revolucionário.
Putin educa, Hitler educou, Estaline dava isso como garantido e os religiosos sempre puseram todas as fichas na mesa das apostas da educação para concretizarem os desígnios divinos.
Ensinar é outro negócio, é outra história, é outra narrativa. Se não é oposta a educar, pelo menos é crítica, contestatária, muitas vezes feita à revelia da educação oficial.
Educar é perigoso, ensinar é promissor. Transmitir valores, crenças, normas de conduta é algo que se tem revelado catastrófico, trágico, incurável, abominável, fatal. É certo que há sempre o outro lado da medalha. É o apelo aos valores que mobiliza para a guerra e para a vitória. Uma bomba lançada sobre o inimigo é um acto sublime. Uma bomba lançada pelo inimigo é um acto cobarde e imperdoável.
Não devemos combater uma crença com outra crença? Ou seja, não devemos combater? E temos outro remédio?
Há os que educam, por exemplo, para agradar e obter as bençãos do Sr. Abade, ou do Regedor, ou do professor, e há os que educam para se perfilarem nas hostes políticas e dominarem o jogo dos interesses, avessos a obediências ditadas por opositores, ainda que posicionados em cargos de supremacia de facto, seja fiscal, seja política, seja administrativa. E há os párias, que rejeitam todas as propostas e são educados para não precisarem dessas estruturas viciadas de favorecimento e de nunca vergarem, nem fingirem respeitos que não devem a ninguém, que são educados a esperar todo o tipo de maus tratos e de desprezo e de discriminação, que só podem contar com a sua força e não deixam que lhes indiquem o personagem sagrado que vão vestir nas procissões dos corpos dos deuses. E isto vem de longe, de muito longe. E, para tristeza e preocupação de muita gente, está a agravar-se. O nepotismo anda à solta, a par com a corrupção e a batota na disputa de méritos e de reconhecimentos. Então o partidarismo e o favorecimento no acesso a funções públicas, vão-se instituindo cada vez mais como procedimentos “normais”, como se o público e o Estado fossem a oportunidade dada a alguns privados que pensam e actuam como se estivessem nas suas quintas, enquanto estiverem.
Entre os que educam para o jogo, com os trunfos na mão e os que educam para o jogo da batota, a diferença é óbvia.
O ensino é outra coisa.

 

quarta-feira, 24 de agosto de 2022

A atracção do abismo

Não saber se desistes da humanidade

Mas do teatro

Não saber se desistes do teatro

Mas da humanidade

Perceber que desistes

De reconhecer o fracasso

Não acreditar

Que haja quem não sabe

Que há noites perpétuas

No pomar das musas de sombra

Onde não rescende a frutos

Não há certezas de nada

Não há como desistir

De vencer os terroristas

Mas é preciso saber

Que se precipitarão

Com todas as suas forças

Os que não resistirem à atracção

Do abismo.

sexta-feira, 19 de agosto de 2022

Verdades e interesses

Espírito crítico, não é pedir muito, é esperar demasiado. Nos tempos conturbados em que vivemos, assoberbados de solicitações e de megafones mais ou menos selectivos e privativos, numa imersão desinibida na barafunda das tragédias e no teatro dos festejos e das celebrações, quando alguém ainda sabe dizer em que rua mora, ou para onde quer ir, isso já é um motivo de esperança, não digo na humanidade, mas no que vier a seguir.
A verdade, além de ser algo inacessível, até aos tribunais superiores, a maior parte das vezes, é o que menos importa ao comum dos mortais. Quando muito, pode interessar aos filósofos e aos cientistas e, mesmo nestes casos, depende de que verdade se estiver a falar.
As declarações e os manifestos políticos, sejam democratas, autocratas, plutocratas, cleptocratas, aristocratas, etc., não são verdades.
O socialismo não é verdade. O capitalismo também não. O comunismo idem. República ou monarquia, nada disso é verdade, por mais verdades que digam. E também não são mentira, falsidade, ou erro, por mais que mintam, falseiem ou errem.
As religiões não são verdades, por mais verdades que digam. As realidades culturais, institucionalizadas, com mais ou menos legitimidade, aceitação, passividade, adesão, não são expressão, nem critério de verdade.
É escandaloso que tenham a pretensão de ser aquilo que não sabem ser, nem podem ser, verdade.
Uma realidade, material, física, ou social, não é verdade. Um presidente, um clérigo, um filósofo, um cientista, um jogador, um trabalhador, um rei, uma aranha, não são verdades. Um facto não é uma verdade. Um acto não é verdade.
O conceito de verdade, de certo ou errado, segundo critérios de verdadeiro/falso distingue-se do conceito de verdade, segundo critérios de eticidade, de direito, de correcto/incorrecto, ou do conceito de verdade, segundo critérios de moralidade, de bem/mal.
Em todos os casos, verdade tem a ver com condutas, comportamentos, humanos, cujo escrutínio e julgamento, por sua vez, padecem das mesmas limitações e deficiências daqueles.
Mas não há motivos para desanimar, porque os humanos têm um sentido muito desenvolvido para escolherem o que lhes interessa.
A mentira, a falsidade, normalmente, aproveitam-se disso, como formas deliberadas, sofisticadas, de manipulação.
Quando é por erro/ignorância, já a manipulação, até a das grandes estruturas ideológicas a que não escapamos, é desculpabilizável.

sexta-feira, 12 de agosto de 2022

Felizmente há o direito e a justiça

Que haja liberdade

Não à impostura e à censura

Não há liberdade enquanto houver

Ditadores

Enquanto houver ameaças credíveis

Dos destruidores

Enquanto houver terror

E morte

Incendiários

Bombistas

Terroristas

Que impõem aos outros a violência

Catastrófica e demolidora

Aquilo de que a humanidade menos precisa

Nestes momentos difíceis para todos

É que os oportunistas terroristas

No momento de ajudarem a salvar

De pandemias e de secas e de guerras

Tudo façam para ajudar a aniquilar

Felizmente há o direito e a justiça

Que não podem deixar de triunfar

Quanto à vida na Terra

Veremos.

 

segunda-feira, 25 de julho de 2022

A realidade da(s) Arte(s)

A realidade da(s) arte(s) suscita questões deveras curiosas e não há nada como questões curiosas para provocar a nossa competência, seja ela qual for. Se um cozinheiro não sabe responder à questão, mas um electricista sabe, ou se um cientista não sabe responder à questão, mas o crítico de arte, ou o leiloeiro, sabe, estamos num terreno em que ninguém gosta de ficar de fora e em que quem der parte de fraco não sai a ganhar, o que quer que isto possa significar, para além da gíria.

Não é sequer uma questão de “gostos não se discutem”, porque penso que tudo é discutível, se as pessoas quiserem.

O que constato e o que enxergo, bem ou mal, mais ou menos, é que há profissionais do gosto, como há profissionais de santidade, como há profissionais de sabedoria, de justiça, de saúde, de poesia, de romance, de pintura e, dentro de cada departamento, muitas especialidades.

Basicamente, estes profissionais estão aptos a responder a qualquer questão que se coloque, não apenas sobre a sua área de actuação, mas também a realizar/fazer algo em conformidade. A arte do discurso não é das menos “sublimes”, mas há as artes dos artefactos, ainda que o discurso não deixe de ser também, à sua maneira, um artefacto. Neste sentido, a cultura, mesmo aquela parte que não se exterioriza, que não se objectifica em nenhum suporte material, nem chega a transmitir-se porque não sai do reduto íntimo do indivíduo que a pensa, ou a sente, é artefacto, ainda que apenas representação abstracta dos neurónios.

O exemplo do quadro em branco não deixa de ser curioso, levando a reflexões inesperadas e interessantes, por exemplo, sobre a originalidade e a inimitabilidade. Não quero dizer que não tenha havido e não haja milhares, senão milhões de quadros brancos, se calhar à espera de um pincel com tinta. Mas depois de ter aparecido um numa exposição de pintores, realmente, tudo muda de figura e poder-se-ia escrever muito sobre isso, convocando cientistas e pensadores de todas as áreas, para que nenhum profissional se sentisse excluído.

O quadro em branco é de tal modo “inimitável” que alguém que se atreva a repetir a façanha pode ter de pagar direitos de autor.

Também há espectáculos em que não é possível responder à pergunta “que é que isto significa?”. Uma vez participei numa espécie de dança de varredores, ao ritmo de música, que ganhou a atenção dos espectadores e que achei divertida, em que, no fim, dois intelectuais me perguntaram que é que aquilo significava. Eu perguntei-lhes se tinham achado divertido e eles disseram que tinham adorado, mas eu não seria capaz de lhes veicular significado que eles próprios não encontrassem, porque para mim não havia ali significado. Poder-se-ia, não digo que não, criar imensas hipóteses de significado, cada uma mais rica do que a outra e isso ser deveras inspirador e criativo, mas o assunto ficou por ali e o mundo continuou.

O dar que falar pode ser muito relevante e não só do ponto de vista das teorias e aperfeiçoamento, aferição, afinação da linguagem e dos conceitos, que é um trabalho e uma arte que ocorre nos bastidores mas que não deixa, por isso, de ser importante.

Quanto ao talento para criar oportunidades ou aproveitá-las, concordo que sejam talentos diferentes, cada um melhor do que o outro, mas não vejo que haja muito como alguém dominar/controlar o efeito das obras e a qualidade das obras, ainda que levássemos em conta aspectos como públicos especializados e públicos em geral, mais ou menos semianalfabetos. Muitos dos aplausos têm a ver com a emoção primária e irreflectida, abstraída de outras considerações acerca do valor da mesma e sem levar em conta critérios comparativos. Podemos não aplaudir uma grande obra que já aplaudimos até à exaustão e aplaudir muito, pela primeira vez, uma obra menor.

Há, não obstante, experiências frustrantes, para não dizer traumatizantes, ou até esclarecedoras, que todo o criador pode fazer, seja artista ou filósofo, ou cientista, acerca da relação entre valor, qualidade da obra e efeito no público, aceitação, apreço, valorização, aplauso, reconhecimento. Se, por exemplo, perante uma assembleia que desconhece (realidade muito frequente) um grande poema clássico, ou um compositor consagrado, ou um texto notável de alguém do panteão, ou mesmo um dos evangelhos mais venerados, o fizer passar por improviso do momento, ou criação sua, logo verá o efeito. A minha experiência revela que o valor de uma obra tem subjacentes, pelo menos duas ordens de considerações, o plano crítico, que se vai consolidando pelo passar do tempo, e o plano menos crítico, individual, de contacto e de fruição subjectiva, talvez muito mais difícil de justificar.

De qualquer modo, numa primeira abordagem, ou contacto, a obra de arte, texto ou outra, tende a ficar mais em suspenso quanto mais rica e profunda e inovadora for, como se causasse uma estranheza, impenetrável ao senso comum, que pode ou não valer a pena explorar e interrogar.

sexta-feira, 22 de julho de 2022

É certo

Não vou falar do certo e do errado

Porque soubesse verdades

Que não sabeis

Mas porque falo dos meus erros

Não porque afinal tenha acertado

Em os reconhecer

(E é certo)

Mas porque tenha reconhecido

Estar errado

Não vou falar das falsas crenças

Do passado

Que me ajudaram a crer noutras

Em que não fui educado

Mas na surpresa de descobrir

Que o mais certo

É eu estar errado.

quinta-feira, 21 de julho de 2022

Ousar amar

Ouso dizer que o amor ainda precisa de ser autopsiado, ou levado ao laboratório dos alquimistas, para nos convencermos de que o amor é puro egoísmo. No laboratório dos químicos chamar-lhe-iam outra coisa que não sei, talvez tropismo.
Provavelmente ninguém é amado, ou amou, no sentido de amor que não é retribuído. O condicional não faz parte do conceito mas, nem por isso, deixa de ser a realidade do amor.
E não esqueçamos que o artifício de pensar em termos físicos, ou literários, teológicos, ou filosóficos, não reduz o problema, antes o amplia.

quinta-feira, 14 de julho de 2022

Mas as palavras do poder, senhores?!

O poder das palavras vai sempre mais longe do que as palavras do poder, por mais que isto seja contraditório, ou circular. Mas é preciso que alguém as ouça, as entenda, as siga, ou as rejeite. Nenhum poder existe, ou leva a melhor, sobre o que resiste. Neste aspecto do problema, admiro o burro, tão mal tratado, mas sobrevivente.
O poder das palavras é inescapável e incontornável e inarredável. Nem é viável abstrair das palavras. O que é viver sem palavras?

O poder das palavras, reside no indivíduo que as usa, como autor ou destinatário se e apenas na medida em que as usa e com elas se conforma.

Para quem teme o seu poder, o melhor não será fugir-lhes.

Para quem quer o seu poder, o melhor não será usá-las indiscriminadamente.

Mas as palavras do poder, senhores?!

As palavras que fazem da força poder, que dão poder à força?
Sem embargo de a força ditar palavras que as tornam poderosas, o poder das palavras está para as palavras do poder como o espírito está para a matéria (metaforicamente, porque não alinho nesse dualismo).

E que diríamos sobre o valor das palavras?

terça-feira, 5 de julho de 2022

Forma e conteúdo

A relação das partes com o todo (que é sempre, por sua vez, uma parte de uma parte maior) é uma relação de umas formas com outras, cada uma contendo outras, mas sendo contida por outras.

Porém, há a questão do vácuo, que me interpela de vários modos. Não sei o que é o vácuo e acredito que ninguém, nem coisa alguma já esteve no vácuo. Não sei se o vácuo acontece ou aconteceu alguma vez, por exemplo, se algo que existe, submetido à vacuização, deixou de existir, por força da vacuização. Será esta força mais uma a acrescentar às reconhecidas forças da natureza?

No vácuo, a força da gravidade “deixou de funcionar” (não me digam “deixa de funcionar”)? O espaço e o tempo foram suprimidos? O nada foi criado? Deixou de haver movimento?

Os físicos não terão dificuldade em esclarecer uma dúvida tão básica, se calhar não mais do que uma questão de linguagem, mas poderá alguém aspirar sequer a entrar /estar num lugar vazio?

terça-feira, 28 de junho de 2022

Tudo para ser feliz

Quando escrevo só 

Posso contar com o leitor

Para transpor

O limiar da minha porta

O poeta não se mete pelos olhos dentro

Como uma irresistível vénus desencadeia

Tempestades de prazer

Até a quem as não quiser

A poesia pode ser desbragada

Mas é a sedução de não ser nada

De não ter úberes

Nem ritmos de pimbalhada

Que entram pelos olhos dentro

Sem pedir licença

E sem dar licença para contento

Sentam o rabo na cara

A poesia é como a dança

Exibicionismo requintado de mais

Para os pés de chumbo

Que a desdenham e deploram

Como a trança de um cabo de cebolas

É cantar a uma janela

Sem ninguém lá dentro

Porque não está lá ninguém

Não é trabalho

É a infelicidade

De quem tem tudo para ser feliz

Uma arte

Ter tudo para ser arte

Mas não ser bela

Uma questão de gosto

Ter tudo para ser

Mas não acontecer.

sábado, 25 de junho de 2022

Fender

 

Ouve cantar aves que espreitam

Da fenda da floresta

O atrevido afagamento do sol

Quantos silêncios inofensivos

Estão atravessados num sorriso

Quantos enigmas são precisos

Para resgatar do esquecimento

As âncoras ofuscadas

Pela refracção dos prismas

Que à toa fendemos

Ao rasgar páginas pela fenda

Da leitura da escrita

Espigas do mundo

Seios dourados

Às transparentes mãos

Porém imperfeitas

Do dia que se faz

Adivinhar pelas fendas

Dos abismos

Que tem o luar.

sábado, 18 de junho de 2022

Poesia dos aranhões

Às vezes o tempo mal dá
Para perceberes que andas à procura
Empenhado em desbravar enigmas simples
E em deixar os mais complexos
Para quem os achar
Não por tua vontade
Mas por ser assim
Que Deus vence e vencerá
Pois foi inventado para isso
E continua a ser remodelado
Como todos os modelos
Que são inimigos
Da diferença
E da autenticidade
E talvez existam
Para exasperar a diferença
Não precisas de entrar numa catedral
Para perceberes
Na vida tudo é feito à semelhança
Da diferença
Mas é bom que entendas
Até que ponto estás impedido
De rejeitar essa poesia dos aranhões
E de sobreviver
A toda ela.


segunda-feira, 13 de junho de 2022

A felicidade

A felicidade. O que se entende por felicidade? Bem-estar, satisfação?
O conceito de felicidade tende a ser referido a situações objectivas que, raramente, ou nunca, serão atingidas e, se o forem logo confirmam que a felicidade não é intrínseca a situações particulares da fortuna e do mundo, como se não houvesse situações susceptíveis de dar felicidade, porque esta não existe fora do indivíduo. O que me torna feliz, provavelmente, não tornaria felizes os outros e, hipoteticamente, até poderia torná-los infelizes. Por outro lado, a minha felicidade não está livre de, mais tarde, ser fonte de infelicidade. 

O conceito de felicidade, todavia, e por ser assim tão subjectivamente condicionado e determinado, é de inestimável utilidade para tentarmos compreender a natureza humana e encontrar em tudo o que é acto humano esse sentido da felicidade. 

A tese que defendo é que tudo o que é acto humano é racional e implica uma escolha que é a melhor (todo o acto é individual). Do que sei sobre o ser biológico do homem, nomeadamente dos processos homeostáticos, não só a racionalidade é um determinismo, como a escolha é inelutável, um imperativo, diria, natural. A felicidade é o critério. Não há outro. É um fim em si mesma. Não é instrumental. Instrumental é tudo o que for susceptível de realizar a melhor escolha. 

A cultura humana é determinada, em todos os seus aspectos, por um princípio que eu designo, num trabalho que tenho elaborado sobre Ser Humano, por princípio da felicidade, como princípio normativo de todos os outros princípios.
A minha argumentação vai no sentido de que a cultura é a manifestação de um dever-ser que é um ter-de-ser (da natureza). A inversa não é verdadeira, quero dizer, o ter-de-ser da natureza não é manifestação de um dever-ser, excepto no caso da cultura.
Qualquer texto serve para tentarmos sustentar a tese que defendo. Qualquer situação humana também. 

A esperança está no reconhecimento social e institucional dos mecanismos biológicos egoísticos (da felicidade) e na gestão e disponibilização de quadros de possibilidades de escolha que não impliquem que a melhor escolha não seja boa.


domingo, 5 de junho de 2022

Liberalismo utópico

As ideias de democratizar a sociedade, democratizar a escola, democratizar a cultura, democratizar a boa vida, democratizar a felicidade, aparecem frequentemente associadas, e não da forma mais correta, à ideia de que a sociedade, a escola, enfim, tudo, deve seguir um modelo liberal, muito liberal, muito individualista e funcionar sem paternalismos, baseado na autonomia do indivíduo e na utopia da liberdade total.
Associar a ideia de democracia a esta utopia de liberdade é um grande passo para ignorar o sentido e confundir ambas. Democratizar só faz sentido se significar tornar democrático, e tornar ou ser democrático está muito longe daquela utopia liberal.
Aliás, aquela utopia liberal choca de modo irreconciliável com a democracia e os modos democráticos de gestão e resolução de conflitos e de problemas sociopolíticos e institucionais.
Se quiséssemos ser antipáticos, sem deixarmos de ser democráticos, diríamos que, mais frequentemente do que gostaríamos, constatamos a total incapacidade das escolas para promover aprendizagens que despertem e fomentem o espírito crítico e a hermenêutica. Isto é visto como algo estratosférico, para não dizer exosférico.
Os elevados níveis de especialização requeridos por cada área de análise crítica e fundamentada vão sendo atingidos por um reduzido número de especialistas que só se entendem uns aos outros e, às vezes, só a si mesmos.
Ora, a maioria das pessoas não aspira a uma vida de solilóquios ou de intermináveis discussões consigo mesmo embora possa estar a falar para as paredes, que até têm ouvidos.

 Carlos Ricardo Soares

quinta-feira, 2 de junho de 2022

Prisioneiros

Pedaços bocados

Fragmentos despojados

Retiros passados

Passos trocados

Regressos impossíveis

Veredas desconhecidas

Sendas armadilhadas

Traçados dos diabos

Remotos

Nomes de descobertas

Induzidas por pioneiros mágicos

Alucinados pela esperança

Dissoluta

Mais do que pela jazida sabedoria

Nómadas destroçados

Sem quartel

Prisioneiros

De alegrias poucas

E das loucas

Degradações

Sementes de violência

Desfazem-se

Desfazem-nos

Desfazem-te

Desfazem.

sábado, 21 de maio de 2022

Estradas de metafísica

Ao fim de umas horas a pedalar

Por estradas de metafísica

Com matilhas de cães às costas

Olhei para trás e já não conseguia lembrar

Nenhum dos problemas de dogmática ético-jurídica

Com que muitos reis não se depararam

Por possuírem grandes castelos

 

Como se acabasse de me reencontrar

A caminho do sol e da liberdade

E em vez de pensar no xadrez dos anjos

Que me não dava fome

Nem de comer

Nem sombra

Onde viver liricamente

Como sempre sonhei

Uma primitiva sensação

De estomacal entendimento do mundo

De todos os pensamentos confluírem

Numa harmonia marítima libidinosa

Abocanhando pedaços de lagosta frita

Adornados de algas profanas

À vista de especiosos vinhos

Em horizonte de searas saudosas

Açorda alentejana

Fumegando desejos de planície

Inimagináveis

Em alto mar

Como tudo o que o vento levou.