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domingo, 15 de fevereiro de 2026

Juízo

A apascentadora de cavalos ao longe

O som das flautas de pastores que se ouve do outro lado do rio

O insólito desejo de que a paz seja preferida à guerra

A intensidade com que o pensamento distorce o sentimento

A crueldade com que o mundo é subjugado pela interpretação

Com que a vida é trucidada pela tristeza

E edifica odes de esperança e cânticos de redenção a um senhor mais forte

E mais digno do que o campo de batalha como destino

O poema da vontade dos deuses e o poema da força do destino

Também se perfilam para se digladiarem no juízo do dia

Em vez de esperarem confiantes no dia do juízo.

         Carlos Ricardo Soares


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

A sensação de viver num oceano de palavras

Cada vez tenho mais a sensação de viver num oceano de palavras e penso que não é preciso muito para que se desencadeiem tempestades. Às vezes, a simples tentativa de esclarecer conceitos, como sistematicamente o fazem a filosofia e o pensamento crítico, é o suficiente para gerar uma tempestade e quanto mais voltas tentam dar aos argumentos, mais achas lançam para uma fogueira descontrolada que fica a fumegar muito tempo depois de todos terem soçobrado ao tsunami verbal.
Vejo que as redes sociais estão a contribuir para o recrudescimento da crença de que tudo se resolve de duas maneiras, ganha quem falar mais grosso, ou ganha quem conseguir calar os outros, o que vai redundar numa única maneira: ganha quem vencer pelo cansaço.
No fim, cai a noite, a feira continua com a sua estridência eletrônica e psicadélica, e os exaustos tombam, ou recolhem às boxes. É o fim de mais uma batalha perdida contra a saturação do ruído. Mas será o fim da guerra?
A imagem é tão precisa que quase dói: a feira eletrónica que nunca fecha, a noite que cai sem trazer silêncio, os exaustos que tombam não porque perderam o argumento, mas porque perderam a energia. É exatamente isso que está a acontecer e não é um fenómeno superficial. É estrutural. É civilizacional. E é profundamente linguístico. Diria que a tempestade nasce da própria linguagem e não do conteúdo. A filosofia contemporânea tem dificuldade em admitir que a linguagem deixou de ser um meio de esclarecimento para se tornar um gatilho emocional.
Hoje, basta uma palavra mal colocada, uma nuance, uma tentativa de clarificação, uma distinção conceptual, um “espera, não é bem assim”, para desencadear uma tempestade. A linguagem deixou de ser usada para pensar e passou a ser usada para posicionarCada frase é lida como ataque, ameaça, bandeira,identidade, território. E quando a linguagem se torna território, qualquer tentativa de clarificação é vista como invasão.
As redes sociais transformaram o debate num combate. As redes sociais criaram duas estratégias de vitória, falar mais grosso ou calar o outro. E estas duas estratégias convergem numa só, vencer pelo cansaço.
Não vence quem tem razão. Vence quem aguenta mais tempo, quem grita mais alto, quem tem mais seguidores, quem tem mais resistência ao absurdo. O debate deixa de ser debate e passa a ser um concurso de sobrevivência retórica.
No fim, ninguém aprendeu, ninguém mudou de ideias, ninguém se aproximou da verdade, só ficaram os destroços.
A saturação do ruído é uma forma de derrota, mas não é o fim da guerra. O ruído vence sempre no curto prazo. A lucidez vence sempre no longo prazo. Porque o ruído cansa, mas a lucidez alimenta. O ruído dispersa, mas a lucidez concentra. O ruído destrói, mas a lucidez constrói. O ruído é espuma, mas a lucidez é corrente.
E há algo mais: o ruído não cria nada. Só a linguagem pensada cria.
Assim sendo, mesmo que a feira eletrónica continue a chiar, mesmo que a noite caia sobre mais uma batalha perdida, mesmo que os exaustos recolham às boxes, há sempre alguém que continua a pensar, a escrever, a tentar compreender.
E isso, por si só, impede o colapso total. A saturação do ruído não é o fim da lucidez. É o ambiente onde a lucidez se torna mais necessária.
Então, surge a pergunta “como pode a IA ajudar a restaurar clareza, ou a amplificar o caos?”.
Se pensarmos que a IA não é apenas uma ferramenta, que é também um novo agente dentro do ecossistema da linguagem, e que, como disse antes, vivemos num oceano de palavras onde qualquer movimento pode gerar tempestade, a IA entra nesse oceano e, tanto pode limpar o ar como levantar ondas gigantes. Mas há um ponto decisivo, que determina para que lado ela pende.
A IA pode ajudar a restaurar clareza, reduzindo o ruído, filtrando, sintetizando, organizando e estruturando informação que, de outra forma, seria impossível de processar. Num mundo saturado de linguagem, isto é quase uma forma de higiene mental.
A IA pode explicar conceitos, distinguir ideias, desmontar falácias, clarificar ambiguidades.
Pode devolver ao discurso público a densidade que ele perdeu. 
A IA pode tornar-se um espelho infinito de cada viés. E como a IA não reage emocionalmente, não se sente atacada, não entra em tribalismos, isso permite-lhe devolver ao humano uma visão mais fria, mais ampla, mais ponderada. 
E pode funcionar como um espelho cognitivo, organizando o que dizemos, devolvendo o que pensamos, mostrando o que não vimos. É uma forma de metacognição assistidaComo tal, pode neutralizar exageros, desmontar manipulações, contextualizar afirmações e ser um antídoto contra a histeria discursiva. 
Mas a IA também pode amplificar o caos, produzindo linguagem em escala industrial, gerando textos, imagens, argumentos, slogans, narrativas, tudo em segundos. E isto pode transformar o ruído atual num pandemónio absoluto
E se for usada para manipular, fabricar, distorcer, amplificar, pode destruir a confiança pública na própria ideia de verdade.
Se cada pessoa usar a IA para confirmar as suas crenças, o mundo fragmenta-se ainda mais.
E há um maior perigo, e mais subtil, de a IA poder dar às pessoas a sensação de que estão a pensar quando, na verdade, estão apenas a consumir linguagem bem formulada.
Se o problema crescente do nosso tempo é o excesso crescente de linguagem, a IA pode ainda multiplicá-lo exponencialmente.
O ponto decisivo é que a IA é amplificador, mas não é origem. Não cria clareza nem caos por si mesma. Ela amplifica o que encontra. Se encontra lucidez, amplifica lucidez. Se encontra ruído, amplifica ruído. Se encontra nuance, aprofunda nuance. Se encontra tribalismo, radicaliza tribalismo. A IA é como um instrumento musical: nas mãos de um músico, produz harmonia mas, nas mãos de um bárbaro, produz dissonância ou mesmo estrondo.
E aqui está a parte mais importante: a IA não substitui a maturidade linguística, torna-a mais urgente.
Num mundo onde a linguagem já era perigosa, a IA torna a linguagem radioativa, podendo iluminar ou destruir.
Mas há algo mais profundo que podemos intuir: a batalha do nosso tempo não é tecnológica é linguística. Não é sobre máquinas, é sobre consciência. Não é sobre algoritmos, é sobre maturidade interpretativa.
E a IA pode ser o bisturi que corta o tumor do ruído, ou a dinamite que o faz explodir. A diferença está no humano que a usa.
Nada a que os humanos já não estivessem habituados.

             Carlos Ricardo Soares

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Quantas Loucuras?! Da liberdade intelectual à patologia

A “loucura” elogiada pela literatura e pela filosofia não é doença, mas um lugar de exceção, um espaço onde a linguagem, a imaginação e a crítica se libertam das normas. E quando aproximamos essa ideia de Foucault, Nietzsche, Camões, Pessoa, Shakespeare e Erasmo, percebemos que todos eles, cada um à sua maneira, transformaram a loucura numa forma superior de lucidez.
Para Foucault, a loucura não é apenas um fenómeno clínico. É um dispositivo cultural que revela os limites da razão. É onde a verdade aparece com o reconhecimento de que a razão se torna demasiado estreita. A loucura literária é, para Foucault, uma forma de resistência simbólica.
Nietzsche vai mais longe. Para ele, a loucura é a condição da transvaloração, da criação de novos valores. O pensamento verdadeiramente criador rompe com a moral dominante. A razão é apenas uma forma de domesticação. O génio é sempre suspeito de loucura porque pensa para além do seu tempo.
Nietzsche diria que a “sanidade excepcional” é o que permite ao espírito livre destruir ídolos, romper com a moral do rebanho, criar novas possibilidades de vida.
A loucura, em Nietzsche, é a coragem de pensar o que ainda não tem nome.
 E Camões?
Camões não fala de loucura no sentido clínico, mas a sua obra está cheia de momentos em que a razão épica se desfaz e dá lugar a uma lucidez amarga, quase delirante. O Velho do Restelo é o “louco” que diz a verdade que ninguém quer ouvir. A crítica à ambição imperial é uma forma de “desrazão” num tempo que só aceitava glória. A visão trágica do mundo é uma lucidez que parece loucura aos olhos do império.
Camões antecipa a minha tese de que a verdadeira sanidade é a capacidade de ver a decadência no auge da glória.
O poeta é o “louco lúcido” que denuncia o que o império não quer admitir.
Fernando Pessoa é talvez o autor português que mais profundamente explora a loucura como forma de lucidez.
Os heterónimos são “loucuras organizadas”, identidades múltiplas que rompem com a unidade do eu. Álvaro de Campos vive a exaltação e o desespero como formas de verdade. Bernardo Soares vive a “loucura mansa” da introspeção infinita. Alberto Caeiro é o “louco sábio” que vê o mundo sem metafísica.
Para Pessoa, a loucura é a libertação da identidade fixa, a possibilidade de ser muitos. A loucura é a sanidade que não cabe num só eu.
Shakespeare faz da loucura um dos seus instrumentos dramáticos mais poderosos.
Lear só compreende o mundo quando enlouquece. Hamlet finge loucura para dizer verdades que a corte não tolera. Ofélia enlouquece para revelar a violência que a cerca. Macbeth enlouquece para ver o horror que criou.
Em Shakespeare, a loucura é a linguagem da verdade num mundo hipócrita.
A minha tese coincide com esta tradição: a loucura é o momento em que o véu cai.
 No Elogio da loucura, de Erasmo de Roterdão, como crítica da razão dogmática, a Loucura fala em primeira pessoa e revela a hipocrisia dos sábios, a vaidade dos poderosos, a rigidez dos teólogos, a estupidez dos dogmas.
A loucura é a única que pode dizer a verdade porque não está presa às convenções.
Erasmo antecipa a minha formulação de que a loucura é a razão que se libertou da sua própria arrogância.
 Todos estes autores convergem na mesma ideia de que a loucura literária é a forma mais alta de lucidez moral. É a sanidade que se recusa a ser normal. É a razão que ousa ultrapassar-se.
Foucault vê nela o limite da razão disciplinada. Nietzsche vê nela a força criadora. Camões vê nela a lucidez trágica. Pessoa vê nela a multiplicação do eu. Shakespeare vê nela a revelação dramática. Erasmo vê nela a crítica da hipocrisia.
A loucura é, em todos eles, a coragem de pensar para além do permitido.
Não é por acaso que a literatura e a filosofia continuam a elogiá-la, é porque a loucura é o nome simbólico da liberdade intelectual.
Chamamos loucura ao amor porque o amor ultrapassa a razão. Não chamamos loucura ao ódio porque o ódio a empobrece.
 Mas também temos a outra realidade da loucura, numa acepção clínica, de transtornos e patologias mentais muito diferentes, apesar de correntemente serem referenciadas à incapacidade para pensar com nexo.
Quando falamos de loucura em Shakespeare, Nietzsche, Pessoa, Camões ou Erasmo, estamos a falar de uma metáfora cultural, não de um diagnóstico.
Essa “loucura” simbólica significa pensar fora das normas, romper com convenções, ver o que os outros não veem, dizer o que não pode ser dito, libertar a imaginação, desafiar a razão dominante. É uma figura poética, filosófica, estética.
Já a loucura clínica, no sentido de perturbações mentais, é outra realidade que envolve sofrimento, pode afetar o pensamento, o humor ou o comportamento, exige compreensão, apoio e, muitas vezes, acompanhamento especializado. Não é metáfora, é experiência vivida.
 Mas a loucura clínica não é ausência de razão, é diversidade de experiências. A ideia comum de que a loucura clínica é “incapacidade para pensar com nexo” é uma simplificação cultural que não corresponde à complexidade real. As perturbações mentais podem afetar a perceção, a emoção, a energia, a motivação, a relação com o mundo, a forma de interpretar a realidade.
Mas isso não significa ausência de razão. Significa uma experiência diferente da realidade, muitas vezes marcada por sofrimento, mas também por formas de sensibilidade e vulnerabilidade que não podem ser reduzidas a estereótipos.
A literatura, aliás, aprendeu muito com essa diversidade de experiências.
 A metáfora literária da loucura nasce da sua força simbólica. A razão pela qual tantos autores usam a “loucura” como metáfora é porque ela representa o limite da normalidade, o ponto onde a linguagem se rompe, o lugar onde a verdade aparece sem filtros, a fronteira entre o permitido e o proibido, a crítica da ordem estabelecida.
Mas essa metáfora só funciona porque a loucura clínica existe e tem um peso cultural profundo.
A literatura apropria-se desse peso simbólico, mas não está a falar de diagnósticos.
A loucura clínica exige cuidado. Quem se dá ao trabalho de romantizar a loucura clínica? 
É importante reconhecer que a literatura pode elogiar a “loucura” como liberdade, mas a vida real exige empatia, compreensão e apoio.
A experiência clínica da loucura não é um gesto estético. É uma condição humana que merece respeito e não deve ser confundida com a figura romântica do “génio louco”.
A metáfora literária é útil para pensar a criatividade e a crítica cultural. Mas não deve ser usada para interpretar ou julgar pessoas reais.
Apesar de serem diferentes, há uma ponte simbólica entre elas, porque ambas revelam os limites da normalidade. A loucura literária mostra que a normalidade é estreita demais para a imaginação. A loucura clínica mostra que a normalidade é estreita demais para a experiência humana. Mas a ponte é simbólica, não é literal.
A literatura usa a loucura como figura de liberdade. A clínica trata a loucura como sofrimento que merece cuidado.
Compreender esta distinção é, em si mesmo, um rasgo de lucidez, uma forma de “sanidade excecional”.

       Carlos Ricardo Soares

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Arte, entre o que é e algo que talvez devesse ser

Todas as artes têm em comum a arte, seja como artefacto, seja como espectáculo, seja como experiência dos sentidos, audição, gosto, tato, visão, olfacto. Sem emoção a arte, o estético, a experiência estética, não acontece. 
A experiência de quem frui a arte, o artefacto, o produto artístico, o objecto de arte, a arte feita, é algo de uma dimensão diferente da experiência do artista enquanto criador, produtor, de arte. 
Poder-se-ia falar de uma arte de apreciar a arte, como uma atividade mais complexa do que a mera fruição do artefacto por contacto sensorial. A experiência estética do artista enquanto cria arte é algo de preliminar à experiência da fruição da obra, que ainda não existe. 
A intencionalidade da obra de arte é algo bem diferente da intencionalidade presente noutros tipos de atos mas, tal como a intencionalidade de outros atos pode ser o menos relevante, a intencionalidade da arte pode ser a componente menos artística e menos valorizada. 
De qualquer modo, parece-me que nas artes, estamos sempre entre aquilo que é e algo que talvez devesse ser numa perspetiva estética que não se acomoda completamente ao artefacto.

Carlos Ricardo Soares