quinta-feira, 25 de março de 2010

Ao amor desconhecido

Se tivesses uma morada ou telefone
Que eu soubesse
Um telemóvel ou e-mail que
Provavelmente tens
É improvável que escrevesse esta carta sem endereço
Nem sequer a escreveria
Faço-o porque não te conheço
E sou fiel
Ao sonho e mais profundo desejo
Sem trair o anjo do meu cortejo
E sem temer
Vir-me a arrepender
Pelo menos enquanto não te encontrar
Se tivesse dúvidas sobre o ridículo das cartas de amor
Elas cessariam com esta
Não por ser simples carta de amor
Mas por ser ao amor desconhecido
Que confiança pode merecer-te alguém que viveu
Oitenta anos sem te ter tido
Ou que o afirma
Mais indigno de ti
Quem diz que amou sem te conhecer
Ou quem não amou à espera que isso acontecesse
Mas tu não vieste?

3 comentários:

luís filipe pereira disse...

Eis uma bela construção textual, evocando em mim As cartas de Amor de Fernando Pessoa, porventura "ridículas", porém mantendo diferida a posse e, por essa via, mantendo o signo vivo do desejo.
grato pela partilha,

luís filipe pereira

Salete Cardozo Cochinsky disse...

Lembrei-me de uma letra musical que diz assim:
Quem duvida da vida tem culpa
Quem evita a dúvida também....
O tema de tua poética não é propriamente relacionado a "dúvida", mas está repleto dela. E isso faz progredir, fazer perguntas, o que é mais interessante para o processo VIVER.
Um abraço
Salete

Djabal disse...

O poeta canta o amor ao ser desconhecido com muito mais naturalidade. Ama a si, ama ao próximo, que é apenas anseio e sugestão.
A alma que canta como a chuva, propicia isso. E dá o som, conforme o talento. Dante é um deles, Abelardo é outro.
Quisera ser poeta para contrapor com rima o seu ritmo. Fico agradecido pela partilha. Grande abraço.